Capítulo 2: Pare de Tentar Salvar o Dia
-mermaybe-
[INVERNO, DEZEMBRO DE 2010]
Uma Vila de sobreviventes, Costa de Townsville
Ela estava correndo, como estava correndo. Qualquer pessoa desacostumada com aquela parte da cidade estaria encontrando dificuldade em atravessar e pular todas as centenas de crateras do meio da rua, mas ela conhecia aquele asfalto com a palma de sua mão. Embora não houvesse neve naquela parte do país, ela sentia que era Inverno pela brisa fria batendo em seu rosto e pelas constantes chuvas recentes. Desejou ter arranjado um casaco. Desejou também ter tido tempo e uma tesoura para cortar seu longo cabelo ruivo, pois, embora ele estivesse preso, lhe agonizava a ideia de que, neste exato momento, ele voava para trás durante a corrida, facilitando que alguém o agarrasse e a capturasse.
Percebendo que já tomava boa dianteira, ela se permitiu olhar para trás por um breve momento enquanto ainda corria. Seus dois perseguidores eram enormes, se assemelhando a mamutes corcundas com barbas terrivelmente mal feitas e sujas com alguma substância pegajosa.
O mais gordo e mais feio deles levantou o punho para ela e berrou:
—Devolva a porra da minha mochila, sua puta imunda!
—Não pertence a você, amigo! —ela atirou de volta rindo levemente, e jogou o corpo pequeno para o lado diretamente em um beco.
O esforço de fazer a curva os deixou mais lentos, do mesmo jeito que ela havia planejado. Ela usou esses dois segundos extras antes que eles chegassem ao beco para se enfiar na porta entreaberta ao lado de uma das latas de lixo quebradas.
A porta se fechou silenciosamente atrás dela e ela pôde ouvir os caras ofegando pesadamente:
—ELA SUMIU! Agora não temos nada... —a voz que gritara com ela mais cedo disse. —Aquela vadia ruiva... pegou tudo o que a gente coletou... Ele vai acabar com a gente...
—Calado, Gerald —sibilou o outro. —Não é difícil encontrar uma garota ruiva.
—Quando eu a encontrar, vou cortar a cabeça dela fora e vender aquele cabelo no mercado negro —houve um som de cuspida, e a garota por trás da porta revirou os olhos. Ela ouviu o som dos passos deles se afastando e respirou em alívio.
—O que você fez para deixá-los tão irritados, Blossom? —uma voz fininha sussurrou atrás dela, e Blossom se virou.
O local estava um breu total, exceto pela pequena janelinha localizada no topo da parede que dava para o beco, permitindo que uns poucos feixes de luz entrassem e iluminassem o rosto da garota de pé na frente dela. Ela tinha um rosto que um dia fora amigável, agora encoberto por sombras e endurecido pelos acontecimentos. Seu cabelo era loiro e estava preso em duas tranças boxeadoras quase que completamente desmanchadas, as quais a primeira garota, Blossom, a ruiva, havia feito muito tempo atrás.
Elas não se viam há quase três meses, provavelmente. E tudo o que Blossom conseguiu dizer foi:
—Você está sangrando, Bubbles. Ótimo. Vem aqui para eu cuidar disso.
Bubbles suspirou.
—Se Ele não conseguiu nos matar retirando nossos poderes e nos espancando, um corte no braço não vai me matar também.
E ela não estava errada. Era um milagre que elas estivessem vivas, isso era. Todos tinham visto a vitalidade daquelas garotas se esvair para fora de seus corpos naquela noite em 2007. Mas agora, na véspera do ano de 2011, duas das três Powerpuffs estavam ali, inteiras. Lotadas de cicatrizes, novas e velhas, diversos hematomas, muito abaixo do peso, embora suas recorrentes ações lhes deixassem com pequenos músculos... Extremamente imundas e com cabelos bagunçados, lavados pela última vez sabe-se lá quando, com bolsas arroxeadas mais fortes do que nunca abaixo dos olhos... Mas elas estavam ali. Vivas.
