Disclaimer: Saint Seiya e livros da série Darkest Night, de Gena Showalter, não me pertencem. A fic do Ikarus também não!
Apesar de algumas referências a "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, a obra também não me pertence!
Continuação do gaiden de Jordana Hagen Gaarder, para o Darkest Challenge.
Boa leitura!
DARKEST GAIDEN – CAPÍTULO II
A partir da noite em que seu pai revelara à Jordana o real trabalho de sua vida, a garota passou a acompanhar cada passo do segredo de Ibsen, ela mesma dedicando várias horas de leitura sobre mitos gregos, simbologia, História Antiga, e demais assuntos que permitissem que ela pudesse compreender mais daquele assunto que passou a fasciná-la, cada vez mais.
Os anos se passaram, e a menina de oito anos cresceu aos poucos, amadurecendo em termos intelectuais, sendo capaz de ter conversas de igual para igual com pessoas mais velhas sem receio de perder o fio da meada ou o argumento que fosse; mesmo com Henrik e Francis ela aprendera a lidar, pelo menos até o momento que o mais novo dos rapazes, então três anos mais velho que ela, que na época tinha 15 anos, revelou certo interesse amoroso nela.
Jordana e Francis saíram juntos por alguns meses, e a moça cedeu seu primeiro beijo a ele por mera curiosidade; ele, no entanto, estava realmente envolvido pela garota que tanto infernizara na infância.
- Jordana, mas por que você não quer namorar comigo? – perguntava o loiro, que aos 18 anos era um rapaz muito bonito.
A moça pareceu pensar, ponderar um pouco, e por fim, resolveu ser sincera com ele:
- Francis, logo você vai estudar fora, acabou de passar na universidade que queria, no exterior. Lá, você vai conhecer gente nova, e ficaremos muito distantes. – ela percebeu o bico que ele fazia no momento – Além do mais, eu preciso passar nos exames de admissão para a universidade, também.
- Você pensa demais no futuro, Gaarder. – ele a chamava assim, quando queria cutucá-la – Já sabe o que vai querer fazer?
- Sim, eu serei historiadora, pela Universidade de Oslo, como o seu pai. Sim, isso mesmo, senhor Francis Aubert. – ela ria da cara de espanto dele – Não deveria ser surpresa nenhuma, eu sempre gostei desses assuntos, e a ideia de estudá-los me apraz. Além do mais, seu pai é um dos grandes exemplos da minha vida, eu o adoro.
- Eu sei, eu e Henrik tínhamos muito ciúme disso, e essa era a razão para a perturbarmos tanto. – corou – Desculpe por tudo, Jordana.
Não era a primeira vez que ele se desculpava, ele já fizera isso juntamente com Henrik, há alguns anos antes; todos cresceram de alguma forma, e a moça fizera as pazes com os filhos do professor Jostein Aubert, o patrão e amigo de seu pai, Ibsen Gaarder.
- Eu já o perdoei antes, não precisa ficar trazendo esse assunto à tona sempre. Ou eu nunca irei esquecê-lo. Sabe, já olham torto o suficiente para mim lá no colégio católico.
Jordana estudava em um colégio católico; apesar da religião oficial do país ser a luterana, e do passado de seu pai, ela quis que assim fosse, pois só assim teria acesso a algumas fontes de conhecimento extracurricular que não teria em um colégio laico normal, e que a tornariam apta a ajudar seu pai com o "segredo" deles. As aulas de latim, grego antigo, Teologia Básica e Simbologia a fascinavam, e compensavam o preconceito que ela via estampado na cara de seus mestres quando ficavam sabendo quem era seu pai.
Aos poucos, ela aprendera a lidar com aquela tristeza, a infelicidade de não ter a mãe por perto, e com o fato de intervir tanto na vida do pai com sua própria existência. Nada que a mudança de foco e o carinho que sentia pelo ex-monge não resolvessem.
- Você é uma menina admirável, Jordana. – Francis segurava o queixo dela com gentileza – Só precisa viver mais o presente.
