Crawling
Capítulo 2
"Um suave grilhão"
Mada REAL to IDEAL no hazama ni ite
(Mesmo que eu ainda esteja no vale entre o real e o ideal)
Gisei no kase ni ashi wo toreratemo
(e meus pés estejam presos por correntes de sacrifícios)
Ahureru shou dou wo osae kirenai
(Minhas inundações de impulsos não foram totalmente reprimidas.)
Tsuioku motomeru kokoro ga arukara
(Porque eu tenho um coração que pulsa fervorosamente)
Draco trincou os dentes sentindo a face arder de humilhação. Não sabia o que fazer: continuar com a farsa e passar a noite fingindo que era Submisso de Potter ou mandar a missão à merda e voltar para a segurança da Mansão...
Então lembranças fortes inundaram sua mente. Imagens de sua mãe, deitada naquela cama, de onde nunca se levantaria, porque trocara a própria vida pela sua. Devia isso a ela. Sabia que Narcisa não pensaria duas vezes antes de fazer qualquer sacrifício pelo filho que tanto amava. Nem mesmo humilhar-se diante de Severus. Ou do Lorde das Trevas.
Draco devia aquilo à ela. Não podia estragar a última chance. Por sua mãe.
Só precisaria esquecer a humilhação, e tentar ignorar o fato de que teria que andar com aquela... Aquela... Coisa em seu pescoço. Tinha que admitir que a Coleira era feita de um material extremamente macio, e ele mal a sentia em contato com a pele... Porém mesmo assim, era difícil! Era mais do que humilhante. Faria Potter pagar caro por aquilo.
O faria pagar por aquilo mais tarde, quando a noite acabasse. Porque naquele momento era prioridade seguir com a missão. Mesmo que significasse bancar o cachorrinho do Cicatriz por algumas horas.
Fazendo um esforço sobre humano, o ex-Slytherin colocou a antiga máscara de indiferença no rosto, e ignorou Torrance e seu sarcasmo divertido. Os olhos cinzentos fixaram-se em Harry com mal disfarçada hostilidade.
- O que está esperando? Não tenh... Temos a noite toda.
Harry devolveu o olhar de uma maneira penetrante. Por um segundo o moreno pareceu ficar em dúvida, mas a mesma logo se dissipou e Harry seguiu em frente, depois de acenar para Al Torrance.
O grandalhão passou a língua pelos dentes incisivos várias vezes, enquanto observava os dois adentrarem o pub. Assim que a porta se fechou, Al guardou sua varinha e voltou lentamente para o posto de observação nas sombras do Libertinus.
- Eu acho que já sei o fim dessa história... - murmurou com tristeza antes de ser engolido pela escuridão, sem se dar conta de que falara em voz alta.
HPDM
Draco piscou várias vezes para se acostumar com a penumbra. De fora, o pub parecia mais iluminado do que realmente era. Eles estavam em um espaço relativamente pequeno, clareado por quatro tochas dispostas nos quatro cantos. Havia duas portas, uma negra e branca. Ambas fechadas. Pouca coisa se podia dizer do pub tendo somente aquela visão.
- Este é o hall de entrada. - Harry esclareceu com ares de quem sabe tudo. - Libertinus tem vários ambientes, mas ainda não consegui acesso a todos nesse tempo em que o freqüento.
O loiro olhou surpreso para Harry. Havia muita coisa que gostaria de perguntar. Era uma descoberta atrás da outra. Ah, se o Mundo Bruxo soubesse que o Garoto Que Venceu freqüentava um lugar suspeito de ser o cenário de mortes misteriosas...
Vendo que Draco ia começar a interrogá-lo, Harry ergueu uma mão e meneou a cabeça.
- Aqui não, Draco. Os freqüentadores não devem começar por aqui - a afirmação veio seguida de um olhar significativo. Draco entendeu: a sala devia ser monitorada por feitiços especiais. Claro. Só por isso não reclamou por Potter continuar usando seu primeiro nome. - Venha comigo.
