Duas semanas depois, e Hermione ainda tentava entender o que exatamente acontecera naquele corredor escuro quando estava na presença de Draco. Primeiramente, ela tentara entender a razão de tê-lo seguido: de onde viera aquela ideia maluca? Agora começava a sair correndo atrás da primeira alma viva que visse? – Francamente, Hermione... – ela murmurava sozinha enquanto descia as escadas espiraladas até o salão principal – Você deve estar tão doida quanto ele.

Seus passos pequeninos logo a levaram até seu destino, parando apenas quando sentou em seu lugar habitual entre Harry e Ron, que lhe deram sorrisos de bom dia sujos de suco de abóbora e creme de chantili, respectivamente. A menina revirou os olhos, rindo enquanto limpava ambas as bocas com guardanapos; às vezes parecia muito que ela era mãe daquelas criaturas, e não uma simples amiga. Enquanto tocava a boca de Ronald, suas bochechas ficaram levemente vermelhas, e ela quase deixou o guardanapo cair no chão, o que, obviamente, o rapaz não percebeu. Ele nunca percebia nada, o que sempre fazia Harry dar uma risadinha baixa até que levasse um cutucão no estômago por parte da garota, o que não foi diferente naquele dia. Após o procedimento de praxe, Hermione começou a saborear um pequeno pedaço de torta, escutando atentamente o que Gina lhe falava do outro lado da mesa. A morena não era muito fã de fofocas, mas a ruiva sempre tinha as melhores histórias para contar, então era inevitável que não ficasse curiosa e acabasse escutando tudo, perplexa.

Estava inebriada com as palavras da Weasley e com todos os vívidos detalhes, alguns deles provavelmente exagerados, mas ainda sim maravilhosos, quando algo lhe chamou atenção do outro lado do salão. Desviou seus olhos chocolate para a porta que se abria ruidosamente, revelando no aposento Draco Malfoy e seus cachorrinhos, Crabbe e Goyle, que passaram pelo corredor como deuses, pedindo para serem admirados, mesmo que apenas o Malfoy tivesse tamanha pompa para isso. Assim que seus olhos cruzaram com a figura magra e elegante, o rosto de Hermione adquiriu um tom tão vermelho quanto poderia, o que a fez desviar o rosto prontamente, sem querer ser vista pelo loiro. As lembranças de duas semanas atrás voltaram a sua cabeça de repente, e ela se sentiu tão envergonhada que mal conseguia erguer a face de sua torta pela metade. Draco sequer notara que ela estava ali e que seus olhos tinham se encontrado, tão indiferente quanto uma sombra ao sentar-se a mesa oposta a da menina, que tentava controlar sua respiração para que ninguém percebesse sua euforia, mas já era tarde.

- Mione! – Gina exclamou a sua frente, seus olhos verdes saltando da face – Você está vermelha! Ron, seu inútil, veja se ela está quente, pelo amor de Merlin, ela deve estar passando mal!

O ruivo, com as bochechas cheias de comida, olhou para a amiga ao seu lado, e na rapidez do gesto deixou que o copo cheio de suco caísse nas vestes da morena, que soltou uma exclamação de surpresa logo antes de começar com alguns xingamentos. Ronald engoliu a comida às pressas, pedindo desculpas emboladas entre uma tosse rouca, enquanto Harry, sob o olhar furioso e apaixonado de Gina, caía na gargalhada. Se já estava ruborizada antes, Hermione não sabia dizer qual era o estado do seu rosto agora, principalmente porque todas as faces do salão deveriam estar direcionadas para ela, visto o escândalo que aqueles três aprontaram. E ela não estava de todo errada: do outro lado do salão, com o cenho franzido e a boca crispada após provar de um pouco de chá, olhos cinzentos a encaravam com desgosto. Como aqueles quatro conseguiam fazer tanto barulho às oito da manhã?

