CAPÍTULO DOIS

O hotel Hammond Tower ficava próximo ao centro da cidade, com uma vista estonteante para o porto e a iluminação do monumento da Sydney Opera House, que podia ser avistada de vários ângulos. Mas, ao contrário dos outros hotéis concorrentes, o lugar possuía um charme do velho mundo. O design arte déco, a mobília e os empregados imaculadamente uniformizados fizeram Claire sentir como se tivesse voltado no tempo, apesar do excessivo uso de aço e vidro em suas torres.

Deixando o carro com o manobrista no estaciona mento, ela tentou não tremer de embaraço, quando o motor tossiu e sufocou atrás dela, não querendo sair do lugar.

O porteiro sorriu e abriu as portas de vidro.

— Boa noite senhora. Seja bem-vinda ao Hammond.

— Obrigada — disse ela, retribuindo o sorriso cortês, ao mesmo tempo em que se dirigia ao piano-bar com pernas que pareciam descoordenadas e trêmulas.

Edward estava sentando em um dos sofás de couro e se ergueu ao vê-la se aproximar. Bella sentiu a respiração roçar em sua garganta como um espinho contra um tecido macio. Ele era tão imponente. Como podia ter esquecido que se sentia tão pequena na frente dele?

Sua silhueta máscula se avultou sobre ela, os olhos, mais escuros que a noite, sondaram-na sem deixar transparecer nenhuma emoção.

— Isabella.

Foi tudo o que ele disse e isso lhe causou uma reação tão intensa, que Bella mal podia raciocinar quanto mais falar. Em uma fração de segundo, seu olhar percorreu com avidez todos os detalhes das belas feições de Edward. Ele a tocaria? Desejou saber num instante de pânico. Deveria dar o primeiro passo para manter as coisas sob seu controle?

Ou deveria erguer a face para trocarem o beijo que aprendera ser comum, enquanto morava na Itália? Ou ficar parada no lugar, como estava agora, os braços ao lado do corpo, os dedos apertados firmemente ao redor da bolsa, o coração disparando feito um tambor, enquanto temia encarar aqueles olhos negros como breu?

Edward não mudara muito. Ainda não exibia fios de cabelos brancos, embora já estivesse com trinta e seis anos. A pele continuava bronzeada e a face sempre muito bem barbeada. As linhas clássicas do terno italiano valorizavam o magnífico físico. Ombros largos, pernas esguias e musculosas, quadris estreitos... Tudo revelando que se tratava de um homem que levava a saúde a sério, apesar das longas e extenuantes horas de trabalho.

— Edward... — conseguiu dizer por fim, mas a voz saiu pouco audível e indistinta. Sentiu vontade de se bater por demonstrar o quanto a presença dele a desestabilizava. Por que não podia ser fria e sofisticada pelo menos uma vez na vida?

Por que tinha que sentir esse afeto em seu coração, com se alguém estivesse lentamente girando uma manivela até ela não poder mais respirar?

— Não gostaria de se sentar? — Ele gesticulou oferecendo o sofá onde estivera sentado minutos antes.

Tão cortês, tão formal, pensou Bella, enquanto se sentava, mantendo as pernas cruzadas e bem distantes das dele.

— O que gostaria de beber? — perguntou Edward quando o garçom se aproximou.

—Algo suave como... Água mineral — respondeu ela, apertando a bolsa de encontro ao ventre como um bote salva vidas. — Estou dirigindo.

Edward pediu uma água mineral e um conhaque para ele, antes de se reclinar no assento e fitá-la.

— Você perdeu peso — comentou.

Uma faísca de irritação surgiu e desapareceu nos olhos azul-esverdeados de Bella.

— É uma crítica ou uma observação? — perguntou.

— Não a estou criticando.

—- Ouça, podemos agilizar as coisas? Diga logo o que quer e me deixe voltar para a minha vida.

