New Orleans 7 de setembro de 1945
A cidade estava em festa, afinal no dia 02 de setembro, a Casa Branca recebera a carta de rendição dos japoneses. A Guerra estava ganha. Depois de comemorarem a vitória prematuramente duas vezes, a população estava receosa, mas desta vez era verdade: Os Aliados venceram. A paz iria reinar novamente, nossos filhos, irmãos, maridos e amigos voltariam pra casa.
Jensen estava feliz e ao mesmo tempo a tristeza lhe abateu com a lembrança de que não tinha podido servir seu país por conta da maldita asma. Seu pai com certeza tinha vergonha do fraco que ele era, já que ele serviu na 1ª Guerra, e seu avô havia sido General. E ele? Um inútil que não conseguiu ir nem como enfermeiro, já que por conta do nervosismo, sua asma atacou bem no dia em que todos na cidade estavam sendo recrutados.
- Já não basta eu ser um inútil que não conseguiu nem concluir a faculdade de medicina ainda tenho que envergonhar meus pais sendo um fraco não servindo ao meu país.
-Falando sozinho, Jens? Perguntou Chris Kane, amigo-patrão de Jensen.
-Pensando alto apenas, ele respondeu.
Jensen trabalhava no Bourbon Disc, a loja de música de Chris Kane. Após a desilusão de não conseguir servir na Guerra, Jensen se mudou de Dallas, Texas para New Orleans a fim de tentar carreira como músico, sua verdadeira paixão. Mas as coisas não saíram do jeito que ele imaginou. Assim como 90% daqueles que sonham trabalhar com música, Jensen se viu perdido, sem dinheiro e incentivo, e o mais próximo que ele conseguiu de ser músico foi se apresentar de quando em vez no Bali Club, um bar frequentado por negros, amantes do jazz. Bar este que pertencia a Mrs. Margareth Evans, mãe adotiva de Chris. Uma negra forte, inteligente, mãe de dois filhos, além de Chris, Jacob e a pequena Alice. Ela tinha fama de feiticeira, mas Jensen sabia que isso era uma bobagem, ela apenas era religiosa e sabia ler bem as pessoas. Bom, isto era o que ele achava.
Perdido novamente em seus pensamentos, Jensen pensou na apresentação que teria hoje no Bali Club, já que a cidade estava em festa por conta do fim da guerra. A música era sua paixão, sempre que Jensen subia no palco, nem que fosse pra tocar pra apenas 2 pessoas, era o momento em que ele se sentia completo, feliz, em paz. Ele se esquecia daquela dor em seu peito, daquela saudade de alguém que ele nunca conhecera. Porque boa parte do tempo ele sentia a falta de alguém... mas quem? Ele não conseguia explicar, ele sabia que algo estava errado. Certa vez, Mrs. Margareth lhe disse que as respostas às suas perguntas apareciam em breve.
Sua musa inspiradora era Billie Holiday. Ele a amava incondicionalmente. Se identificava com as canções dela, com a voz suave e ao mesmo tempo forte que ela possuía. Tinha tido a chance de vê-la cantar, quando fez uma breve viagem à Nova York. E todos os dias, antes de dormir e ao acordar, ouvia seus discos. Ultimamente, a música The Man I love, era sua preferida. Jacob havia zombado dele por conta disso, ele dizia "Justo a música em que ela fala do homem que ela ama, qual é Jens, estou lhe estranhando" mas Jensen não ligava, afinal o que importava era a sensação de paz que a música lhe transmitia.
Era seu horário de almoço, então Jensen resolveu que iria se encontrar com Jacob para discutir a playlist de hoje. Pegou as chaves do carro velho que tinha (herança de seu avô) e saiu na rua.
Estava uma confusão, gente comemorando, bebendo, homens beijando mulheres. Muitos policiais tentavam conter os ânimos, mas eles mesmos comemoravam junto com a população.
-Só me faltava essa. Não posso voltar tarde, senão Chris me mata. Já basta o fato de eu ter chegado atrasado novamente. Não sei porque o Chris não fechou a loja como foi recomendado pelas autoridades, aquele sovina...
Distraído em seus pensamentos, Jensen dobrou a esquina e avistou Jacob, acenando pra ele. Ele parou e mandou o outro entrar.
- Que confusão, não? Jacob lhe disse.
-Nem me diga. Mas ainda bem que lhe encontrei, quero discutir a playlist do show de hoje.
