Capítulo Dois
A Bad Idea
(Uma Péssima Ideia)
Remus considerava Grimmauld Place mais seu lar do que sua cabana confortável, mas solitária. Fora onde passara o verão do ano anterior depois do ataque à sua cabana e passara as festas — quando não era necessário na escola — ali, também. E, ainda que Remus não fosse protegido pelo Fidelius do jeito que Sirius e Harry eram, Grimmauld ainda tinha uma das melhores proteções, além do Ministério, de Gringotes e de Hogwarts.
Dumbledore tinha lhe pedido que passasse o verão lá também, para que continuasse intacto até que o novo ano escolar começasse. Remus não tinha entendido, mas Dumbledore tinha dito algo sobre uma maldição e não explicara, porque temera uma profecia autorrealizável. Remus decidira acreditar que Dumbledore tinha bons motivos para pedir tal coisa e tinha concordado.
Assim, Remus não tocava mais a campainha quando chegava, nem mandava sua coruja Strix, pedindo permissão para usar o flu. De fato, Sirius tinha lhe dado uma chave no começo das férias de verão, que, graças às varinhas, era uma mera formalidade.
Remus pisou no assoalho que rangia atrás da porta da frente por hábito e pendurou sua capa nos ganchos no corredor. Conseguiu sentir o cheiro do almoço sendo preparado no andar inferior e conseguiu ouvir o som de batidas nos andares superiores. Ainda que soasse como um Hipogrifo enlouquecido, Remus sabia que era mais provável que fossem Sirius e Harry.
Apesar da notícia que Dora lhe dera no dia anterior e da lua cheia — que era no dia seguinte e certamente não o ajudava em nada —, Remus sentiu um sorriso aparecer em seus lábios e subiu os primeiros lances da escada.
A fonte do barulho logo ficou aparente; Remus tinha acabado de chegar ao segundo andar quando uma forma negra e peluda saiu correndo da biblioteca, com uma figura maior e mais descabelada logo atrás. Sem diminuir a velocidade, Padfoot soltou um latido suave que mais parecia um cumprimento.
— O que ele fez? — perguntou Remus.
Com a facilidade da experiência, Sirius se transformou em humano no meio do passo. Harry, ao perceber que não era mais perseguido, trotou até Remus, o rabo balançando, e se transformou, apesar de tê-lo feito com muito menos graça do que Sirius demonstrara.
— Nada — disse Harry, sorrindo. — Só estamos esticando as pernas antes de amanhã à noite. — Sirius, que também estivera sorrindo, olhou para Remus e seu sorriso sumiu.
— Essa, não — disse Remus, cansado. — Acho que vai ser... difícil, mesmo com a poção. — Sirius o olhou duramente e Remus fingiu não perceber.
— Então eu posso ajudar — insistiu Harry, sem perceber a troca entre eles. — Eu tive muita prática — disse antes que Sirius pudesse terminar. — E estou maior agora... — Isso, pelo menos, era verdade; Harry tinha crescido alguns centímetros desde o fim do semestre, mas ele ainda era pequeno quando comparado a Padfoot e Moony.
— Você ainda consegue passar por baixo de mim — lembrou Sirius, ecoando os pensamentos de Remus. — E Moony é maior.
— Eu agradeço que queira ajudar — disse Remus, e era verdade; com Dora indo embora logo, aceitaria toda companhia que conseguisse. — Mas não vai dar pra começar com essa. Por favor, acredite nisso.
— A próxima vai ser já em Hogwarts — lembrou Harry, carrancudo.
— E desde que você não seja pego indo para a floresta, eu não vejo nenhum problema — falou Sirius.
— E tenha feito seu dever de casa — adicionou Remus. Harry e Sirius lhe deram um olhar idêntico de repulsa, antes de trocarem um sorriso. Os três se sobressaltaram quando Monstro apareceu ao lado de Harry e curvou-se, entregando-lhe um pergaminho grosso no qual seu nome estava escrito.
— Monstro pode voltar pela manhã — disse Monstro, e Harry assentiu, ávido, e pediu licença. Monstro sumiu antes que eles pudessem dizer algo.
— O que, em nome de Merlin...? — perguntou Remus, olhando para Sirius, e os passos de Harry soaram na escada acima deles.
— Vai ver que o Harry esqueceu que temos duas corujas na casa. — Mas Sirius não parecia particularmente preocupado, só um pouco confuso; sua atenção estava em Remus. — Está tudo bem?
