Capítulo Dois
Eu conheci Jeff na sexta, e durante o sábado e o domingo nós nos conhecemos mais e mais. Nós progredimos como uma casa em chamas, por que ele tinha guitarras, um monte delas. Próximo a TV, havia um cavalete de guitarras, segurando quatro elétricas e uma acústica, e próximo a isso, havia um amplificador, com mais botões e cabos do que dentro da cabine de um avião. Ele me disse que eu poderia usá-las quando quisesse, por que eu não consegui trazer as minhas. Eu meio que estava intimidado pelo modo dele tocar, então eu nunca as usei na frente dele.
-Então, você já fez algum outro amigo, Pierre? – Seb me perguntou no domingo, ele tinha saído bastante conosco esse final de semana, me atualizando nas fofocas da escola.
-Não, ainda não. Eu não vi realmente alguém por aí.
Ele sorriu gentilmente.
-Você deve fazer outros amigos amanhã, quando as aulas começarem. Você vai ter mais chance de se misturar com as pessoas. Se não, nós te apresentamos para alguns outros amigos nossos, certo, Jeff?
-Yeah, claro. – Jeff disse; ele estava se olhando no espelho no lado de dentro do seu armário. Eu não sabia realmente por que, era como se ele estivesse examinando o cabelo que ele não tinha.
Eu havia conseguido dormir bem nas duas últimas noites. Apesar de sua aparência, Jeff não roncava. No domingo a noite, entretanto, eu fiquei me virando a noite toda, preocupado com o próximo dia; Tim Armstrong estava se tornando um incomodo superior.
O pai de Seb havia aparecido no domingo à tarde para me entregar o horário das aulas, um mapa e um pequeno cartão, que declarava que eu era um aluno interno, então eu não tinha que pagar pela minha comida – isso era parte do pacote da minha matricula, alguns alunos iam para casa todos os dias e pagavam por seu almoço.
Os horários pareciam simples o bastante no papel, mas quando a manhã de segunda-feira chegou, eu saí da cama em um incrível estupor sonolento, procurando por entre meu armário, lutando para encontrar cada parte do meu uniforme. Eu não estava temeroso sobre vesti-lo, por que eu já tinha experimentado em casa e ele parecera bom em mim. Jeff riu quando eu não consegui fazer o nó da minha gravata; meu pai havia, relutantemente, a feito para mim quando eu estava em casa.
-Precisa de ajuda? – Jeff perguntou, tendo feito seu nó rapidamente, com uma precisão prática. Eu assenti e o deixei dar o nó para mim, resistindo à urgência de escorar minha cabeça no peito dele e dormir. Ele prometeu que me ensinaria a dar nó na gravata mais tarde.
Enquanto eu fazia meu caminho até a minha primeira aula, depois de tomar café da manhã sozinho no refeitório – Seb sempre comia muito cedo e Jeff nunca comia de manhã –, meu nariz estava enterrado no mapa, esperando que a proximidade à versão desenhada da escola, fosse me ajudar a localizar a sala onde minha aula de química seria dada. Era no prédio Oeste, sala 206.
O fato de todos estarem vestidos da mesma maneira não era fácil para meus olhos cansados, que estavam ardendo. Os blazers e camisas se misturando em um pálido borrão. Tudo o que eu sabia era que a sala era no segundo andar e que ia para o lado direito do corredor. Seb tinha repassado meu horário comigo e me deu os caminhos mais curtos para cada uma das salas.
Eu passei os primeiros minutos da minha primeira aula andando pelo segundo andar, olhando para os números das portas e nunca encontrando o 206. Na minha quinta viajem de volta, um homem que eu assumi ser um professor, colocou a cabeça para fora da porta da sala, me perguntando quem eu era e o que estava fazendo.
-Eu sou novo aqui, eu não consigo achar minha sala. – eu me senti patético.
-Quem é seu professor?
Eu coloquei minha mão dentro do bolso do meu blazer, procurando pelo meu horário, e uma vez que o encontrei, eu o olhei e achei o nome.
-Uh... Senhor Holbrook? – eu ergui minhas sobrancelhas levemente, incerto se ele saberia sobre quem eu estava falando, mas ele sorriu, seu bigode se torcendo um pouco.
-Essa é minha aula, pode entrar. – ele gesticulou para dentro e eu sorri um pouco, com um suspiro aliviado, ele não estava bravo por eu estar atrasado.
Ele parecia ser bastante legal, ele era baixinho e gordinho, sua barriga redonda pendurada sobre seu cinto e enfiada sob sua camiseta. Usando óculos fundo de garrafa, seus olhos pareciam grandes e salientes, mas ele tinha um rosto gentil. Ele me lembrava minha avó, desarrumado e excêntrico, com cabelos castanhos fofos saindo pelas laterais de sua cabeça como um Albert Einstein mais novo.
-Eu estou montando os pares de laboratório. – ele informou. – Você não perdeu muito.
O resto da classe estava alinhada na parede da sala, olhando para mim, enquanto eu me juntava ao final da fila. O Senhor Holbrook começou uma caminhada animada, andando até a frente da sala, como se estivesse se preparando para fazer um discurso importante.
