CAPÍTULO 1
James estava no meio de um relatório financeiro quando ouviu a batida. O barulho adentrou os corre dores vazios com uma intensidade de doer o ouvido. Qualquer um teria reagido com choque, talvez medo. Afinal, estava tarde e, apesar dos seguranças, não havia nenhum prédio cem por cento seguro em Londres. Mas James Potter não era de sentir medo. Sem se dar ao trabalho de pegar sua arma, ele saiu de seu escritório com as sobrancelhas negras franzidas e acendeu a luz do corredor, que foi iluminado por uma claridade fluorescente.
James Potter não era homem de correr de nada, menos ainda de um intruso desajeitado a ponto de fa zer aquele barulho todo.
Não custou muito para que ele descobrisse a origem do estrondo, pois havia um carrinho de mão caído, com vários produtos espalhados no chão de mármore. De tergentes, vassoura, esfregão — e um balde de água que estava lentamente se espalhando em direção aos escritórios acarpetados de ambos os lados.
Ele ouviu passos de alguém subindo as escadas. Era o segurança, esbaforido e já se desculpando. Eles chegaram à cena do crime quase ao mesmo tempo, mas foi James quem viu primeiro o corpo da moça desmaiada no chão.
— Desculpe, senhor — Sid gaguejou, observando enquanto James tomava o pulso da moça. — Vim o mais rápido que pude, assim que ouvi o barulho. Pos so resolver tudo.
— Arrume essa bagunça.
— Claro, senhor. Peço mil desculpas... Ela estava meio pálida quando chegou para trabalhar esta noite, mas eu não fazia idéia...
— Pare de falar e arrume esta bagunça — James ordenou incisivamente.
Ele mal percebeu o aturdido segurança limpar o chão para conter a água antes que ela chegasse aos caríssimos escritórios, piorando a situação.
Ao menos a menina não cometeu a indelicadeza de morrer em suas dependências. O pulso estava nor mal, e ela podia estar pálida como a neve, mas estava respirando. Havia desmaiado — devia estar grávida. Sinal dos tempos. Controlando sua irritação, ele a le vantou, sem olhar para o rosto preocupado do segu rança. Ele tinha uma vaga noção da subserviência que lhe dedicavam os empregados, a despeito da hie rarquia. Não sabia que esta subserviência estava pró xima do medo puro, de modo que ficou muito irritado quando viu que Sid estava quase arrancando a moça de seus braços.
— Eu posso cuidar dela, senhor... Não precisa se incomodar... Não tem problema...
— Só quero que você limpe isto tudo e volte ao trabalho. Se eu precisar, lhe chamo.
Ele realmente não estava precisando de uma inter rupção daquelas. Era sexta-feira. Passava das nove da noite e ainda faltava ler metade do relatório para poder mandar uma cópia por e-mail para o outro lado do mundo antes da reunião decisiva que teria na se gunda-feira.
Abriu a porta do escritório com o pé e pôs a moça que agora começava a recobrar a consciência no sofá vinho que ocupava uma parede inteira do am plo recinto. James não tinha nada a ver com a decora ção do escritório. Se tivesse, teria escolhido tudo o mais neutro possível — afinal, escritório é lugar de trabalho, aquilo não era para ser nenhuma sala de es tar aconchegante. Mas com o passar dos anos ele veio a descobrir, para sua grande surpresa, que a pesada grandiosidade da sala acabava ajudando na concen tração. As paredes revestidas de madeira de carvalho ficariam mais apropriadas em um clube masculino, mas, mesmo assim, havia algo de caloroso nelas, re pletas de livros de economia e documentos de conta bilidade do vasto império naval que era a base da enorme fortuna herdada do pai. Sua escrivaninha, projetada na era pré-computador, não tinha lugares próprios para impressora e fax como as atuais, mas era boa de olhar e cumpria sua função. As janelas iam do chão ao teto e os vidros não eram fume, ao contrá rio dos edifícios mais altos e mais modernos. Em meio à loucura da cidade, seus escritórios, situados em uma imponente casa de estilo vitoriano, eram como um toque de sanidade dos velhos tempos.