Harry avançou e seguiu para a porta branca. Abriu-a e o Libertinus revelou-se aos olhos de Draco. O loiro tinha que admitir que o lugar era luxuoso. Ambos entraram em um local grande, com cerca de vinte mesas todas bem afastadas umas das outras. Velas brancas flutuavam pelo salão, iluminando-o, mas deixando algumas sombras estratégicas. Música bruxa muito suave ecoava no local, de forma tão relaxante que Draco se perguntou se faria parte de algum feitiço...
Toda a decoração era sombria, de um jeito estranho. Talvez cada centímetro do pub estivesse sob efeito de algum feitiço. O fato é que Draco começou a baixar suas defesas quase inconscientemente. Sem perceber estava relaxando e deixando sua guarda cair.
Ao fundo havia um longo balcão que, assim como as mesas, era feito de madeira caríssima. Prateleiras logo atrás exibiam inúmeros tipos de bebidas, bruxas e Muggle. Havia um bruxo simpático limpando o balcão.
No salão, Draco contou mais ou menos quinze pessoas, todas sentadas em duplas ou em trios. Não teve tempo de prestar muita atenção nelas, pois Harry lhe fez um sinal indicando uma mesa mais ao canto, afastada das demais. As cadeiras eram confortáveis, grandes e forradas de veludo negro.
Assim que se sentaram, o bruxo do balcão acenou com a varinha e uma garrafa de Firewhisky apareceu sobre o tampo da mesa que era de mármore cinzento, junto de dois copos ricamente trabalhados. A garrafa era enfeitiçada, pois se moveu sozinha e encheu ambos os copos.
Mas Draco não prestou atenção nisso. Os olhos cinzentos estavam arregalados e fixos na mesa mais à direita de ambos, onde um homem estava confortavelmente sentado, com as costas apoiadas na cadeira e a cabeça jogada displicente para trás.
Draco notou como a garganta dele se movia, quase como se o homem estivesse gemendo loucamente. Ou melhor, o loiro tinha certeza de que ele gemia e ofegava loucamente, apesar de não poder ouvir os sons. Em seguida, viu que as mãos do homem sumiam suspeitamente debaixo da mesa, mas entre intervalos de segundos um topo de cabeça com cabelos escuros se deixava ver no meio das pernas do cara.
Draco ficou chocado. Imediatamente o Auror voltou-se para o companheiro e fixou os olhos arregalados nele.
- Potter... Potter... Aquele cara... Está... - não conseguiu terminar a frase.
- Exatamente. Recebendo sexo oral. - o moreno afirmou como se fosse a coisa mais normal do Mundo Bruxo, para maior espanto de Draco. - Aquele é Ruterford. Se não me engano a garota entre as pernas dele deve ser Mira. Ruterford tem três Submissas. Mas nunca traz as três numa mesma noite. Pela cor dos cabelos só pode ser Heloísa Mira.
Harry pegou o seu copo e bebericou um gole do Firewhisky, fazendo um gesto para que o Auror fizesse o mesmo. Draco observou e mostrou-lhe uma careta desgostosa, respirou fundo para recuperar a voz.
- Eu não bebo em missão. - A verdade é que o loiro parara de beber desde que se tornara Auror a cerca de um ano atrás. Potter não precisava saber daquilo.
- Beba, Malfoy. Você está com cara de quem precisa de um gole...
O loiro não queria beber, mas imediatamente pegou o copo e virou todo o Firewhisky de um único gole, fazendo Harry se divertir. A garrafa enfeitiçada moveu-se no ar e encheu o copo vazio. A bebida era de primeira classe. Do jeito que agradava ao paladar exigente de um Malfoy.
- Potter, que porra de lugar é esse? O que está acontecendo aqui? E o que diabos você faz nesse pub? - Draco começou a notar os outros casais. Havia um homem que era acariciado por duas mulheres ao mesmo tempo. Do outro lado, duas bruxas estavam num amasso nada discreto. Ao centro do salão um bruxo quarentão acomodava uma bruxa muito jovem no colo. A garota estava sentada de frente para ele e movia os quadris de uma forma que quase fez o loiro corar ao deduzir o que acontecia e era escondido pelo tampo de mármore da mesa - Não sou nenhum inocente... Mas... Isso é obsceno!
Harry sorriu e passou o dedo pela borda do copo de modo pensativo.
- Certo, Malfoy. Você pode me fazer algumas perguntas. Mas deixe-me lhe explicar tudo o que sei sobre o Libertinus.
