Edward sentou ao lado de seu avô, Joseph Cullen, no alpendre dianteiro da cabana em que este vivia. Só tinha dez anos, mas sabia com exatidão por que o ancião não vivia com sua família.

Porque o pai de Edward, Carlisle, se envergonhava dele.

— Não é mais que um fodido irlandês. — Gritava enfurecido Carlisle horas depois de visitar seu pai.

— Presume-se que esse acento irlandês fosse motivo de orgulho.

Deus não permitisse a Edward falar com aquele acento, embora o praticasse cada vez que seu pai não estivesse.

Carlisle não gostava de ser irlandês. Não gostava que as pessoas soubessem quem era.

Se pudesse enviar seu avô para longe, Edward estava seguro de que o faria. Mas, Carlisle Cullen não podia obrigar Joseph Cullen a fazer nada. Aquele ancião era tão sábio como as montanhas e os escarpados, e tão teimoso como eles.

— Edward, rapaz, olhe esse pôr-do-sol. — Joseph lhe indicou as majestosas cores que cobriam as montanhas.

— São quase tão bonitas como as que temos na Irlanda. Quase.

— Por que não volta? — Perguntou-lhe Edward, consciente da nostalgia impressa na voz do ancião.

— Papai diz que tem dinheiro suficiente para viver onde queira.

Observou o rosto sulcado de rugas de seu avô. O brilhante olhar azul era muito parecido com o de seu neto e mais brilhante que o de seu filho, sem as bolinhas verdes que tinha este.

O ancião sorriu. Um estranho, triste e pequeno sorriso.

— Porque minha Lisa está aqui. — Indicou o pequeno cemitério, o lugar onde estava enterrada a avó de Edward, Lisa Cullen, junto aos dois filhos que tinham perdido no Vietname, seus tios, Richard e John e a filha que tinha morrido de febre, Suze, a tia de Edward.

— A vovó não quer que vá? — Edward franziu o cenho. Sua avó estava morta, como poderia se importar?

— Oh, minha Lisa me sorriria igual lá onde fora. — O ancião esboçou de novo aquele pequeno sorriso.

— Mas se me separasse dela, sentiria essa distância em minha alma, entende?

Edward negou com a cabeça.

O avô suspirou.

— Tem olhos irlandeses, rapaz. Um dia destes, esses olhos verão por você, e sentirá como se o coração fosse sair do peito. É o feroz olhar irlandês, Edward. Quando amar, quando amar de verdade, tome cuidado, rapaz, porque esses olhos irlandeses que tem não são só o espelho de sua alma, mas sim da alma da mulher que ame.

O avô olhou a tumba de Lisa.

— E quando se perde o coração dessa maneira, é impossível abandonar os lugares onde estão suas melhores lembranças. Se tivesse que ir, não me poderiam enterrar junto a sua avó.

O ancião dirigiu o olhar a Edward, e este sentiu uma opressão no peito ao pensar que algum dia teria que enterrar seu avô naquela terra dura e desolada.

— O feroz olhar irlandês. — Murmurou o ancião alguns instantes mais tarde.

— Meu pai me advertiu como agora estou advertindo a você, rapaz. Não perca à mulher que ame, pois perderá uma parte de sua alma se o fizer. É o legado desses olhos.

Edward franziu o cenho. O que dizia seu avô não tinha muito sentido e decidiu que perguntaria a seu tio Mitchel sobre isso quando voltasse.

Seu tio ainda recordava a sua avó. Tinha cinco anos quando ela morreu, um pouco antes que nascesse Edward. E nesse momento, estava passando o verão em Houston com o mais velho dos tios de Edward, Dave, e sua família.

— Então, meus olhos são maus? — Perguntou Edward finalmente.

— Não, não são maus. — Suspirou seu avô. — Não são maus absolutamente, rapaz. Dar-te-á conta um dia destes. Um destes dias verá. Esses olhos irlandeses vêem o que ninguém mais viu. — Cravou o olhar em seu neto.