Olhou para a moça, que começou a revirar os olhos enquanto retomava a consciência.
Seu corpo robusto estava coberto pelo macacão azul e branco de serviço e as roupas próprias que usava por baixo — roupas que ele consideraria ofensivas para qualquer mulher: um casaco de malha marrom comum e calça jeans de bainhas gastas cujo único mérito era esconder parcialmente os sapatos que combinariam mais com um operário.
Ele esperou, de braços cruzados ao lado dela, in formando-a através de uma inequívoca linguagem corporal que, apesar de tê-la acudido, não estava dis posto a prolongar seu ato de caridade.
E enquanto ele esperava, cada vez mais impaciente, seus olhos percorreram o rosto dela, observando o nariz pequeno ereto, a boca ampla e as sobrancelhas surpreendentemente definidas em comparação aos cabelos cacheados que escapavam da touca que ela usava.
Quando ela abriu os olhos ele achou que havia sido pego de surpresa, pois por alguns segundos ficou meio sem graça. Ela tinha olhos impressionantes. Do verde mais puro e mais profundo. Ela então piscou, de sorientada, e o momento de constrangimento se per deu quando a realidade voltou a imperar. A realidade do trabalho que tinha pela frente ao ser interrompido quando estava correndo contra o tempo.
— Parece que você desmaiou — James informou a ela, que tentava se sentar.
Lily levantou os olhos para o homem que a en carava e sentiu um aperto na garganta. Nos últimos seis meses ela vinha trabalhando nos escritórios dele, começando o expediente às seis e meia, quando a maioria dos empregados já tinha ido embora e ela po dia começar a limpar. Já o vira do canto do olho, a distância, enquanto ele trabalhava em sua escrivani nha com a porta da sala aberta — apesar de saber, a partir de trechos de conversas que ouvia aqui e ali, que poucos se arriscariam a puxar assunto com ele. Ela ficava arrepiada ao ouvir sua voz profunda e gra ve quando ele falava com algum funcionário. Ele in timidava todos, mas para ela se tratava do homem mais bonito que já vira em toda a vida.
As linhas de seu rosto eram fortes —ásperas, até —, mas ele possuía uma beleza clássica que ainda era agressiva e vigorosamente masculina. Cabelos ne gros como o céu da meia-noite emolduravam seu ros to, e apesar de nunca ter tido coragem de encará-lo, já vira o suficiente para saber que ele tinha olhos escu ros e insondáveis, ornados com cílios que muitas mu lheres dariam tudo para ter. Ela achava que, tendo trabalhado para ele, devia considerá-lo tão fora de al cance quanto tudo mais, mas ele não tinha nenhuma influência sobre o curso de sua vida, de modo que ela podia apreciá-lo sem medo.
Não que ela fosse do tipo que mulher que se aco vardava na presença de alguém. Sua natureza era ale gre e bem disposta, e ela se considerava igual a todos, independentemente de posição social e do fato de não ter dinheiro. O que importava era o que havia por dentro, e não a embalagem do produto.
Enquanto ela divagava sobre o fato de ter ido parar no sofá do escritório do chefe, James foi até o bar do escritório e voltou com um copo cheio de um líquido marrom.
— Beba um pouco disto.
Lily piscou e tentou não encará-lo demais.
— O que é isso?
— Conhaque.
— Não posso.
— Como?
— Não posso. É contra as regras da empresa beber em serviço. Posso acabar demitida, e preciso do em prego.
Para James aquilo já era informação demais. Ele só queria que ela desse um gole no conhaque para se le vantar e ir embora logo e ele pudesse enfim terminar seu trabalho. Isso se ele estivesse disposto a evitar uma discussão com a mulher com quem andava sain do, a qual já tivera sua paciência testada ao limite por seus freqüentes cancelamentos.
