Capítulo 2 – O inimigo também chora

- Tem certeza disso pulguento? – Perguntou Snape – Não quero me precipitar

- Tenho certeza. Ele ta tendo pesadelo, igual você disse que iria acontecer e agora sabe que falta algo. Precisamos contar a verdade.

- Contar o que? – Perguntou Harry olhando de Snape para Sirius e desse de volta para Snape.

Snape e Sirius se olhavam em silêncio. Haviam combinado que quando chegasse a hora de contar os dois fariam juntos para caso algo desse errado.

- Precisarei de uma sala fechada e minhas poções.

- Pode usar a biblioteca e a lareira para ir até Hogwarts.

- O que esta havendo? – Perguntou Harry levantando-se.

- Sente-se Potter, terá todas as respostas na hora certa.

- Como assim terei todas as respostas na hora certa? O que está havendo? Vocês estão escondendo algo de mim, eu sei disso.

- Cinco pontos para a Grifinória por sua máxima inteligência e dez pontos a menos por sua ansiosidade. Nem sempre a vida lhe dá as respostas na hora que quer, nem mesmo para o menino-que-sobreviveu-e-matou-aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Terá que esperar a hora certa senhor Potter.

- Não quero esperar a hora certa, quero agora. E pare de se fazer de professor, você não é mais nada Snape.

- Olhe como me trata senhor Potter. Posso não ser seu professor, mas sou eu quem tem as respostas que quer.

Harry fuzilou o homem com os olhos e Snape retribuiu o olhar. Desde que mataram Voldemort, Snape e Harry deram uma trégua em sua rivalidade. Harry descobriu que Snape era espião para a Ordem e só matou Dumbledore por um combinado deles. O respeito para com o antigo mestre de poções aumentou, mas ainda se alfinetavam de vez em quando.

- Leve-o para a biblioteca e prepare tudo Black, volto em alguns minutos.

- Está bem, mas volte logo, como você mesmo disse, não conseguirei segurar a fera.

Snape deu um sorrisinho de canto de boca e se virou para entrar na lareira da sala e ir direto para Hogwarts.

- O que está havendo Sirius?

- Suas respostas serão dadas Harry, daqui a pouco. Sei que odeia ouvir isso, mas terá que esperar. Vamos, temos que ir para a biblioteca.

Os dois subiram as escadas em silêncio. Harry pensava a todo momento em tudo que estava acontecendo. Então era verdade, eles estavam escondendo algo dele. Estava com raiva de Sirius por ser padrinho dele e não ter contado nada, seja lá o que for.

Na biblioteca Sirius pegou uma cadeira e pôs na frente de uma mesa. Foi até um armário e pegou uma penseira. Harry reconheceu imediatamente a penseira de Dumbledore. Fechou os olhos por um momento e os sentiu encher de água. Fazia mais de um ano agora, mas a dor era constante como se fosse recente.

Ficou os outros cinco minutos em silêncio e de olhos fechados. Snape voltou trazendo dois frascos na mão. Um ele abriu e despejou na penseira. Outro ele destampou e deu a Harry para que ele tomasse.

- O que é isso? – Perguntou Harry pegando o frasco na mão.

- Isso, como pode ver, é uma poção.

- Jura? Nem tinha percebido.

- Essa poção – continuou Snape sem dar atenção para o comentário do menino. - Serve para lhe acalmar e deixar sua mente leve, você precisará dela para poder ver as lembranças que estão na penseira.

- Por que eu preciso me acalmar? Estou muito bem

- Mas não vai estar depois de ver as imagens que estão na penseira. Sua magia é muito poderosa e se desenvolveu mais rápido do que o seu controle emocional. Uma forte emoção fará com que esse poder saia de controle e para que isso não ocorre e o senhor não derrube essa casa, a qual não fará falta, terá que tomar a poção.

Harry olhou para Sirius que acenou com a cabeça e só então tomou a poção, contra sua vontade. Depois respirou fundo e olhou para a penseira. Snape passou a ponta da varinha no conteúdo liquido que havia dentro e indicou que Harry já podia ver o que tinha ali.

Com certo receio Harry inclinou a cabeça e mergulhou no conteúdo que ali continha. Sentiu seu corpo levitar e cair rapidamente em algum lugar. Ao olhar para o lado percebeu que estava em Hogwarts. Viu ele mesmo andando pelos corredores de cabeça baixa, pela aparência parecia estar no quinto ano.

Flashback

Harry andava distraidamente pelos corredores de Hogwarts. Sua mão doía pela detenção dada pela nova professora de DCAT. Nas costas de sua mão era possível ver a frase "Não devo contar mentiras" em meio ao sangue que ainda saia dela.

Praguejando baixinho ele continuou andando em direção a torre da Grifinória, mas quando virou o corredor esbarrou em alguém e acabou caindo.

- Olha por onde anda Potter – Disse o menino loiro.

- Digo o mesmo para você Malfoy.

Harry Potter e Draco Malfoy tinham uma rivalidade intensa desde o primeiro dia de escola. Eram inimigos de casa. Harry pertencia à Grifinória e Draco à Sonserina.

Não dando ouvidos ao sonserino, Harry continuou a andar com a cabeça baixa deixando um Draco pensativo para trás.

As aulas da tarde haviam terminado e Harry demorou de propósito na sala da Professora McGonagall, não que tivesse brigado com seus melhores amigos, Hermione Granger e Rony Weasley, só queria andar sozinho, queria ficar sozinho. Ao sair da sala foi direto para o banheiro da murta que geme, ali não seria incomodado já que ninguém entra ali.