— Quem tem sua alma, terá seu coração. — Deu uma palmada no peito do Edward.

— E poderá, inclusive, ver através de você.

— Então papai não tem olhos irlandeses? — Os olhos de Carlisle estavam matizados com bolinhas verdes. Nunca o tinha visto com emoção e grunhia sem parar.

A preocupação reflectiu-se no rosto de seu avô.

— Seu pai é um bom homem. — Afirmou repetindo o que sempre dizia.

— Realmente, vovô? — Edward pensou no bebé que havia em casa. O diminuto bebé que seu avô dizia que era seu irmão. O recém-nascido que Carlisle Cullen renegava.

— O pequeno Tom deveria também ter um pai.

O avô pôs a mão sobre a cabeça do menino e lhe disse brandamente:

— Nada é como pensamos, rapaz. Nem tudo é branco ou preto, mas sim existem uma infinidade de matizes cinza. Tem que averiguar o porquê das coisas, não só confiar no que vê.

— Porque ele não nos quer. — Sussurrou Edward, aceitando-o como só as crianças podiam aceitar essas coisas.

O avô assentiu com a cabeça.

— Os tons cinza, rapaz. Recorda-o. Sempre há algo que não sabe e que não pode ver. Às vezes o amor não é como pensamos que deveria ser. Só recorda isso e tudo ficará bem.

Edward cresceu procurando as matizes cinza. Logo amadureceu e se transformou em um SEAL, e as matizes cinza se perderam em sua mente, embora soubesse que seguiam estando ali. Sempre em um lugar diferente, sempre se movendo. Até o dia que viu o inferno. E as cinzas do inferno. E aprendeu que havia matiz que jamais teria podido imaginar que existissem.

Dezasseis anos depois

Edward Cullen sentou-se à mesa da oficina mecânica que possuía e contemplou uma jovem que falava com um de seus empregados.

Parecia zangada e exasperada. O cabelo castanho como o chocolate lhe caía sobre os ombros, uma formosa cascata castanha mogno que brilhava sob a luz do sol. Não era muito magra. Tinha curvas estupendas, um traseiro de enfartar debaixo daquela saia negra, e seios erguidos e tentadores cobertos por uma blusa cor chocolate. Saltos altos completavam o traje.

Perguntou-se se usaria ou não meia calça, embora certamente parecesse uma mulher do tipo meia.

Finalmente, a jovem levantou as mãos, elevou a vista e seus olhares se cruzaram. As fossas nasais femininas se alargaram com determinação e se apressou a deixar para trás o mecânico com o quem estava discutindo, marchando para a porta de seu escritório.

Edward observou como aquela assombrosa visão atravessava o lugar e plantava as mãos em sua mesa enquanto o fulminava com o olhar.

— Olhe tudo o que preciso é uma chave inglesa. — Disse energicamente. — Empreste-me uma. Venda-me uma se quiser. Não importa. Se não arrumar esse carro, acabarei tendo que pegar carona. Tenho pinta de querer pegar carona? — Estendeu os braços ao mesmo tempo em que se incorporava, dirigiu-lhe um angustiado olhar com seus formosos olhos castanhos e apertou os lábios rosados ao dar-se conta de que o mecânico se aproximava por suas costas.

— Não, senhora, não a tem. — Edward negou com a cabeça, deslizando o olhar por sua figura antes de voltar sua atenção ao mecânico.

— Há alguma razão pela qual não possamos revisar seu carro? — Perguntou ao outro homem.

Sam entrecerrou os olhos.

— A oficina está cheia, chefe, já disse.

— Só uma chave inglesa. — Grunhiu ela entre dentes. — Só me emprestem uma maldita chave inglesa.

Parecia frustrada. Tinha a frente coberta de suor e o rosto reluzente. Mas a expressão de seu rosto relaxou quando conseguiu controlar suas emoções.

— Escute. — A jovem tinha suavizado a voz, e ele ficou cativado.

