Atenção: Quaisquer semelhanças e relações com Kill Bill nesse capítulo são mera homenagem, ok? ;D
KILL BOTAN
Casamento Contubado
Naquela tarde, a rua Afrowoods estava apinhada de gente. Nada imprevisível, tratando-se da rua mais importante, no bairro mais importante da cidade; lugar onde praticamente tudo acontecia.
Aglomerados de pessoas iam, vinham, voltavam e tornavam a ir e vir; algumas correndo apressadas para seus compromissos, carregando maletas e olhando relógios a cada minuto, os celulares saltando do bolso ao ouvido de quando em quando; outras segurando com dificuldade mais sacolas de compras do que eram capazes de carregar, sendo que pareciam verdadeiros montes de sacolas ambulantes; outras ainda, mais jovens, vestiam uniformes escolares e carregavam pilhas de livros em mochilas surradas e repletas de chaveiros multicoloridos, alguns deles fazendo barulhinhos peculiares quando sacudiam.
Mas em meio à costumeira cena, via-se uma imagem que se destoava fortemente do resto. Ao longo da calçada ladeada pelo canal central da cidade havia uma figura inusitada, caminhando a esmo, apático ao pandemônio em torno, seu olhos mirando os próprios pés. Vestia um terno preto e tinha uma flor despedaçada presa à frente da camisa. Resmungava coisas sem sentido, às vezes fazendo gestos com as mãos e com o corpo, como se quisesse que um companheiro invisível compreendesse algo.
O sujeito de repente estacou; uma garota apressada esbarrou nele, ricocheteou e por pouco não se desequilibrou e caiu no chão. Ele meramente pareceu sentir a colisão, contudo. Andou indiferente até o balaústre que cercava o canal, apoiou os cotovelos e começou a acompanhar a vertiginosa corrente das águas, seus olhos marejados imersos em pensamentos.
Por quê? Por que isso sempre acontece? O que há de errado, afinal? Será uma maldição?
Nesse ínterim, uma moça descia, pisando com força, a escadaria do excêntrico castelo postado num lado da rua Afrowoods, conhecido pelo não menos excêntrico nome "Mundo Rosa e Sanguinário de Lyra e Faye". A moça bufava e parecia inconformada; um papel velho oscilava na mão esquerda.
"20 latas de chocolate em pó, 45 de leite condensado e 10 potes de manteiga". Pra que diabos elas querem isso?
A moça olhou de um lado da rua para o outro e para o semáforo, aguardando entre inquieta e aflita o momento de atravessar a rua – com razão, já que Faye estipulara exatos dois minutos para que a filha fosse e voltasse com a encomenda, sem que tivesse que passar por uma sessão especial no velho e eficiente afrotronco da família.
E ainda nesse meio-tempo, um caminhão carregado de toras de madeira seguia pela rua Buenos Bigodes, com destino à famosa fábrica de bengalas e muletas local, a Big Bengas LTDA., também localizada num extremo da Afrowoods. O motorista, um senhor com óculos grandes e incrivelmente espessos, esticava o pescoço até o queixo tocar o volante, num esforço para enxergar melhor a rua.
Ora essa, estão instalando hidrantes amarelos agora? Eu, hein!
O sujeito de terno ergueu a cabeça num sobressalto; jurava ter ouvido alguém chamá-lo do outro lado da ponte, onde jazia aquele enorme castelo. Ficou na ponta dos pés para enxergar melhor a rua, mas tudo o que viu foi a massa cinzenta de desconhecidos deslocando-se em ritmo frenético e incansável. Ele então, sem refletir o suficiente para tal, esticou uma perna para cima do balaústre e subiu, equilibrando-se sabe-se lá como na superfície delgada. Alongou o corpo o mais que pôde para olhar o outro lado e conseguiu enfim enxergar algo além do habitual. Flutuando sobre a calçada havia um objeto... uma coisa grande, redonda... e rosa... e negra. Era um Yin-yang. Uma metade de um rosa florescente super-saturado e cintilante e outra de um preto que, curiosamente, apesar de ser preto, não tinha nada de discreto. O sujeito levou alguns segundos para compreender que o Yin-yang flutuante não era, na verdade, flutuante; havia uma jovem parada na calçada e ela carregava o chamativo símbolo no pescoço, como se achasse que era, de fato, um pingente, e não uma mandala dessas que se põe na parede.