— Beba — ele ordenou, segurando o copo perto de seus lábios, e Lily obedeceu nervosamente, dan do um golinho mínimo e corando de culpa.
— Ah, pelo amor de Deus! Você acabou de des maiar. Um gole de conhaque não significa vender a alma ao diabo.
— Jamais desmaiei antes. Minha mãe dizia que eu não era do tipo que desmaiava. Desmaiar é para garo tas magras, não gorduchas como eu. Petúnia desmaia va à beca quando estávamos em fase de crescimento. Bem, não à beca, mas algumas vezes. O que já é bas tante para a maioria das pessoas...
James se sentiu bombardeado de todos os lados. Por alguns segundos ele literalmente perdeu o dom da fala.
— Talvez eu esteja ficando doente — Lily dis se, franzindo a testa. Esperava realmente que não fosse o caso. Não podia ficar sem trabalhar por causa de doença. Seu trabalho naquela companhia era tempo rário. Ela não tinha direito a licença por doença. E de dia trabalhava como assistente em uma escola perto de casa, tudo para conseguir pagar as contas no final do mês. Ela sentiu a cor desaparecendo do rosto.
James observou, fascinado por esta mostra transpa rente de emoção, e levou novamente o copo aos lá bios dela. A última coisa que ele precisava era de um novo ataque de depressão.
— Você precisa tomar mais do que um gole disso aqui. Vai lhe ajudar a recobrar as energias.
Lily deu um gole mais generoso e sentiu o ál cool lhe queimar prazerosamente o estômago.
— Você não me reconhece, não é?
— Reconhecer você? Por que diabos eu a reconhe ceria? Escute — James disse, com um tom decidido —, eu tenho muito trabalho para fazer antes de você en cerrar o expediente por hoje. Pode ficar aqui no sofá descansando até se sentir melhor para ir embora. Mas me dê licença, pois preciso voltar ao trabalho. — Ele teve então uma idéia brilhante. — Se quiser, posso pedir para aquele segurança levar você lá para baixo.
— Sid.
— Desculpe?
— O nome dele é Sid. O segurança. Você não de via saber seu nome? Ele trabalha para você há mais de três anos! — Mas, como no caso dela, ele prova velmente o via sem registrar seu nome. Para um ho mem como James Potter, Sid era literalmente invi sível.
James não gostou nada do tom acusatório e chegou a esquecer momentaneamente o relatório financeiro que lhe aguardava em sua escrivaninha.
— Não sei por que eu teria de saber o nome de um segurança.
— Você o empregou!
— Eu dou emprego a um monte de gente. Além do mais, esta conversa é ridícula. Tenho que trabalhar e...
— Estou atrapalhando. Desculpe. — Lily sus pirou e sentiu as lágrimas brotarem ao contemplar a perda do emprego se estivesse doente. Estavam no meio de janeiro. Havia milhares de vírus no ar, a maioria deles vindo do Extremo Oriente, loucos para fazer novas vítimas.
— Você não vai chorar, não é? — James perguntou, pegando um lenço no bolso da calça e já arrependido de sua boa vontade em trazer a moça para dentro do escritório. Uma estranha que agora parecia disposta a conversar com ele como se ele não fosse um homem muito importante — um homem cujo valioso tempo representava dinheiro!
— Desculpe. — Lily pegou o lenço e assoou com vontade, sentindo-se enfim um pouco melhor. — Quem sabe eu esteja apenas com fome.
James, já olhando com desespero para o relatório na escrivaninha, passou a mão nos cabelos. — Fome?
— Fome às vezes não causa desmaios?
— Ainda não cheguei nesta parte do meu curso de nutrição — James disse com sarcasmo, e ela sorriu. Foi um sorriso que lhe iluminou a face. Poderia ter iluminado uma sala inteira. Ele ficou muito contente por ter-lhe causado esta reação. Resignado, resolveu deixar o trabalho de lado por alguns minutos.