— Estava pensando em me deitar um pouco antes do jantar — respondeu, dando de ombros. — Estou começando a sentir a lua. — Sirius crispou os lábios, mas não falou mais nada.
Estranho, pensou Remus, franzindo o cenho.
— Marlene vem jantar aqui hoje? — perguntou Remus.
— Ela vai fazer uma daquelas batidas idiotas — suspirou Sirius. Depois da morte de Saul Croaker no Departamento de Mistérios, Fudge mandara que o Departamento de Aurores investigasse todos os funcionários do Ministério e todos aqueles associados ao Ministério por ligação com magia das trevas. Sirius tinha dito, mais de uma vez, durante os jantares naquele verão que ele achava que era uma perda de tempo e dinheiro. — Mas ela falou que pode passar por aqui depois. — Sirius inclinou a cabeça. — A Dora vem?
— Não — disse Remus e perguntou-se por que sua voz soara tão defensiva. Pigarreou. — Ela tinha outras coisas para fazer.
Sirius bufou e deixou Remus sozinho no patamar.
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— Na próxima — disse Padfoot, colocando uma mão no ombro de Harry. — Prometo.
— Está bem — murmurou Harry. Estava desapontado, mas Padfoot tinha concordado em receber Ron (já que Hermione estava visitando o avô em Norfolk, e Draco estava confinado à Mansão Malfoy) para que ele lhe fizesse companhia enquanto Padfoot e Moony estivessem fora.
— Anda logo, Sirius! — rosnou Moony dos andares inferiores. Ron, acomodado na cadeira de Harry, não pareceu ter ouvido, mas Harry ouviu, assim como Padfoot, que riu. — Pare de rir, seu idiota sádico! — Padfoot riu com zombaria (bem baixinho) e Harry conseguiu ouvir Moony bater os pés de um lado para o outro. Ao olhar para a lua pela janela, Harry soube que a transformação de Moony demoraria um pouco mais de uma hora para acontecer, então ainda tinham bastante tempo, mas Moony costumava gostar de já estar acomodado em sua cabana.
— Voltaremos pela manhã — falou Padfoot, dando um passo em direção à porta.
— Finalmente!
— Não arranque os cabelos, Moony — falou Padfoot pela porta.
— Por quê? — foi a resposta mordaz. — Em uma hora, vou ter mais cabelo do que sei o que fazer! E garras, Padfoot, com as quais eu vou te destroçar se você não andar logo! — Padfoot riu e Ron, que parecia ter ouvido a última parte, não parecia saber o que pensar. Harry apenas deu de ombros. — Padfoot, eu juro por... Ai!
— O mestre Moony devia saber das coisas — Harry ouviu Monstro dizer. — Que tipo de exemplo ele está dando ao mestre Harry e ao senhor Weasley? Monstro só pode torcer para que o mestre Moony não seja assim na escola, oh, sim, ele torce!
— É melhor eu ir salvá-lo, acho — disse Padfoot ironicamente.
— Quem? — perguntou Harry. — Monstro ou Moony?
— Ainda não sei — respondeu ele. — Acho que vou descobrir quando chegar lá.
— Recebi uma carta do Draco ontem — contou Harry a Ron, enquanto Padfoot saía.
— O que ele disse? — perguntou Ron, parecendo interessado. Eles tinham recebido três cartas de Draco naquele verão; a primeira tinha sido tirada da Mansão por Tonks, quando ela e a Auror Prewett tinham feito uma das batidas do Ministério, explicando que Dobby tinha ordens de impedir que qualquer coruja chegasse a Draco ou que ele as mandasse.
A segunda carta chegara alguns dias depois do aniversário de Harry e trazia outras cartas para que Harry entregasse a Ron e a Hermione, assim como uma carta e um presente para Harry. Draco tinha lhe dado a biografia de Fulbert, o Medroso — um bruxo famoso por ter muito medo de sair de casa —, na esperança de que Harry pudesse "pelo menos aprender que cautela é real", assim como mandara uma caixa de Sapinhos de Chocolate.
A terceira, como a segunda, tinha cartas para Harry, assim como outras para mandar para Ron e Hermione, a de ontem só tinha a carta de Harry.
Harry pegou a carta, que estava em seu criado-mudo, e a leu em voz alta para Ron.
Potter,
Sim, estou bem, acho. Granger tem me recomendado livros para ler, e a última carta de Weasley tinha uma história engraçada sobre seus irmãos e um gnomo. Passei um dia todo com Severus essa semana, o que foi legal.