Ele a beijou, trazendo-a mais próximo aos poucos, as mãos começando a passear pelas costas da garota; aos poucos, o beijo ficava mais envolvente, e Jordana levava as mãos aos cabelos do loiro, quando...
- Caham! – Ibsen pigarreou, ao ver a única filha daquele modo com o filho de seu patrão – Não é hora nem lugar para isso, não, jovens? Jordana, já é hora do almoço, a governanta está nos esperando comer para poder arrumar a cozinha, filha.
- Ah, papai...! – a moça ajeitou os óculos sobre o nariz, e colocou os cabelos negros e compridos para trás – E-Eu já estou indo!
Jordana levantou-se às pressas, e seguia o pai, quando Francis a chamou; a garota virou-se para encará-lo, e o rapaz foi até ela, sabendo que Ibsen observava os dois.
- Meu pai e eu vamos nos encontrar com Henrik na Suécia, e então viajar até a Islândia, amanhã. Meu irmão entra em férias de verão, e vamos todos juntos. Mas você já sabia, não é?
A morena assentiu com a cabeça, e Francis sorriu:
- Como provavelmente serão algumas semanas fora até eu voltar, antes de você se livrar de mim, Gaarder, eu queria deixar isso com você. – e nisso, ele deixou um embrulho nas mãos dela.
Confusa, Jordana abriu o pacote bem embrulhado em papel de presente, e mordeu os lábios ao ver do que se tratava; seu primeiro impulso foi abraçar o rapaz, agradecendo-o:
- Obrigada, Francis. – ela tentava conter as emoções.
- De nada, aproveite. – ele acariciou o rosto dela – Eu te... bah, vou sentir sua falta. Agora vá almoçar, baixinha. Bom almoço, senhor Gaarder! – ele se afastava, acenando para o ex-monge, que encarava a filha, curioso.
Pai e filha caminharam até a cozinha da mansão, e comiam em silêncio, quando Ibsen se pronunciou, sério:
- Jordana, eu concordei que vocês saíssem "para se conhecer melhor", mas não quero ninguém a agarrando, minha filha. Francis é filho do meu patrão, eu ajudei a educá-lo, mas ainda assim ele tem 18 anos, você 15, e não quero vê-la grávida ou dependente de homem nenhum por causa disso.
- Papai! Eu e Francis nunca... eu nunca... ah, você entendeu! – ela bebia um gole de suco, constrangida, e vermelha.
- Eu falo sério. Sexo é um assunto muito complicado, e é normal sentir certos impulsos quando se é jovem, só não quero que se arrependa de nada.
O estômago da garota revoltou-se, de repente, e ela não conseguiu mais comer; brincava com o garfo, até soltar o que realmente pensava.
- Assim como você se arrependeu de "seguir seus impulsos", rompendo o voto de castidade que fez ao entrar em uma ordem religiosa?
- Jordana! Não admito que cogite isso! Eu poderia muito bem tê-la rejeitado, mas escolhi criá-la, amá-la, protegê-la! Não deve falar assim!
- Ah, quer dizer que eu devo agradecer pela sua benevolência? Pela sua pena? – os olhos violeta dela o fitaram, magoados – Não se preocupe, prefiro morrer virgem a deixar que esse tipo de coisa aconteça comigo, me obrigando a ser piedosa com um filho meu!
O tapa veio certeiro no rosto da adolescente; Jordana encarou o pai, incrédula, enquanto se levantava na mesma hora, arrumando os óculos na face. Ibsen também se levantou, queria pedir desculpas à filha, mas aquele era um assunto muito delicado também para ele, visto o seu passado.
O ex-monge viu quando a moça saiu correndo, deixando para trás o embrulho que recebera de Francis; levantou o papel colorido e reconheceu o livro: os "Contos de Fadas de Andersen", a mesma edição do volume que um dia pertencera à Jordana, e fora destruído na frente dela.