— Que vida, eu gostaria de saber? — indagou ele, enquanto seu olhar escuro a contemplava demoradamente.

Os olhos de Isabella se estreitaram, duas manchas vermelhas incendiaram suas bochechas.

— Tenho uma vida, Edward. Apenas optei por não o manter nela.

Um sorriso curvou os cantos dos lábios dele. Ela possuía uma língua afiada, quando achava que podia vencer. Mas agora ele estava ali e tinha modos e meios para mantê-la nos eixos.

— Temos assuntos a discutir, Isabella. Estamos separados há um longo tempo e precisamos tomar algumas decisões sobre o que vamos fazer daqui em diante.

— O que vamos fazer, vamos diretamente para o tribunal pôr um ponto final em nosso casamento como manda a lei.

Edward fez uma pausa, contemplando os olhos castanhos de Isabella e o modo como seus lábios macios se contraíram em uma linha rígida. A pele da face era de um tom creme claro, com uma minúscula insinuação de sardas sobre a ponta do nariz, o que lhe conferia uma cativante aparência infantil. Havia reparado na quantidade de homens que virará a cabeça para admirá-la, no momento em que ela entrou no bar.

Isabella, porém, parecia totalmente alheia ao efeito que causava no sexo oposto ou hábil mente o ignorava para aumentar seu potencial feminino.

— E se eu lhe disser que não quero o divórcio?

Ela pousou a água mineral com brusquidão sobre a pequena mesa de centro, os olhos arregalados, encarando-o.

— O que você disse?

Os lábios de Edward exibiam um meio sorriso indolente.

— Você ouviu.

Bella respirou fundo e o fuzilou com o olhar.

— Isso é péssimo, porque eu quero o divórcio.

Edward continuou a fitá-la fixamente.

— Então, por que não fez nada em relação a isso até agora?

Bella desviou o olhar.

— Eu... Eu não precisava me preocupar — murmurou ela num tom petulante. — Você estava distante da minha vida.

— Mas agora estou de volta e de repente você quer pôr um fim ao nosso casamento? — Ele estalou os de dos. — Assim, dessa maneira.

Bella o encarou com um olhar frio.

— Nosso casamento terminou cinco anos atrás, Edward. Você sabe muito bem disso.

— E por quê? — Perguntou ele, não se preocupando em disfarçar a raiva dessa vez. — Você queria culpar alguém por tudo e qualquer coisa e eu era o bode expia tório mais próximo, não é?

Ela o fitou furiosa. Edward podia ver uma veia latejando em seu pescoço e o modo como seus dedos estavam crispados ao redor da bolsa.

— Você me traiu — murmurou Bella num tom baixo e áspero —quando eu estava mais fragilizada. Jamais vou perdoá-lo por isso.

A mandíbula de Edward se contraiu.

— Então ainda continua com essa história sobre eu ter sido infiel nos últimos meses da nossa relação?

Uma chama de puro veneno apareceu nos olhos de Isabella.

— Sei perfeitamente o que eu vi — sibilou ela a meia-voz, de modo que os outros hóspedes no bar não a ouvissem. — Você a estava abraçando, logo não perca seu tempo tentando negar.

— Não ousaria negar tal coisa. Tanya era e ainda é uma amiga muito íntima.

Foi uma das coisas que lhe contei quando nos conhecemos.

— Sim, mas não contou que ela fora sua amante 18 meses antes — rebateu ela.

— Um detalhe secundário, mas bastante importante.

Edward pousou a bebida.

— Não queria aborrecê-la, falando sobre minhas ex-amantes. Não parecia apropriado, já que você era inexperiente.

— Sim, consegui toda a experiência que precisava convivendo com você durante quase um ano.

Seus olhares se prenderam por um tenso momento.

— Por que não diz Isabella? Por que não conta a todos neste bar o motivo que a leva a culpar-me?