Fico feliz que só falte uma semana e pouco até voltarmos e, não, não acho que poderia te visitar antes do começo do semestre. Mas obrigado pela oferta.
Se Dobby soubesse que estou escrevendo isso, estou certo de que ele mandaria lembranças, então aqui estão.
Aproveite o resto do verão, e a gente se vê no trem, Potter.
Draco.
Diga a Weasley e a Granger que eu mandei um oi, mas que não posso escrever; acho que a mãe está subindo as escadas e não quero que ela pegue o Monstro!
— Eu sei que é o padrinho dele e tudo o mais — disse Ron —, mas imagina passar um dia com Snape. — Harry, que tinha passado uma noite no escritório de Snape há alguns anos (depois de Snape ter decidido que Padfoot não era um bom guardião e ter sequestrado Harry), conseguia imaginar tal coisa e estremeceu. — O que você acha?
— Do Snape? — perguntou.
— Da carta — respondeu, paciente. — Acha que ele está bem?
— Difícil saber — falou. — Queria poder perguntar diretamente. Aí, se ele estiver feliz, ele pode ficar, mas se não estiver, ele poderia ficar aqui por alguns dias.
— Talvez Monstro possa nos levar? — sugeriu Ron.
— As proteções não reconhecem quando um elfo entra — disse Harry, balançando a cabeça —, mas eles vão te reconhecer, e não acho que o senhor Malfoy iria...
— Certo — disse Ron, parecendo um pouco enjoado com a ideia de enfrentar o senhor Malfoy. — Por que você não?
— Eu morei lá por uma semana antes do julgamento de Padfoot, e o senhor Malfoy me colocou nas proteções — falou. — Ele pode ter desfeito isso, mas ele estava convencido de que eu ia ficar por lá, então, é, pode ser que eu consiga entrar.
— Você deveria ir, então — falou Ron.
— Mas você também quer vê-lo — disse. — Vamos dar um jeito de irmos juntos. — Ron sorriu, e Harry retribuiu, mas então começou a pensar. — O flu é protegido — disse, suspirando —, então isso não vai funcionar, e não sei criar Chaves de Portal. — Ron balançou a cabeça para dizer que também não sabia. — Posso convencer o Padfoot a organizar uma batida amanhã — falou, pensativo — e ver se ele poderia nos levar junto.
— Ele faria isso? — perguntou Ron, esperançoso.
— Provavelmente não — admitiu. Padfoot os levaria se não fosse uma batida, mas Harry sabia que o senhor Malfoy não os deixaria entrar e que Padfoot não poderia estar lá se tentassem entrar despercebidos; o senhor Malfoy provavelmente se certificaria de que isso custasse o emprego de Padfoot se ele estivesse lá. — A gente tem a moto dele, mas não sei como dirigir e acho que ele provavelmente... Ron?
— Harry — falou Ron, os olhos arregalados —, eu tenho uma ideia.
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— Um pé depois do outro — disse Sirius —, assim mesmo, Moony. — Remus gemeu, mas conseguiu ficar em pé enquanto Sirius o guiava (ou melhor, arrastava) para fora da lareira. — Agora, escadas ou flutuar...
— Andar — conseguiu dizer Moony, rouco. Ele murmurou mais alguma coisa, que até mesmo Sirius, com seus anos de experiência interpretando um Remus pós-lua-cheia, só conseguiu entender "flutuar" e "vomitar".
Monstro surgiu na cozinha nesse momento, provavelmente para começar a preparar o café da manhã. Remus cambaleou e cobriu as orelhas para abafar o som da aparatação. Monstro se curvou a ele, antes de ir ajudar Sirius a fazer Remus subir as escadas. Foi quando os murmurinhos chamaram sua atenção, e aí Sirius ouviu o som de passos.
— Padfoot — disse Harry, aparecendo com Ron no alto das escadas. — Oi, Moony. — Remus resmungou alguma coisa que podia ser um cumprimento.
— Aonde vai? — perguntou Sirius, notando a mochila no ombro de Harry.
— À Toca — respondeu ele, olhando pelo canto dos olhos para Ron, cujo cheiro era ansioso.
Sirius abriu a boca para perguntar exatamente o que eles iam fazer quando chegassem à Toca — pelo cheiro, sabia que Harry não mentira — quando a campainha soou pela casa. Remus recuou e caiu. Monstro tentou ajudá-lo, mas Remus tinha afastado os braços para cobrir as orelhas, e Monstro desistiu, indo atender à porta.