No dia seguinte, o clima entre os Gaarder continuava pesado; Jordana fora ao seu último dia de aulas daquele ano letivo, antes do Solstício de Verão (1) e das férias, ainda emburrada com o pai. Ele não sabia como abordá-la, pensou em usar o livro como pretexto para dizer algo, mas ao perceber a distância e indiferença da filha, simplesmente o deixou em cima da cama dela, quando ela saiu.
Não foi surpresa para Jordana conferir suas notas e ver que fora aprovada em todas as suas matérias, as obrigatórias e as extracurriculares; riu ao lembrar-se de Francis dizendo que isso seria óbvio, e pensou no rapaz.
"Será que eles já se encontraram com Henrik em Estocolmo? Por que ele inventou de estudar lá, afinal? Cada coisa... se tudo correr bem, creio que logo eles chegam à Islândia." – a morena checava o relógio de parede, próximo ao mural das matérias do próximo ano letivo, que ela já tratava de escolher.
Distraída, não reparava no faxineiro que enrolava para terminar de encerar o chão ali perto; se ela olhasse para ele naquele momento, perceberia a tatuagem do símbolo do infinito em seu antebraço, a qual o homem escondera imediatamente.
Após conversar com algumas amigas, Jordana resolveu comer algo em um café no centro; locomover-se em Oslo era fácil e tranqüilo, e ela foi andando até uma parte do caminho com uma das colegas de sala, depois, seguiu sozinha, sem perceber que era seguida pelo faxineiro do colégio.
A moça de olhos violeta caminhava absorta em seus pensamentos, quando ao passar por uma loja de eletrônicos, ouvira a notícia do acidente na TV. Correra até a vitrine, levando a mão à boca, chocada, ao ver a cena do avião parcialmente destruído e carbonizado, a enorme carcaça metálica em meio às pedras de um vulcão na Islândia. Aparentemente, o vulcão liberara algumas cinzas, sem entrar em erupção, mas prejudicando a visibilidade em todo espaço aéreo da ilha; o piloto tentara um pouso de emergência, mas já era tarde. Não sobrara nenhum sobrevivente.
Jordana imediatamente lembrou-se dos Aubert, e correu para tomar o ônibus para casa; em sua pressa, despistara o Caçador, mesmo sem saber que ele a vigiava. O caminho foi tenso para a garota, que correu pela propriedade, e mesmo zonza de fome, adentrou a cozinha da mansão - para ver que não havia ninguém ali. Aventurou-se e seguiu para a sala principal, onde alguns empregados choravam, e outros pareciam atônitos.
Ibsen Gaarder era um dos que fitava a TV em descrença, quando a lista de vítimas do acidente foi divulgada em rede nacional norueguesa. O senhor Aubert e seus dois filhos estavam mortos, os últimos representantes daquela família. O homem de cabelos escuros desabou no sofá, incrédulo, para então virar-se e ver a figura da filha ali parada, trêmula, as pontas dos dedos tocando os próprios lábios.
A garota de 15 anos não sabia o que fazer... queria gritar de tristeza, aquela sensação tão familiar da infelicidade manifestando-se em sua alma; Jordana chorou em silêncio, lamentando pelo acadêmico distinto que acolhera ao pai e a si mesma, por Henrik, e por Francis, o dono do seu primeiro beijo.
- Minha sereiazinha... – sentia os braços do pai a abraçando – Por favor, fique calma, Jordana. Me... me desculpe, minha filha.
Assim, Ibsen e Jordana se abraçaram fortemente, pois sabiam que só tinham um ao outro; alguns empregados levantaram a possibilidade de serem expulsos dali, mas o ex-monge se manifestou:
- O senhor Aubert tinha um testamento, no qual mexeu há poucos meses. Devemos chamar o tabelião, ele saberá o que deve ser feito.