Agora ela o deixara tão irritado que não sabia se seria capaz de manter as coisas sob controle. Estava acostumada com a frieza e a distância de Edward, que não deixava transparecer nenhuma emoção sob aquela máscara de serenidade.

Então, ela se deu conta do interesse dos outros hóspedes e sentiu a face começar a enrubescer.

— Importar-se de controlar a voz? — Murmurou ela. — As pessoas já estão olhando.

— Deixe-as olhar.

Isabella ouviu alguém rir baixinho perto deles.

— Pelo menos não podemos ir para um lugar com mais privacidade? — Ela disse em desespero.

Edward se ergueu.

— Venha — disse ele, dirigindo-se ao hall dos eleva dores, situado do outro lado do saguão de mármore.

Isabella o seguiu num passo mais lento e entrou no elevador que ele segurava para ela. No interior da cabine, encostou-se e em um canto no fundo, deixando bastante espaço entre os dois.

Com os nervos à flor da pele, observou Edward inserir o cartão de segurança para a cobertura e as portas se fecharem; o elevador começou a subir cada andar.

O silêncio era quase palpável. Isabella podia sentir o coração batendo irregularmente, o sangue disparando nas veias, quando o elevador por fim parou.

Edward segurou as portas abertas e ela saiu, prendendo o ar na garganta ao inalar o rastro cheiro da loção pós-barba que ele usava. Uma fragrância provocante que evocou antigas lembranças em seu cérebro. Lembranças do seu corpo sob o dele, do cheiro másculo que impregnava a sua pele, do gosto salgado e sensual do seu beijo, seus músculos relaxados após fazerem amor... Cada lembrança fazia seu corpo arder de calor.

Podia sentir o rubor tomar conta da sua face e desejou saber se ele sabia o motivo para tal.

Edward destrancou a porta da suíte e em silêncio gesticulou para ela entrar, os ilegíveis olhos escuros seguindo todos os seus movimentos. Isabella baixou a cabeça e entrou o farfalhar suave da sua saia esbarrando nas pernas da calça dele, deixando-a ainda mais atenta à sua presença poderosa.

O som da porta que se fechava atrás deles a fez sentir uma onda de arrepios por todo corpo e para disfarçar a sua reação caminhou até a janela e contemplou a vista.

Isabella podia senti-lo atrás de si, os cabelos da nuca se arrepiando em alerta. Suprimindo um calafrio minúsculo, concentrou-se nas balsas iluminadas que passavam por baixo da Harbour Bridge.

— Então, quer o divórcio? — Perguntou ele, como se ela fosse uma empregada pedindo aumento.

Ela se virou para enfrentá-lo.

— Não pode me negar isso, Edward. Estamos separa dos há bastante tempo para haver contestações.

— Eu sei — murmurou ele, prendendo o olhar dela com a intensidade escura do seu. — E se é isso que quer, vou lhe conceder. Mas somente após os três meses de minha permanência aqui.

— Não sei se entendi direito — disse ela com uma carranca. — Está sugerindo uma reconciliação temporária?

Os olhos dele continuavam a fitá-la fixamente.

— Gostaria que fizéssemos uma nova tentativa. Dessa vez no seu território, não no meu.

Isabella sentiu o coração disparar dentro do peito, enquanto seu cérebro filtrava gradualmente aquelas palavras.

— Está falando sério? Meu Deus, Edward! Está louco se acha que aceitaria uma coisa dessas.

A expressão dele sugeria mais do que pura obstinação.

— Três meses não é um período tão longo, Bella. Se as coisas não derem certo, o que temos a perder? Desse modo, podemos nos assegurar de que estamos tomando a decisão certa.

— Até onde sei, tomei a decisão certa quando peguei aquele avião de volta para Sydney.

— Você tomou essa decisão no calor do momento, após um período particularmente conturbado.

Bella o fitou boquiaberta.

— E assim que se refere a ela, agora? Um período particularmente conturbado?

Edward respirou fundo e passou os dedos entre os cabelos.