E, embora Ele tivesse tirado seus poderes naquela noite, elas ainda estavam tentando salvar o dia.
—Eu ainda quero cuidar do seu machucado —Blossom estava impenetrável. —Quer fazer o favor de sentar?
—Bom ver você também, Blossom —mas Bubbles obedeceu e se jogou no chão de qualquer maneira. Blossom a acompanhou e agachou no chão ao seu lado, tirando da bolsa bandagens rasgadas e álcool. —E como você percebeu, além do mais?
—Você está praticamente aninhando seu braço, Bubbles. Eu também sinto cheiro de sangue, e não me lembro de alguém ter me esfaqueado recentemente, então...
—Tá bom, Sherlock. Eu senti sua falta. E você não vai ficar feliz de saber que os suprimentos estão cada vez mais escassos mais para o centro do país. Eu tentei dar a maior assistência que pude, mas... não tinha nada lá. Eu só fiquei vendo as pessoas morrerem, sem poder fazer nada.
Nada foi dito por um momento, cada uma presa em seu próprio pesadelo mental. Blossom abaixou o olhar para o braço de Bubbles e disse:
—Quem fez isso com você?
—Uma daquelas garotas protegidas dos Rowdyruff Boys estava fazendo chacota com uma criança que havia acabado de perder os pais. Eu dei uma lição física nela, mas ela conseguiu me esfaquear por trás no final. Erro meu. Eu não contava que ela andaria armada. Mas acho que a maior parte das pessoas anda armada nesses dias...
—Por que isso não me surpreende? Você, defendendo os indefesos e dando uma lição nos valentões —Blossom sorriu suavemente, limpando o ferimento com álcool, porque era tudo o que ela tinha disponível no momento. —Estamos de volta nos tempos da escola.
—Bom, você me conhece. Mas você ainda não respondeu minha pergunta. O que você fez para aqueles caras ficarem tão bravos?
Agora Blossom estava irritada de novo.
—Aqueles caras simplesmente passaram o dia inteiro invadindo as casas da comunidade perto do píer e roubando as coisas deles com a desculpa de serem "impostos". Se isso for alguma nova ordem do Ele, eu não sei o que será das pessoas. Eu consegui pegar de volta as coisas deles dessa vez, mas se isso for oficial, nós mal vamos conseguir cobrir o território de Townsville.
Ela terminou o trabalho no braço de Bubbles amarrando a bandagem em um nó apertado —Bubbles não soltou nenhum pio durante todo o processo, embora Blossom sabia que ela deveria estar sentindo muita dor. A irmã ruiva levantou então o rosto para ver que olhos azuis claros a encaravam, apagados. Blossom sentiu a garganta se fechar ao procurar qualquer vestígio da garota alegre e gentil que um dia havia habitado aquele corpo agora mirrado de sua irmã, e não encontrar. Não havia nada lá. Não era a mesma pessoa.
Mais para tentar fazer com que Bubbles sorrisse por um único segundo do que por genuína felicidade, um sorriso selvagem lentamente começou a se espalhar pelo rosto de Blossom. Este era um sorriso que Bubbles jamais confundiria —era o sorriso de que, quando as meninas davam, era certo que havia algum plano em ação ou a mais pequena das esperanças. Com um salto, a irmã ruiva se levantou e estendeu a mão para Bubbles, cantarolando:
—Você não vai me perguntar onde está Buttercup?
—Eu presumi que se ela não estivesse bem, essa teria sido a primeira coisa que você iria me contar —mas Bubbles estava curiosa e se deixou ser levantada por Blossom. —Tudo bem, onde está Buttercup?
—Temos que ir, Bubbles. Um evento nos aguarda.
A luz rapidamente veio para Bubbles e ela arregalou os olhos.
—Não... você não pode estar falando sério...
O sorriso de Blossom foi o maior que as circunstâncias permitiam.