Ali, ante a voz daquela doce e formosa sulina, Edward Cullen perdeu o coração.

— Só necessito de um pouco de ajuda. Eu juro. Se me deixar na mão chegarei tarde a um encontro de trabalho. Prometo-lhe que não roubarei muito tempo.

A jovem sorriu, e ele sentiu que o mundo se movia sob seus pés. Aqueles lábios se curvaram docemente, com uma mescla de nervosismo, frustração e preocupação, e se mantiveram assim. Mas lhe tinha sorrido e esse simples gesto tinha conseguido que Edward voltasse a sentir-se como um adolescente.

Levantou-se da mesa e indicou a porta com a mão.

— Me mostre o carro. Ajudaremos você a se por a caminho.

— Mas chefe, estamos até o pescoço de trabalho. — Protestou Sam.

Edward o ignorou e observou como a jovem girava e o precedia até a porta. Seu olhar se atrasou no traseiro feminino enquanto ela caminhava e foi a mais formosa das visões. Formigaram-lhe as mãos pela vontade de tocá-la. Ardia de desejo de embalar aquelas curvas e as sentir sob os dedos.

— Meu nome é Isabella. — A jovem lhe brindou com um sorriso por cima do ombro. — Realmente, não sabe quanto o agradeço pelo que está fazendo.

Esse acento da Geórgia conseguiria que ele gozasse no jeans. Não poderia conter-se se ela lhe seguisse falando dessa maneira.

Tinha que aproveitar a oportunidade.

— Custará alguma coisa. — Disse-lhe arrastando as palavras enquanto abria o capô do pequeno sedan esportivo.

— Sempre é assim. — Suspirou ela. — De quanto estamos falando?

Parecia preocupada. Definitivamente, era uma mulher com uma meta e estava disposta a consegui-la. Tinha as unhas cuidadas, a maquiagem colocada para ressaltar seus traços e os lábios suaves.

— Um jantar. — Edward sorriu amplamente ao perceber a surpresa nos olhos femininos.

— Um jantar? — A cautela reflectiu-se na voz da jovem.

— Só um jantar. — Prometeu-lhe ele.

Por agora.

— Esta noite.

Olhou-o fixamente durante um longo momento; aqueles olhos castanhos pareceram cravar-se nos dele, escrutinando e esquentando zonas em seu interior que Edward não sabia que existissem. E muito menos que estivessem frias.

Ao fim, curvou os lábios, brindando-lhe um encantador e coquete sorriso.

— O menino mau do Alpine me está convidando para jantar? — Mofou-se ela travessamente. — Acredito que vou desmaiar.

— Está-me confundindo com o Sam. — Indicou o mecânico.

— Eu sou um simples mecânico e um SEAL. — As mulheres morriam pelos SEAL'S. E ele faria tudo para impressioná-la.

— Edward Cullen, o SEAL de feroz olhar verde e sorriso cativante. — Replicou a jovem.

— Sei quem é.

— Mas eu não sei quem é você. — Lembrou ele sombriamente. — E eu adoraria conhecer.

Aquele olhar de novo. Intenso, penetrante.

— No jantar. — Concordou ela ao fim. — Até lá.

Bom!

— Reservarei uma mesa no Piedmont'S. — Nomeou o restaurante mais caro da cidade, o que tampouco dizia alguma coisa.

— Às sete.

— De acordo, estarei lá às sete. Mas não poderei fazê-lo se não me arrumar o carro.

Isabella sorriu com ironia em seus pensamentos. Tinha o pressentimento de que se lhe contasse que sabia o que exactamente ocorrera a seu carro, jamais acreditaria. Deixou-lhe perder tempo, encontrar a mangueirinha solta e apertá-la. Não tinha mentido quando havia dito que a única coisa que precisava era uma chave inglesa. Seu pai a tinha ensinado como arrumar qualquer veículo fazia muito tempo. Por desgraça, naquele momento não tinha uma chave inglesa à mão.

