II
Após uma noite que foi pouco menos do que o inferno literal seria, Catherine levantou-se da cama e foi fazer a sua higiene íntima. Ainda doía, ainda sentia em sua própria alma o toque daquela violação. Mas, para continuar vivendo, teve de enrijecer a alma e cumprir o seu papel.
A partir daquele dia, era a dona de casa da propriedade do marido. Foi escoltada para lá assim que a manhã surgiu. É claro que teria de dividir o cargo com a mãe dele, que provavelmente seria uma sogra terrível, mas mesmo assim já faria uma série de coisas.
Seus primeiros meses de casada serviram para sedimentar aquela alma fria e vazia que ela sentiu começar a ter após a primeira noite com o marido. A partir de então, já não chorava mais. Já não pedia mais a Deus um destino diferente, ou ainda a morte. Já não pedia mais nada; agia como um autômato sem propósito.
Não reagia às provocações da sogra; apenas fazia o que considerava ser o seu papel, sem questionar o porquê. Bloqueou seu cérebro e sua mente a fim de não haver o que sofrer. E, é claro, todas as noites seu marido cumpria seus "deveres de esposo" e ela neste quesito também obedecia. Na hora em que ele a penetrava, era quase como se estivesse dormente e sem funções vitais; sentia um nada muito grande, como se sua alma estivesse em qualquer outro lugar que não ali. Ao menos a compensação, se é que poderia ser chamada dessa maneira, vinha por ele ser rápido e sem maiores "delongas": subia sobre ela, a penetrava até atingir o orgasmo e dela se separava sem dizer coisa alguma.
Com o tempo, a jovem Catherine foi conhecendo as damas de companhia da propriedade do marido. Eram moças, algumas já nem tão moças, e outras já senhoras. Todas muito animadas, festeiras e frívolas: arrumar-se para os jogos de tavolagem e bailes era tudo que pareciam saber fazer. Algumas, além disso, eram parideiras das melhores: um filho por ano, e ainda se orgulhavam disso.
Catherine era chamada de "Cathy" e era a mais nova do grupo. Algumas, mais velhas, ainda não eram casadas (fato que transparecia pelos cabelos soltos, típico das donzelas) e só sabiam falar em arrumar um marido. As já com filhos e donas de propriedade, gostavam de discutir gestão doméstica, roupas e filhos. "Cathy", desses assuntos todos, só sabia discutir gestão do lar... pois as roupas pouco lhe importavam, dado que sua beleza natural já era muito grande, e filhos ela ainda não tinha. As mulheres adoravam apostar quando Catherine apareceria grávida.
No início animada porém logo sentindo que a vibração daquele grupo simplesmente não era a dela, logo foi se isolando. Principalmente porque com o passar dos meses não ficava grávida, e porque quando as solteiras se retiravam, as casadas gostavam de falar de sexo, como se fosse um "delicioso pecado". Algumas, por incrível que parecesse, eram felizes com os maridos na cama, e Catherine não entendia como, se para ela era tudo tão horrível. Simplesmente falar em cópula a enojava, dado que lembrava sempre de sua defloração, e então passou a ficar mais sozinha do que com as famigeradas "damas".
A partir de então, ficou conhecida como a "Dama de Ferro". Parecia uma mulher inteligente, terrena porém acima de todas aquelas moçoilas ou senhoras com "conversas de mulher". Catherine sabia muito mais como conversar com os homens e um dia mesmo se atreveu a falar abertamente sobre assuntos masculinos com os senhores da corte, o que ofendeu e ultrajou a muitos.
Ao ver o comportamento atrevido da mulher, James esperou chegar ao quarto para lhe dar uma surra. E deu, ao que ela ficou quieta, mas prometeu em seu íntimo se vingar. Parecia que aquela surra havia despertado em si sua subjetividade outra vez, e de repente parou de agir apenas como autômato sem vontade.
A vida assim passou por cinco anos. Administração do lar, encontros fúteis com as damas e donzelas; as donzelas casavam, engravidavam, pariam... e ela nada de gerar uma criança, embora o marido cumprisse o dever de "procriador" todas as noites sem falta alguma, até mesmo quando ela estava menstruada. A mãe dele, na frente de Catherine, lhe aconselhava a arrumar outra mulher e devolver aquela "infértil" para a casa dos pais dela. Catherine se exasperava: era terrível viver com aquela sogra-víbora e com o marido insaciável e mesquinho, mas ao menos já havia se acostumado àquela vida de "senhora"; caso fosse rejeitada, os pais a tratariam como pária e mulher imprestável, sem contar que nenhum homem quereria casar consigo mais: viveria o resto de seus dias num convento ou em casa como "a mulher que não gerou filhos".