Horas depois, a imprensa tentava entrar no local e entrevistar pessoas, mas todos se recusavam a falar. O tabelião veio, e qual não foi a surpresa de todos ao ver que, no caso da morte de Jostein Aubert e seus filhos, a posse de todos os seus bens, investimentos e de toda a propriedade passaria para seu fiel amigo, assistente e administrador, Ibsen Gaarder, com a condição que todos os funcionários que ali quisessem ficar fossem mantidos, e que um dia a mansão fosse herdada por Jordana.
O ex-monge ficou emocionado, pensou em recusar tudo, mas vendo o trabalho burocrático e as despesas que aquilo daria no processo de inventário, ele aceitou os termos dados, e aquela passou a ser a sua casa, e de sua filha.
No dia seguinte ao enterro, ainda lembrando-se de quando foram receber os corpos no aeroporto, Jordana ainda mal conseguia falar. Não comia, apesar da nova condição; ficava com o livro que Francis lhe dera por perto o tempo todo, e a cada hora ficava mais triste. Trancada com o material de pesquisa do pai na água-furtada, arrumando-o em caixas para a mudança, folheou um livro de aparência antiga, até avistar a palavra "Infelicidade".
"O pior demônio de todos. Será que ele resolveu me perseguir?" – ela riu amargamente, lembrando-se dos últimos dias – "Senão o pior, o mais cruel, o mais filho da puta."
A moça começou a ler sobre aquele demônio em específico, sua natureza, a lenda e os atributos completos, além de citações de fontes escritas a respeito. Retirado de um documento antigo, da era das Cruzadas, no fragmento podia-se ler:
"A voz mais terrível a levantar-se em campo de batalha (...), de um lado, muitos sofriam somente em ouvir aquele timbre horrendo, enquanto outros sacavam seus punhais ou espadas, e se matavam através de facadas ou degolamento, claramente ofendendo a ordem natural da vida, e os desígnios de Deus." – as palavras dançavam na mente da garota.
Jordana sentiu seu corpo estremecer. Aquele sim era um demônio perigoso, e ela estava deixando que ele a afetasse de algum modo; olhou de um lado para outro, como se ele pudesse surgir de algum lugar. Pensando nisso, fechou o livro e terminou de embalar aquela caixa, correndo para a segurança de seu quarto, em seguida. Como se assim, pudesse evitar algo que estava, na realidade, dentro dela mesma.
- Quatro anos depois –
- Hey, Jordie, você vai àquela festa hoje? – perguntava Jorunn, sorrindo para a melhor amiga.
- Eu não vou a lugar algum, Jo. Tenho que estudar para aqueles malditos exames, você sabe bem que eu não vou descansar até que eles acabem.
- Credo, Jordana! Você tem que aproveitar mais o presente, sabia? – a moça fazia uma careta.
A morena deu um meio sorriso triste; lembrou-se de quando ouvira algo parecido, mas de outra pessoa.
- Além do mais, eu acho que aquele rapaz que veio do Canadá está de olho em você, sabia? – Jorunn sorriu.
- Quem? Aquele aluno de intercâmbio? Bian, o nome dele? Não, você está enganada. – afirmou Jordana, envergonhada.
- Se é assim, por que você ficou vermelha? – a outra moça chegou bem perto da outra, olhar desafiador.
Jordana entreabriu os lábios, ensaiando uma resposta, mas logo os mordeu, sentindo a argola metálica no lado esquerdo do lábio inferior; colocara o piercing como uma espécie de rito de passagem, ao ingressar no curso de História da Universidade de Oslo, há dois anos. Seu pai, Ibsen Gaarder, não gostara muito da ideia, mas a moça o fizera mesmo assim, alegando a importância simbólica daquele pequeno rito naquela fase de sua vida.
"Afinal, foi um novo começo, depois de tudo o que aconteceu..." – pensava ela, enquanto prendia os cabelos em um longo e charmoso rabo de cavalo.
Agora com 19 anos, a garota de olhos cor de violeta ganhava ares mais atraentes, similares aos de uma mulher mais madura, apesar da baixa estatura; sabia que volta e meia alguém reparava nela, fosse um rapaz ou não, mas simplesmente não sentia vontade ter um relacionamento com quem quer que fosse.