Satisfeito com a aparente boa vontade do antigo inimigo, Draco encostou-se na cadeira, e evitando olhar na direção de Ruterford ou de qualquer outro casal, pegou seu copo e tomou um gole devagar.
- Como você já percebeu, o Libertinus é um lugar de Mestres e Submissos, onde tudo pode acontecer. As coisas são liberadas aqui. Ele foi criado de acordo com uma prática mais ou menos comum entre os Muggle. - nesse ponto Draco fez cara de "tinha que ser", mas Harry fez de conta que não viu - Os mestres são reconhecidos pelo Bracelete. Os Submissos pela Coleira. A Coleira de um Submisso é sempre igual ao Bracelete de seu Mestre. Aliás, sabe porque o meu é vermelho?
Draco sorriu debochado.
- Claro. Você era de Gryffindor. Lógico que seria vermelho. Vermelho e dourado.
A última frase veio carregada de tanto sarcasmo que fez Harry girar os olhos parecendo entediado.
- Não seja estúpido, Malfoy. Os Mestres são divididos em cinco níveis diferentes. Cada nível é representado por uma cor: todo Bracelete dos Mestres de nível 01 são vermelhos. E cada Mestre do nível 01 pode ter apenas um Submisso.
Mais interessado, Draco inclinou-se para frente e apoiou os braços na mesa.
- Quais são os outros níveis?
- Laranja para o segundo. Amarelo no terceiro. Verde para o quarto nível. E azul para o quinto e último. Ruterford está no segundo nível. Por isso pode ter três Submissos. A partir do segundo nível é possível comprar e vender Submissos.
- O que? Fazem tráfico de bruxos aqui?
- Sim. As regras são claras: se você tem dinheiro para pagar, e o Mestre está disposto a vender... Mas não é a única forma de conseguir Submissos. A partir do nível dois, um Mestre pode fazer desafios e ao mesmo tempo ser desafiado.
- E como funcionam esses desafios? - Draco perguntou enquanto bebia mais um pouco.
- Eles dificilmente acontecem aqui, nessa sala. Somente na Sala Ébano, aquela porta preta do Hall. Mas apenas Mestres e Submissos acima do nível três têm acesso a ela.
- Potter, como conseguiu entrar aqui? - era a pergunta que Draco mais queria fazer.
- Um... Amigo me me presenteou com um convite. O convite é dado apenas aos futuros Mestres. Cada Mestre dispõe de um único convite. Por isso existem mais Submissos do que Mestres. Quando se passa para outro nível, um Mestre ganha Bens de Direito, mas não convites.
- E esses... Bens de Direito são os Submissos?
- Exatamente. - Harry assentiu satisfeito por Draco ter aquela clareza de pensamentos.
- Então o que seria o Único Dever? Amar você até a morte? - debochou, incapaz de poder conter-se.
O moreno ficou subitamente sério. Deu um longo gole na bebida e esperou que a garrafa se movesse e enchesse seu copo e reenchesse o copo de Draco para depois afirmar com voz muito grave:
- Me obedecer até a morte.
Draco abriu a boca tamanha foi a surpresa de ouvir aquilo. Em seguida começou a rir sem parar.
- Malfoy... - Harry alertou.
- Grande Salazar... Eu? Obedecer você? - Draco tentava dizer entre as gargalhadas - Nem em seus sonhos, Cicatriz.
Sem se deixar abalar, Harry continuou: - Não pode usar sua magia aqui dentro. A Coleira lhe impedirá se tentar. Vai perceber que um Submisso não tem direito algum, por isso não crie confusão com outro Submisso e se um Mestre se meter com você nunca revide. Não caia na provocação de ninguém. Apenas um Mestre pode brigar com outro Mestre, entendeu?
- Não seja ridículo. - Draco explodiu - Acha que eu vou levar essa farsa adiante? Não, obrigado. Você não terá o gosto de me ver desfilar por aí com essa coleira. Conseguirei todas as informações que eu puder e sairei desse caso.
- Abaixe o tom de voz, Malfoy. Alguém pode ouvir.
