AINDA VIVO
Nos primeiros dias, Kamus manteve-se ao lado do pupilo apático. No início, era a única companhia aceita. Médicos e enfermeiras eram toleradas a contra-gosto. Após algumas semanas, a deusa começara a visitá-lo também. Houve rumores de que Cisne abandonaria o santuário e a vida de guerreiro.
Muitas coisas mudaram após aquele incidente macabro. Apesar da alma de Hades estar selada novamente, podia-se contar nos dedos os cavaleiros que não evitavam Andrômeda, tentando disfarçar o temor que sua presença lhes causava de modo que Shun era constantemente enviado a missões fora do santuário. Athena ainda ocultava um ar de preocupação. Contudo, era apenas o começo...
Após dois meses, Hyoga reapareceu. A princípio sob a sombra protetora do mestre, apenas observando de longe. Porém, esta presença discreta já foi o suficiente para dividir o santuário.
A situação em que fora resgatado havia se espalhado e as línguas maliciosas tornaram-na ainda mais humilhante e indecente.
Parte dos cavaleiros se compadeceu. Afinal, o pobre cisne não passava de uma vítima...
Outra achava que sua permanência entre eles manchava a reputação de Athena e seus defensores.
O russo já não usava mais regatas e calças justas. Passara a usar roupas que escondessem seu corpo ao máximo. Mangas longas e golas altas, a despeito do calor da Grécia, infernal para um cavaleiro de gelo. Não queria que olhassem para ele. Por mais que o mestre e os enfermeiros afirmassem que não havia cicatriz alguma, sempre as via berrando zombeteiras as lembranças inconfessáveis de estar à mercê daquele ente maligno.
E esse jovem era a peça principal daquela polêmica.
Mais alguns dias e começara a retomar sua vida, ainda que lentamente e sob a supervisão do cuidadoso Aquário.
Os primeiros a receber permissão para interagir com o loiro foram Shiryu e Seiya. Kamus hesitou um pouco em autorizar que Ikki os acompanhasse, mas acabou concordando.
Pégasus, com seu jeito estabanado já iria cumprimentar o amigo com um abraço daqueles mas a esquiva na velocidade da luz e o olhar assustadiço que o outro revelou por um segundo antes de evitar encarar os amigos o fez paralisar, sem saber como agir.
Observaram-no neste momento. Não eram apenas suas vestes que mudaram. Emagrecera. Estava pálido. Postura cansada e olhos derrotados.
Dragão suspirou. Talvez ainda fosse cedo. Puxou Seiya para a porta e desculpou-se pelo amigo.
"Desculpa, Hyoga... a gente..."
"ESPERA!"- o quase berro do Cisne assustou a todos, inclusive a ele mesmo. Engoliu em seco e hesitou- "...e-eu... só..."
"Êeeeeeee, Pato... que foi? Desacostumou a ter gente por perto? Senta aí."- Fênix sentou-se em uma cadeira, numa descontração que lhe era rara.
Kamus estava prestes a mandar o cavaleiro de fogo se retirar, mas mudou de idéia ao ver o pupilo obedecer, ainda que com certa insegurança.
"É... como andam as coisas no santuário?"- perguntou com uma voz meio rouca e pausada, como se forçando sua respiração, procurando algum assunto.
" Treino o dia todo, balada de fim de semana. O básico..."- Ikki respondeu vagamente.
"Hahaha!... Ikki, já ta desconversando, é?"- riu Seiya, sentando-se também- "No treino esse aqui tá levando couro do Shaka direto! Vive quebrado cochilando por aí! e ainda por cima, pagou um mico semana passada que você não tem noção!"
"Ah, é mesmo? O que eu perdi?"- perguntou, interessado.
O chinês sorriu e juntou-se ao grupo, botando lenha na fogueira:
"Ô, Seiya! Coitado do Ikki! Deixa ele..."
"Não, agora eu quero saber! Me conta."
"É, pesando bem, deixa pra lá, todo mundo já sacaneou o Frango mesmo. Já deu, né?"- Pégasus blefou.
"Mas eu não sei! Pôooxa, me conta, vai, preciso me atualizar..."- o russo sorriu, conhecendo o jogo dos companheiros.
"Vai logo, Pocotó voador! Acaba de queimar meu filme.!- Fênix um tom mau-humorado, mas que fazia parte da brincadeira. Quando aquele tagarela resolvia contar algo, não tinha como impedir sem derramamento de sangue. Como era pra ajudar um amigo, tudo bem. E aquele sorriso do loiro depois de tudo pelo que deve ter passado, já valera a pena.
"Oba! Agora que já tenho permissão..."
Kamus sorriu satisfeito. Seu pupilo tinha amigos. E seriam de grande ajuda...
Os três podiam visitar o amigo quando quisessem. Hyoga ainda estava fraco e se cansava rápido. Shiryu notou isto e regulava suas visitas, aconselhando Seiya a fazer o mesmo. Já Ikki, que até então não era tão próximo ao cavaleiro de gelo, passara a fazer-lhe companhia sempre que podia, fosse pra lhe trazer livros e outras bugigangas ou apenas para ficar por ali.
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Em breve: Enganos, ironias, trapaças de amor - desafio de dia dos namorados no Sain Seiya Dreams
Então, em um gesto sem sustos ou ensaios, Cisne aproximou-se do francês e tocou os lábios do instrutor com os próprios, como se não houvesse novidade alguma em tal intimidade. Camus ria, aceitando com igual naturalidade.
O grego empalideceu. Seu maior medo finalmente se concretizara.