A moça já roia as unhas; parecia que o sinal nunca ia fechar. Ela lançou um olhar breve em torno, sem confiar que algo fosse realmente prender-lhe a atenção. Para sua surpresa, porém, visualizou uma cena bastante inusitada para os padrões da rua Afrowoods: um homem, vestido com um terno amarrotado, jazia de pé sobre o balaústre paralelo ao rio, olhando fixamente em sua direção. Seus pés flexionavam-se e ele esticava o corpo, num movimento que, julgou ela, lembrava bastante o de alguém que se preparasse para saltar.
Saltar???, espantou-se a moça com a idéia, visto que, à frente do sujeito, uma meia dúzia de metros separava-o das águas lá embaixo, e que essas mesmas águas costumavam atingir, no máximo, meio metro de altura. Olhou novamente para o semáforo, na esperança de chegar a tempo à calçada do outro lado e, quem sabe, convencer o homem a descer, já que ninguém além dela parecia disposto a sacrificar alguns minutos de seu tempo para ajudá-lo. Um círculo iluminado de vermelho encheu-lhe de alívio. A moça adiantou-se pela rua e...
O motorista vinha à toda pela Afrowoods; seus olhos apertados afundavam-se no vermelho do sinal, ávidos por trás dos óculos grossos. Rápido, rápido, antes que feche!, pensava o senhor, que, a mando de um sujeito potencialmente tapado, fora contratado para substituir o carregador original durante as férias deste, ainda que sofresse de um sério problema de daltonismo, e que isso pudesse eventualmente vir a prejudicar seu trabalho.
O sujeito sobre o balaústre correu os olhos pela rua e viu o grande caminhão carregado de toras que se aproximava cada vez mais rápido, o indivíduo em seu interior parecendo não notar que pessoas atravessavam a rua alguma distância à frente. Olhou novamente para a moça, que também não percebia o perigo iminente, assim como ninguém mais naquele lugar parecia fazê-lo. Estendeu o braço para o ar, numa tentativa frustrada de avisá-la, de tentar evitar a tragédia que tomaria lugar bem ali, à frente, e da qual teria uma visão privilegiada. Só o que conseguiu, contudo, foi perder o equilíbrio que, milagrosamente, conseguira manter até então...
A moça trespassava metade da largura da rua quando viu o sujeito de terno oscilar perigosamente na fina superfície, como se, julgou ela, estivesse a segundos de dar o salto final para a morte. Então, um barulho ensurdecedor de pneus queimando ao longo do asfalto provocou-lhe um enorme sobressalto; ela girou o corpo e encarou a figura monstruosa do caminhão a poucos metros de si, parecendo-lhe várias vezes maior do que realmente era, a segundos de arrebatá-la do mundo.
O baque metálico reverberou por um raio de quilômetros. As pessoas ao redor enfim se interromperam; pareciam ter acordado de um estranho tipo de transe, fruto do cotidiano. O sujeito de terno havia afinal caído; por sorte para trás, sobre a calçada, ao invés de para o pequeno abismo à frente. Espectros de luz cor-de-rosa brotavam como flores em seus olhos.
Ele se levantou, e imediatamente avançou pela ponte, tropeçando e empurrando quem estivesse na frente. Abriu espaço entre o aglomerado em torno do local do acidente, temendo pelo que veria. E o que viu era inacreditável.
A moça jazia de pé, intacta, a centímetros do caminhão tombado – ou do que um dia fora um caminhão -, rodeada por uma coroa de pesadas toras de madeira. O sujeito adiantou-se, contorcendo-se para atravessar as toras, até conseguir ficar frente à frente com a moça. Ela olhou-o assustada, imóvel. Sua mão segurava com força o medalhão de yin-yang que carregava. Ele notou que a metade rosa brilhava intensamente, e ocorreu-lhe por fim a fonte do raio de luz que, ao atingir seus olhos enquanto se desequilibrava sobre o balaústre, fizera-o cair para trás e não para a morte.
- Você... está bem? – disse ele, hesitando em tocá-la.
- Acho que sim... – a moça baixou os olhos, entristecida – é, estou.
Mas apenas por enquanto, pensava.
Um instante depois toda a Afrowoods ouviu o berro amplificado vindo de uma grande janela do Mundo Rosa e Sanguinário de Lyra e Faye:
"ACABOU O TEMPO, JÉSSIIIIIIIIIIII!!!! AFROTRONCO, JÁÁÁÁÁÁ!!!!!!!!!!"