Draco ficou muito indignado. Não queria obedecer, no entanto ameaçou diminuindo o tom de voz: - Não me dê ordens, Potter.
Harry tamborilou os dedos sobre o mármore, sem dar resposta ao aviso de Draco. Mais calmo, o loiro resolveu seguir com o interrogatório:
- O que mais você sabe sobre esse pub? Quem é o dono? Desde quando o freqüenta?
- Coisas estranhas acontecem aqui, Malfoy. Mas não assassinatos. Quero dizer, não aqui dentro. E é isso que você e Ron estão investigando, não é?
Draco aborreceu-se novamente. Claro que Potter devia estar sabendo de tudo o que acontecia no departamento. O melhor amigo dele trabalhava no setor. E ele próprio vivia com o narigão metido no Ministério. Ele era o Garoto Propaganda... Com certeza ouvia todos os boatos que circulavam pelos corredores, por isso estava tão bem informado sobre o caso do Libertinus.
- Não se irrite, Malfoy. Não quero atrapalhar sua investigação. Não percebeu que estou até colaborando?
A raiva de Draco sumiu como um passe de mágica. Potter tinha razão, fato que despertou ainda mais a curiosidade do loiro. Até agora, apesar dos pesares, e da situação insólita, ambos estavam conversando até mesmo de forma civilizada.
Logo eles, que foram terríveis inimigos em Hogwarts, e depois seguiram por lados opostos. Mesmo quando Draco conseguira fugir da masmorra onde estivera preso e viera se juntar à Ordem da Fênix, eles não tiveram uma maior aproximação. Pelo contrário: ambos procuravam se evitar de qualquer maneira, a todo custo.
Harry parecia pensar igual ao loiro, pois uma expressão nostálgica atravessou as feições já não tão infantis do Garoto Que Venceu. Pensando bem, Draco podia ver uma maturidade assustadora naquelas íris esmeraldas. Uma maturidade diferente da que sabia exibir em seus próprios olhos cinzentos.
O ex-Gryffindor parecia mais como alguém que vencera uma guerra sozinho, o que não era de todo falso, e que apesar da vitória não encontrara a paz procurada. Potter ainda procurava por paz?
E qual seria o problema daquilo? Draco também buscava por paz. Estava lutando por poder ter uma vida, deixar o passado e todos os seus erros para trás. As vezes era difícil, outras nem tanto. Porém, nunca era fácil. Mas ele tentava. E naquele segundo, Draco se deu conta de que Potter também tentava.
Com um suspiro, Draco esvaziou o resto de seu Firewhisky. Nem procurou reclamou quando a garrafa voltou a enchê-lo. Percebeu apenas que a mesma nunca se esvaziava. Qual seria o feitiço usado?
Subitamente cansado, insistiu: - Não respondeu minhas perguntas, Potter.
Harry desviou os olhos. Também parecia muito cansado daquilo tudo.
- O dono do Libertinus se chama Warren Monroe. Creio que seja sueco. Apesar de ser o dono tem apenas uma Submissa. Uma garota chamada Morgan. Não sei o sobrenome dela. Warren vem ao Libertinus todos os sábados.
- Monroe? Não conheço... É puro sangue?
Harry deu de ombros. - Desde que comecei a freqüentar o Libertinus, dois Submissos morreram. Nenhum aqui dentro. Todos nas casas de seus Mestres. Pelo que ouvi falar em St. Mungo não foram envenenados, não sofreram nenhum ferimento visível. Suspeitou-se da Imperdoável de Morte, mas as características das mortes são diferentes.
Draco teve que admitir que Harry estava bem informado. Conhecia muita coisa do caso em questão.
- Foi isso que atrapalhou a investigação - afirmou com a voz arrastada. Harry ficou em dúvida se era o velho tom Malfoy ou apenas efeito da bebida - enquanto o Lord das Trevas estava vivo, o Ministério acreditou que toda morte misteriosa era obra dele e de um belo Avada Kedavra. Agora que não tem mais um maníaco para culpar, e as mortes continuam, o Ministro tem que admitir que errou.
- Exatamente. Voldemort morreu. Esses Submissos não foram vítimas da Avada. É preciso investigar.
- Por isso eu estou aqui. Não se meta no caso. Você não é um Auror.