—Ela conseguiu. Buttercup conseguiu entrar no Palácio do Ele.
Um edifício abandonado, Centro de Townsville
Houve um barulho alto.
—Shh, se esconda! —sussurrou Blossom com urgência enquanto se encolhia atrás de uma pilastra e prendia a respiração. Bubbles se escondeu atrás de um bloco de concreto destruído e as duas agacharam e mantiveram a mão presa às facas em seus cintos.
—Por que nós sempre temos que patrulhar enquanto Ele e o resto daqueles vilões ficam numa boca comendo, bebendo e transando a noite toda? —uma voz não muito longe reclamava.
—Acho que ser uma aberração da natureza te coloca em posição de status nesse Novo Mundo —houve uma resposta seguida de risadas.
Uma terceira risada, mais áspera e mais alta do que as demais se uniu as outras duas, que se calaram na hora.
—Que engraçado, haha! Só não entendi direito... quem exatamente você está chamando de aberração da natureza?
—S-senhor B-Boomer... eu... que... p-prazer...
Rowdyruff de merda, as duas pensaram e se entreolharam com raiva. Blossom arriscou um olhar para trás e percebeu que Boomer, o Rowdyruff loiro, contraparte de Bubbles, estava flutuando a alguns metros do chão e tinha visibilidade zero de onde elas estavam.
Não era a primeira vez que as meninas ficavam perigosamente próximas de alguns de seus inimigos. Então, já sabendo que de todos os vilões, os Rowdyruff Boys eram os que tinham sentidos mais aguçados e poderiam facilmente rastreá-las se não estivessem sempre prestando atenção em outras coisas, era sempre mais seguro permanecer a algumas quadras de distância deles. Blossom apontou para a escada do prédio e Bubbles assentiu.
—Espere —elas ouviram a voz de Boomer e congelaram no lugar. —Algo não está certo. Tem alguém aqui.
As garotas taparam a boca para segurar a respiração com uma mão, e com a outra puxaram a faca. De repente houve um som de engasgo e então o barulho familiar que as garotas (infelizmente) conheciam tão bem de um corpo sendo jogado e algo se quebrando.
—Ops —Boomer disse com um doçura maléfica. —Não tem mais.
E uma brilhante listra azul escura foi vista cortando o céu cor-de-rosa escuro da noite.
O caminho de Blossom e Bubles pelas escadas foi silencioso e incômodo, ambas pensando... Não importa no que elas estavam pensando. A prioridade agora era se manter na missão, que esperançosamente iria lhes colocar um passo adiante para acabar com toda essa desgraça e trazer justiça ao mundo.
A porta do telhado estava sendo mantida aberta por um tijolo que foi chutado longe quando as meninas saíram. Um vento forte lançou seus cabelos para fora do rosto e elas tentaram não olhar muito a visão perturbadora e contrastante de um hotel de luxo brilhando imperiosamente e rodeado por todos os outros edifícios destruídos e apagados.
Blossom foi a primeira a falar, e os dentes batiam um pouco devido ao frio:
—Bubbles, como você não estava aqui nos últimos meses... deixe-me explicar. Buttercup conseguiu roubar a identidade daquela recém descoberta garota da realeza que saiu nos jornais um tempo atrás. Ninguém nunca viu a menina até a festa do Ano Novo de hoje, por isso vai ser fácil colocar uma impostora no lugar. Está vendo o 47º andar do hotel? Aquele com as janelas todas abertas? Buttercup já está lá. Pedi a ela que abrisse as janelas para podermos entrar.
—Nós vamos preparar ela para a festa?
—Bom, já que você voltou, você vai. Eu não entendo dessas coisas, você sabe. E... Bubbles, sinto muito lhe perguntar isso, mas você acha que está bem para pular?
—Blossom, como você acha que eu encontrei você no meio de Townsville? Certamente não andando. É só um corte. Não se preocupe.