"Saber que Francis e minha mãe gostariam de me ver feliz fez com que eu escapasse de Infelicidade, mas, quero evitá-la o máximo possível." – riu, ao perceber que de fato, de todos os demônios presos nos corpos dos Senhores do Submundo, parecia que aquele a desafiava mais, obrigando-a sempre a superar certos fatos de sua vida.
Jordana voltou a prestar atenção em Jorunn quando esta beliscou seu braço, os olhos verdes indicando a proximidade de um belo rapaz que chegava, e vinha direto cumprimentá-las.
- Olá, senhoritas, como vão? – o canadense olhava de Jorunn para Jordana, as íris claras fixas em Gaarder.
- Oh, olá, Bian, vai à festa dessa noite? – sorria Jorunn – Eu estava comentando aqui com a Jordie que ela precisa sair mais, e deixar os livros respirarem um pouco também... ai!
Por baixo da mesa da cafeteria da faculdade, Jordana chutava o tornozelo da amiga, para evitar atrair atenção para si. Tarde demais.
- Nesse caso, insisto que me aceite como sua companhia, senhorita Gaarder. – sorria Bian.
Nervosa, a garota só foi entender que aceitara o convite depois que o rapaz saía dali, com ar vitorioso, e quando Jorunn a cumprimentou com um tapa maroto no braço.
- Alguns meses depois –
- A-Ah...! Bian...! – Jordana apertou o lençol da cama com força ao gozar, uma onda de prazer imensa invadindo seu corpo de cima a baixo.
Os cabelos castanhos do rapaz misturavam-se aos da garota, os longos fios de ambos colando-se aos seus corpos suados, enquanto ele aninhava-se no pescoço dela, ao chegar lá também.
- Caramba. Para uma mulher tão recatada, e filha de monge, você é uma delícia, Jordana. – a voz do rapaz no ouvido dela era rouca – Minha nossa.
- Não fale assim! – a garota deu um tapinha no ombro dele – E meu pai não é monge desde que eu nasci!
- Ah sim, seria muito estranho se o fosse. – riu Bian, enquanto se livrava da proteção – Eu reparei que você sempre está anotando coisas para mostrar a ele depois... você o está ajudando em algum trabalho acadêmico?
Aquele assunto de novo. Desde que começaram a namorar, há alguns meses antes, Jordana reparara que Bian gostava do mundo acadêmico, e de conversar sobre ele, o que a fez tentar algo com o rapaz, para testar a compatibilidade de ambos. Com o passar do tempo, ele se mostrara tão inteligente, sedutor e gentil, a ponto da garota deixá-lo possuir seu corpo, tirando-lhe a virgindade. Jordana temera muito por esse dia, pois a verdade é que morria de medo de ter filhos na hora errada, submetendo-os a uma culpa que não seria deles.
- Não exatamente... – ela desconversou, tomando a mão que acariciava seu pescoço e a beijando, alisando a tatuagem que se encontrava no pulso – Apenas gosto de pedir a opinião de meu pai em meus escritos, nada demais.
Bian a observava atentamente, era como se tentasse perceber algum vestígio de mentira no jeito dela, para então relaxar e beijar a palma da mão dela:
- Muito bem, então. Você sabe que eu adoro o que você escreve, não? Se precisar de um revisor, pode contar comigo.
- Ah, com certeza. – Jordana sorriu, sabendo que Bian nunca poderia ler os textos que ela e o pai escreviam no momento – Ei, você precisa passar um hidratante nessa tatuagem, a pele parece mais grossa aí... não sei como é no Canadá, mas aqui cremes para o corpo são obrigatórios!
O rapaz fitou a tatuagem com o símbolo do infinito em seu pulso, e deu de ombros:
- Posso tentar, mas isso para mim é coisa de mulher. – vestia uma calça e ria – Eu vou trazer algo para a gente beliscar aqui na cama, já volto!