- Não. Não sou um Auror.
- Mas que merda de homem é aquele? - a mudança brusca de assunto confundiu o moreno - Potter, estamos conversando todo esse tempo e já perdi a conta de quantos orgasmos aquele Ruterford teve! Ele é um bruxo normal, por acaso? E não me diga que a Mirta não se cansa! Ela simplesmente está ali, chupando o cara e engolindo tudo?
O moreno quase riu. Em primeiro lugar, desde quando existiam bruxos normais? Em segundo lugar, não notara que Draco vigiava o casal ao lado, sentindo-se incomodado.
- O nome dela é Mira. Aqui no Libertinus eles vendem poções muito especiais, Malfoy, que melhoram o desempenho de um bruxo, ou de uma bruxa. E um Submisso não se cansa, se não for a vontade de seu Mestre.
- Isso é doentio, Potter! - Draco levantou-se da cadeira - Pra mim chega, já vi o bastante.
- Espere, Malfoy.
Draco ia se afastando, mas estacou: - O que foi? Não vou agradecê-lo por essa noite miserável.
- Está chamando atenção. Não pode ir embora antes de mim, são as regras.
- Então levante-se daí, porque eu estou indo embora.
- Sente-se. Eu queria lhe fazer uma pergunta... Não acha justo, já que você me fez tantas?
Draco não queria sentar-se, mas obedeceu. Começou a sentir-se meio idiota por deixar que Harry lhe fizesse uma pergunta. Se fosse em outra época, nem se preocuparia com isso, daria as costas e sumiria. Porém Draco não era o mesmo de outra época. Harry também não era... Malfoy sabia que devia isso ao moreno. Apesar de não o agradecer, admitia que sem o ex-Gryffindor nunca teria entrado ali.
- O que quer saber, Potter?
Harry manteve os olhos fixos no copo que apertava com ambas as mãos, fazendo Draco franzir as sobrancelhas. Com voz baixa, Harry declarou:
- Nunca compreendi porque salvou Ginny aquele dia...
O loiro ficou tenso. Sem que pudesse impedir imagens terríveis da época negra de sua vida inundaram-lhe a mente. Todo o horror que presenciara nas masmorras de Voldemort vieram de uma única vez, deixando-o tonto e nauseado. Presenciara muita coisa, fora testemunha de acontecimentos dolorosos, que ninguém devia jamais presenciar. Ou sofrer...
Naquela época que deixara de ser um garoto de dezesseis anos, e fora arrancado da inocência infantil que ainda guiava seus passos. Tornara-se mais uma vítima da tragédia que apenas a guerra podia gerar.
- Fugir das masmorras eu entendo, Malfoy. Mas porque fugir levando Ginny? Porque carregar alguém que seria apenas um fardo? Não estou recriminando o que fez, pelo contrário, nunca esperei que fosse capaz de algo tão corajoso. Você salvou alguém importante para mim. A trouxe de volta. Só... Não compreendo... Porque?
Ao fim da pergunta, Harry olhou fixamente para Draco, como se pudesse arrancar-lhe a resposta daquela pergunta. O loiro não conseguiu encarar o ex-Gryffindor por muito tempo. Desviou os olhos para o lado. De repente Ruterford já não incomodava. Era como se nem o enxergasse mais, deixando-se perder em memórias dolorosas.
- Eu... Precisava de uma garantia, Potter, de que me aceitariam do seu lado - Draco se ouviu dizendo. E Harry não acreditou nele. Nem Draco acreditou em si próprio. - Foi só isso. - mal se ouvia a voz do loiro.
- Malfoy... Olhe pra mim... - Harry pediu, e como se hipnotizado, Draco obedeceu. Ambos se encaram por muito tempo, antes do moreno resolver insistir - Eu sei que não é verdade. Diga-me, Draco, porque salvou Ginny? Havia outros prisioneiros... Centenas deles... Podia chegar com qualquer um e seria aceito pela Ordem da Fênix. Receberia proteção. Porque se arriscou justamente por uma Weasley?
Draco não queria responder aquilo. Nunca responderia.