— O Draco pode passar a noite aqui? — perguntou Harry, ajudando Sirius a erguer Remus.
— Ele vem pra cá? — perguntou Sirius, surpreso; pelo que sabia, Draco não podia nem escrever para Harry.
— Talvez — respondeu Harry com uma expressão estranha no rosto.
— É claro que ele pode, garoto — disse Sirius, tentando entender no que Harry pensava. Infelizmente, sua expressão mudou quando Moony voltou a cair, e Sirius não pôde mais lê-la. Ron se aproximou para ajudar.
— É professor Snape — disse uma voz zombeteira da porta —, não senhor Snape.
— Monstro se desculpa. — Sirius ouviu Monstro dizer.
— Sei. O Black es... — Sirius ergueu os olhos e viu que Snape acabara de percebê-los; Remus pendurado em Sirius, semiconsciente, e Harry e Ron indo na direção da escada da cozinha para usar a lareira. — Black — disse simplesmente, observando Remus com desgosto. Felizmente, ele não comentou.
— Assumo que você tem um motivo para estar aqui? — perguntou Sirius. — Harry, pode... — Harry voltou para erguer o outro lado de Remus, e Ron ficou parado no alto das escadas, claramente incerto se devia ajudar ou não.
— Achei que Potter gostaria de receber uma visita — disse Snape, e a cabeça loira de Draco apareceu pelo canto do batente da porta da frente, observando a estranha cena à sua frente.
— Malfoy?! — disse Ron, confuso, e Harry soltou um som estranho sob o braço de Remus. Draco entrou no saguão, parecendo nervoso, mas relaxou quando Snape o convidou a entrar, e Ron se aproximou, fazendo perguntas.
— Eu ia perguntar se ele poderia passar a noite — disse Snape —, mas parece que você já está com as mãos cheias. — Seus olhos escuros foram para Remus.
— Literalmente — adicionou Draco, sua atenção também em Remus.
— É claro que ele pode ficar — respondeu Sirius. — Harry já disse que ele ficaria... — Ron engasgou com o que pareceu uma risada, e Harry se encolheu quando Snape e Draco se viraram para olhá-lo.
— Como você sabia? — quis saber Draco. — Eu só soube hoje cedo...
— Eu também gostaria de saber — falou lentamente Snape, e o cheiro de culpa saiu de Harry. Ron continuou a rir baixinho, pelo menos até Snape se virar para ele e dizer: — Bem, Weasley?
— Monstro, pode colocar o Moony na cama, por favor? Eu vou subir em um minuto. — Sirius continuou a apoiar Remus, mas não o segurava, e quando Monstro e Remus sumiram, Sirius ficou para trás, esfregando o ombro em que Remus se apoiara.
— Chá, Snape? Ou café da manhã?
— Chá — respondeu. Ele mancou para dentro do corredor e fechou a porta. Sirius olhou para sua perna. Não era mais aquela de cor de carne, com o pé estranho que ele recebera em St. Mungos. A que ele usava agora permitia que ele usasse um sapato, embora ele ainda andasse de um jeito estranho.
— Draco vai com vocês para a Toca? — perguntou Sirius a Harry.
— Não, vamos ficar aqui agora — respondeu Harry, enquanto ele e Ron levavam Draco para o andar de cima. — Daqui a pouco a gente vem tomar o café da manhã!
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Draco não sabia se devia se sentir emocionado ou horrorizado por quão longe Potter e Weasley tinham planejado ir para visitá-lo. E quase uma hora depois de terem se sentado no quarto de Potter e eles terem contado em meio a risadas e — se Draco não estava errado — leve desapontamento o que tinham planejado fazer antes de Draco aparecer, ele ainda não tinha decidido.
Mas tinha se recuperado o bastante da confusão para fazer perguntas.
— Weasley, por que você sequer tem um ca...
— Shh! — sibilou Potter, inclinando a cabeça para as escadas que levavam para a cozinha. Draco não sabia se ele queria esconder o plano agora desnecessário de Black ou de Severus, mas ficou em silêncio mesmo assim.
— ... condição?
— Ele está vivo. — Draco ouviu Black respondeu. Por seu tom, Draco achou que ele devia ter dado de ombros. — Fora isso, eu não sei. Eu o excluí do Ministério e do Gringotes...