— Tenho de fazer uma ligação — ele disse, afas tando-se enquanto pegava o celular no bolso. — Vou lhe dar o telefone fixo para que você peça comida.
— Ah, não! Não posso simplesmente mandar tra zer comida. — Ela tremeu de pensar na conta.
— Pode e vai. — Passou a ela o telefone. — Se está com fome precisa comer algo, e não tem comida na geladeira do escritório. Portanto, peça o que qui ser. Ligue para o Savoy. Diga a eles quem eu sou. Eles vão mandar entregar o que você quiser.
— O Savoy! — Lily ficou consternada.
— Pode pôr na minha conta, senhorita... senhorita... Não sei seu nome.
— Lily. Lily Evans. — Ela sorriu timida mente, maravilhada com sua paciência e considera ção, principalmente considerando que a maioria das pessoas morria de medo dele.
Ela percebeu que James não se deu ao trabalho de dizer seu nome a ela, mas talvez imaginasse que ela já sabia — e sabia mesmo. Ela via o nome dele todos os dia na placa dourada em sua porta. Mais animada depois do gole de conhaque e percebendo que estava fraca de fome, Lily ligou para o Savoy, apesar de seu lado prático saber que aquilo era besteira, pois precisava mesmo era de um sanduíche de queijo e uma garrafa de água. Percebeu vagamente a conversa ao fundo, e estava claro que James não queria que ela ouvisse. Assim que ele desligou, ela se virou para ele com olhos abatidos.
— Eu estraguei seus planos para esta noite, não é?
Ela imaginava que este tipo de conversa não ren deria muito, mas sua tendência a dizer o que lhe vi nha à cabeça ia de encontro ao silêncio que ele espe rava. Ele podia deixar que ela pedisse comida, mas não queria muito papo.
— Não tem problema. — Ele deu de ombros. — Eu não ia conseguir mesmo. — Não que Narcissa achasse que estava tudo bem. Na verdade, os ouvidos dele ainda estavam doendo do som do telefone baten do do outro lado da linha. E ele nem podia culpá-la. Ele teve como consolo o fato absoluto de que, quan do uma mulher começava a fazer exigências, estava na hora de se livrar dela. Neste caso, a mulher foi quem tomou a iniciativa.
— Era importante? — Lily perguntou, ansiosa.
— O que importa realmente está me esperando em minha escrivaninha, portanto, se me dá licença... — Ele meio que esperou que ela puxasse assunto de novo. Mas, para seu alívio, ela manteve um silêncio obediente, apesar de que seus olhos não conseguirem se desviar dela, distraindo-o das tarefas.
Quando a comida chegou James já tinha perdido as esperanças de terminar o trabalho, ao menos até con seguir levar aquela moça para fora do edifício.
— Por que você não tem se alimentado? — ele perguntou, enquanto a observava devorar o sanduí che como quem acabou de ser liberada de uma dieta rígida.
— Não precisa conversar por educação — Lily disse, já comendo o segundo sanduíche. — Eu sei que você tem muito trabalho a fazer. Aliás, estes san duíches são fantásticos.
— Vou voltar ao trabalho assim que você for em bora.
— Ah, eu estou ótima agora. Vou terminar o que estava fazendo.
— Para que, para desmaiar de novo? Não é boa idéia.
— Quer dizer que está com medo que eu dê mais trabalho?
James não respondeu de pronto. Estava boquiaber to pela visão daquela mulher comendo tanto. A julgar pelas mulheres que conhecia, comer era uma arte em desuso. Elas beliscavam saladas como se uma única caloria as fosse tornar obesas.
— Estou com fome — Lily disse, na defensi va. — Normalmente como muito pouco, na verdade. Era para eu ser macérrima. Mas tenho um metabo lismo muito teimoso que se recusa a fazer o que deve.