Bian foi para a cozinha do apartamento, colocou a chaleira no fogo, ligou o rádio, e certificando-se que Jordana não viria até ali, discou um número no celular.
- Até que enfim você ligou! Não agüentava mais esperar! – a voz do outro lado era tensa.
- Eu estava ocupado com ela. E vocês, conseguiram alguma coisa? – ele falava baixo.
- Rendemos os empregados e isolamos a mansão, reviramos tudo, mas não encontramos nada até agora. Arrancou algo da garota? – tom de voz ansioso.
- Nada, ela sempre desconversa, mas tenho certeza que sabe o que o pai anda pesquisando. O senhor Gaarder está com vocês?
- Sim, tentamos persuadi-lo a nos contar o que sabe e mostrar onde estão suas anotações, mas ele se recusa terminantemente a falar.
- Nesse caso, você sabe quais são nossas ordens, não? Tudo pela glória do grande Anjo. – a expressão de Bian era séria.
- Entendido. – a pessoa do outro lado suspirava, contrariada – Faremos o que deve ser feito, em honra ao grande Anjo. Desligando.
- Desligando. – com isso, Bian deu um suspiro de enfado, e arrumou uma pequena bandeja com chá, alguns biscoitos e marzipã, levando-a para o quarto, onde Jordana o esperava.
Meia hora mais tarde, o celular da morena tocou, e ela atendeu o número desconhecido:
- Alô, senhorita Gaarder? Aqui é da polícia. Peço que se acalme, mas sua casa foi invadida, um vizinho disse que viu pessoas saindo de lá e nos chamou.
- COMO É? – Jordana, que estava a caminho de casa, no carro de Bian, exaltou-se – Isso é impossível! Meu Deus! Meu pai, como está meu pai?
- Parece que não levaram nada de valor, mas reviraram tudo. Os empregados estão bem, mas... o senhor Ibsen Gaarder é seu pai?
- Sim! Como ele está? – a moça pedia a Bian para dirigir mais rápido, movendo os lábios sem emitir som.
- Nós tivemos que chamar os paramédicos, parece que ele foi torturado, senhorita. Mas já foi encaminhado ao hospital.
- QUE HOSPITAL? Preciso vê-lo, agora! – Jordana lutava para segurar as lágrimas e manter a cabeça no lugar.
- Senhorita Gaarder, precisamos da sua presença aqui para uma busca maior, precisamos da sua autorização, já que o senhor Gaarder se mostrava incapacitado.
- Por favor, diga que meu pai está bem, por favor... – ela mordia os lábios, olhando em volta, na expectativa de chegar logo em casa.
- Melhor conversarmos pessoalmente, senhorita. – a voz do outro lado não era muito otimista.
Pouco tempo depois, Jordana saía do carro de Bian às pressas, explicando aos guardas quem era e correndo pela propriedade até chegar à mansão; lá, o chefe de polícia terminava de entrevistar um dos empregados, e percebendo quem ela era, veio ao seu encontro:
- Senhorita Gaarder, nada foi roubado, mas deve registrar a ocorrência e...
- Onde está meu pai, oficial? Por favor, eu preciso saber como ele está! – os olhos violeta eram determinados.
- Eu entendo, mas preciso que me ajude, para que eu possa ajudá-la. – ele tentava acalmá-la – Sabe se alguém queria algo específico aqui dentro, se andavam vigiando sua casa? Pois nada foi levado, mas para que tivessem todo esse trabalho e machucassem seu pai, por algo eles procuravam.
A ficha de Jordana caiu; se não fizeram mal a nenhum dos empregados, somente a seu pai, era porque sabiam o que ele andava pesquisando, e isso era muito perigoso. A moça aprumou-se, e respondeu todas as perguntas que lhe foram feitas, sempre perguntando do pai em seguida. Assinou os papéis para a perícia e checou se estavam todos bem. Nesse meio tempo, Bian chegou, prestando atenção no que acontecia.