— Bom — respondeu Severus.
— Mas não quero aliená-lo completamente — continuou Black. — Isso parece... cruel.
— Duvido que pensaria isso se tivesse sido você quem ele aleijou — respondeu Severus. Eles ficaram em silêncio, que Draco, Potter e Weasley interromperam ao descerem as escadas. Lupin estava lá, olhando para uma xícara fumegante de chá e parecendo muito doente, apesar de parecer melhor do que quando Draco chegara. Black ergueu os olhos antes de voltar a sua conversa com Severus.
— Estava pensando em achar um trabalho para ele — falou Black.
— Um trabalho? — perguntou Severus, inexpressivo, enquanto Potter buscava suco, e Monstro mandava Draco e Weasley se sentarem.
— De quem eles estão falando? — perguntou Weasley.
— Não sei — murmurou Draco. Black olhou na direção deles, e Draco soube que ele os ouvira, mas não parecia inclinado a parar de falar.
— ... mantivermos preso, não seremos melhores do que Voldemort — Weasley se encolheu, e Draco ficou imóvel. Potter olhou por cima do ombro, parecendo interessado, antes de voltar a procurar por copos — foi com ele. Se nós lhe dermos um trabalho, isso é algo que ele irá ficar nos devendo...
— Ele já nos deve bastante — disse Severus. — Sem nossa interferência...
— Eu sei — falou Black, paciente —, mas quanto tempo você acha que ele vai ficar se remoendo? Eu acho que Dumbledore sabia o que estava fazendo ao lhe dar tempo para pensar, mas se ele ficar lá por muito tempo, ou ele vai ficar dessensibilizado ou a culpa vai fazê-lo pirar.
— Falando por experiência, Black? — disse Severus lentamente.
— Eu passei mesmo um tempo em Azkaban — respondeu ele friamente. O silêncio voltou a cair entre os adultos, interrompido apenas pelo som da colher de Lupin contra o vidro do açucareiro.
— Esse trabalho? — perguntou Severus por fim, e se Draco não o conhecesse, teria pensado que era algum pedido estranho de desculpas. Mas Severus nunca se desculpava.
— Eu tenho uma amiga que trabalha na Travessa do Tranco — falou Black. — Vou conversar com ela quando formos comprar o material escolar de Harry.
Potter colocou um copo de suco em frente a Draco e foi se sentar ao lado de Weasley.
— E está me perguntando? — falou Severus.
— Eu prefiro não tomar esse tipo de decisão sozinho.
— Grifinórios... — murmurou Severus, soando... bem, não enjoado, mas quase. Weasley riu, assim como Potter. A expressão de Black se contorceu numa óbvia tentativa de não rir, e até Lupin deixou escapar uma risadinha. — O quê? — ralhou Severus, seus olhos indo pousar em Draco, apertado entre Potter e Weasley.
— O que há de errado com a Grifinória, senhor? — perguntou Draco, tomando o cuidado de manter o rosto inexpressivo.
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— Ela te contou, então? — perguntou Andy, olhando para Remus, que estava parado na soleira dos Tonks, usando uma mão para proteger o rosto do sol. A expressão dela era estranha; orgulhosa, e ela tinha todos os motivos para se sentir assim com o treino iminente de Dora; aliviada, porque, mesmo sendo menos preconceituosa do que sua família, namorar um lobisomem não era exatamente o que Andy ia querer para sua única filha; e cautelosa, como se esperasse que Remus começasse a gritar que Dora não podia ir.
— Contou — concordou Remus. — Ela está?
— Nymphadora! — chamou Andy por cima do ombro em vez de responder. Remus ouviu Dora rosnar em seu quarto e, depois, o som de passos. Mas o rosto dela se alegrou quando ela o viu ali, e Remus sentiu um sorriso esticar seus lábios.
— Ah, excelente — disse ela. — Eu já estava para ir para Grimmauld... Achei que você não fosse sair hoje. Como está se sentindo? — Dora segurou sua mão e o puxou até seu quarto.
— Já estive melhor — respondeu, cansado, olhando ao redor. Só metade do guarda-roupa estava no chão, o resto estava em seu malão, aberto sobre a mesa.
— Bem, espero que você esteja melhor na segunda-feira — disse ela. — Foi um saco, mas já providenciei as Chaves de Portal para nós, para que você possa me ajudar a levar minhas coisas para a casa nova, e depois pensei que podíamos dar umas voltas, conhecer o lugar e tudo... Você está bem? — perguntou ela.