-Agora... – ele começou. – Eu acredito que vocês todos tiveram um ótimo verão em casa, se divertiram, beberam... – ele pausou, rindo para si mesmo. – Transaram. Eu não me importo com o que vocês fizeram, mas agora é escola, não vai haver bobeira na minha aula. – ele fez uma pequena viajem até entre as bancadas, correndo seu olhar da esquerda para a direita, nos inspecionando, dizendo para alguém ajeitar sua gravata. – Eu escolhi os pares de vocês, já que ano passado, quando vocês escolheram, não deu muito certo – ele olhou para o par de garotas a minha esquerda, que coraram, claramente embaraçadas. – Eu não me importo se vocês não aprovarem minhas escolhas, mas não haverá mudanças de pares, então é melhor se acostumarem. – ele andou de volta até a frente da sala, indo para trás de sua mesa e pegando um pedaço de papel, onde eu achei que ele tinha posto o nome dos pares.
Conforme ele ia lendo a lista e determinando bancadas, algumas pessoas comemoravam e outras gemiam e reclamavam, sentando tão longe de seu par quanto suas bancadas permitiam. Eu olhei ao redor e fiquei surpreso com a quantidade de vasos de plantas espalhados esporadicamente pela sala. Era uma sala de química com canos de gás e Bico de Bunsen, mas apesar disso, a sala poderia ser facilmente confundida com uma sala de biologia. Afinal, o professor parecia um pouco com uma toupeira ou algo assim.
-Pierre Bouvier. – eu olhei para cima. – Você vai ficar com Charles Comeau na bancada sete. Senhor Comeau, você poderia, por favor, retirar seus fones de ouvido? – no fundo da sala, um cara um pouco mais baixo que eu, bufou, enquanto tirava seu fones de ouvidos grandes e os colocava dentro de sua mochila. Ele parecia estar de mau humor, então eu estava um pouco preocupado sobre ter que passar uma hora sentado ao lado dele.
Ele se sentou na bancada determinada, e eu me juntei a ele, sendo cuidadoso ao me sentar em meu banquinho, tendo caído deles um monte de vezes na minha antiga escola. Ele não me olhou, ele estava ocupado demais lançando um olhar mortal ao senhor Holbrook; eu não estava certo se ele estava bravo por estar preso comigo ou por ter que se abster de seu hip-hop – ele não havia desligado a música, eu conseguia ouvi-la tocando dentro de sua mochila, sob nossa bancada.
-Você é novo aqui? Eu não te vi antes. – eu percebi que ele estava apenas puxando assunto, por que havia algo em sua voz, enquanto ele continuava a olhar para a frente da sala, que parecia que ele não estava interessado em minha resposta.
-Sim, sou.
-Legal. – ele tomou fôlego, balançando sua cabeça rapidamente, enquanto virava sua cabeça para mim, como se ele estivesse tentando se livrar da raiva. – Eu sou o Chuck.
-Pierre. – eu sorri.
-Eu sei.
Eu estava esperando por uma aula prática, então nós poderíamos explodir algo ou fazer ligações químicas malucas, mas nada. Nós tomamos notas, enquanto o senhor Holbrook falava sobre o que faríamos no nosso curso de último ano e um pequeno resumo das bases das nossas provas finais. Ele parecia cansado, enquanto falava, ele tinha, claramente, passado por isso várias vezes.
Quando ele terminou, ainda faltavam dez minutos para a aula acabar, então ele nos disse que nós poderíamos passar esse tempo conversando, já que não havia mais nada a ser passado, e não havia razão para começar o trabalho da nossa próxima aula.
-Então, com quem você está dividindo o quarto? – Chuck perguntou, ele tinha se recomposto um pouco desde o começo da aula, seu mau humor era provavelmente por causa da segunda-feira de manhã, ou algo assim.
-Jeff Stinco, você o conhece?
Ele assentiu com um sorri.
-Carequinha? É claro que eu o conheço, todos o conhecem.
-O que quer dizer? – eu achei que seria melhor incentivar Chuck a continuar falando, isso me ajudaria a ignorar as garotas atrás da gente, rindo consigo mesmas; eu não tinha idéia se eu era o motivo da risada ou não.
-Ele já tem dezoito anos, ele voltou um ano, por que repetiu em quase todas as matérias. – eu assenti, isso explicava por que ele parecera tão mais velho para mim, quando eu o conheci. Entretanto, dezoito anos parecia um pouco novo para ele. Eu teria apostado em dezenove no mínimo. Eu acreditava em Chuck, entretanto, ele claramente sabia mais sobre esse lugar do que eu, mais até mesmo que Seb, o que queria dizer algo, ele era, claramente, do tipo observador.
-Eu sou amigo dele, entretanto. – ele adicionou. – Só no caso de você estar achando que eu o odeio ou algo assim.
-Não estou.
Ele olhou para seus sapatos, deixando escapar um bufo aborrecido.
-Sébastien, por outro lado...
Eu já me sentia um pouco defensivo em relação a Seb, ele era jovem e doce, não havia nada de errado com ele pra mim.
-Você não gosta dele?