—Tudo bem —Blossom concordou embora se preocupasse. Não era só um machucado —o corte no braço de Bubbles estava feio. Mas, como sempre, elas tinham que prosseguir. —Vamos.
Blossom foi primeiro. Tomando certa distância para dar impulso, ela correu e quando chegou à beirada do telhado, se jogou. Aquilo era loucura, elas sabiam. Mas pular de telhado em telhado era o jeito mais "seguro" de se locomover sem que as pessoas as vissem. Bubbles assistiu com um orgulho secreto sua irmã se pendurar habilidosamente no beiral da janela e jogar o corpo todo para dentro do quarto com só um solavanco.
Agora era sua vez. Havia cabelo bagunçado voando para frente do seu rosto, atrapalhando sua visão, seu braço havia atingido um limite da dor em que ela já não mais o sentia, e suas pernas doíam de ter andado por dias sem quase parar para descansar, mas, estranhamente, ela se sentia alerta e pronta para fazer qualquer coisa. Tomando uma golfada de ar profunda, ela seguiu os passos da irmã.
Bubbles conseguiu surpreendentemente realizar o feito de deslizar de primeira para dentro da janela, rolando no chão de carpete macio do hotel para amortecer a queda, e se colocou de pé, olhando ao redor.
Se o próprio exterior do hotel parecia reluzir, o interior deste quarto parecia ser feito de ouro. O apartamento brilhava tanto que os olhos humanos de Bubbles tinham que se esforçar para se manter abertos, ou talvez fosse apenas o cansaço. Espelhos e mais espelhos cobriam as paredes, mas a garota se esforçou para não olhar seu reflexo horrorosamente imundo neles. Havia lustres, jogos de prata, uma cama absurdamente enorme, e muitos outros itens que, sério, provavelmente nunca foram usados na história do hotel.
Blossom e Buttercup, a terceira irmã, a morena de cabelos curtos que, pelo tempo, haviam crescido consideravelmente, pareciam estar no meio de uma discussão. Bubbles teve que piscar algumas vezes ao olhar para Buttercup. Fazia muito tempo que elas não se viam, claro, mas não foi isso que lhe chamou a atenção. A garota estava tão limpa quanto uma ducha rápida permitia, algo que certamente causaria certa estranheza para os olhos das irmãs, uma vez que estavam todas tão acostumadas a se verem cheias de sujeira. Ainda assim, não fora um banho muito efetivo, em razão aos meses de imundice que as acompanhavam, mas isso não importava, uma vez que toda a mágica estaria na maquiagem que Bubbles faria.
—Oi Buttercup —a loira disse.
—Oi Bubbles... Mas o que fez vocês demorarem tanto, de qualquer maneira?
—Uns caras começaram a cobrar impostos lá no píer —explicou Blossom, se jogando no sofá. Bubbles puxou a bolsa por cima da cabeça, largou-a no chão e começou a estudar as maquiagens dispostas por cima de uma penteadeira, apenas ouvindo a conversa parcialmente. —Eu passei a tarde toda seguindo eles e então peguei as coisas de volta. Eu e Bubbles só passamos lá antes de vir pra cá, para devolver os itens para a comunidade.
—Ah —Buttercup estava olhando Bubbles cuidadosamente enquanto esta brincava com um pincel de maquiagem entre os dedos. Maquiagem e Buttercup: não era uma boa combinação. —Me lembre de novo porque eu tenho que ser a Ana Romanov e não vocês.
—Porque vocês duas são sobrenaturalmente parecidas —respondeu Blossom calmamente. Ela se levantou num salto e continuou: —Onde está a garota?
—No closet —Buttercup apontou para uma porta fechada no fundo do apartamento. —Acho que bati nela mais forte do que deveria, então ela não vai acordar tão cedo.
—Ótimo —Blossom estava alegre. Ou pelo menos o mais alegre que as circunstâncias permitiam. —Vamos. Temos um longo trabalho a ser feito com essas perucas e maquiagens.
