Capítulo II
Dezembro
—O natural, Jacob, seria Bella se casar com o filho de Esme.
Sam de Uley bateu amigavelmente no ombro do irmão mais novo de Bella. Embora os modos dele fossem amistosos, na verdade muito mais amistosos do que costumavam ser no passado, Bella per guntou-se o que o velho mercenário esperava ganhar com aquele casamento.
A propósito, ela não estava muito certa de que alguma vez Sam havia se dirigido diretamente a Jacob. O irmão dela era filho ilegítimo, mas o malvado pai deles havia permitido que Jacob crescesse no interior dos muros do Castelo Swan.
Naturalmente não teria concordado com isso se não tivesse bons motivos.
Com a morte do lorde de Swan, Sam não tinha ninguém mais a quem apresentar aquela proposta de casamento. Um irmão bastardo era tudo o que restava a ela como família.
Isso sem considerar o tão falado irmão legítimo dela, Riley, que havia partido de Swan para fazer a própria vida antes mesmo que Bella fosse concebida. Ela tremia só de pensar nas histórias que ouvira do pai sobre a crueldade do primogênito. Por isso eles haviam resolvido abandonar Swan ao vento e aos lobos tão logo souberam que Riley estava retornando.
Ele que fizesse bom proveito.
O estado do Castelo Swan, tradicional propriedade da família de Bella, era deplorável. Por pura negligência de Charlie Swan. Antes mesmo da morte dele os últimos servos haviam fugido, já que só viam um futuro de incertezas. Naquele último ano nenhuma semente havia sido plantada nos campos do feudo. A situação se tornara tão periclitante que Bella e Jacob nem precisaram discutir muito se deviam ou não ir embora quando souberam do iminente retorno de Riley.
Partiram imediatamente, sem olhar para trás.
Ao contrário de Swan, Sam tinha um confortável castelo. Sam o novo lorde de Uley havia recebido a estratégica tarefa de ser o guardião do Passo de Uley. Por ali passava a antiga estrada romana rumo ao sul, ao largo da propriedade do lorde de Volturi, suserano dos feudos da região. O castelo Uley era tangenciado pela estrada.
A alta torre do castelo era fina como uma agulha, tendo a construção sido possível graças ao terreno rochoso. Só havia janelas no alto da torre, nos aposentos de Sam e nos postos de guarda. Não seria exagero dizer que Beauvoir era mais uma fortaleza militar. Na verdade, tratava-se do castelo mais fortificado em toda a região de Volturi, o que se justificava pela estratégica localização.
Bella e a esposa do lorde eram as únicas mulheres presentes ali. Em razão disso, em todos os lugares aonde ia, ela era alvo dos olhares dos soldados, o que a deixava atemorizada. No entanto, estar em Uley, apesar da natureza hostil daquele lugar, era muito melhor do que ter ficado em Swan esperando o retorno de Riley.
O escritório de Sam, adjacente aos aposentos do lorde, ficava num cômodo parcamente mobiliado, embora os poucos móveis fossem elegantes. As janelas estavam fechadas por causa do frio e o fogo queimava na lareira.
Homem de meia-idade e de cabelos prateados, Sam estava sentado de frente para o fogo numa cadeira de braços e espaldar alto. As rugas davam ao rosto uma expressão de permanente severidade, transmitindo a imagem de experiente comandante que ele de fato era.
A esposa do lorde estava mais perto do fogo, acomodada num banco de três pernas parecido com o que Bella usava, embora o da lady tivesse uma almofada vermelha. Mulher extremamente reservada e muito pálida, ela se debruçava sobre os bastidores em que bordava, com os ombros recurvados. Tinha uma permanente expressão de cansaço e Bella nunca a ouvira pronunciando uma só palavra que não fosse para responder a uma pergunta.
Bem, era uma característica muito estranha para a falastrona Bella.
As chamas douradas da lareira dançavam diante de todos, servindo de cenário para uma discussão travada num ambiente de falsa intimidade. Refletiam-se na malha metálica de Jacob e produziam lúgubres sombras nas paredes.
—Bella casada? —perguntou Jacob, como se nunca houvesse pensado naquilo.
—Isso mesmo —assentiu Sam. —Um homem não chegará a lugar algum se tiver sempre que carregar a irmã —argumentou o lorde, juntando as sobrancelhas. —Afinal de contas você pediu a minha opinião, e essa é a única opção que vejo.
—Talvez alguém deva pedir minha opinião —pronunciou-se Bella, incapaz de continuar calada. —É o meu futuro que está em discussão.