Observando a rua pela janela da limusine, Jéssi lembrava-se do insólito dia em que conhecera Shaka. Como seria estranho pensar que algum tempo depois se casaria com ele, aquele mero desconhecido que vira tentar suicidar-se. Fora tudo tão rápido; naquele mesmo dia Shaka levara Jéssi até o castelo, conhecera Faye e Lyra, conversara com elas sobre diversos assuntos, citando coisas como o negócio milionário de seu pai com o comércio de lhamas albinas, e plim!, já recebia o aval das rainhas para namorar, noivar e quem sabe casar com sua filha. Fora assim, de forma natural, que tudo acontecera e chegara até aquele ponto.
Mal posso acreditar que é hoje... é hoje..., pensava Jéssi.
A noiva suspirou e voltou a acompanhar os vultos das casas na rua. Notou que por ali assumiam um aspecto diferente das casas do centro; pareciam mais rústicas, irregulares. Tempos difíceis, pensou. Então um grande vulto, bem diferente de uma casa, passou rápido pela janela. Ela virou-se para trás, buscando identificá-lo enquanto permanecia em vista. Os grandes bigodes e o poncho extravagante eram inconfundíveis: tratava-se de um dos monumentos da cidade, o Grande Chileno de Pedra, localizado na praça do afastado bairro chileno da cidade, comumente conhecido pelo nome Bairro Chileno da Cidade. Jéssi refletiu por um instante. Desde quando o Bairro Chileno da Cidade estava no caminho da igreja?
- Ei, motorista... – chamou – esse não é o Bairro Chileno da Cidade?
O homem com os grandes óculos escuros estremeceu sensivelmente.
- É sim... – disse com uma voz esganiçada – estou pegando um atalho. Evitar engarrafamento, sabe.
A jovem voltou os olhos para a janela. O Bairro Chileno da Cidade ia ficando para trás, cedendo lugar às árvores e arbustos das fronteiras da cidade. Que atalho era aquele, afinal, que precisava sair da cidade para depois voltar a ela?
- Ei, motorista! – insistiu a jovem – mas porque tem que sair da...
CLANC: ela ouviu o barulho das portas se trancando. Em seguida contemplou a espessa divisória de vidro que se erguia adiante, separando a ala do motorista da parte traseira do carro. Por um momento permaneceu estática, tentando processar o que acontecia. Em seguida as mãos investiram ligeiras para as maçanetas, tentando em vão abrir as portas. A noiva saltou para frente e pôs-se a bater com as palmas na divisória, pedindo explicações ao motorista, e então, notando sua apatia, viu-se num minuto dando verdadeiros murros na divisória e berrando todos os nomes que lhe vinham à cabeça. E nada de uma reação do homem.
Começou a desesperar-se. Jogou-se contra as portas e estapeou com toda a força o vidro das janelas - tudo o que conseguiu, todavia, foi quebrar uma unha. Encheu várias vezes os pulmões e várias vezes gritou por socorro. Interrompeu-se ao notar que os vultos lá fora iam aos poucos perdendo velocidade. (Já estava em meio a um matagal bastante distante da cidade). O carro foi desacelerando gradativamente, até parar com um leve solavanco. A noiva ouviu o motorista praguejar algo e em seguida o barulho do freio de mão.
O homem se moveu e Jéssi fitou-o atentamente. Ele levou a mão enluvada ao chapéu e arrastou-o sem pressa, como se fizesse suspense para uma revelação – coisa que sem sombra de dúvidas fazia. Acompanhando a extração do chapéu, uma cascata de cabelo longos, loiro-prateados, caiu graciosamente pelos ombros do uniforme. O motorista virou-se lentamente para trás, baixando os óculos escuros e revelando um inconfundível rosto de mulher.
- O-O QUÊ?
Na igreja, o tema dos cochichos mudara de "quem são aquelas loiras?" para "a Jéssi tá atrasada, né, menina?" e em seguida para "porque essas loiras estão tão alegres?". A primeira gota de suor escorria pela testa de Shaka e ele tentava esconder que suas pernas tremiam.
Ótimo, já tenho convidados... mas, agora, cadê a noiva?
O conhecimento do antigo costume de se atrasar das noivas conseguia, na medida do possível, tranqüilizá-lo; mas ele não sabia até quando. Lyra e Faye já haviam chegado à igreja e, embora não demonstrassem, estranhavam o fato de a filha ter saído logo após as duas e ainda não ter chegado.