—Estou ansiosa —Buttercup gemeu, mas permitiu, com um suspiro, que as irmãs começassem a transformação.
Palácio da Capital, Centro de Townsville
Era pior do que Buttercup previra. Blossom e Bubbles só podiam ter perdido o juízo. Ninguém em sã consciência a colocaria em uma missão que envolvesse salto alto e vestido brilhante colado que se abria em um monte de pano estranho e desnecessário no joelho até atingir o chão. Esse negócio era tão justo que a única coisa que impedia que todos percebessem o pequeno gravador e a infinidade de facas penduradas em ambas as suas coxas era o fato do vestido conseguir ficar um pouco largo devido à sua falta de peso.
Ela havia deixado suas irmãs alguns minutos atrás tomando conta da prisioneira Ana Romanov, fortificando as amarras para que não houvesse risco dela fugir. Depois que as duas terminassem isso, elas se colocariam em pontos estratégicos ao redor do Palácio para caso as coisas dessem errado.
Buttercup levantou a cabeça e xingou mentalmente a peruca pesada que atrapalhava seus movimentos. Ela olhou os prédios em ruínas ao redor e se perguntou se Blossom e Bubbles já estavam lá, a observando, temerosas que ela não estragasse a missão. Bom, ela podia não estar gostando nada daquilo, mas com certeza daria o melhor de si.
Não havia mais nada que elas pudessem fazer, afinal.
Ao levantar a cabeça para olhar para o Palácio que se erguia majestosamente acima de si, uma informação no fundo de sua mente lhe disse que aquilo era muito semelhante à arquitetura gótica. Havia tantas torres e era tão grande, que ela se perguntou se aquilo era proposital para que qualquer um se perdesse ali dentro. Um frio subiu em sua espinha enquanto ela se aproximava, e ela afugentou o medo a todo custo —ela não havia sequer pisado ali perto desde aquele dia em 2007 em que tudo acabou. As paredes da construção eram escuras, mas centenas de luzes douradas haviam sido direcionadas para o Palácio esta noite, causando um efeito de ouro bem semelhante ao do hotel.
Ela tinha que entrar no Palácio logo. Havia muitos casais no tapete vermelho da escadaria de entrada sendo fotografados, como se aquilo fosse a porra do Oscar. Olhem ao redor e apreciem seu prêmio de negligência, Buttercup amargurou por dentro e começou a subir a escada. As coisas já começaram ruins aí. Ela queria mais do que tudo lutar contra vilões e criminosos, mas a única coisa que ela teria que lutar naquela noite era contra subir a droga de uma escada gigante usando salto agulha.
Enquanto ela se aproximava dos recepcionistas da festa, sua nuca começou a escorrer em suor frio. E se eles descobrissem quem ela era? Não ela só perderia a vida, mas a chance de conseguir algum progresso em salvar o mundo também estaria perdida. Quando elas teriam uma chance assim de novo?
—Ele nos avisou da sua vinda —a recepcionista sorriu e Buttercup achou que fosse desmaiar de alívio. Bubbles era talentosa demais e conseguira fazer um trabalho impecável a transformando em Ana Romanov, afinal. —Seja bem vinda ao nosso Novo Mundo, senhorita Romanov. Esperamos que tenha uma boa noite.
—Obrigada —Buttercup respondeu e sorriu em resposta. Pelo menos ela conseguia atuar bem. Seguiu em frente, e então se deu conta: tinha dado certo, ela estava dentro do Palácio —a casa do Ele.
O salão principal era claro e muito bem iluminado por centenas de velas. Se você não conhecesse Ele, acharia aquilo tudo muito chique; mas se conhecesse como as meninas conheciam, acharia macabro. O local já estava gradualmente se enchendo de pessoas preenchendo as centenas de mesas redondas ou de pé, todos rindo e falando muito alto. A felicidade era tanta, todos estavam tão bem vestidos, comendo tão bem que Buttercup chegou a ter náuseas. Imagens da miséria e destruição em que todos os outros humanos restantes viviam inundaram sua mente e ela teve que trincar os dentes para não gritar.