Draco revirou os olhos e voltou a se concentrar no que fazia, ignorando o burburinho atrás de si, fingindo que escutava Pansy falar qualquer coisa sobre como algum garoto da Corvinal havia lhe beijado na noite anterior, assentindo quando achava que devia assentir e soltando alguns "Claro, Pansy, você está certa" vez ou outra. Ele não podia evitar: estava tão distraído nas últimas semanas que sequer sabia com quem estava conversando, quais aulas estava assistindo e como o clima estava do lado de fora do castelo. Dois dias atrás estava prestes a sair da sala comunal de luvas, quando o sol escaldante castigava os jardins. E ele sequer sabia de onde vinha essa distração toda, afinal, nada havia mudado. Sangues-ruins continuavam sendo sangues-ruins, seu sangue puro ainda era mais importante do que qualquer coisa, seu pai ainda lhe daria tudo o que quisesse, Santo Potter e companhia ainda eram irritantes, ainda mais a insuportável da Granger... Merlin, ele não fazia ideia de como alguém conseguia tolerar aquela menina de voz aguda e esganiçada. Arrepiou-se ao pensar naquela voz, mas algo mais lhe veio à mente, logo fugindo de seus pensamentos. Tinha a impressão de que estava se esquecendo de alguma coisa relacionada a ela... Não, devia ser só impressão.

Ele terminou seu café da manhã e colocou-se de pé, pouco se importando com o fato de Pansy estar falando ou não, ou se alguém o seguiria até onde quer que ele fosse. Apenas quando chegou ao lado de fora do salão que percebeu estar sozinho, e não deixou de agradecer por isso; às vezes, ter aquele monte de sombras o seguindo era exaustivo. Andou por dois corredores, apenas, até que topasse com o trio de ouro, somado à Weasley fêmea e ao babaca do Longbottom. Não fosse obrigado a seguir àquele caminho, teria dado meia volta e procurado outro que não o fizesse passar por aquela família feliz. Ao cruzar com eles, que se calaram assim que chegou perto, sorriu com escárnio e pensou em comentar algo, mas não o fez. Simplesmente ergueu o rosto o máximo que pôde e continuou andando, seus fios platinados sumindo ao virar o corredor, deixando apenas o traço esmeralda de sua gravata para trás.

- Nossa, ele é um imbecil. – comentou Gina, revirando os olhos para o loiro e sendo acompanhada por quase todos que estavam ali, exceto Hermione, que continuou encarando o lugar no qual ele virara, como se esperasse que ele voltasse e lhe dissesse alguma coisa. Estava esperando isso desde a última vez em que se encontraram, mas nada acontecia. Ela esperava pelo menos uma resposta, algo para clarear sua mente cheia de perguntas sobre aquela manhã, mas Draco sequer lhe olhara, desde então. Será que ela estava simplesmente ficando maluca? – Hermione! – escutou seu nome ser chamado, o que a fez sobressaltar-se e segurar com mais firmeza o livro que tinha nas mãos, fincando as unhas curtas em sua capa. Com o susto, percebeu que quatro pares de olhos a encaravam, e ficou vermelha de vergonha pela terceira vez naquela manhã, logo gaguejando alguma coisa sobre ter que ir até a biblioteca enquanto se afastava, andando de costas. Sem dar tempo para nenhum dos amigos perguntar alguma coisa, a menina deu um sorriso amarelo e virou-se rapidamente, tomando o mesmo caminho que Draco tinha feito segundos atrás.

Conseguiu apertar o passo, deslizando sobre a sola de seus sapatos já gastos, até que vislumbrasse a nuca de Malfoy no final do corredor, despreocupadamente conversando com um quadro. Ela parou para observar a cena, parcialmente escondida atrás de uma das colunas daquele espaço. Colocou a mão que não segurava o livro sobre o peito, sentindo o coração acelerado atrás da blusa branca – previamente limpa com um simples feitiço que, felizmente, aprendera alguns dias atrás –, sem saber muito bem se aquilo era fruto da corrida ou da presença do loiro a poucos metros de distância. A menina ergueu os olhos, fixando-os numa ondulação no teto e começando a listar mentalmente suas razões para estar ali. Infelizmente, não encontrava nenhuma senão a mais pura curiosidade, cega pela pureza de um primeiro beijo, ainda mais um primeiro beijo roubado. Se odiava por estar ali, aniquilando toda a sua racionalidade, mas era impossível não querer saber os motivos que o levaram a fazer o que fez. Várias vezes, naquelas semanas, tinha se convencido de que Draco apenas estava louco e resolvera se divertir com ela, o que vinha sempre com um rubor desconcertante, mas, mesmo após o longo trabalho de se convencer, procurava algum argumento esfarrapado para se contradizer, e voltava a ter mil e uma perguntas rondando sua mente.