A esposa de Sam dirigiu à ela um olhar de advertência, mas os dois homens pareciam nem ter ouvido protesto.
Jacob tamborilava com os dedos na lateral da cadeira, indeciso.
—Talvez o lorde de Volturi deva ser consultado —ele disse, pensativo. —Eu não me arriscaria a ofendê-lo tomando sozinho uma decisão tão séria.
Irritada, Bella percebeu que o irmão tinha como certa a concordância dela com aquela idéia. Jacob havia mudado muito desde a partida deles de Swan. Agora nem pedia mais conselhos à irmã. Nem mesmo sobre assuntos que diziam respeito ao coração dela.
Na verdade, desde a morte do pai deles, o rapaz vinha mostrando uma faceta em que Bella jamais havia reparado. Talvez na realidade ela não houvesse querido reparar, porque era algo que a fazia lembrar-se do caráter do pai.
Isso não era de admirar. Afinal de contas, havia voltado do convento para Swan apenas um ano antes da morte de Charlie.
—Bah! —exclamou Sam, rejeitando o comentário de Jacob. —Ultimamente Volturi tem tido muitos problemas para resolver. Não terá tempo para pensar no casamento de uma jovem da nobreza sem nenhum dote.
Bella sentiu as faces coradas de pura raiva. Agora estava sendo tratada como algo de que o irmão precisasse se livrar.
—Mas quem é essa Esme? —interrogou Jacob, externando uma das muitas perguntas que a própria Bella queria fazer.
—Esme de Cullen é uma velha amiga da minha família. Eu e o marido dela, Carlisle, recebemos treinamento militar juntos. Infelizmente Carlisle morreu há alguns anos.
Bella molhou a ponta da linha para enfiar na agulha, esforçando-se para se concentrar no bordado. Uma dama deve saber controlar a língua, diziam sempre as freiras do convento. Não era fácil. Bertrand pigarreou.
—Há pouco tempo Esme me escreveu pergun tando se eu conhecia alguma jovem adequada para se casar com o segundo filho dela. O mais velho herdou o feudo, naturalmente, mas ela está preocupada em ga rantir o futuro do filho mais jovem, mesmo que seja ar ranjando para ele uma pequena propriedade.
Jacob não disse nada, para alívio de Bella, mas as rugas na testa de Sam se aprofundaram.
—Sua irmã não pode conseguir nada melhor, como você sabe, já que não tem dote. Além disso, todos sabem que ela não é uma pessoa muito fácil de lidar.
Dito isso ele dirigiu um olhar de censura a Bella, que se absteve de protestar, manejando furiosamente a agulha. Pelo menos as freiras se orgulhariam da resis tência dela.
—O momento é oportuno, Jacob, e a família é muito boa —prosseguiu o lorde. —As propriedades deles são muito prósperas. Sua irmã levaria uma vida satisfatória.
Desta vez Bella achou que não podia continuar em silêncio.
—Satisfatória segundo os padrões de quem?
Sam trincou os dentes.
—Que maldição —ele resmungou, ao mesmo tempo que Jacob apertava os lábios.
—Não é maldição alguma uma pessoa expressar o próprio pensamento —argumentou Bella. —Não consigo entender por que minha opinião não é levada em conta nesse caso. Está se falando aqui de um homem com o qual eu estaria destinada a passar o resto da minha vida.
—Bella, será que você não pode controlar a língua pelo menos uma vez? —perguntou Jacob, impaciente. —O assunto é delicado e não cabe a você decidir.
—Eu sei disso, mas não posso dizer que me agrada.
—Não importa o que você queira! —respondeu Jacob, com uma rispidez que jamais havia usado ao se dirigir à irmã.
Bella esforçou-se para conter as lágrimas. Sempre havia pensado que Jacob faria qualquer coisa por ela. Era duro perceber que havia se enganado.
O rapaz levantou-se e pôs-se a caminhar de um lado para outro, as mãos às costas, os cabelos negros refletindo a luz das velas. Aqueles expressivos olhos castanhos, tão parecidos com os dela, não podiam ser vistos, mas pelo menos de uma coisa Bella tinha certeza: não conhecia mais o irmão.
E, com aquela atitude, Jacob só podia estar querendo dizer que concordaria com Sam. Bella jogou de lado o bordado, detestando o irmão por trair as esperan ças dela.
Jacob sabia o que ela queria. Muitas vezes o futuro dela tinha sido discutido por eles depois da morte do pai. Como ele podia agora, apenas para satisfazer às próprias conveniências, deixar de lado as aspirações dela?