Concentrada demais em sua tarefa de andar de vestido longo e salto sem acabar se matando, ela se sobressaltou ao sentir um impacto no lado dela, e olhou com hostilidade para cima para ver seu agressor. Seu instinto mandava seus olhos ficarem assassinos, mas ela estava interpretando um papel e não ia estragar tudo por causa daquele cara.
—Ah, me perdoe, meu amor —era Butch, o Rowdyruff Boy moreno que era sua contraparte —embora ela não pudesse imaginar como ele podia ser o reflexo dela, uma vez que o cara era um filho da puta, mulherengo e viciado em violência. Ele a olhou de cima a baixo e sorriu maliciosamente e, ser olhada assim por alguém como ele lhe causou calafrios. Butch continuou: —Você precisa de ajuda com alguma coisa?
—ANA! Minha querida! É tão gostoso te conhecer pessoalmente! Até que enfim!
Buttercup estagnou.
Um flash de imagens passou por sua mente em um milésimo de segundo e ela experimentou sua visão ser preenchida com sangue e com o rosto dele... com o rosto do...
Professor.
Ela se virou mecanicamente ao som de seu "nome" e abriu um sorriso meigo para Ele. Ela ia estragar a missão. "Ana" e Ele trocaram beijinhos nas duas bochechas. Buttercup não sentia suas pernas, provavelmente estavam tremendo em algum lugar longe do resto de seu corpo. Ela ia estragar a missão. Em algum lugar do fundo de sua mente ela se lembrou de inventar um sotaque russo:
—Olá, querido —a voz dela não soava como ela, e um zumbido estranho tomava conta de seus ouvidos. Ela ia estragar a missão. —Ser enorme prazer te conhecer —ela prosseguiu, e seus olhos brilhantes foram interpretados por todos ao redor como lágrimas de emoção.
—Aninha, sua mesa é aquela do ladinho da minha —ele apontou com a garra e Buttercup só conseguia encarar. Ela ia muito estragar a missão. —Só tenho que ir cumprimentar mais uma pessoinha aqui e ali e já vou lá para colocar o papo em dia, fofa!
—Estar ansiosa —Buttercup sorriu mostrando todos os dentes, e quando piscou novamente, Ele não estava mais lá e ela fora deixada novamente sozinha com Butch. O barulho da festa retornou, mas ainda havia algo errado com sua visão. Ela precisava sair dali, talvez outro dia, não fora tão difícil assim entrar no Palácio, ela conseguiria outro disfarce...
—Eu te entendo —sussurrou Butch baixinho e sedutoramente no ouvido dela e ela se sobressaltou novamente. —É normal ter medo do Ele.
—Eu não tenho medo dele —ela empinou o nariz e saiu andando, buscando desesperada por algum lugar para se esconder.
Buttercup não sabe como chegou ao banheiro sem cair no chão ou cair em lágrimas. Ela se jogou dentro de uma das cabines do banheiro, sem reparar direito no quão grandes e cheias de brilho elas eram, e se sentou no vaso, arrancando irritada a saia do vestido que toda hora que ela puxava tinha um novo pano. Depois de conferir se o gravador em sua perna ainda estava ligado e funcionando e se nenhuma faca havia sido perdida, ela fechou os olhos e encostou a parte de trás da cabeça no azulejo frio, com o rosto virado para o teto.
—Eu não consigo fazer isso —ela sussurrou e abriu os olhos.
Um pouco acima de sua cabeça, havia uma portinha de ventilação. A maior parte das pessoas ricas e influentes que possuíam alguma relação amistosa com Ele e ainda podiam comprar comida, jamais passariam por aquela portinha, robustas como elas eram. Mas Buttercup fazia parte da população pobre e subnutrida que conseguia seguir sobrevivendo fazendo uma refeição rala por dia (às vezes nem isso) e ela, sim, conseguia passar por ali.