Quando se deu conta, estava confessando, com um tom tão sombrio, que causou arrepios em si mesmo e em Harry: - Você nunca vai saber, Potter, o que é ser um prisioneiro daquele bruxo maldito. Nunca saberá o que vi e ouvi... Ou o que vivi. Eu estava lá, ao lado da cela dela. Presenciei dia após dia... E garanto: queria não ter presenciado. Não gosto da Weasley. Jamais gostarei dela ou de qualquer outro Weasley, mas... Mas... Ela era a preferida dos Comensais. Eles tinham mais ódio dela do que de qualquer outro...
Malfoy pareceu perder a voz, enquanto cobria os olhos com uma das mãos. Harry entendeu o que ele quis dizer.
- Eles odiavam Ginny porque achavam que era uma traidora do sangue? - Draco acenou concordando, sem coragem de falar - E você esteve lá o tempo todo? Na cela ao lado?
Novamente o loiro acenou.
- Foi por isso que a tirou de lá, Malfoy? - Harry não pôde conter a admiração na voz. Desde que ouvira que Malfoy salvara Ginny Weasley pouco antes do fim da guerra, aquela dúvida o atormentara terrivelmente. Elaborara tantas teorias, e nenhuma o satisfizera. E nenhuma chegara tão perto da verdade nua e crua: Draco a salvara porque ele também era humano.
- Não salvei uma Weasley. Acredite, Potter. Naquele momento ela era apenas uma garota, mais jovem do que eu, e que estava sofrendo mais do que eu. E eu sabia que ela não merecia... Ver aquilo quebrava meu espírito dia a dia, estava me destruindo também. E se quer mesmo saber, fugir somente não me bastava. Eu tinha que sair de lá e trazê-la comigo. Pra provar a mim mesmo que era diferente daqueles... Daqueles monstros.
- Desculpe por perguntar... - Harry falou baixinho. Draco tinha razão em uma coisa: ele nunca saberia o que era estar em uma das masmorras de Voldemort. Já caíra nas garras dele durante o quarto ano, mas não era a mesma coisa de estar preso em uma cela, totalmente dependente da insanidade do bruxo mais temido de todos os tempos.
Poucos sabiam o que era ser prisioneiro de Voldemort e sobreviviam para contar. Dois daqueles poucos eram Draco Malfoy e Ginny Weasley. Ambos estavam vivos. No entanto não escaparam ilesos. Harry sabia que Ginny fora destruída por tudo o que sofrera. E descobria naquela noite que Malfoy também tinha marcas profundas.
- Quando ela chegou, eu fiquei feliz. – Draco continuou num fio de voz - Porque até então eu era o preferido. O Malfoy Que Falhou. Sempre soube que minha mãe tentava de tudo para que o Lord das Trevas me perdoasse, mas ele não era alguém que esquecia fácil. Então de repente havia uma Weasley ao lado. E as Cruciatos não eram mais lançadas em mim... Nem os feitiços e azarações...
Draco calou-se. Harry permaneceu em silêncio. Podia ver a dor que o jovem sentia expressa em seu rosto, ainda que ele mantivesse os olhos cobertos com a mão.
- Pouco a pouco algo mudou. Não era tão bom ficar sentado no fundo daquela cela, tentando me esconder nas sombras e tendo que ouvir os gritos dela. Eu não estava mais tão alegre, era... Horrível, horrível, horrível! - desesperado, Draco descobriu os olhos e agarrou o copo, bebendo o Firewhisky como se pudesse receber algum alívio do álcool. - Não sei quando aconteceu... Um dia eles simplesmente perceberam que havia outras formas de fazer uma garota sofrer...
Draco ainda não encarava Harry, e o moreno agradecia, porque ele também não tinha coragem de encarar de volta. Mantinha os olhos distantes...
- Era muito pior do que a Imperdoável... os gritos delas ficaram diferentes... Então tinha os gemidos deles... todo aquele... E eu ali, vendo, ouvindo... Sentindo...- o loiro cerrou as mãos sobre a mesa com tanta força que os nós ficaram brancos. - E a Weasley nunca chorava depois de uma Cruciatos. Nunca chorava depois dos feitiços. Mas chorava depois daquilo...