Nesse instante alguém bateu na porta.
—O lorde James de Roussineau está aqui para vê-lo, meu senhor —anunciou um servo.
Sam encolheu-se, depois recompôs o semblante e ordenou com um gesto que o visitante fosse levado à presença dele. Bella ficou olhando enquanto o homem de quem já ouvira falar muitas coisas, bem poucas delas lisonjeiras, entrava no escritório.
James tinha cabelos loiros e se vestia de forma pomposa. Bella até se perguntou se aquele homem tinha condições financeiras para sustentar todo aquele luxo. Havia um pouco de neve na pesada capa verde e ele trazia o elmo embaixo do braço. O homem correu os olhos pelos presentes e, ao ver Bella, desfez o leve sorriso com que havia chegado.
Aquilo fez com que ela temesse a missão de que ele estava incumbido.
Depois James abriu o sorriso enquanto se incli nava diante de Sam. O lorde tolerou o gesto, embora olhasse rapidamente para Jacob, por cima da cabeça do recém-chegado, com as sobrancelhas levemente erguidas. Provavelmente também se perguntava qual era o propó sito daquela visita. James aceitou uma caneca oferecida pela esposa de Bertrand, embora parecesse ignorar a presença da mulher.
Novamente olhou para Bella e desta vez havia um brilho de luxúria naqueles olhos. Rapidamente ela pegou os bastidores e debruçou-se sobre o bordado, procurando esconder a repulsa que sentiu.
—Há tempos que não tenho a honra da sua companhia. —disse Sam, com uma frieza que não podia deixar de ser notada.
James preferiu ignorar o tom de voz do lorde.
—Sam, meu bom vizinho, vim em busca de no tícias. Por acaso sabe do paradeiro de Isabella de Swan? Acabo de encontrar o Castelo Swan deserto e Aro Volturi está fora, combatendo.
—Por que procura por minha irmã? —quis saber Jacob. James deu um salto como se ainda não houvesse reparado na presença do rapaz. Depois apertou os olhos e fitou Jacob.
—Irmã? —ele inquiriu. —Eu pensava que Charlie de Swan tivesse apenas um filho e uma filha.
—Sim, os legítimos —confirmou Jacob, com a fanfarronice que costumava adotar quando tratava daquele as sunto. —Eu sou filho ilegítimo dele, embora meu pai tenha falado em me reconhecer legalmente.
—Mas ele fez isso?
—Não.
—Ah! —Ficou evidente o alívio que se espalhou pelo semblante sombrio de James. Mais uma vez o olhar dele se dirigiu a Bella. —E posso concluir que essa é a bela Isabella, estou certo?
Soltando o bordado ela se pôs de pé.
—Sim, sou Isabella de Swan. O que quer comigo?
James caiu de joelhos diante dela e beijou-a na mão.
—Linda donzela —ele disse, num tom meloso. —Estou muitíssimo encantado em conhecê-la.
—É mesmo? —ela inquiriu, em vez de retribuir ao cumprimento, como mandava a etiqueta.
—É mesmo —respondeu o homem, sem se mostrar ofendido. —Sua beleza é muito superior ao que imaginei quando resolvi procurá-la para pedir a sua mão.
Era inacreditável aquele assunto estar sendo levanta do pela segunda vez num espaço de tempo tão curto. Bella sempre ouvira dizer que não teria muitas chances de arranjar um casamento, tanto na opinião do mi serável pai quanto na das desgraçadas freiras. Falastrona demais, pouco habilidosa nos serviços domésticos, alta demais... E sem dote, como Sam tão admiravelmente se encarregara de lembrá-la, momentos antes. Apesar disso tudo, ouvia em um só dia duas propostas de casamento.
Como se explicava aquilo? Infelizmente para os dois pretendentes, há muito tempo ela havia decidido que só se casaria por amor.
Bella estava prestes a declarar que não aceitava a proposta quando o olhar de James encontrou o dela. O brilho de cobiça que havia naqueles olhos a deixou muda.
No mesmo instante ela percebeu as intenções daquele homem. James queria se tornar senhor de Swan antes que Riley voltasse.
Seria esse também o objetivo da tal lady Esme? Queria a mulher uma propriedade para o filho mais jo vem, já que o mais velho havia herdado Cullen?
—Sim, minha lady —arrulhou James. —Ficará ainda mais bela como minha noiva.
Ser pretendida apenas pelo que possuía era o contrário de tudo o que Bella havia sonhado.
—Eu não serei sua noiva! —ela exclamou, retirando a mão da de James e recuando, consciente de que mostrava no semblante toda a repulsa que sentia.