Felizmente para ela, a sogra não concretizou seus objetivos, dado que ela era hábil em lhe ajudar a administrar os assuntos dos feudos e o marido gostava dela na cama, posto que fosse uma infértil e sequer se mexesse quando ele estava com ela, tal qual estátua de mármore. Mas era bela, portanto sua vaidade se acendia ao pensar nisso...
A sogra, com o tempo, ficou doente. A tal varíola, que já havia atingido ao filho e agora atingia a ela, veio de maneira avassaladora. Cumprindo seu dever de nora, Catherine supervisionou os cuidados com a saúde dela, mas em seu íntimo desejou a morte da mulher... pois se assim fosse, subiria de status e seria a única dona da casa. Isso ocorreu quando Catherine contava com vinte anos de idade e seis de casada.
Ainda tendo um resto, muito fugaz, de consciência cristã, foi à igreja se confessar especialmente para aquilo. Preparou as aias, dado que uma "mulher de respeito" jamais saía sozinha, e foi ao confessionário. O padre, surpreendentemente, era o mesmo de seis anos antes.
- Perdoa-me padre, porque pequei.
O sacerdote reparou que era a mesma donzela daquele dia, a qual ele não conseguira esquecer. Agora já estava mais mulher, a curva dos seios mais desenvolvida sob o vestido...
- Por que pecaste, minha filha? Diga-me: casaste, como queriam teus pais?
- Casei, padre. Mas... conviver com minha sogra é um inferno – sussurrou, como se apenas dizer aquilo fosse um pecado muito grande.
- Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria à expiação de reclamardes da mãe de teu marido e fique em paz, filha.
- Padre... ela está doente. Mortalmente doente. Provavelmente morre este mês ainda.
- Então reza a oração dos mortos por tua sogra.
- Padre, eu a desejo morta!
- Minha filha! – o padre se exasperou. Olhou repentinamente nos olhos daquela mulher, os quais estavam embaixo do véu típico que se usava para ir à igreja, e se assustou com o desejo demoníaco – Não desejes semelhante coisa. Reza pela passagem da alma dela. Reconcilia os maus ânimos agora, antes de ela partir.
- Padre, eu não consigo engravidar. Eu tenho ódio de não conseguir engravidar!
Algumas lágrimas desceram furtivas pelo rosto de Catherine.
- Reza também, minha filha. Reza, para que possas gerar este fruto em teu ventre. A propósito, teu marido... ele te procura?
- Procura... todas as noites.
- O problema então só pode ser teu ventre. Reza, minha filha, reza que tudo isto se resolve.
O padre persignou Catherine e ela foi embora. Não havia adiantado de nada! A culpa era sempre sua... vida maldita a de ter nascido num corpo de mulher!
Naquela noite, a mãe de James pareceu piorar outra vez. O rapaz, então com vinte e dois anos e uma vontade imensa de gerar herdeiro para a casa, falou com a mulher sobre arrumar uma concubina que o fizesse, já que Catherine não o fazia nunca.
- Vá! Faz o que quer!! Afinal, do que sirvo eu, além de vaso para teu sêmen?!
E foi chorar, desolada, em seu quarto.
OoOoOoOoOoOoO
Em apenas uma semana, a mãe de James morreu. Antes de partir, confessou os pecados ao sacerdote, pediu proteção espiritual ao filho e... um herdeiro, o qual ela jamais veria. James sequer chorou a morte da mãe. Apenas esperaria passar o período de luto para arrumar as coisas para a concubina.
No dia da extrema-unção, o padre Martin desejou falar a sós com Catherine, a qual já vestia preto pelo luto. Como era sacerdote e celibatário há muitos anos, James não desconfiou dele. O padre foi até o escritório de Catherine e a chamou, fechando a porta.
- Minha filha, lembrei de ti quando tua sogra pediu, em seu leito de morte, um herdeiro.
Catherine permaneceu em silêncio. Ela era ainda mais bela a si sem o véu da igreja...
- Pois bem, filha: é provável que o problema de tua infertilidade possa ser o marido...
- James? Mas... por que James?
- Ora, filha... já consumaste ato sexual com algum outro homem em tua vida?
- Não...
- Pois então! Como saber se o problema é ele ou tu? Pode ser ele... por isso, te aconselho algo: por que não... te deitas com um homem, assim, branco como teu marido... e gera o herdeiro como se fosse dele? Ninguém vai ver a diferença, filha... faz a última vontade de tua sogra!
- Padre, eu odeio fazer sexo...! Odeio fazê-lo com meu marido, que dirá com outro homem! E como um servo de Deus me admoesta a fazer uma coisa dessas...?
- Minha filha... Sara também deu a Abraão a sua serva, para que gerasse uma criança no lugar dela! Não é verdade?
