"Gosto do vento castigando meu rosto. Sei que tenho alguns arranhões por causa de algumas folhas e insetos que batem na minha face, mas de modo nenhum vou diminuir o ritmo da cavalgada. O frio que ainda sinto após três dias de viagem para longe destas terras geladas, de alguma forma me ajuda a sentir viva, ou a lembrar que eu preciso estar viva. Meu cavalo Alexander está cansado, mas ele me obedece. Sabe que a minha companhia significa segurança e vida. Em algumas regiões mais a leste ele seria morto e devorado pelos povos famintos das geleiras.

Logo mais precisarei parar para me alimentar, quando chegar às florestas fechadas e úmidas de Dvorak. Terei que tomar cuidado com as feras naquela região. Nada que anos de treino com a minha lâmina não dê conta". Sonja vê mentalmente a si mesma usando sua longa espada prateada, desferindo golpes mortais, com a graça de um samurai e a força do mais forte vicking. Então outra imagem suplanta esta. A imagem de homens e mulheres morrendo, crianças chorando e sendo raptadas por homens bestiais com elmos de chifres. Sonja sacode a cabeça e concentra-se no caminho a sua frente.

"Preciso de comida e água. Pararei por aqui. Aquelas frutas são bem sumarentas. Serão melhores do que a minha provisão de cascas". Sonja fez seu cavalo parar. Disse algumas palavras em sua língua natal, para que ele ficasse imóvel. Com um ágil movimento colocou os dois pés sobre o dorso do cavalo. Ficou de pé e alcançou os galhos mais altos da árvore frondosa. Pegou alguns frutos. Olhou com o canto dos olhos para trás e atirou alguns deles para o sujeito no outro cavalo. Ele estava atento e pegou-os.

_Se pretende ser meu aprendiz, terá que ser meu servo primeiro. O trabalho de conseguir comida é seu.

Sonja apeou da montaria. Colocou algumas frutas na boca de seu cavalo Alexander. Deu uma boa olhada no seu companheiro de viagem. "Ele até que não é ruim de olhar. Seria melhor se tivesse músculos, se soubesse usar uma espada, se parecesse mais perigoso. Assim parece uma velha. Inútil. Imprestável. Peso-morto. Por que é mesmo que eu trouxe esse rapaz comigo?"

_Ei você é curandeiro, não é?

_Meu pai é que é. Eu era aprendiz dele.

_E agora é o meu. O que espera aprender comigo?

_Ah, eu... A senhora, digo você tem uma força muito grande. Eu não sei o que é, mas resolvi aprender.

_Ahahahahaha!

_O que foi?

_Para um homem que estuda você é um tanto estúpido.

_Por que diz isso?

_Esqueça.

Sonja ficou de pé. Olhou para os lados e sacou sua espada.

_Proteja-se rapaz.

Yovanes correu para esconder-se atrás de uma árvore. A seguir um enorme animal, semelhante uma leoa com a cabeça grande e enormes presas a mostra, saltou na clareira onde eles estavam. Sonja levantou os braços sobre a cabeça. Segurava sua espada prateada com as duas mãos. Seus olhos estavam determinados e frios. A leoa rosnou. Andou com graça felina ao redor de Sonja que a encarava. A leoa baixou a cabeça, sustentando o olhar de Sonja. Então inexplicavelmente deu as costas e foi embora. Ainda se podia ouvir seu rosnado enquanto se afastava.

Sonja ainda segurava a espada em posição de combate com os ouvidos atentos e o olfato apurado. Percebeu que Yovanes saíra detrás da árvore em que se escondera e se aproximava dela. Com um rápido volteio posicionou sua espada na altura do pescoço dele. Yovanes ficou tão surpreso que caiu pra trás.

_Nunca se aproxime silenciosamente de um guerreiro em combate. Você poderia perder este belo pescoço. Levante-se já é hora de continuarmos nossa viagem. Essa leoa pensa em voltar à noite.

_Como sabe? Você lê a mente de animais?

_Uma leoa conhece outra.

Seguiram viagem. A floresta parecia interminável, mas logo chegaram a uma área de arbusto e árvores esparsas. Ao longe se viam vales e montanhas. Não havia lua naquela noite de modo que tudo estava muito escuro e sinistro. Continuaram cavalgando até um descampado. Sonja parou o cavalo e ficou inspecionando o lugar com olhos atentos e as narinas dilatadas.

_Ficaremos aqui. Rapaz faça uma fogueira.

Yovanes obedeceu prontamente. Somente quando a fogueira estava acesa e iluminando tudo, foi que Sonja apeou. Ela improvisou uma cama com peles de animais e sentou-se sobre ela, perto da fogueira. Yovanes também fez sua cama na outra extremidade. Sentou-se e ficou encarando Sonja, como se esperasse mais ordens.

_Você já matou alguém curandeiro?

_Não.

_Nem em combate?

_Não sou um guerreiro.

_Eu sou uma guerreira. Eu não curo pessoas. Eu tiro vidas. Não lhe parece uma contradição você estar aqui comigo?

_Eu entendo o que você quer dizer, mas eu não poderia deixar de vir.

_Eu sei.

Sonja deu uma sonora gargalhada. Olhou para Yovanes com pena e desprezo.

_O que você sabe? Já teve outros aprendizes antes?

_Bem, aprendiz? Não. Idiotas que me seguiram até encontrar a morte? Pencas.

_Eu não vou morrer. Você não vai deixar acontecer.

Ao ouvir aquilo, Sonja levantou-se de um salto. No momento seguinte estava com as mãos no pescoço de Yovanes. Levantando-o do chão.

_Não seja tolo rapaz. Acha que eu vou mover uma palha para evitar a sua morte? Você não é nada para mim. Meu cavalo é mais valioso do que a sua carcaça. Só te avisei sobre a fera hoje pela manhã, porque não queria limpar seus ossos e carnes espalhados pelo chão. Nesse mundo só vive quem toma conta do próprio traseiro.

Sonja atirou Yovanes longe.

_Você não tem nenhuma utilidade para mim. E eu só posso lhe ensinar a matar e a morrer. Por que não volta correndo para sua aldeia, curandeiro?

Sonja aninhou-se na sua cama. Ficou olhando a fogueira. Desviou o olhar para Yovanes, que estava deitado na cama dele com os olhos fixos nela.