—Isabella! —repreendeu-a Jacob.
Sam dirigiu a ela um olhar de censura enquanto a esposa dele engolia em seco. James deu um passo atrás.
—Não se preocupem —ele disse, numa voz perigo samente baixa, os olhos fixos em Bella. —Sempre admirei mulheres geniosas.
Isabella não fraquejou diante daquele olhar frio.
—Seja como for, você chegou tarde —observou Sam.
James jogou o manto por cima de um dos ombros e voltou-se para o lorde.
—Como assim?
—Esme de Cullen está procurando uma esposa para o filho. Jacob e eu discutíamos há pouco os termos do nosso acordo.
—Então agora é um acordo —protestou Bella, sendo ignorada pelos homens.
A esposa de Sam balançou a cabeça, preocupada, e fez sinais para que ela ficasse quieta.
—Quem é esse filho? —quis saber James, com um sorriso condescendente.
Sam não deu nenhuma indicação de que havia percebido a afronta.
—Trata-se de um cavaleiro que partiu para a Cruzada...
—Então ele está no Oriente? —ridicularizou James. —Essa flor de mulher não tem nenhuma necessidade de se casar com um homem que se encontra na Terra Santa.
Bella fez uma careta ao ouvir as palavras melosas do homem.
—Ele é esperado de volta antes do Natal —declarou Sam, com voz firme.
—Ah! —exclamou o visitante, abrindo os braços. —Se esse cavaleiro não retornar da Cruzada, como ficará nossa bela Isabella? Acha que Esme mostraria compaixão por uma viúva cujo casamento não se consumasse?
Sam deixou claro que não havia gostado da observação.
—Como ousa dizer que o filho de Esme não vol tará para casa? —ele inquiriu. —Como ousa insinuar que a intenção dela não é honrada?
—Reconheça a verdade, Sam —rebateu James, com frieza. —Você nem sabe se esse cavaleiro ainda respira. Houve muitas baixas no Oriente e é possível que ele esteja entre elas.
— Ele é um bravo guerreiro! —insistiu o lorde. —Pertence a uma família nobre que tratará muito bem a noiva prometida do filho caçula!
Mas tratava-se de um homem que se casaria com uma noiva escolhida pela mãe, pensou Bella. Não era o noivo que ela queria. Queria, sim, um homem que pudesse tomar essa decisão sozinho.
—A preocupação de James faz sentido —pro nunciou-se Jacob, falando com calma e fazendo com que o visitante sorrisse. —Minha intenção é cuidar para que minha irmã esteja segura na minha ausência. Talvez devamos esperar pelo retorno filho de Esme.
James mostrou-se chocado com aquela sugestão.
—Está louco, homem? —ele indagou. —Já sabe que Aro intimou Riley a reclamar seus direitos sobre a propriedade. E todos nós sabemos das horríveis histórias sobre a crueldade do seu irmão. Por acaso acha que Riley se preocupará, pelo menos minimamente, com o seu bem-estar e com o da sua irmã?
Jacob mostrou-se tenso.
—Não imaginei que você estivesse tão bem infor mado sobre os assuntos da minha família —ele disse, com frieza.
James teve a bondade de enrubescer.
—Bem... Um homem sempre procura se informar sobre a noiva pretendida.
Bella revirou os olhos, embora permanecesse calada.
—Mas vamos voltar ao assunto em pauta —prosse guiu James, falando tão suavemente que ninguém poderia interrompê-lo sem ser descortês. —Diferentemente de um homem talvez morto, eu estou aqui neste exato momento, trazendo presentes para a bela Isabella. Naturalmente, Jacob, minha oferta promete um futuro melhor para a sua adorável irmã.
Bella teve certeza de que olhava para um oportunista.
—É mesmo? —duvidou Sam, aprumando-se na cadeira. —Todos nós sabemos da difícil situação de Roussineau! Até mesmo o segundo filho da família Cullen está mais bem situado do que o herdeiro de Roussineau!
James corou novamente e Bella concluiu que Sam havia acertado em cheio.
—Roussineau é um feudo de muito potencial —ar gumentou o visitante.
Desde que ele conseguisse juntá-lo a um outro maior e mais bem localizado, refletiu Bella. Swan tinha sido muito maltratada durante os últimos anos de vida do pai dela, mas pelo menos contava com campos vastos e férteis.