Vamos descobrir onde isso vai dar. Ela posicionou a saia e colocou os sapatos embaixo da mesma, de maneira que se alguém olhasse por baixo da porta, pensaria que ela só estava no banheiro. Retirou uma das facas da coxa e a usou para desparafusar a grade da ventilação. Depositando-a silenciosamente sobre o vaso, Buttercup subiu e entrou.
Uma vez que o espaço ainda era pequeno demais e ela tinha a urgência de voltar antes que sua ausência fosse notada, ela colocou tudo de si em sua missão de engatinhar o mais rápido possível no tubo estreito. Ela chegou a um cruzamento em alguns segundos, mas, sabendo que Ele não deixaria nada importante tão perto assim do banheiro feminino do salão, ela continuou para frente por alguns minutos.
De repente, o falsete inconfundível de Ele preencheu seus ouvidos e ela deu um sorriso vitorioso, mas ainda não estava suficientemente perto para que o gravador captasse ou ela mesma entendesse o que era dito. Se adiantando para frente com toda a cautela do mundo para não fazer barulho, as vozes começaram a fazer sentido.
—... e então você está planejando se livrar das minhas criações —era a voz inconfundível do Macaco Louco, que ela tanto conhecia desde os seis anos. —Eu quero que você me dê um bom motivo, um motivo decente, um motivo acreditável, um motivo que me convença, para o fato de você querer fazer esta coisa que você está pretendendo fazer, porque se você não me der um motivo bom, decente, acreditável e convencível, eu não vou contribuir total e eficientemente com os seus planos.
Buttercup revirou os olhos diante das palavras do Macaco Louco —o primata nunca mudava. Ele só falava e falava até que todos no recinto estivessem dormindo. Ouvi-lo era tão entediante que a garota estava encontrando certa dificuldade de acompanhar a conversa. Do que eles estavam falando?
—Ah, Macaquinho, aqui não é lugar para discutir esse assunto —embora houvesse delicadeza na voz do Ele, era óbvio que estava aborrecido por Macaco trazer o assunto.
—Não, eu insisto que falemos disso agora, e agora significa neste exato momento, não em alguns minutos e não em algumas horas e não em alguns dias e não em algumas semanas e não em alguns meses e não em alguns anos. Agora significa agora. Agora significa neste exato momento. Eu mereço saber o porquê de você querer destruir a minha única criação dotada do mais mínimo de inteligência humana, o que é algo que você não tem se você for realmente levar esse plano adiante sem me dar motivos.
—Eles foram destruídos antes —Ele cantarolou. —E você não pareceu se importar.
—Foram destruídos pelo bem, pelo inimigo, pelo oponente —corrigiu Macaco. —Agora destruídos por um aliado?! Aqueles meninos fizeram todo o seu trabalho sujo nos últimos anos, em cada missão eles não falharam, colocaram ordem e instauraram o medo. Ordem e medo. Medo e ordem. Ordem e medo. Medo e ordem. Tudo o que você pediu eles fizeram. Em troca de dinheiro, riquezas e mulheres, de fato, mas foi exatamente tudo como você mandou.
—Macaco, isso tem mais a ver com relações de poder do que com eficiência —respondeu Ele. —Eles jamais me decepcionaram, é verdade, mas veja, somente agora que percebo que errei em deixar que eles fizessem tudo isso. Me serviu muito, pois eu não tive que cansar minha beleza, mas você sabe o que os mais corajosos sussurram, não sabe? Eles dizem que me escondo atrás daqueles meninos, dizem que são eles realmente que são dotados de algum poder, dizem que só estou no trono de fachada. Até meus próprios "aliados" falam isso de mim! Acho que todos se esqueceram de quem matou as Powerpuff Girls naquela noite, de quem ateou fogo no mundo inteiro! Aqueles garotos foram criados com o propósito de obedecer, não de viver. O que você faria se estivesse no meu lugar, Macaquinho?