-Ok, vamos almoçar lá em casa, longe desta confusão toda. –disse Jacob.
Jensen concordou e saiu com o carro. Ao tentar desviar das pessoas excitadas que atrapalhavam o trânsito, ele entrou em uma rua mais vazia, acelerando o carro. Foi então que o acidente aconteceu.
-Meu Deus, o que eu fiz? Jensen tremia em frente ao volante ao notar que havia atropelado um homem.
-Jensen! Ei, cara, precisamos coloca-lo no carro agora! Jacob disse desesperado.
-O que? Precisamos é de uma ambulância! Será que ele está morto? – Respondeu Jensen, atordoado.
Jacob foi o primeiro a sair do carro, e ao se certificar que o rapaz respirava, começou a levanta-lo do chão a fim de coloca-lo no carro. Um homem negro, atropelando um homem branco, não era a melhor coisa pra acontecer. E não adiantaria Jensen confessar, até que se provasse o contrário, Jacob teria levado uma surra da policia, ou até mesmo teria sido morto.
Jensen demorou uns segundos pra se recompor e sair do carro a fim de ajudar Jacob a socorrer o rapaz. Ao se aproximar deles, e olhar para o rosto do jovem que aparentava ter uns 25 anos, Jensen sentiu seu coração disparar e o ar começar a fugir de seus pulmões. Uma forte dor em seu peito, misturada com uma emoção indescritível se formava em seu coração.
-Jens, pelo amor de Deus, não vá ter um ataque de asma agora! Jacob estava gritando, nervoso.
Mas Jensen não podia evitar. Ele ficou hipnotizado, seu corpo não reagia da maneira que ele queria. Era como se todas as suas emoções estivessem misturadas e sendo sentidas ao mesmo tempo. E aquela saudade, aquela falta de alguém, tudo estava preso no rosto daquele jovem que ele acabara de atropelar.
Foi então que Chris Kane surgiu do nada. Jensen não conseguia raciocinar, não estava ouvindo nada, só via as bocas de Jacob e Chris se mexendo. Viu quando eles colocaram o rapaz no banco de trás do carro. Quase não sentiu os braços de Chris o puxando e o colocando no carro também. E ao sentar ao lado do rapaz desacordado, a emoção de Jensen foi tão forte, que ele desmaiou.
New Orleans, 7 de setembro de 2012
Os alunos do 4º ano do ensino fundamental olhavam receosos para o professor que parecia mais atuar do que dar aula. Na verdade ser professor de crianças de 10 anos é ser um pouco de cada coisa e atuar para fazê-los entender a importância da data era uma das facetas que ele usava.
- E então, a Guerra chegou ao fim e toda a cidade ficou em festa! As pessoas saíram nas ruas pra comemorar, cantando, pulando, se abraçando! Jared pulava, enquanto tocava uma alegre música no violão.
-E como é que você tem certeza, Mr. Padalecki? Você não tava lá! Disse Tommy, o aluno mais travesso da sala.
-Na verdade, eu tenho um grande amigo que me contou tudo em detalhes. - Respondeu Jared.
-Quem? As crianças perguntaram curiosas.
-O meu melhor amigo. O livro! Livros nos contam tudo, toda a história de nosso país e do mundo!
-Mas e o computador? Tem o google também ué! - Disse Tommy, com um sorriso no rosto.
-O google só sabe de tudo porque quem escreveu lá, leu todos os livros antes! -Respondeu Jared, e logo em seguida o sinal tocou e as crianças saíram apressadas e alegres.
Jared amava dar aulas para crianças. Elas eram sempre surpreendentes e sinceras, e isso era algo que o fascinava. História Geral e Americana eram suas especialidades e a data de hoje era especial. O dia em que a 2ª Guerra terminou. Deve ter sido um dia muito alegre... Jared pensou.
Ele era um rapaz sorridente e muito querido por todos. Filho único de Gerald e Sherrie Padalecki, Jay, como era conhecido, foi um filho superprotegido até os últimos dias de vida de sua mãe, que falecera 5 anos antes, vítima de um enfarto. Jared era muito apegado a ela, e sofreu demais com sua morte. Seu pai também faleceu, ele foi uma das vítimas do furacão Katrina. Seus pais eram sua única família, e desde que eles faleceram, ele passou a contar apenas com seu melhor amigo, Zach.
Quando criança, Jared tinha um pesadelo recorrente. Sonhava que ele e sua mãe morriam vítimas de tiros em casa. Desde os 10 anos que Jay não tinha mais estes pesadelos, mas sempre que ouvia qualquer barulho parecido com tiros, se assustava, como naquela vez, na faculdade...