O mesmo não acontecia em Roussineau, cujo terreno era excessivamente pedregoso. Lá eram bem reduzidos os trechos que podiam ser usados para agricultura. Além disso, por causa das montanhas que cercavam a proprie dade, era pouca a incidência do sol, dificultando ainda mais as culturas. Bella sabia também que a mina de prata existente em Roussineau tinha sido excessivamente explorada no passado, o que levava a crer que as reservas estavam se esgotando. A situação de Roussineau devia ser mesmo ruim, ou aquele homem não olharia para Swan com tanta cobiça.
—Mudou alguma coisa em Roussineau, James? —perguntou Jacob.
Ah, ele não podia estar levando em consideração a oferta daquele homem! Bella dirigiu um olhar fulmi nante ao irmão, que outra vez a ignorou. Como ele podia não levar em conta a vontade dela?
Se Jacob concordasse com aquele casamento sem con sultá-la, naquela noite mesmo ela o amarraria no chão com os pés dentro da lareira acesa!
James sorriu com suavidade.
—Roussineau é uma propriedade pequena, mas per feitamente adequada para garantir o sustento e a segu rança de sua irmã. Mas não digo que não sou ambicioso. Dentro de um prazo muito curto ela estará magnifica mente alojada.
—Alojada como uma égua adquirida na feira —res mungou Bella.
Aparentemente só a esposa de Sam a ouviu, já que apertou os lábios.
O mais provável era que a própria herança potencial de Bella servisse para "alojá-la", muito mais do que qualquer outra ambição de James.
—Adequada? —interrogou Sam irônico. —Nem de longe Roussineau é adequada para uma dama da no breza. Não seja tolo, Jacob! Aceite a oferta de Esme e garanta o futuro de Bella!
Pensativo, Jacob olhava alternadamente para os dois outros homens enquanto andava de um lado para outro, bem devagar.
—Jacob! —apelou James. —Não prenda a um cadáver uma flor tão linda! Cuide para que ela se case já, comigo!
—Na minha opinião ela devia se casar com o filho de Esme! —declarou Sam, batendo nos braços da cadeira e pondo-se de pé.
Evidentemente, não estava acostumado a ser desafiado dentro da própria casa.
—Não pode existir uma decisão mais sensata para o caso!
—Pois na minha opinião ela devia se casar comigo!
Bella manejou com excessivo vigor a agulha e feriu a ponta do dedo. Apertou muito os lábios para controlar a dor e aquilo fez com que a esposa de Sam risse baixinho. Evidentemente a mulher não sabia que ela não estava mais disposta a controlar a língua. Logo depois Bella se pôs de pé para falar, mas naquele momento Jacob tomava a palavra.
—Talvez eu deva adiar essa decisão para daqui a alguns dias —ele declarou.
—Não, Jacob —ela discordou. —Não há necessidade de esperar tanto.
Desta vez os três homens se voltaram para olhá-la, surpresos, como se só agora a vissem.
—Não há nada para ser decidido —ela declarou. —Não me casarei com nenhum desses dois homens.
—Isabella! —exclamou Jacob, chocado, levando a mão ao peito como se estivesse sofrendo um ataque do coração.
Alguns segundos depois o rapaz passou a olhá-la com curiosidade, enquanto Sam demonstrava puro antagonismo.
Pelo menos ela estava tendo a atenção daqueles homens.
—Como uma jovem pode mostrar tanta audácia diante de pessoas mais velhas? —inquiriu Sam. —Não é de admirar seu pai tê-la mantido enclausurada num con vento durante tanto tempo! Reconheça o seu lugar e per maneça em silêncio, mulher!
—Assim como o filho de Esme deve se submeter à vontade dela? —perguntou Bella. —Não sei o que posso esperar de um homem tão fraco.
—E eu não sei como uma mulher de aparência tão doce pode ter uma língua tão venenosa —despachou Sam.
—Nesse caso, estamos de acordo que um casamento meu com o filho de Esme de Cullen não poderia dar certo —concluiu Bella, numa voz cheia de doçura. Depois ela dirigiu a James um olhar de desprezo. —E esse... O que sabe sobre esse homem, Jacob?
Bella já sabia a resposta, mas queria que o irmão pronunciasse as palavras.
—Tudo o que sei é o que ele próprio diz e os rumores que ouço —reconheceu Jacob, relutante.
—Se é assim, meu irmão, pense no fato de que estava prestes a conceder minha mão a um desconhecido, a um homem cuja reputação não é das melhores. —Bella respirou fundo. —Não me sinto no direito de desrespeitar um visitante do nosso anfitrião, mas me arrisco a dizer que tudo o que esse homem quer é se apoderar de Swan.