-Não é isso. – os dedos da mão direita de Chuck curvaram-se um pouco sobre a mesa. – Ele é um pouco intenso... Aborrecedor, muito feliz. – algo em seus olhos castanhos sugeria que ele não estava acostumado a estar próximo a pessoas felizes. Eu achei que talvez eu pudesse fazê-lo gostar de Seb, com um pouco de trabalho.
Antes de a aula terminar, Chuck me deu as direções para chegar ao banheiro. Eu passei a noite anterior bebendo garrafas de água da mini-geladeira contrabandeada de Jeff – eu fiquei um pouco surpreso por não encontrar álcool lá, não que eu quisesse –, então eu estava realmente apertado. A pessoa que projetou o prédio era, obviamente, um pouco estúpida, decidindo colocar o único banheiro no último andar. Eu tive que subir seis lances de escadas, então minha bexiga parecia estar sendo apertada a cada passo que eu dava para cima.
Tudo naquele banheiro parecia ser feito de aço inoxidável, muito moderno. Uma ilha de pias estava posicionada no centro do cômodo, uma seqüência de cubículos estava no lado esquerdo, e uma seqüência de mictórios ia pelo lado oposto. Eu estava bem aliviado uma que eu tinha, bem... Me [i]aliviado[/i], e assim que eu me virei para ir embora, eu fui surpreendido por um secador começando a funcionar.
Na minha direção, do outro lado do banheiro, uma coisinha magra estava bagunçando com o secador em questão, ajustando o jato para que ele jogasse o ar diretamente em seu rosto, antes de virá-lo para o outro lado, então jogaria o jato na direção correta. Ele repetiu esse processo de novo e de novo, rindo calmamente para si mesmo, enquanto suas mechas loiras eram sopradas para a vertical, para longe de seu rosto, então voltam à posição original.
Eu fiquei parado o observando por um tempo, ele não estava vestindo o blazer como todo mundo, este estava pendurado em sua mochila. Ele usava a gravata frouxa, as mangas enroladas para cima, expondo seus braços, que subiam perfeitamente até seus, ainda mais finos, pulsos, então delicadas e pequenas mãos. Ele parecia com uma criança que cresceu demais, mas feliz no que estava fazendo.
Sua risada era contagiosa, bem alta e alegre, e eu não consegui evitar me juntar a ele, depois de alguns momentos ouvindo-a. Eu o assustei, ele desligou o secador abruptamente, cheio de embaraço, mas ainda sorrindo.
-Hey.
-Oi. – eu andei um pouco na direção das pias.
-Você quer tentar? – eu ri, ele tinha que estar brincando. Seu rosto ficou decepcionado. – É sério.
-Oh! – não querendo chatear o pequeno cara, eu dei a volta na ilha de pias; tomando cuidado para não tropeçar nos meus pés durante o caminho; e me juntei a ele, próximo ao secador, esperando.
-Você é um pouco mais alto que eu, então eu não vou te acertar tão forte; se abaixe um pouco. – eu fiz o que ele pediu e ele começou com o ar novamente. O ar foi cruelmente em meu rosto, fazendo meus olhos secarem, então eu tive que piscar com um pouco mais de freqüência do eu normalmente piscaria. Ele já estava rindo; eu me virei para olhar para ele, esse sorriso enorme em seu rosto. Ele virou o jato de ar para baixo, seu cabelo voltou à posição bagunçada e normal. – É como estar numa montanha russa. Olha.
Ele ajustou tudo mais uma vez, e jogou seus braços no ar, movendo-os agitadamente.
-Olha! Sem mãos! – eu não consegui me conter, eu caí para o lado, me inclinando sobre a pia para me manter em pé, enquanto eu ria histericamente com ele.
-Você é totalmente maluco! – eu consegui dizer entre risadas, minhas costelas estavam começando a doer.
-Eu sei. Você também pode fingir estar pulando de pára-quedas! – ele começou a puxar fortemente as alças da sua mochila, seu rosto ainda alinhado com o jato de ar. Ele gritou. – Oh, não, Johnny, meu pára-quedas não está funcionando!
Eu fiz uma expressão confusa, ainda rindo.
-O quê? Quem é Johnny?
Ele sorriu, ofegante.
-Eu não sei!
Eu estava bem certo de que se alguém entrasse agora, essa pessoa pensaria que nós éramos dois pacientes mentais fugitivos. Eu estava me divertindo muito para me importar, entretanto. Logo as nossas risadas estridentes foram, injustamente, interrompidas pelo som do sinal tocando. Não querendo me atrasar novamente, eu relutantemente me despedi do loirinho e me virei para ir embora.
-O quê? Você vai embora? – ele parecia um pouco desanimado.
Eu assenti com um suspiro.
-Sim, a aula vai começar. Você não vem?
-Eu acho que vou ficar por aqui.
-Oh, certo, então... Eu te vejo depois, talvez? – ele sorriu um pouco, mas o sorriso não alcançou seus olhos; eu assenti mais uma vez e sai, no caminho para fora eu estava muito certo de que ele falou seu nome, mas sua voz foi perdida no som dos estudantes lá fora, alvoroçados para ir para a segunda aula.