FlashBack On
Jared estava no primeiro ano de faculdade, e morava no Campus junto com Zachary Levi, um nerd doido, viciado em quadrinhos e videogame. Jay notou logo de cara que eles seriam grandes amigos, Zach era ingênuo, e deslumbrado com a atmosfera da faculdade.
-Jay, vai ter uma festa do pessoal da Fraternidade e todos podem ir... vamos? Zach estava praticamente implorando.
-Não sei Zach... não gosto muito deste pessoal da Fraternidade. São um bando de idiotas, arrogantes, playboys que se acham melhores do que os outros.
-Mas Jay, tem as garotas! Todas estarão lá, dando sopa, bebendo... vamos! Por favor! Ficamos só um pouco, eu prometo!
- Ok! – Jared respondeu, resignado- mas ficaremos só um pouco, amanhã tenho que terminar uma pesquisa.
Na verdade Jared não conseguia negar um pedido de seu amigo, e realmente, ele precisava se distrair um pouco, afinal de contas estava na faculdade, era solteiro e ir a uma festa poderia ser uma experiência agradável.
Só que não foi. Como Jared já havia previsto, a festa estava cheia de playboys e patricinhas que não fizeram nada além de esnoba-los, principalmente à Zach, sempre que tentava se aproximar de alguma garota. Drogas e bebidas por todo lugar e a inevitável briga coletiva que se iniciou sabe-se lá por quê.
-Zach, vamos sair daqui agora! –Jared puxou o amigo pelo braço a fim de sair da casa.
Correria, gritaria e de repente o tiro. Alguém pegou uma arma e deu um tiro para o alto. Jared congelou. Sua respiração falhou e ele sentiu uma forte dor no peito. Medo. Pavor. Gritos. Jared viu o rosto de sua mãe, chorando, implorando, rezando para que ele vivesse, para que ela vivesse. Jared viu os bandidos entrando em sua casa e atirando.
-Jay! JAY! Olha pra mim! Respira! Abra os olhos, por favor! SOCORRO! Alguém me ajuda!
Jared ouviu a voz de Zach bem longe, como se fosse um sussurro, e então silêncio e escuridão.
FlashBack Off
Falando em Zach, lá vinha ele, com um sorriso no rosto. Ele também era professor na mesma escola que Jared. Dava aulas de informática.
-E aí garotão! Tudo bem? O que acha de sairmos e vermos se desencalhamos hoje?
Sorrindo, Jared respondeu: -Zach, estou cansado, vou pra casa descansar.
-Qual é Jay! É sexta-feira! Você precisa se divertir um pouco. Eu passo no seu apartamento às 8hs. Esteja pronto.
-Tudo bem, você venceu! Até porque não adianta discutir com você. - Jared respondeu, se rendendo.
Ao sair na rua, a primeira coisa que Jay fez foi ligar seu Ipod e colocar as músicas de Billie Holiday. Ele amava aquela cantora. A voz dela lhe trazia calma, paz. Jared lamentava não poder ter tido a chance de vê-la cantar pessoalmente. Sempre que ouvia suas canções, sentia como se se conectasse com alguém... era uma loucura de sua mente. Nenhuma de suas antigas namoradas gostava de Billie Holiday. Aliás, ele não conhecia ninguém que gostasse.
Namoradas. Já fazia 8 meses desde que seu namoro com Genevieve havia terminado e desde então ele não havia ficado com ninguém. Ele não tinha sorte no amor. Nunca havia realmente se apaixonado por ninguém. Tinha medo de nunca encontrar o amor verdadeiro, afinal, já estava com 25 anos e nada. Sempre que ouvia Billie, e suas canções tão cheias de paixão, se perguntava como ele conseguia se identificar tanto com algo que nunca havia sentido.
The Man I love. Esta era sua música preferida no momento. Ele nem ousava dizer isso à Zach. Ele vai rir muito de mim, aquele bobo. Ele pensou.
Estava tão distraído com seus pensamentos, que não percebeu quando o carro surgiu do nada e o atingiu em cheio na calçada. Não sentiu nada. A última coisa que se lembra é dos versos da música que ouvia: "He'll take my hand and though it seems absurd, I Know we both won't say a word." (Ele vai segurar minha mão e embora pareça absurdo, eu sei que nós dois não diremos uma palavra).