James contraiu os lábios, indignado, mas desta vez foi Bella quem o ignorou. Jacob franziu a testa, com um ar de preocupação.
—Bella, você não pode estar falando sério ao dizer que dispensa as duas propostas.
—É claro que posso, e é o que estou fazendo. —Dito isso ela cruzou os braços, num gesto bem pouco feminino. —Não me casarei com nenhum deles.
—Naturalmente não vai ficar esperando até que Riley retorne para decidir sobre o seu futuro —argu mentou James. —Lembre-se da reputação de crueldade dele.
—Decidi há muito tempo que só me casaria por amor... Ou não me casaria —respondeu Bella, cheia de or gulho. —Essa decisão continua de pé.
—Por amor? —indagou Sam, espantado, ob viamente surpreso com a mudança de rumo daquela discussão. —Mas o que o amor tem a ver com casa mento, menina? Jacob, sua irmã tem umas idéias muito esquisitas!
Mas Bella já havia observado o sofrimento das mu lheres que se submetiam a um casamento de conveniên cia. Então apertou os lábios, embora não quisesse decla rar àqueles idiotas o que sabia.
Vinha guardando aquele segredo há muitos anos.
—Só me casarei por amor, ou não me casarei —ela insistiu.
—A mulher sempre aprende a amar o homem com quem se casa —argumentou James.
—Não, está enganado —ela respondeu, olhando para Jacob, a quem na verdade queria convencer. —Ao pri meiro olhar reconhecerei o meu eleito.
Por alguns instantes todos ficaram em silêncio, até que Sam riu e balançou a cabeça, como se conside rasse ridículo o que acabava de ouvir.
—Ande logo, Jacob, Tome uma decisão.
Jacob correu os olhos pelos presentes. Depois, demora damente, fitou a irmã. Bella sentiu um enorme alívio. Ele estava levando em conta as palavras dela.
—Seria grosseria impedir que uma dama opinasse sobre o próprio futuro —ele declarou, com calma.
Bella sorriu, mas logo percebeu que não podia experimentar o gosto da vitória, porque os outros dois homens se aproximavam de Jacob, como se só ele pu desse decidir.
—Mas as mulheres não entendem as coisas do mundo —argumentou James.
—Se um valente cavaleiro como o filho de Esme não atende aos anseios de sua irmã, nenhum outro será adequado para ela —declarou Sam, continuando a ignorar a principal interessada.
—O que ela quer é continuar aqui em Beauvoir, sem ter nenhuma obrigação —pronunciou-se James , procurando convencer Jacob. —As mulheres são assim em qualquer lugar. Mas certamente ela verá que o ca samento tem sua utilidade quando tiver um ou dois filhos para cuidar, um castelo para administrar.
—Você não poderá sair em busca de sua fortuna le vando Bella, Jacob, e eu não poderei mantê-la aqui solteira —disse Sam, quase com crueza. —Este castelo está cheio de guerreiros e não tenho como me responsabilizar por uma jovem solteira. Bella não pode retornar para Swan e Aro Volturi não está em condi ções de ajudá-los agora, mesmo que queira.
—Naturalmente você não vai deixar a doce Bella sozinha, sem um marido, sem proteção... Não é? —mur murou James, o que fez Jacob arriar os ombros.
O rapaz voltou-se para a irmã.
—Bella, você terá que fazer uma escolha, apesar das suas opiniões.
—Por que não me leva com você?
Jacob sacudiu a cabeça.
—Não. Tenho que deixá-la em segurança antes de partir em busca de fortuna para mim. —Nesse ponto ele respirou fundo e Bella sentiu o coração apertado, já sabendo o que ouviria. —Insisto que você deve escolher um dos dois pretendentes antes que Riley retorne. Or deno que faça isso imediatamente.
—Não.
Bella aprumou o corpo e jogou para trás os cabelos castanhos, certa de que Jacob se dobraria diante da deter minação dela. Sem dúvida recuaria quando visse outra vez a força de vontade da irmã.
Jacob sabia o quanto ela havia lutado para não ficar no convento. Aquilo poderia ser usado para mostrar a firmeza da recusa.
—Não, há uma terceira opção —ela prosseguiu. —Se não posso me casar com um homem que seja da minha escolha, então me tornarei esposa de Cristo. —Aquelas palavras foram ditas com uma tranqüilidade que ela nem de longe sentia. —No convento talvez eu encontre o amor que estou procurando.