- Localize-a – disse Faye de repente.
- Ok. – Lyra respondeu, levando dois dedos à têmpora. Uma ruga delineada em sua testa foi resposta suficiente pra Faye.
- Problemas.
- Sim. – suspirou - Devemos nos preocupar?
- De jeito nenhum. Será a provação.
O padre Kamui, que já havia deixado a sacristia e jazia sentado numa luxuosa cadeira num canto do altar, acompanhava discretamente a conversa das rainhas, e de forma singela pensava: "mas de que diabos elas estão falando???" Seu escrav... coroinha, ficava ao lado, abanando-o com um grande leque.
- Energúmeno, você chama isso de abanar? Abane que nem gente! – disse o padre impaciente.
- Tudo bem, padre... - ofegou o garoto - desculpe.
O motorista, que revelara ser uma mulher, saiu pela porta da frente. Jéssi estava aflita; mil pensamentos assaltavam-na a todo o momento e ela sentia medo. Pensou ouvir uma vozinha vinda do lado de fora e então aguçou os ouvidos para entender o que dizia.
- Alvo capturado nas coordenadas x-486, y-963, capitã Blondsnake.
E uma voz eletrônica em resposta:
- Entendido, tenente Loreal-2. Mas porque não a trouxe até aqui?
- Alguma incapaz esqueceu que carros precisam de gasolina, capitã Blondsnake.
- Hum... ok. Estamos a caminho.
Jéssi fez uma careta de espanto ao ouvir a conversa. Seria um seqüestro? Mas por que capitã? Tenente? O que diabos significava aquilo?
Ouviu passos se aproximando. A loira dobrou o corpo e entrou no carro. Apoiou o cotovelo no encosto da poltrona e pôs-se a observar Jéssi pela divisória de vidro, como um caçador observa um espécime raro recém-capturado.
- Tsc-tsc, achou realmente que ia se casar com Shaka, querida? – desdenhou.
- Que-quem é você? E como conhece meu noivo?
- Loreal-2. Tenente Loreal-2. Mas apenas por enquanto. Depois dessa captura acredito que serei promovida a Loreal-1. – disse isso com um brilho ambicioso nos olhos. – E como conheço seu noivo?
Ela puxou um cordão de dentro da blusa e apertou contra o vidro um crachá com um número e uma foto de Shaka piscando um olho.
- Sou a integrante número 95 – disse noventa e cinco com orgulho, como fosse uma posição relevante – do Grande Harém de Shaka. Harém que, por sinal, ele mais uma vez "abandonou" em função de um (argh) casamento.
Jéssi ficou boquiaberta, os olhos saltados, sem acreditar. O noivo já citara algo sobre um antigo harém, mas não dissera que ainda existia e que havia tantas amantes. Noventa e cinco? Como alguém poderia ter noventa e cinco amantes? E pior: nonagésima-quinta parecia ser uma colocação importante.
- Por sua causa o grande amo Shaka quis mais uma vez nos abandonar ao vento. Veja só, abdicar de todas nós para ficar só com você. Lastimável... – mediu Jéssi com uma careta teatral – Nossa sorte foi general Botan ter entrado em nossas vidas... mostrado que não deveríamos entregar Shaka para outras, assim, de mãos beijadas. E também...
A loira engasgou-se ao notar que os olhos assustados da noiva começavam a faiscar.
- General... quem?
- General Botan. – mediu-a com estranheza - Por acaso lhe é familiar?
A noiva não respondeu. Então quem estava por trás de tudo era Botan, sua querida sobrinha. Tão meiga e inocente. Que morava no mesmo castelo que ela, comia da mesma comida e recebera o mesmo treinamento. Sua sobrinha havia mandado seqüestrá-la, só para afastá-la de Shaka.
- Hunf, que diferença faz, afinal... – a loira deu de ombros, e contemplou as unhas impecáveis.
- Os outros casamentos do Shaka... as noivas que desapareceram...
A loira riu com vontade.
- Sim...
- Tudo obra da... Botan?
- General Botan. E chega de perguntas.
Jéssi não conseguia acreditar. O que Botan ganharia fazendo isso? Será que... também era amante de Shaka? Sua própria sobrinha, amante do seu noivo? E tentando livrar-se da tia por causa ele? A torrente de pensamentos começou a atordoá-la, e ela achou que seria melhor refletir sobre tudo em outra ocasião, quando estivesse menos próxima de enlouquecer. Por ora deveria focar os pensamentos num meio de se livrar daquela situação.