Assim deixou que ele arrumasse o carro, fingindo que era uma pobre mulher indefesa, porque adorava a maneira como a olhava, como se obscureciam aqueles ferozes olhos verdes que brilhavam intensamente em seu rosto bronzeado.

— Às sete. — Recordou-lhe ele enquanto fechava o capô e a olhava com intensidade.

— Estarei esperando você.

— Lá estarei. — Prometeu.

Não havia maneira de que ela não fosse ao encontro. Tinha-o visto com frequência na cidade, inclusive tinha tido fantasias com ele algumas vezes.

O ardente SEAL. O menino mau do Alpine. Todas as garotas da faculdade foram atrás dele.

Mas, tal como decidiu. Sabia nesse momento, Edward seria dela.

Dois anos depois

— Oh, Deus, Bella, o que fez?

A jovem deu um pulo e se virou para seu marido, que se dirigia furioso ao lugar onde seu carro tinha batido com a parte traseira de um Ranger Rover.

Fascinada, observou seus ferozes olhos verdes, seus traços pálidos, o corpo duro e moreno, o peito húmido de suor, as fibras da erva que estivera cortando grudadas aos jeans...

— É só um pequeno arranhão, Edward. Juro.

Tinha o coração na garganta. Não por medo. Ele jamais lhe faria mal. Mas sua fúria era temível.

— Um pequeno arranhão. — Agarrou-a pelos ombros, afastou-a para um lado e baixou o olhar para o pára-lama amassado que se afundou no pára-choques de seu Ranger.

Tinha sido um acidente. E, na realidade, tinha ocorrido por culpa de Edward.

Se não tivesse cortando a grama sem usar nada mais que as botas e aquele jeans que rodeavam seu traseiro, jamais teria ocorrido.

— Bateu contra meu carro. — O orgulho e a indignação gotejavam em sua voz. — É meu Ranger, Bella.

Sim. Era-o. Estava muito orgulhoso do potente quatro por quatro negro. Mimava-o mais que qualquer mulher a seu filho. Bella teria sentido ciúmes se não fosse o fato de que não havia maneira de que ele pudesse colocar o veículo em casa.

— Sinto muito, Edward. — Sua voz se voltou rouca ao elevar o olhar para ele, mordendo os lábios com nervosismo enquanto se perguntava quanto demoraria a enfurecer-se.

Assim que o fizesse, transformar-se-ia em um homem sombrio e de poucas palavras. Fulminá-la-ia com o olhar.

Dedicar-se-ia a ver partidas de basebol. Deitar-se-ia tarde. Muito tarde. Muito depois dela e iria dormir. Não falaria com ela até a manhã seguinte. O que era, simplesmente, injusto.

— Edward, por favor, não se zangue comigo.

— Como é possível que se tenha chocado contra meu Ranger? Como? Se estava estacionado aqui mesmo. A plena vista, Isabella.

Estava se zangando. Só dizia seu nome completo ou seus sobrenomes quando estava ou muito zangado ou muito excitado. E não estava excitado. Aquilo não era um bom sinal. Bella podia viver com isso durante uns dias, mas não gostava.

Deu um forte pisão no chão e o olhou furiosa.

— Se não fosse por sua culpa, jamais teria batido.

— Por minha culpa? — Edward retrocedeu um passo, negando violentamente com a cabeça. — Como pode ser isto minha culpa?

— Porque estava cortando a grama sem camisa, vestido só com esse provocador jeans e as botas, e assim que vi esse bumbum escuro me pus quente. Foi você quem me distraiu, assim, a culpa é sua. Se se houvesse vestido de maneira decente isto não teria ocorrido, Edward...

Ele a beijou. Não foi um beijo terno ou gentil, a não ser áspero, rude e cheio de luxúria. Estreitou-a com força contra seu corpo e pressionou seu membro contra o abdómen feminino, fazendo-a ofegar de prazer.