A ameaça daquelas palavras ficou no ar como uma coisa quase tangível. Ouvia-se o crepitar da lenha na lareira e todos os olhos estavam postos nela. Jacob abriu a boca, apenas para voltar a fechá-la. Bella ficou esperando, impaciente, mas ele não protestou.
Ele sabia! Como não podia saber o que ela estava que rendo dizer?
Para perplexidade dela, Jacob assentiu com uma calma pouco comum a um homem tão jovem que se visse numa situação como aquela.
—Então que seja assim.
Não! Bella abriu a boca, chocada. Como Jacob podia traí-la naquilo?
—Você me mandaria para um convento? —ela in quiriu, com voz de espanto.
Jacob manteve o olhar firme. Erguendo uma das so brancelhas, eximiu-se de qualquer culpa.
—A idéia foi sua —ele disse, com firmeza. Depois abaixou um pouco o tom de voz. —Quero vê-la segura antes que Riley retorne, Bella, e você fez sua escolha.
Então ela fechou a boca e procurou recompor o sem blante enquanto a raiva ia aumentando. Como Jacob ou sava pegá-la pela palavra? Como ousava ignorar o que ouvira dela? Bella havia pensado que podia confiar no irmão!
E agora não podia suplicar que ele reconsiderasse. Afi nal de contas tinha orgulho. Se ir para o convento era o preço que uma mulher devia pagar para ter convicções, então ela pagaria.
O céu estava cinzento na manhã seguinte, pouco antes da alvorada, quando Bella atravessou a porta do cas telo, esperançosa. A neve caía depressa e em grandes quantidades. O vento frio parecia capaz de atingir os osso e ela tremia quando aceitou ajuda para montar.
Jacob não teria coragem para mandá-la para um con vento, disso ela estava certa. Só ele sabia o que ela havia sofrido no período de internato. Perceberia que a opção apresentada destinava-se apenas a mostrar o quanto a irmã estava determinada a recusar os dois pretendentes.
E nunca antes Jacob havia afrontado a força de vontade dela. Sem a menor dúvida, naquela manhã ele diria que a deixaria acompanhá-lo.
Pouco depois Jacob saiu pela mesma porta, aparente mente preocupado apenas em calçar as luvas. Bella tinha certeza de que ele se aproximaria para dizer que era ela a vencedora da batalha.
Mas não. Sem ao menos olhar para a irmã, o rapaz caminhou até o cavalo, montou e virou o animal para a saída.
Bella sacudiu as rédeas, recusando-se a aceitar a dúvida que começou a ter. Jacob apenas esperaria até que eles estivessem na estrada. Simplesmente não queria mostrar que se dobrava à vontade da irmã na frente de todos aqueles soldados do lorde de Uley.
Mas havia um ar de determinação no semblante do irmão mais jovem dela, algo que a deixou preocupada.
Os cavalos resfolegavam, a respiração deles formando nuvens de vapor no ar. Os escudeiros esfregavam as mãos Para aquecê-las e o guarda do portão parecia estar usando todas as roupas que possuía.
Um homem gorducho batia com os pés no chão enquanto andava de um lado para outro na cabine de co brança de pedágio, embora fosse pouco provável àquela hora da manhã algum viajante passar por ali. A verdade era que Aro e Sam não queriam correr o risco de perder uma só moeda.
A ponte levadiça rangeu quando foi erguida. Jacob dirigiu um olhar duro aos integrantes da escolta antes de liderar o grupo até a estrada, mas não olhou para a irmã.
Nem Sam nem a esposa dele se apresentaram para desejar boa viagem. Bella sentiu o coração frio, tanto quanto a neve que a cercava.
E se fosse deixada no convento? E se Jacob não voltasse atrás? Diferentemente da vez anterior, quando ela se internara para adquirir instrução com as freiras, se en trasse para o convento agora não poderia mais abandonar o hábito. Teria que se resignar a uma vida inteira de silêncio. Ficaria sozinha, sob a autoridade da abadessa, uma desconhecida, cercada por outras mulheres igual mente desconhecidas. Não haveria retorno.
Nos anos passados no convento, ela só havia suportado por saber que um dia sairia. Por isso e pelo terrível se gredo que não havia confiado a ninguém, um segredo que, embora não a aterrorizasse mais, estava sempre presente no pensamento dela.
Bella sentiu amargura ao pensar que outra vez seria banida por ser um inconveniente para os homens da família. Mesmo assim, nem o covarde filho de Esme de Cullen nem o ambicioso James se ade quavam ao modelo de homem que ela esperava encontrar para marido.