— Qual é o nome da firma para a qual você traba lha? Vou ligar para eles e dizer que você não tem condições de continuar a trabalhar esta noite. — Ele pegou o telefone, mas foi detido pelo súbito ataque de pânico de Lily.
— Você não pode fazer isso!
— Por que não? Presumo que você esteja legal mente registrada na companhia, e que não esteja en volvida em nenhum esquema para não pagar impos tos...
— É claro que não! — ela negou, enfática.
— Então, qual é o problema?
— O problema é que preciso terminar meu expe diente, pois preciso que meu ponto seja assinado lá embaixo. Não posso ir para casa só porque me senti mal. — A consciência de sua situação a tomou por in teiro. De repente, agora que já não estava mais tão constrangida pela presença de James e já se sentia me lhor, ela se apercebeu que certamente sua figura não estava nada bonita. Descabelada e com seu corpo ro busto revestido pela vestimenta menos atraente de to dos os tempos. Não lembrava em nada uma senhorita estressada e frágil. Passou os dedos pelos cabelos e sentiu que o elástico que os prendia estava frouxo, e seus cachos se espalhavam para todo lado.
— Me dê um minuto e já vou embora. — Levan tou-se e sentou-se de novo. — Talvez eu precise de alguns minutos. Não me importo de esperar lá fora, sentada no chão, até me recompor. Sinceramente, não sei o que me deu...
— Está grávida? — James perguntou abruptamen te.
Lily olhou para ele horrorizada.
— Grávida? Claro que não! Por que diabos você pensou nisso? Ah... Eu sei por quê. Sou jovem. Desmaiei e estou fazendo trabalho manual... Portanto devo ser uma desmiolada que caiu na besteira de engravidar.
— Não foi por isso que achei que você estava grá vida — James mentiu, desconcertado com a precisão do julgamento de Lily.
— Bem, então... — Outro pensamento lhe veio à cabeça e ela corou. — É porque sou gorda, não é?
James não queria alongar aquela conversa, e estava seriamente preocupado em se livrar dela antes que as coisas ficassem mais difíceis. Mudou de assunto abruptamente.
— Você não pode ficar desmaiando no meu território. — Ele foi até ela e olhou para o nome na eti queta discretamente bordada em seu uniforme. Pen sou vagamente que ela com certeza era gordinha. Seus seios, pressionados contra o tecido duro do ma cacão, pareciam volumosos. Ela era a antítese das mulheres com quem ele gostava de sair, sempre com pernas longas e esguias, cabelos castanhos, seios pequenos e muito glamourosas. — Serviços de Limpeza Hills — ele murmurou. — Qual é o número do telefone?
Lily deu o número, relutantemente, e ficou aguardando com o coração apertado enquanto ele li gava para o empregador dela.
— Fui demitida, não fui? — ela perguntou, preo cupada, assim que ele desligou o telefone.
— Parece que houve dois incidentes recentemen te...
— Ah, não foram desmaios — ela se apressou a explicar antes que ele pensasse que ela era uma da quelas mulheres patéticas que não sabiam cuidar de si mesmas. — Você não me disse o que eles fala ram...
— Acho que disse, sim, de maneira indireta. — O que não era típico dele, dizer as coisas de maneira indireta. Mas o fato é que estava, relutantemente, com pena da moça. Acima do peso, insegura e evidentemente sem preparo para nenhum outro trabalho. Sen tiu uma culpa que não lhe era típica. — Parece que eles lhe consideram um peso morto...
— Isso é bobagem — Lily disse, muito infeliz. — Não sou um peso morto. Admito que por duas ve zes eu fui para casa depois do meu outro trabalho e caí no sono. Eu só queria pôr os pés para cima por cinco minutos e tomai- uma xícara de chá, mas sabe como é. Eu caí no sono, e quando acordei já era tarde para fazer a faxina.