—Não tem como eu saber o que faria se estivesse no seu lugar, pela razão óbvia de que eu não sou você, coisa que me deixa extremamente grato. Mas pelo que conheço de meu mau caráter e de minha personalidade de gênio maligno, pode se dizer que haveria uma grande probabilidade que eu tomasse a mesma atitude que você decidiu tomar agora. Quando você vai realizar este feito?
—Muito em breve, Macaco Louco, mas você será o primeiro a saber dos meus planos. E aí então ninguém nunca mais vai temer os patéticos Rowdyruff Boys, e sim a mim.
Houve um som de batida na porta e então o barulho da mesma sendo aberta. Uma voz feminina relativamente familiar falou com urgência:
—Senhor Ele. O sensor de movimento da ventilação apitou. Acreditamos que haja alguém dentro de alguma tubulação do Palácio. Devo chamar os Rowdyruff Boys?
Buttercup arregalou os olhos e já estava engatinhando freneticamente para trás quando a última coisa que ouviu saindo da boca do Ele foi:
—Vou dar mais essa missão para eles se divertirem. Avise os garotos, Sedusa. Quem sabe eles morr...
Mas a garota já estava longe demais para ouvir o resto da frase. Repentinamente ela pisou em falso e caiu no chão de sua cabine de banheiro. Por sorte, o gravador ainda estava intacto, e cara!, ela tinha uma informação valiosíssima grudada na parte interna de sua coxa. Grudou a portinha da ventilação de qualquer jeito e vestiu a saia e os sapatos apressadamente, saindo da cabine.
Um grupo de garotas um pouco mais novas que ela que estavam reunidas na frente do espelho deram gritinhos ao ver Ana Romanov sair de lá. Uma rápida checada no espelho informou Buttercup que ela estava absolutamente imunda por ficar se arrastando na ventilação (daí o motivo do grito das meninas), e ela soube que não podia mais prosseguir com o disfarce. Olhando ao redor, descobriu que havia uma grande janela de vidro no banheiro, que infelizmente não abria, mas ela já sabia o que fazer.
Ignorando as adolescentes escandalizadas, ela retirou e jogou os sapatos e a saia novamente de lado, e da coxa, retirou a maior faca que tinha e prendeu na maçaneta da porta. Não era muito, mas ela supôs que atrasaria até os Rowdyruff Boys quando eles descobrissem qual tubulação havia sido invadida.
Buttercup correu em direção a janela e, sem hesitar, fechando os olhos e protegendo o rosto com os braços, ela se jogou.
Milhares de cacos de vidro se partiram e se instalaram em seu corpo durante o impacto, mas tudo o que ela fez foi rolar no chão para amortecer a queda e em um segundo já estava de pé correndo para as sombras dos escombros das construções ao redor. Ela ouviu explosões atrás de si e, sem pensar, se virou para olhar. Mas era apenas a meia noite que havia chegado e com ela o Ano Novo de 2011 e seus fogos de artifício. Dezenas deles piscavam no céu, iluminando seu corpo em tons de verde, roxo, vermelho e azul.
E, de repente, acima dos fogos, estourou um tiro. Os aplausos dos ricos se transformaram em gritos e as portas do Palácio se abriram. Essa é a minha deixa, ela pensou, se mandando dali e se enfiando pela rachadura de um prédio que parecia estar mais inteiro.
Seu corpo doía pra caralho, sim, mas seu organismo era adrenalina pura —a emoção da fuga e de simplesmente estar fazendo alguma coisa estava, enfim, de volta.
A garota só tinha isso em mente enquanto ignorava os machucados e corria como nunca pelo andar térreo do prédio buscando abrir a maior distância possível entre ela e o Palácio, entre ela e os Rowdyruff Boys, entre ela e Ele, quando duas mãos se fecharam em torno de sua boca e alguém a segurou com força.