- Vai ficar aí? – perguntou à loira, tentando transmitir indiferença.
- Aham. Tenho a desagradável tarefa de vigiar você até que venha a capitã Blondsnake.
- Blondsnake?
- É. A executora.
A executora?, estarreceu-se Jéssi, Então pretendem... me matar? Mas como...? A noiva conteve um implacável impulso de levantar-se e tentar destruir tudo ao redor, sem se importar se iria ou não conseguir fazê-lo, mas de qualquer forma entregando-se por completo ao desespero. Especulou que sua atitude iria apenas divertir a loira, e morrer ao som de risadas seria algo ruim.
Fechou os olhos e tentou se concentrar. A primeira imagem que lhe ocorreu foi uma curva isolada, transformando-se num semicírculo e então num círculo completo. A metade rosa e a metade negra surgiram girando em seu interior, formando um yin-yang. Imediatamente lembrou-se do amuleto Rosa e Sanguinário que...
Não trouxe comigo! – lembrou-se, tateando incrédula o busto, e o pensamento veio como uma bola de ferro em sua cabeça. Por um mero capricho, não trouxera o amuleto que tantas vezes salvara-lhe a vida, e que novamente o faria ali, sem a menor dúvida. Como pôde ser tão descuidada?
O ímpeto de ceder ao desespero cresceu; realmente era o fim da linha, nada mais parecia capaz de restabelecer suas esperanças...
Ou não.
Flashback
Há muito tempo, em algum lugar e por alguma ocasião, a grande sacerdotiza do clã Rainhas Sanguinárias, Pai Faye, seguia por uma estrada contemplando seja o que for que uma mulher superior como Pai Faye contemplaria, quando um monge Shaolin surgiu na estrada indo na direção oposta. Quando o monge e a sacerdotiza se cruzaram, Pai Faye, numa prova inexplicável de generosidade, acenou levemente com a cabeça para o monge, mas o aceno não foi correspondido. Será que o monge Shaolin quis insultar Pai Faye? Ou apenas não viu seu gesto generoso? Os motivos do monge são desconhecidos até hoje. O que se conhece são as conseqüências.
Na manhã seguinte, Pai Faye foi ao templo Shaolin e exigiu que seu abade-mor oferecesse a própria cabeça a Pai Faye para pagar pela afronta. Primeiro, o abade tentou consolar Pai Faye até perceber que Pai Faye estava inconsolável. Assim teve início o massacre do templo Shaolin e dos seus 60 monges pelas mãos da Rainha Sanguinária e sua benga.
Esta fora a história que Jéssi ouvira durante toda a infância sobre sua pai, Faye. Era, sem dúvida, uma mulher respeitável e temida, e saber-se sua filha enchia Jéssi de orgulho.
Pai e filha quase não tinham contato, contudo: maior parte da idéia que Jéssi fazia de sua pai vinha realmente das histórias extraordinárias que outros lhe contavam. Pai Faye passava a maior parte do tempo num templo no alto de um cume no ponto mais afastado da cidade, dedicando-se a ensinar aos seus pupilos – cada membro da família Mundo Rosa e Sanguinário –, quando atingiam determinada idade, todos os segredos das artes marciais, ownais e bengais, como rezava a tradição da família.
"Não questione Pai Faye. Não fale em português com Pai Faye. Não fale em chileno com Pai Faye. Enfim, não fale com pai Faye. E lembre-se: ela não gosta de você." Foi o que disseram a Jéssi um dia antes de a menina partir para o templo no cume e iniciar seu treinamento.
Ao chegar ao último degrau da imensa escadaria, ofegante, Jéssi contemplou a visão de Pai Faye sentada em posição de lótus sobre uma rocha, empunhada de sua bengala, observando-a solenemente. Pai e filha se entreolharam por um momento que pareceu durar todo o tempo passado desde a última vez que haviam se visto, a vários anos atrás. Jéssi ponderou, ante as feições graves da Pai, que não teria a recepção calorosa que a princípio idealizara. Estava mais do que certa.
- Quem é você? – disse Pai Faye, impassível.
- J-Jéssi, sua filh--
- Não te disseram pra não falar comigo??
- M-Mas, é que você...
- Não me questione!!!