— Merece umas boas tapas. — Tomou-a em seus braços e atravessou com ela o pátio, deixando aberta a porta do carro da jovem e se afastando do Ranger amassado.

— Deveria surrar-te, Isabella. Ver como esse precioso traseiro fica completamente vermelho.

Entrou e fechou a porta de um golpe antes de dirigir-se para as escadas.

— Oh, surra-me, Edward. — Sussurrou-lhe a jovem provocativamente ao ouvido. — Faz com que suplique.

Ele estremeceu contra ela, jogou-a sobre a cama e se dispôs a fazer o que ela pedia.

Uma semana depois

— Voltarei para casa em uma semana. — Edward estava vestido com jeans e camiseta. Não parecia um SEAL, a não ser um marido a ponto de sair em uma viagem de negócios. Nada relevante.

Isabella sabia como enganar a si mesma.

— O Ranger estará estacionado amanhã diante da oficina. — Disse-lhe a jovem assentindo com a cabeça enquanto o observava tirar a bolsa do armário e virar-se para ela.

— O colocarei na garagem e cuidarei por você. — Isabella sorriu-lhe provocativamente e retirou o cabelo do rosto. — Me deve uma, sabe? Tive que mostrar as pernas para obter que o arrumassem tão rápido. Tem mecânicos muito exigentes, Edward.

Ele possuía uma oficina e uma estação de auto-serviço nos subúrbios da cidade. Um pequeno e próspero negócio que Bella sabia que adorava.

Edward soltou um grunhido, percorrendo com a vista as pernas nuas da jovem quando esta se sentou na cama com um short curto.

— Bruxa. — Grunhiu ele. — Tenho que ir e sabe.

Ela tirou a blusa e desabotoou o shorts, deixando-os cair pelas pernas. Sem deixar de observar seu marido, deslizou os dedos pelas dobras nuas e húmidas da união entre suas coxas e logo levou a mão à boca.

Edward gemeu e Bella adorou aquele som. Tinha separado os lábios e tinha um olhar selvagem, como se a estivesse saboreando.

— Venha, uma rapidinha. — Sussurrou ela, desesperada para o ter uma última vez antes que a deixasse. Incorporou-se na cama quando ele se aproximou e lhe tirou o cinto com dedos ágeis.

— Desafio-lhe. Faça-me sua como mais deseje...

Edward a virou, empurrou-a sobre a borda da cama e, ao cabo de dois segundos, estava penetrando-a. Duro e palpitante, acariciando-a, enchendo-a, enterrando-se nela com rápidas e duras investidas até que Bella se sentiu atravessada por uma violenta e candente sensação de prazer.

— Edward, Edward, amo você. — Gritou enquanto ele investia, imobilizando-a e movendo os quadris com força contra as dela, sujeitando-a ferozmente com as mãos, queimando a pele com os dedos.

Mais tarde, ele sussurrou as mesmas palavras com o fluido e lírico som gaélico. Murmurou-lhe seu amor no idioma que seu avô lhe tinha ensinado e que ela sentia na alma.

— Para sempre. — Sussurrou Bella, virando a cabeça para ele e aceitando seu beijo. — Para sempre, Edward.

Uma semana depois

Bella abriu a porta e ficou paralisada. O tio de Edward, Mitchel, estava na soleira ao lado do capelão. Sabia que era um capelão militar pelo uniforme escuro. Mitchel usava um uniforme branco, com a boina na mão e as medalhas penduradas no peitilho.

A jovem se sentiu desfalecer.

— Edward chegará a qualquer momento. — Murmurou ela com os lábios intumescidos, precavendo-se da aflição e a dor que refletia na expressão de Mitchel.

— Chegou cedo, Mitchel. Ele ainda não está aqui.

Estava chorando. Podia sentir como lágrimas ardentes lhe abrasavam a pele enquanto apertava as mãos contra o estômago e lhe afrouxavam os joelhos.