Talvez as palavras saíssem tão espontaneamente graças a ajuda do álcool. Ou quem sabe Draco apenas precisasse dizer uma das coisas que o atormentara a tanto tempo. Fosse qual fosse o motivo, as palavras simplesmente saíam, sem que o loiro as pudesse controlar:
- Se deixasse os Comensais a destruírem completamente diante dos meus olhos, eu estaria permitindo minha própria destruição. Vê, Potter. No fundo, eu estava salvando a mim mesmo.
O ex-Gryffindor não respondeu. Tivera a resposta que tanto buscava. Entendia as razões do loiro, mas aquilo não o deixara feliz. Tanto sofrimento... Tanta dor... E no meio daquilo tudo os dois jovens, Ginny e Draco. E outros. Muitos outros.
- Sinto muito, Malfoy.
Ouvindo a afirmação sincera, Draco torceu os lábios. - Não sinta, seu Gryffindor de merda. Cada um colhe o que planta. E não permito que tenha pena de mim. Não precisei de sua ajuda para sair de lá. Não precisei de sua ajuda para seguir em frente. Só não entendo porque confessei tudo isso a você. Não era da sua conta, Potter.
Então Harry pareceu ganhar novo ânimo. Sentou-se muito ereto na cadeira e olhou de maneira significativa para Draco. Decidira que era hora de explicar mais profundamente o que o Único Dever significava.
- Draco, você é meu Submisso agora. Não me chame de Potter.
O loiro riu baixinho zombando de seu 'mestre'.
- Não sonhe que vou chamá-lo de Mestre ou Senhor. Nem mesmo em seus mais belos sonhos, Harry...
O 'Harry' saiu de forma tão natural e espontânea que Draco quase não percebeu. Quase. Ele ainda era Draco Malfoy, que tornara a passagem de Harry por Hogwarts um verdadeiro inferno. Jamais chamaria o outro pelo primeiro nome.
Com os olhos arregalados, Malfoy ficou em pé, derrubando a cadeira no processo. Vários bruxos olharam na direção deles.
- Harry... Maldito! O que você fez comigo? É um feitiço? Grande Salazar... Você me manipulou a noite inteira! Eu te disse que não queria beber e você me fez beber. Esteve me mandando ficar calmo e falar baixo a noite toda e eu obedeci - a voz do loiro aumentava a cada palavra - Eu respondi a sua pergunta, sendo que não queria responder e... E... Nunca o chamaria de Harry se não estivesse muito bêbado ou enfeitiçado! - a voz diminuiu na última frase.
Sem perder a pose, Harry ordenou: - Pegue sua cadeira e sente-se. Eu deixei de mencionar um pequeno detalhe... Demorou pra notar, Malfoy.
Imediatamente Draco obedeceu. Arrumou a cadeira e sentou-se muito tenso nela. A consciência de tudo o que acontecera ainda mexia com seus sentidos, deixando-o meio anestesiado.
- O que é isso, Harry? Um feitiço? É uma Imperdoável?
- Não. Não estou usando Imperium. - afirmou Harry com a voz controlada - Eu te disse, Malfoy, o Único Dever de um Submisso é obedecer todas as ordens de seu Mestre.
Com a boca seca e o coração disparado, Draco levou a mão até a Coleira. Buscou uma presilha para poder abri-la, mas não encontrou nada. A peça era inteiriça, não havia um feixe ou um botão que pudesse abrir.
- Não conseguirá, Malfoy. - Harry explicou ao deduzir a intenção de Draco - Eu nunca pude tirar meu Bracelete. Você nunca tirará a Coleira. O Bracelete e a Coleira formam um vínculo impossível de ser quebrado. Estamos vinculados, essa é a verdade por trás do Libertinus.
- Harry... - Draco engoliu em seco, simplesmente não conseguia chamá-lo de Potter - Porque permitiu isso? Por Mordred... Tem que ter um jeito de arrancar essa Coleira!
Os olhos verdes de Harry observavam Draco tatear os dedos pela Coleira, tentando desesperadamente retirá-la.
- Eu não podia me vincular a Ron. Você entende, ele e Hermione receberam um vínculo recentemente, nunca funcionaria com ele. Eu precisava testar algumas coisas, afinal, é por isso que me infiltrei no Libertinus. Demorei todo esse tempo para usar meu Bem de Direito porque não podia simplesmente transformar qualquer um em meu Submisso. Minha consciência nunca permitiria.