Jéssi olhou-a confusa e temerosa. Viu naqueles olhos sanguinários que tudo seria muito mais difícil do que imaginara, nada nem próximo do mar de rosas que era a convivência com Mãe Lyra e o resto do Mundo. E novamente descobriria estar certa.
No dia seguinte, Pai Faye deu início ao treinamento colocando à sua frente uma grossa placa de madeira, com o que seria a pintura de uma Hello Kitty em seu centro.
- Quebre a Hello Kitty. – foi só o que disse.
Jéssi deu o primeiro soco. Retraiu a mão com o grito de dor.
- É muito espessa! – alegou.
Pai Faye deu-lhe uma bengalada no cocoruto.
- Quebre a Hello Kitty!
Jéssi olhou vacilante de Pai Faye para a Hello Kitty, esfregando a cabeça. Desferiu outro soco, igualmente dolorido e igualmente inútil contra a placa. Caiu de joelhos acariciando a mão.
- Inútil...
Pai Faye empurrou Jéssi para um lado e, com um único e certeiro soco, fez um verdadeiro rombo no lugar onde estivera a Hello Kitty. A aprendiz observou com espanto.
- Odeie-a e depois destrua. – disse Pai Faye - Poderá ir embora quando conseguir fazer isso... – e saiu, dando-lhe uma última bengalada na cabeça.
Os dias se seguiram. Enquanto não esmigalhava a mão tentando destruir a Hello Kitty, Jéssi dava voltas ao redor do cume carregando baldes de água nas costas. Às vezes, quando era da vontade da mestra, também carregava Pai Faye nas costas, para que esta pudesse admirar a paisagem.
À noite, Jéssi costumava ir até uma beirada do cume para contemplar a rede iluminada que era a cidade. Olhando as luzes do castelo, perguntava-se o que seus irmãos e primos estariam fazendo naquele momento, no calor da companhia mútua e de Mãe Lyra. Era quase insuportável pensar que deveria se privar daquilo, que teria que comer o pão que o diabo amassou nas mãos de Pai Faye até conseguir destruir a Hello Kitty.
E ela sabia que não conseguiria cumprir tal façanha. Destruir a Hello Kitty seria o mesmo que destruir o que havia de rosa em si mesma. E, de toda a família, com exceção de Mãe Lyra, ela era a que possuía a aura mais predominantemente rosa.
Foi numa dessas noites que Jéssi recebeu sua absolvição. Pai Faye aproximou-se, enquanto ela se perdia em pensamentos observando a cidade, e apenas disse em tom compreensivo:
- Seu treinamento acabou. Você não foi feita para isso. Pode ir.
Jéssi partiu na manhã seguinte. Não havia concluído o que havia vindo fazer ali, afinal, mas algo lhe dizia que não havia sido de todo em vão.
Fim do Flashback
Jéssi focou o olhar em Loreal-2. A loira continuava a observar as unhas despreocupadamente.
Odeie-a e depois destrua.
Cerrou as mãos com força, ignorando as marcas de unha que deixava nas palmas.
Odeie-a e depois destrua.
De repente não havia mais carro; Jéssi estava diante da placa de madeira e a estampa do rosto da loira.
Odeie-a e depois destrua.
A noiva odiou o rosto da mulher e sentiu-se perfeitamente capaz de destruí-la.
Odeie-a e depois destrua!!!
CRÁSSSS!!!!
A espessa divisória de vidro partiu-se em mil pedaços ante o soco de Jéssi. Seu punho não se interrompeu no primeiro obstáculo, todavia; prosseguiu e atingiu em cheio o nariz na loira. O sangue esguichou e salpicou o pára-brisa. A loira caiu para trás, sobre o painel, desacordada.
- Não foi em vão, Pai Faye... não foi em vão.
Jéssi atravessou a área onde estivera a divisória – algumas partes do vestido desfiaram-se nas pontas de vidro – e conseguiu por fim respirar o ar lá fora, saindo pela porta da frente. Pegou Loreal-2 pelos pés e arrastou-a para fora do carro. Quando a loira colidiu com o chão, algo que estava preso ao seu cinto caiu. Era um comunicador.
A noiva pegou-o e entrou novamente no carro. Girou a chave de ignição e partiu, dando meia volta para retornar à cidade. Então pegou o comunicador e pressionou um botão. A mesma voz eletrônica de antes se projetou do fone.
- À escuta, Tenente Loreal-2.
Jéssi ficou em silêncio.
- Tenente Loreal-2? Algum problema?
- Diga a Botan que irei matá-la.