— Eu acabei de dizer que já estive melhor — lembrou-a, erguendo uma sobrancelha.
— Não foi o que eu quis dizer — bufou. Canis, o gato maldoso de Dora, saiu debaixo da cama, mordeu o tornozelo de Remus e correu para fora do quarto. — A mãe disse que ele tem que ir comigo — comentou, chateada.
— O que quis dizer? — perguntou ele, fazendo-a voltar a prestar atenção ao que estivera tentando dizer.
— Quis dizer... e não estou reclamando! — apressou-se a adicionar. — Mas... eu achei que você fosse querer conversar mais sobre isso. Achei que você fosse... sei lá, querer combinar as visitas e tudo o mais...
— Não há o que conversar — disse Remus, dando de ombros.
— Nada mesmo? — perguntou, seu cabelo ficando laranja. Remus não sabia se era confusão, raiva ou alguma outra coisa. — Você está completamente feliz com o fato de que estou me mudando para a França e que não poderemos mais aparatar ou usar o flu para nos vermos?
— Achei que você queria ir — disse, confuso.
— Eu quero! — exclamou. — Eu só... Não posso acreditar que você não tenha dito uma coisa sequer contra! Até eu tenho dúvidas!
— Dora — disse ele gentilmente, segurando suas mãos. — Você realmente achou que eu faria alguma coisa além de apoiá-la? Se isso é algo que você quer fazer, então eu não vou te impedir. Era para ser assim.
— Era para eu ir à França para estudar com um dos melhores Aurores do mundo? — perguntou simplesmente.
— Não — disse Remus, rindo. — Não exatamente. Mas era para você conquistar grandes coisas. Você é jovem e muito talentosa, e eu sei que não sou o único que pensa assim.
— Isso é gentil — disse ela, sorrindo, enquanto seu cabelo ficava rosa claro por causa da vergonha. Remus conseguia sentir suas mãos ficarem úmidas nas delas.
— E é exatamente por isso que acho que já deu — disse Remus. As mãos dela se contorceram e ela o olhou, franzindo o cenho.
— Deu? — perguntou num tom bastante calmo. Seu cabelo não mudou de cor, mas Remus achou que era por um esforço dela.
— Nós, Dora — suspirou. — Eu vou acabar te atrasando... Não tenho dinheiro para comprar uma Chave de Portal internacional a cada duas semanas, e depois que as aulas recomeçarem em Hogwarts, não vou ter tempo, e se você ficar voltando a cada oportunidade, não vai se focar direito nos...
— Nos meus estudos — disse ela friamente. — Certo. — Seu cabelo ainda não mudou de cor, e isso estava deixando Remus inquieto. — Tudo bem. Você pode ir embora, então. — Sua voz falhou um pouco. — Eu preciso fazer as malas. — Remus a olhou. Estava feliz por ela não estar brigando por causa disso, mas era muito atípico dela não brigar. — Está esperando que eu te peça para mudar de ideia? — perguntou.
— Não teria sido inesperado — admitiu. — Mas fico feliz que você entenda...
— Ah, eu entendo — falou e sua voz tremeu e, simples assim, seu cabelo ficou espetado e vermelho por causa da raiva. — Eu entendo que, por mais que você diga que sou talentosa, nada que eu diga ou faça será o bastante para te convencer de que você vale alguma coisa. — Ela não gritava, mas tremia. Seus olhos estavam escuros e seus lábios, mais vermelhos que o normal. Remus quase esperava que ela crescesse garras. — Só que agora não é mais só consigo mesmo que você não se importa, é comigo...
— Eu me importo com você — disse Remus, surpreso por ela pensar isso.
— Se fosse verdade — disse —, então você me imploraria para recusar a oferta ou estaria me dizendo que faríamos dar certo. Em vez disso, você se despediu. Eu quero isso... eu quero... nós. Mas se você não está pronto para lidar com as coisas como se elas importassem, nem lutar para mantê-las, então por que infernos eu deveria?
— Dora — disse ele, seu coração se apertando.
— Vá embora, Remus — pediu e sua voz estava tão fria e inexpressiva, que Remus não acreditaria ser a voz dela se não tivesse visto ela falar. — Estou cansada de te forçar a ficar por perto quando é claro que prefere estar em outro lugar.
Remus fechou os olhos por um momento e foi embora.
Continua.