Inclinou-se um pouco para o lado, deixando apenas o rosto fora do rumo da coluna atrás da qual se escondia, apenas para encontrar um corredor vazio. Ela franziu o cenho, olhando para os lados e procurando pelo menino que estiver ali até alguns segundos antes, pois tinha certeza que não divagara por tanto tempo... – Granger? – a voz a pegou desprevenida, fazendo com que soltasse um grito agudo, deixando o livro que tinha nas mãos cair sobre seus pés com um barulho oco, abrindo-se em uma página amarelada qualquer. Antes mesmo de ver quem a surpreendera, embora suspeitasse de sua identidade, sua reação foi tomar o objeto de novo nas mãos, espanando qualquer vestígio de poeira que pudesse tê-lo contaminado com a ponta dos dedos. Assim que o fez, ergueu o olhar, e soube que suas apostas não estavam erradas sobre o dono daquela voz um tanto aguda e penetrante. Olhos cinzentos a encaravam poucos centímetros acima dos seus, cercados por sobrancelhas finíssimas e loiras o suficiente para poderem ser confundidas com albinas. Ela abriu os lábios para falar qualquer coisa, mas não conseguiu. Ele estava perto, perto demais. – Granger, você estava me seguindo por quê?

O tom de Malfoy era mais curioso do que qualquer coisa, embora ainda houvesse um traço de nojo e raiva atrás daquelas palavras que ela seria capaz de identificar mesmo se não quisesse. Enquanto andava pelos corredores, era como se sentisse a presença da sangue-ruim ao seu encalço, viscosa e trazendo consigo um estranho cheiro de sabão. Seus olhos não a deixavam por nem um segundo, observando a intensidade com a qual suas bochechas coraram e como começava a se mexer desconfortavelmente, trocando o peso de um pé para o outro, e ele não podia deixar de ficar feliz por provocar-lhe aquele tipo de reação, erguendo minimamente o canto dos lábios. As íris acastanhadas não o encaravam, perdidas no chão e tentando descobrir algum modo de sumir o mais rápido possível. Ela não acreditava na posição em que se colocara. O loiro tocou o queixo alheio cuidadosamente com sua varinha, era muito pretensioso para usar de suas mãos para tocá-la, forçando-a a olhar dentro de seus olhos, que reluziam, quase deixando faíscas quentes caírem sobre seu rosto ruborizado – Você nunca cala a boca, e resolve ficar quieta quanto eu te faço uma pergunta? Granger, não me deixe esperando.

Assim que a varinha autoritária do menino deixou seu rosto, para seu completo alívio, ela não conseguiu fazer nada senão prosseguir estática, olhando-o com os lábios entreabertos enquanto apertava com força o livro contra o peito, tentando criar alguma barreira entre o vermelho e o verde de suas vestes inimigas, além de tantos outros critérios que os separavam. Um deles era que se considerava uma pessoa boa, enquanto Malfoy não podia se dar ao luxo de receber aquele adjetivo. Tinha ido até ali para descobrir o que estava de errado com Draco, sempre andando tão distraído, perdendo o foco, ignorando os amigos e decaindo nas notas: parte disso era orgulho ferido, pois Hermione se esforçava, e muito, para competir com o sangue puro, que era sempre o segundo colocado por pouquíssimos pontos de diferença. Ela se esforçava para ser melhor que ele e para enfurecê-lo com aquele tipo de gesto, mostrando que uma nascida trouxa poderia sim ser superior, mas, se ele não tinha boas notas, não havia graça em competir com ele. Naquele instante, porém, encurralada entre a parede e o corpo magro do bruxo, não sabia ser superior. Temia que ele fizesse qualquer coisa de ruim com ela, lhe lançasse uma azaração, interpretasse qualquer gesto errado, visse algo em seus olhos que não soubesse explicar e o enfurecesse, ou pior: escutasse seu coração bater forte no peito, contra a capa de couro de seu livro antigo.

Sem saber o que fazer, Hermione Granger deu-se por vencida: inclinou-se para frente com os olhos bem cerrados, deixando que seus lábios se encostassem aos dele por meros três segundos, nos quais mal pôde provar daquele gosto inédito, aproveitando daquele momento de surpresa que criara para dar as costas ao loiro e sair correndo, tomando o mesmo caminho pelo qual viera, suas vestes voando atrás de si com a rapidez que se movia, fugindo de sua própria loucura. Deixou Draco Malfoy da mesma forma que ele a deixara duas semanas atrás: estático em um corredor vazio, tocando sua boca com a mão para ter certeza de que vivera aquilo, logo esfregando-a em total desprezo, sem conseguir retirar o calor daqueles lábios sujos dos seus. Ele, ao encarar o vão que antes era preenchido pela figura aurirrubra, pensava uma única coisa: definitivamente, Hermione Granger não estava nada bem.