Quanto a isso não faria concessões. Não voltaria atrás. Tinha feito a escolha, obedecendo à ordem de Jacob. E não era mulher de descumprir a palavra.
Jacob mudaria de idéia.
Bella ergueu a cabeça com altivez e olhou para a estrada coberta de neve. A ponte levadiça foi solta por trás do pequeno grupo, produzindo um barulho que ecoou no coração dela.
Fora dos muros, o vento era ainda mais forte e frio. Parecia atravessar todas as várias camadas de roupa que Bella havia vestido.
Altos pinheiros com os galhos esbranquiçados pela neve ladeavam a estrada. Os cumes rochosos dos morros desapareciam no meio das nuvens mais baixas. A manhã estava tão escura e fria quanto uma catacumba. O grupo se deslocava em silêncio rumo ao sul.
Maldito fosse Jacob ! Bella apertou os olhos para não derramar lágrimas de raiva. Maldito fosse Riley! Um dos irmãos a obrigara a fazer uma escolha indesejada enquanto o outro a impedia de permanecer em casa! Mal ditos fossem aqueles homens intrometidos que decidiam a sorte dela!
Afinal de contas, era ela quem seria obrigada a ficar com as freiras de Ste. Radegund.
O grupo cavalgou em silêncio durante boa parte do dia. O Convento das Irmãs de Ste. Radegund ficava fora das terras de Aro, numa floresta na face sul das montanhas. Era um lugar isolado, bem afastado da agitação do mundo secular.
Logo que atravessaram o desfiladeiro eles deixaram a pista pavimentada da estrada romana e rumaram para leste por uma trilha no meio das árvores. As patas dos cavalos jogavam flocos de neve para os lados. Bella prestava pouca atenção na direção que eles seguiam, mas Jacob e os homens freqüentemente desmontavam para verificar se estavam indo no rumo certo.
A neve aparentemente havia escondido boa parte dos marcos indicativos e ela sentia uma impiedosa satisfação com a demora que aquilo provocava. Não estava com nenhuma pressa de começar a vida como esposa de Cristo, mesmo sendo obrigada a passar mais tempo no frio. O crepúsculo começava a dominar tudo quando Jacob parou o cavalo. Bella, que ia logo atrás dele, puxou as rédeas da montaria. Embora já houvessem passados dois anos desde a última vez em que ela viajara por aquela trilha, tinha a impressão de que eles estavam fazendo um percurso muito grande.
Em todas as direções só havia neve e sombrias árvores de galhos desfolhados. O único som que chegava aos ou vidos dela era o silvo do vento naqueles galhos.
—Podemos voltar para Uley —sugeriu Bella.
Um dos cavaleiros riu e Jacob ignorou o comentário da irmã. Parecia que estava decidido a deixá-la no convento. Bella abriu a boca para argumentar, mas naquele exato momento os lobos começaram a uivar.
Primeiro foi apenas um uivo, bem ao longe, à es querda do caminho que eles seguiam. O medo provocado por aquele som silenciou o protesto dela. Os homens trocaram olhares, embora procurassem demonstrar despreocupação.
Depois um outro lobo respondeu à direita da trilha. O som vinha de bem mais perto do que o primeiro e fez com que Bella sentisse os pêlos da nuca eriçados.
Então ela olhou para Jacob , alarmada.
—O convento não deve estar longe, não é? —pergun tou, percebendo a ansiedade que havia na própria voz. —Podemos pelo menos procurar um refúgio por aqui.
—Para falar a verdade, não sei —confessou Jacob, num tom grave. —A neve acumulada na trilha prova velmente nos fez errar o caminho. Já devíamos ter chegado há horas.
—Será que não deixamos o convento para trás? —perguntou um dos homens.
Dois outros lobos uivaram. Agora estavam mais perto e seria impossível dizer se eram ou não os mesmos de antes. E o céu agora estava mais escuro.
O outono estava excepcionalmente frio e a neve come çara a cair muito cedo, pensou Bella, amedrontada. Aqueles lobos deviam estar famintos.
E a noite caía rapidamente.
—Não tem nenhum plano, Jacob ? —perguntou um terceiro homem. —Não podemos ficar na floresta com lobos por perto!
Jacob abriu os braços, frustrado, e pela primeira vez em muito tempo mostrou a pouca idade que de fato tinha.
—Não posso levar ninguém para um lugar seguro se não sei onde estou! Em que direção vocês acham que devemos ir?
Os cavaleiros ficaram olhando para os lados. Foi quan do Bella viu os vultos. Eram os lobos.
segundo capitulo, postado na quinta-feira.
Até a próxima semana.