— Sabia que reagiria assim. É impossível conversar qualquer coisa com você sem que distorça tudo que digo para insinuar que não me importei com a morte da nossa filha. Droga sabe que isso não é verdade. Eu a queria mais do que qualquer coisa na vida.

Isabella contraiu a mandíbula, as emoções começando a fugir de seu controle. Sim, ele queria o bebê. Só que não queria a esposa como parte da barganha.

— Pelo amor de Deus, diga o nome dela! Ou já esqueceu? — A voz soou estridente. — Já esqueceu tudo sobre ela?

— Não aja dessa maneira. Isso não vai trazê-la de volta.

Isabella se esforçou para não perder a calma como acontecera tantas vezes no passado. Edward era craque em manter suas emoções sob controle, o que fazia o descontrole dela parecer ainda mais humilhante.

Como aquele homem podia ficar lá parado, tão frio e impessoal, achando que ela concordaria com os seus planos e, num estalar de dedos, a teria de volta como se nada tivesse acontecido?

— Estou falando sério sobre a reconciliação, Bella.

Ela o fitou com brilho desafiador no olhar.

— Bem, detesto ter de informá-lo, mas está perdendo seu tempo, porque a última coisa com que concordarei é voltar a ser sua esposa. Nem durante três meses, três semanas, ou mesmo três dias.

Edward lhe lançou um olhar longo e estudado.

— Acho que vai querer repensar essa posição após falar com as autoridades sobre a situação em que um dos seus meios-irmãos se encontra.

Isabella sentiu os olhos se arregalarem em alarme.

— Qual deles? — Perguntou, pedindo a Deus em silêncio que não fosse Seth.

Seth não era nenhum anjo, tivera várias passagens pela polícia no passado, mas estava regenerado agora. Porém, Seth era vulnerável, um jovem impetuoso e, às vezes, violento, o que com frequência lhe causava problemas.

— Seth — respondeu Edward.

Isabella engoliu em seco, esperando que o desespero não estivesse estampado em sua face.

— Do que está sendo acusado? — Perguntou ela, erguendo o queixo.

Edward ergueu uma sobrancelha de uma maneira torta.

— Vejo que está a par do vernáculo legal quando se trata do comportamento do seu irmão.

— Sou a primeira a admitir que Seth tem alguns problemas de comportamento. Mas não vejo o que isso tem a ver com você.

— Na verdade, o comportamento dele dessa vez tem tudo a ver comigo — disse Edward, com um reluzir intencional nos olhos escuros. — E você também, no que se refere a isso.

Não pergunte, advertiu-se Bella, mas mesmo assim as palavras deixaram seus lábios num fluxo hesitante.

— O que está querendo dizer?

— Seu irmão roubou meu carro alugado, no estacionamento do hospital esta tarde, para fazer um racha.

Oh, santo Deus, pensou ela desesperada. De todos os carros em Sydney, por que escolher justo o de Edward Cullen? Ela sabia que Seth ainda estava na cidade. Viajara do sul do país para surfar com alguns amigos. Tinha vindo vê-la dois dias atrás.

Ficara para pernoitar e ela lhe dera algum dinheiro para comprar um macacão de mergulho novo.

— Um... Houve alguma avaria? — Perguntou, com um fio de esperança permeando sua voz não tão firme.

— Nem três meses vivendo comigo como minha esposa serão suficientes para reparar — respondeu ele, os olhos sustentando os dela com uma firmeza de aço.

Isabella o encarou, o coração batendo em uma imitação perfeita do seu carro em uma manhã de inverno.

— Está me chantageando para eu voltar para você?

— A palavra chantagem insinua falta de opção — disse ele, com uma inclinação enigmática nos lábios que se aproximava de um sorriso. — Neste caso, estou lhe dando uma opção, Isabella. Ou você reata o nosso casamento durante minha permanência em Sydney ou apresentarei uma queixa formal contra o seu irmão. O que decide?