A medida que as palavras de Harry penetravam em sua mente, Draco ia ficando cada vez mais pálido. Seu rosto era só olhos. A boca aberta, amedrontada e branca.
- Mas em você eu posso usar, Malfoy. Não hesitei um segundo em nos vincular e torná-lo meu Submisso. Foi muito propício por que meu tempo está se esgotando.
- Harry... Seu... Desgraçado!
- Não está feliz? Não precisa se preocupar com mais nada. Só em usufruir seu Único Dever... Tipo... Não precisa me amar até que a morte nos separe. Apenas me obedecer. Me obedecer até que a morte nos separe...
Draco sentiu como se um abismo se abrisse a seus pés. Por um segundo ele tremeu, porque as Trevas que o envolveram eram frias. Mais frias do que a cela na masmorra de Voldemort.
E em sua mente Draco sabia: ele temia muito mais o que enfrentaria daqui para frente do que tudo o que vivera no passado. Mas, se preocuparia com isso depois. Agora queria apenas desmaiar em paz.
Harry Potter inclinou a cabeça quando Draco perdeu os sentidos e desabou sobre a mesa. No fim das contas fora uma reação melhor do que esperara. Suspirando, pegou seu copo e o ergueu, em um drinque solitário.
- Bem vindo ao Libertinus, Draco Malfoy. E à minha vida...
Harry & Draco
4ever
O trecho desta vez é da música de encerramento de um anime chamado Death Note. Muito bom. O melhor lançamento dos últimos tempos.
Gostaria de agradecer as pessoas que estão acompanhando este humilde presente que fiz pra Samie. Muito obrigado a vocês, que, além de ler, ainda deixaram reviews: Gaby M. Black (obrigado pelo comentário. Você verá que é apenas a ponta do Iceberg...), Polares (essa fic terá ainda muitos mistérios... confie!), Bella Potter Malfoy (Sem palavras para agradecer. Despertei sua curiosidade, né? Não se preocupe: todas as perguntas terão respostas... em breve...), Bru (rs, concordo plenamente. Esses submissos relutantes são de longe os melhores! Valeu pelo review!), Eri (Sim! Harry ruleia! Mas não tanto quanto Draco. Pode deixar, vou fazer de tudo para não atrasar a atualização.), Larissaaa (Não se preocupe: a fic vai Ter um fim. Rs. Não vou deixá-la às traças!), Lady Ying Fa (Obrigado pelo review! Mais uma fã ardorosa do Menino de Ouro, né?), Lili (Rs. Esse não era bem um projeto. De repente a fic surgiu na minha cabeça e bloqueou todas as outras...), Tixa-chan (Os mistérios serão revelados de pouco em pouco... segura o coraçãozinho!), Jeniffer Malfoy (Hum... o Dray ainda passa por poucas e boas antes do fim... se prepara, moça...), Maaya M. (Draco de coleira é responsabilidade total da Samie! Ela que surgiu com isso nos nossos e-mails...rs...), Sarih (Ei! Sei que foi maldade minha, mas é que as vezes não controlo meu lado Slytherin, rs. Valeu pelo review!), Samantha (o que posso dizer? Você foi o motivo da fic. Me emociona que tenha gostado. TE ADORO!), Dana Norram (ç.ç Oi! Espero que não se decepcione com o que vem por aí! Vou fazer de tudo pro nível apenas melhorar. Palavra de Felton Blackthor.), Nicolle Snape (Por um segundo pensei que não gostasse do estilo. Sorte que foi apenas uma conspiração do FFNET. Obrigado pelo comentário!), Karla Malfoy (Harry em lugares suspeitos... fazendo coisas suspeitas... deixando seu lado Slytherin falar mais alto... hum... resumindo: irresístivel... rs), Lis (Obrigado pelo review! Esteja a vontade no Libertinus... apenas cuidado com quem te convida... rs...) e Lindsey Lestrange (Ah... eu queria escrever um anust. Deixarei toda a comédia por conta das outras fics. Gomen.)
A quem passou por aqui e por um motivo ou outro não pôde deixar review... agradeço de coração. E desejo que continuem acompanhando a história.