— Você tem dois empregos? — James perguntou, atônito.
— Desculpe. Sei que você pensou estar fazendo o que era correto, e sei que você não vai querer que eu desmaie de novo aqui. O que, aliás, provavelmente não aconteceria. Eles não devem nem me pagar a hora e meia que trabalhei hoje. — Ela então contem plou o abismo da pobreza iminente. Claro que havia outros trabalhos noturnos. Podia arrumar emprego em algum pub. Tom a aceitaria na hora. Mas traba lhar em bar era exaustivo. Ao menos no trabalho de limpeza ela podia ligar o automático e fazer seu tra balho com a mente fantasiando coisas boas, como o dia em que conseguiria completar seu curso de ilustradora e ficar famosa desenhando capas de livros in fantis.
— Em que você trabalha durante o dia? — James perguntou, curioso. Agora ela já estava recuperada o suficiente para se sentar. Ele não estava realmente in teressado em ficar ouvindo as aventuras e desventu ras da vida dela, mas cinco minutos de papo não importariam ninguém e a ajudariam a se recompor. Lily descansava as mãos sobre o colo enquanto seus olhos miravam algum ponto distante, sem dúvida contem plando o horror de não receber o salário ínfimo pelo trabalho que lhe drenava toda a energia. Até então ele só havia saído com duas mulheres que trabalhavam, e ambas delas encaravam seus empregos como uma in terrupção das horas de lazer — algo como uma dis tração das horas de compras, mimos diversos e almoços com as amigas.
— Ah. O trabalho diurno. — Lily prestou aten ção no homem que estava lá, olhando para ela, e foi golpeada pela consciência de que provavelmente aquela era a última vez que ela o via. Sentiu um oco desconfortável no estômago. — Sou professora as sistente na escola na esquina da minha casa.
— Você é professora assistente!
O choque que ele demonstrou conseguiu fazê-la sor rir. Ela bem que podia ter ficado ofendida com o insul to subjacente, mas sabia que do alto do Olimpo que ele ocupava devia ser difícil imaginar que ela, sendo faxi neira, tivesse capacidade de conseguir algo melhor. Assim como supôs que ela estava grávida ao desmaiar.
— Eu sei. É incrível, não é? — ela respondeu, sor rindo. Agora ela só queria estender a conversa pelo máximo de tempo possível, já que não o veria nova mente.
— Por que faz faxina em escritórios se tem um emprego diurno perfeitamente viável?
— Porque meu "emprego diurno perfeitamente viável" só dá para pagar o aluguel do meu quarto e as contas, e preciso guardar dinheiro para poder pagar meus estudos. — Ele agora pareceu completamente aturdido ao perceber que ela tinha um cérebro. — Sabe — ela continuou, aproveitando enquanto conse guia ter a atenção dele —, saí da escola bem jovem. Aos 16 anos. Não sei por que, mas todos os meus amigos estavam fazendo isso, largar a escola para trabalhar. Não que tivesse muito trabalho à disposi ção de quem abandonava a escola em Yorkshire, o povoado de onde venho. Mas, seja como for, pareceu boa idéia na época, e ganhar dinheiro era muito bom. Assim pude ajudar minha mãe. Petúnia não podia aju dar.
— Petúnia?
— Minha irmã. Ela é linda, magrinha, longos ca belos louros... — Ela falava com orgulho da irmã. — Ela precisava de todo dinheiro que minha mãe pudes se juntar para começar sua carreira...
Aquela mulher era um livro aberto, James pensou. Será que ninguém nunca disse a ela que o encanto do sexo feminino reside na capacidade de criar mistério? Na capacidade de estimular a perseguição soltando pe quenas informações aqui e ali? Sua franqueza era difí cil de acreditar. Agora ela estava lhe contando tudo so bre a irmã e sua carreira fabulosa do outro lado do Atlântico, onde agora era modelo e atriz de novelas.