- É verdade... mas neste caso a mulher, o "vaso sagrado", sou eu... não devo me dar a outros desta maneira!
- Qual vaso sagrado, minha filha... o "sagrado" é gerar descendentes, para que tudo continue!
Catherine viu, com medo, no olhar do padre, a mesma centelha de desejo que James apresentava quando queria deitar-se com ela...
- Padre Martin... o senhor...
- Nisto pode estar a esperança para o futuro da casa de teu marido...
Ele acariciou de leve o rosto da jovem Condessa... havia pensado muito no que faria a respeito daquele desejo que sentia sobre a mulher de James, mas resolvera ceder... afinal, quantos sacerdotes não cediam e nada lhes acontecia? E além do que... ele não sabia o que era possuir uma mulher há mais de trinta anos!
- Padre, não...! – Catherine se afastou , percebendo claramente as intenções dele.
- Não adianta fugir, filhinha... a porta está trancada. Teu marido deixou a chave comigo...
Ela engoliu em seco. Como ele poderia confiar as chaves a um sacerdote estranho, e não a si, que a partir de então era a dona da casa?!
- Teu marido está longe, Catherine – continuou ele - Foi preparar o enterro de sua mãe... e os criados não a ouvirão nesta sala distante do centro do castelo!
Mesmo assim, desesperada, Catherine gritou e bateu na porta, tentando abri-la sem sucesso. Padre Martin a tomou com violência e a deitou sobre o chão do escritório.
- Vamos, filhinha... se com aquele camarada bexiguento não é tão difícil, por que seria comigo? Sei que sou velho, mas sou mais bem-apresentado do que aquele paspalho que te arrumaram como marido.. hein?!
Ela se debatia, como da primeira vez. E se lembrava em como foram inúteis seus esforços de resistir. As mãos frias e grosseiras de padre Martin deslizavam pela túnica de Catherine, procurando seus seios...
- Que mulher bonita... como pode não gerar descendência?! Anda, menina... com um padre não se perde a virtude!
Ela gritava, mas ninguém a ouvia. Tentava bater no sacerdote, mas ele parecia ser um homem bem forte a despeito da idade... forte como um cedro, que com o passar dos anos só revigora. O padre, aliás, já se sentia rígido o suficiente para penetrá-la, e não hesitou mais. Abriu as pernas dela com o peso das suas, afastou com certa dificuldade as saias que usava e logo sentiu... a caverna do amor, a cavidade da fresca, jovem e bela Condessa. Um frêmito de desejo o invadiu e então penetrou o local quente, estreito e úmido de uma só vez.
Catherine gemeu de dor, tentando se libertar. Martin a prendia pelos braços, a túnica dela meio afrouxada mostrando parte dos seios. O membro dele doía nela... não tanto quanto a primeira vez, mas doía, pois estava nervosa...
Talvez pelos anos sem conhecer mulher, o padre parecia estar com mais desejo do que o próprio James. Penetrou-a sem parar, com entusiasmo e um vigor que o rapaz de 22 anos parecia não ter, e deleitou-se naquele prazer tão reprimido por anos a fio. Sentia-se um vencedor por subjugar uma mulher linda daquelas à cópula, mesmo que à força.
Com o tempo, Catherine aquiesceu e fez como fazia com James: parecia já não estar mais lá. Era inútil resistir, então se sentiu fora do corpo outra vez. Quando Martin atingiu o orgasmo, derramando nela mais do que James sempre parecia derramar, o padre caiu em si e pensou: "Que foi que eu fiz? Quebrei os votos que por mais de três décadas cumpria, por Deus!"
Nervoso, com raiva da mulher e de sua beleza, saiu de dentro dela e arrumou a batina.
- Escuta! Se disseres a alguém o que se passou entre nós, ninguém vai acreditar em ti, mulher ruiva e com jeito de bruxa. Calada! E se gerares um filho, agradeça a Deus por eu ter desejado algo que não era para ter desejado, porém ter trazido um descendente à tua linhagem.
Sem virar as costas, temendo que ela levantasse e jogasse algo do quarto em sua cabeça, o padre Martin abriu a porta e foi-se pelos corredores, sempre olhando para ver se ela o seguia.
Catherine ainda demorou para recobrar os sentidos, mal que estava. Ao levantar, tentou decidir o que fazer... se denunciava o padre ao marido, por menos que ele acreditasse, ou ficava quieta...
Foi ao lavabo fazer sua higiene íntima, o corpo ainda parecendo estar separado da alma. E naquele período de luto, não teve coragem de contar o que quer que fosse ao marido...
To be continued
OoOoOoOoOoO
(22/02/10) Mais um capítulo revisado. Este não tinha tantos erros, apenas dois, mas mesmo assim betei. Obrigada a quem lê!