- Eu vou ao hospital. – ela comunicou ao namorado – Os oficiais vão me levar até meu pai.
- Eu vou com você. – prontificou-se ele.
- Não, Bian. – Jordana foi taxativa – Se eu estivesse em casa, isso não teria acontecido. Por favor, é melhor você não se envolver mais no que está havendo.
O rapaz pareceu magoado, mas a morena não queria que ele soubesse o que acontecia, e muito menos colocá-lo em perigo assim como o pai estava, e como ela mesma poderia estar. Deixou Bian para trás sem remorso, seguindo para o hospital onde Ibsen estava. Lá chegando, conduziram-na diretamente até o quarto do pai. Jordana adentrou o lugar, apreensiva:
- Papai? – ela aproximou-se aos poucos do leito.
- Pode aproximar-se, senhorita Gaarder. Avisaram-me que estava chegando. – a enfermeira deixou o lugar.
Jordana levou a mão à boca ao ver o estado do pai; com certeza, haviam batido muito nele, suas unhas foram arrancadas, e ele estava cheio de gaze e ataduras, os olhos roxos e o rosto disforme. Nunca se sentiu tão culpada na vida.
- S-Sereiazinha. – o fio de voz era baixo, quase inaudível, mas ela aproximou-se dele, ao ouvir seu apelido.
- Sim, sou eu. – ela respondeu, esperançosa – Quem lhe fez isso, papai?
- Filha, eles sabem. Eles querem... minha pesquisa... cuidado. – as palavras eram pausadas, mas inteligíveis.
- Eles quem? Eu devo denunciá-los, isso não pode ficar assim, impune! – o olhar de Jordana era decidido.
- F-Filha... mantenha tudo escondido... Caçadores... a lenda... – a voz de Ibsen ficava ainda mais baixa, enquanto o som do aparelho ao seu lado ficava mais alto, indicando a perda de sinais vitais.
- Quem? Pai, não faça isso comigo, por favor. – ela mordia os lábios para evitar o choro – Por favor, papai, eu o amo tanto...
Jordana chegou mais perto, o suficiente para que o homem desfigurado na cama acariciasse seu rosto com carinho e dor, e com um sorriso, dissesse:
- Eu também... pequena... sereia...
Enfermeiras e médicos invadiam o quarto, tentando reanimar Ibsen Gaarder; o aparelho ao lado da cama mostrava uma linha constante, enquanto Jordana levava a mão à boca, incrédula, as defesas que construíra contra a infelicidade sendo quebradas pouco a pouco, ao testemunhar a morte de seu querido genitor e mentor.
- CONTINUA –
(1) O Solstício de Verão, na Noruega, é comemorado juntamente com a "Noite de São João", trata-se da noite mais longa, na qual a escuridão atinge seu ponto máximo no céu. Esta data antecede as férias de verão, anteriores ao novo ano letivo.
Agradecendo às reviews deixadas no capítulo anterior! Valeu gente, espero que estejam gostando! A opinião de vocês conta muito!
Krika Haruno: Que bom que você está gostando! Sim, a Jordana também é filha de uma imortal... agora, quem é, e se é oficial, surpresa! O Ikarus pode te responder melhor, esobre Infelicidade, quer mesmo só ver os outros infelizes mesmo... será? ;) Bjs!
Darkest Ikarus: Muito nosebleed, para felicidade geral da nação! Eu também não vejo a hora de ver as idéias aparecendo em DN! Essa cena dos meninos aconteceu de verdade comigo quando eu era criança, em um contexto diferente, mas sim, revoltante! Esse tipo de coisa tem que ser proibida, em livros ninguém toca! Penso em finalizar no próximo capítulo, quem sabe? Bjs!
Mache-san: O Ibsen é um paizão, né? Que bom que você lembrou-se da Pequena Sereia, ela está implícita na fic, nos "Contos de Fadas de Andersen", e espero que continue acompanhando sim! Muito sucesso para todos nós! Bjs!