James levantou a mão para pôr um ponto final na quela conversa.
Ela ficou imediatamente corada.
— Você já parece totalmente recuperada — ele disse. — Lamento que tenha perdido seu emprego na firma de limpeza, mas deve ser melhor assim, já que você não está fisicamente habilitada. — Ele se levan tou na intenção evidente de encerrar a presença dela em seu escritório. Os cabelos dela ainda estavam ba gunçados, e agora que ela estava de pé ele pôde per ceber que era mais baixinha do que ele pensava — no máximo, 1,64m. Ela ajeitou seu nada lisonjeiro ma cacão e ele resistiu ao impulso de lhe dar uns bons conselhos. Como dizer que ela poderia conseguir um emprego melhor se desse um pouquinho mais de atenção à sua aparência. Por mais injusto que fosse, os empregadores sempre levavam em consideração a aparência de seus empregados.
— Você deve ter razão. Acho que devo trabalhar com Tom. Ele não vai se importar se eu cochilar de vez em quando. Ele gosta de mim, e vai me pagar se eu fizer o que ele quer...
James parou, segurando a porta semi-aberta en quanto Lily passou por ele, sem perceber o horror no rosto dele. Sempre otimista, ela já estava pensan do nos prós do trabalho que tinha recusado. Para co meçar, o pub ficava perto de casa, de modo que não teria que pegar condução nenhuma — o que sempre era uma preocupação quando parava para pensar no que se lia nos jornais. Além do que, Tom seria bem mais tolerante do que a companhia de limpeza se ela acidentalmente perdesse uma noite de trabalho. E tal vez, quem sabe, se ela dissesse o nome do pub como quem não quer nada, talvez James um dia resolvesse tomar uma bebida por lá.
Ela abriu a boca para dizer o nome do pub, fazen do-se de casual, e notou que estava caminhando até o elevador sozinha. Ele ainda estava parado à porta, olhando para ela como se ela tivesse se transformado em outro tipo de criatura que não fosse humana.
— Ah! — Lily piscou os olhos, confusa e de cepcionada de ver que ele nem a acompanhou até o elevador, mas depois se censurou por ser tão boba. O homem nem sabia da existência dela até hoje, apesar de que ele deve ter ao menos passado os olhos por ela vez ou outra nos últimos meses! Ele foi bom a ponto de cuidar dela em seu escritório, interrompendo sua enlouquecida agenda de trabalho, e não tinha a menor obrigação de fazer nada disso. Ela estava lou ca de pensar que ele a acompanharia até a saída! Ela acenou de modo contido para ele. — Obrigada por ser tão gentil e por me ajudar — ela disse, aumentan do a voz por causa da distância entre eles. — Eu já vou!
James não fazia idéia de como foi se envolver com os problemas de uma completa estranha, mas por ter tido participação na demissão dela, sentia-se moral mente obrigado a questionar sua decisão de aceitar um trabalho que parecia bastante insalubre. Ficou pensando quem seria este Tom. Devia ser algum ve lho que julgava poder pagar pelos serviços de uma jo vem ingênua precisando desesperadamente de di nheiro. E ela era muito ingênua. James não se lembra va de jamais ter conhecido ninguém tão pueril.
— Espere um minuto. — Ele voltou ao escritório, hesitou por alguns segundos em frente ao computa dor antes de desligá-lo, pegou seu casaco, seu laptop e sua pasta e saiu, apagando a luz atrás de si antes de fechar e trancar a porta.
Lily ainda estava em frente ao elevador, e pa recia completamente pasma. Uma revelação de seus próprios sentimentos, ele pensou ironicamente. Não tinha tempo de cumprir o compromisso com Narcissa, mas agora estava sendo acometido de um ímpeto per verso de acompanhar aquela estranha até em casa, tudo isso porque ela tinha conseguido despertar nele um senso de dever. Para ele era algo parecido com o que se sente ao dar de cara com um animal indefeso e atropelado, precisando de um veterinário.