— Bella. — Mitchel tinha a voz rouca e os olhos brilhantes pelas lágrimas contidas. — Eu sinto muito.

O que sentia? Estava-lhe arrancando as vísceras e dizia que sentia muito?

Ela negou com a cabeça.

— Por favor, não o diga, Mitchel. Por favor, não o diga.

— Bella. — Ele tragou saliva.

— Sabe que tenho que fazê-lo.

Por quê? Por que tinha que destruí-la?

— Senhora Cullen. — Disse o capelão por ele.

— Senhora, tenho que lhe comunicar com grande pesar que...

— Não, não! — Gritou ela enquanto Mitchel a envolvia entre seus braços e a ajudava a entrar em casa. A jovem seguiu gritando. Gritos que lhe rasgaram o peito como uma navalhada brutal e desumana. A dor a arrastou até um profundo poço de desespero, um abismo do que não acreditava que pudesse sair jamais.

— Edward! — Chorou, gritando seu nome. Ele lhe tinha jurado que sempre saberia o momento exato no qual ela o necessitaria, inclusive na morte. Porque ele tinha esse dom. Era devido aos olhos, tinha-lhe assegurado, e ela riu. Entretanto, agora desejava com todas as suas forças que fosse verdade porque necessitava de Edward, daqueles ferozes olhos irlandeses.

— Oh meu Deus, Edward!

Seis meses depois

Bella despertou entre soluços com a respiração entrecortada e rebuscou na cama estirando os braços, arranhando os lençóis, o travesseiro, desesperada por alcançar a ele.

Edward estava sangrando. Podia ver o sangue em suas mãos como se estivesse olhando pelos olhos dele. Podia sentir sua agonia, suas vísceras retorcendo-se, sua alma clamando com uma angústia que a rasgava.

Tinha que ser um sonho. Os soluços lhe queimavam a garganta enquanto se aferrava às mantas e lançava um grito gutural de crua agonia ao sentir que lhe partia o coração.

— Edward!

Gritou seu nome com voz rouca e áspera pelas lágrimas, pelos horríveis meses passados.

No enterro...nem sequer a tinham deixado ver.

Desfazendo-se em lágrimas, afundou o rosto no travesseiro e enfrentou uma vez mais a crua realidade de que Edward se foi para sempre.

Tinham fechado o ataúde sem que ela o visse. Não tinha podido tocá-lo, nem beijar seu amado rosto, nem lhe dizer adeus. Não havia nada ao que aferrar-se, nada que aliviasse aquela agonia sem fim.

Só havia vazio. Vazio em sua cama, em sua vida. Um doloroso e horrível oco em sua alma. Um vazio que a consumia, que lhe queimava a mente e que lhe recordava a cada segundo, cada dia, que Edward se foi.

Edward tinha partido.

Para sempre.

Salvo em seus pesadelos. Onde ele gritava seu nome. Onde a tocava e se desvanecia antes que ela pudesse o alcançar. Onde a olhava com os olhos cheios de pesar. Ou quando ela sentia a dor e as lágrimas de Edward. Intermináveis, agonizantes.

Logo, com a mesma rapidez com que começavam, assim, que ela se dava conta de que o que sentia era a própria dor de Edward, os sonhos mudavam.

— Amarei-a sempre, bruxa. — Estava inclinado sobre ela, nu, com o peito brilhando, a pele dourada bloqueando o sol radiante, os intensos olhos verdes observando-a fixamente.

— Sente como minha alma toca a sua, Isabella. Sente como a amo, pequena...

Um grito dilacerador lhe queimou a garganta quando tentou aferrar-se ao ar, as insubstanciais lembranças que se desvaneciam, que se esfumavam como Edward, que se foi.

— Oh, Meu deus. Oh, Meu deus. Edward... — Sussurrou Bella apertando o travesseiro contra o peito e começando a balançar-se.

Jogou a cabeça para trás e soltou um grito desolador do mais profundo de sua alma partida em dois.

— Maldito seja, Edward...