— Você não vai mais trabalhar? — Lily per guntou, surpresa, e olhou para ele desejando, mais uma vez, não ser tão baixinha. Baixinha, atarracada e estupidamente emocionada só de pegar o elevador com ele. — É que você não costuma sair tão cedo.
James olhou para ela.
— Você sabe a que horas eu saio para trabalhar? — Ele apertou o botão e a porta do elevador se abriu suavemente, como se o elevador estivesse o tempo todo esperando por ele.
Lily corou.
— Não! Quer dizer, eu sei que você costuma sair depois que eu já terminei de limpar quase todo o an dar da diretoria. — Ela riu levemente quando a porta do elevador se fechou, deixando-a com uma sensação de intimidade imposta. — Quando a gente faz coisas monótonas como faxina, começa a prestar atenção nos detalhes mais bobos. Acho que ajuda a passar o tempo mais rápido! Sei que você costuma ser o último a sair, além de Jimmy e uns outros dois que traba lham no andar de baixo. — Melhor mudar de assun to, ela pensou. Estava começando a soar triste. — Sa bia — ela confidenciou — que aquele sanduíche fez eu me sentir muito bem? Estou ótima. Costuma sem pre pedir comida no Savoy? — Ela olhou para ele de relance e percebeu que ele a encarava de maneira muito estranha. — Desculpe. Estou falando como uma tagarela. Tem algum plano para esta noite?
— Apenas deixar você em casa, seja lá onde for... O queixo de Lily caiu.
— O gato comeu sua língua? — James disse, seca mente. — Deve ser a primeira vez que lhe acontece.
— Você vai me deixar em casa? — Lily grunhiu. Agora estava realmente se sentindo culpada. — Por favor, não faça isso. Não precisa. — Ela pôs a mão hesitante no braço dele quando a porta do eleva dor se abriu e eles saíram. O contato com seu braço, mesmo que por sobre o tecido, lhe causou uma quentura tamanha que ela logo tirou a mão. — Não sou tão fraca quanto você parece achar. Não dá para ver pelo meu tamanho que sou dura na queda? — Ela riu de modo autodepreciativo, mas ele não deu risada. Nem mostrou os dentes.
James não era um homem acostumado a mergulhar na psique feminina. Ele sempre se orgulhou de saber como funcionam as mulheres. Elas expressavam seus interesses de determinada maneira — olhares de sos laio, sorrisos sedutores, ligeiras inclinações de cabe ça — e então começava o jogo da sedução; aliás, uma brincadeira que ele adorava. Só depois que as coisas começavam a se deteriorar, ou seja, quando chegava a inevitável hora da mulher questionar o tempo que ele dedicava ao trabalho, insinuando que ele se diver tiria bem mais se lhe desse mais atenção, afinal um relacionamento era para isso, e toda aquela história. Todas elas queriam ter um relacionamento com ele, queriam agarrá-lo. Não se sentiam inseguras. Na ver dade, nenhuma delas teria mesmo razão para insegu rança.
Agora lhe ocorria que aquela moça era insegura por causa do peso e sabe Deus por que mais. Sua insegu rança a tornara o tipo de mulher ingênua que se deixa tentar por um homem pelas razões mais erradas.
— Tome seu casaco — ele disse. — Antes de lhe deixar em casa, vou lhe levar para jantar.
Postei o capítulo I hoje! Mas o cap. II só com reviews, ok? =) E aí, o que será que vai acontecer, hein? Hahaha. Lily insegura e James bonitão, adoro!
Tá, agora vou fazer aquela propaganda básica né... Tô adaptando uma fic pra SB/MM, ela é muito quente também! Não percam!
Ok, valeu... Tchau! Mais capítulos em breve, se houver reviews. Já aviso que sou rápida pra atualizar, hein? E generosa também! Mas só com reviews, hahaha.
-Maria Flor Black.