Sentou-se no chão e não conseguiu impedir as lágrimas de caírem. Seu coração doía e sua tristeza era enorme. Sentia-se só.

Ficou assim por um tempo até que outra pessoa entrou no banheiro.

- O que faz aqui Malfoy? – Perguntou levantando-se do chão e limpando as lágrimas de seu rosto com a manga da capa

- Não te interessa o que vim fazer e que eu saiba esse banheiro não é seu, posso estar aqui tanto quanto você Potter.

- Pois bem, eu me retiro.

Harry já ia saindo quando sua cicatriz começou a doer e ele caiu de joelhos no chão molhado.

- AAAAA

Harry gritava com a mão na cicatriz. Aquela dor era pior que qualquer outra que já sentiu, era muito mais intensa, fazia a cicatriz arder em brasa. Seus olhos estavam embaçados.

- Potter? O que esta havendo Potter?

- Me ajuda. AAAAAAA

- Droga Potter, tanto lugar para você passar mal, tinha que ser justo aqui e comigo dentro.

- TA DOENDO.

- Que merda!

Harry contorcia-se no chão de tanta dor, até que de repente a dor foi passando e ele conseguiu parar de bruços no chão de olhos fechados apenas respirando. Lagrimas caiam em seu rosto.

- Potter?

- Estou bem – Disse levantando devagar.

- O que aconteceu?

- Nada. Nada

Harry saiu correndo e foi direto para seu dormitório. Deitou em sua cama e puxou a cortina se isolando de todos.

No dia seguinte Harry voltou ao banheiro mais uma vez. Aquele ano estava sendo difícil para ele. Sentia-se solitário, triste, a raiva o dominava quase sempre. Ele entrou no banheiro sem saber que havia alguém que o observava de longe.

Um dia Harry estava no banheiro novamente quando Draco entrou de novo.

- Mais uma vez aqui Potter?

- Não é da sua conta Malfoy.

- Ora não seja assim Potter. O que há com você? Vem aqui todo dia, fica durante horas, não janta e nem conversa com seus amigos. O que houve com o menino de ouro?

- Nada que importe tanto assim. Por que quer saber? Para rir de mim? Para me fazer de piada junto com seus amigos sonserinos?

Harry já estava saindo quando ouviu Draco falar.

- Não. Eu quero saber para poder te ajudar.

Aquilo bateu em sua mente como algo estranho demais para ser absorvido. Ajudá-lo? Desde quando Draco Malfoy se importa com alguém, ainda mais com ele?

- Me ajudar?

- É, te ajudar.

O loiro estava ficando nervoso, já chega a humilhação de oferecer ajuda, ainda teria que ficar se explicando.

- Olha – Começou o loiro - Sei que não somos amigos e que nos odiamos. Mas começamos com o pé errado tá legal. Eu só quero ajudá-lo. Sei que está passando por momentos difíceis e quero poder te ajudar.

- Por quê?

Draco respirou fundo e olhou dentro dos olhos verdes esmeraldas.

- Porque eu nunca tive alguém que me ajudasse, sei como é estar sozinho Potter.

- Você tem seus fãs sonserinos, tem seus pais.

- Fãs? Sonserinos ainda por cima. Não, você não sabe como é ser um sonserino. Ser sonserino é estar rodeado de gente, mas estar sozinho ao mesmo tempo. É fingir ser leal e ao mesmo tempo trair. Ser sonserino é ser soberano e escravo de si mesmo. Você nunca entenderia Potter porque tem seus amiguinhos. Não entendo o porquê de não procurar ajuda deles quando tem amigos leais, amigos que te amam e que fazem de tudo para você se sentir bem.

- Não vem dar uma de coitado Malfoy. Você ainda tem seus pais.

- Pais? Que pais que tenho Potter. Responda. Um pai que liga mais para o alto escalão do Ministério do que para o próprio filho. Um pai que não liga para se o filho está bem ou não, mas quer que ele seja um Malfoy digno do sobrenome. Uma mãe que não liga para você. Aprenda Potter que às vezes é melhor ter os pais mortos quando criança do que conhecê-los quando adultos.

- Então acha que seus pais seriam melhores mortos?

- Sim – suspirou tirando os loiros cabelos de sua testa – Eu acho. Não sabe o que é ser um Malfoy, Potter. Não sabe o que é ter que carregar esse nome. O grande peso que vem junto com ele. Ter que ser respeitado pela sociedade, ser algo que não sou por causa de minha família.

Harry sentiu pena de Draco naquele momento. Nunca havia parado para pensar que ele também poderia ter tristezas em sua vida. Nunca imaginaria que Draco estaria tão só a ponto de se abrir com ele, seu inimigo, o menino que ele tanto odiava,

- Sabe o que é não poder escolher? O que é ter que seguir os costumes de sua família, os passos de seu pai e conseguir atingir as expectativas de todo mundo, conseguir ser igual seu pai, assim como todos esperam?

- Você não precisa ser igual seu pai, Malfoy.

- Você não sabe como é Potter – Draco estava com os olhos marejados, sentia seu peito arder, somente quando a primeira lágrima caiu Harry entendeu que Draco estava desabafando e que provavelmente era a primeira vez que fazia aquilo – Você não sabe como é ser filho de Lucius Malfoy, como é ser Draco Malfoy. Já desejou ser outra pessoa?

- Já – Harry desejava isso todo dia quando estava na casa dos Dursley – Sei como é ter que fingir ser uma pessoa diferente do que é, sei como é não ter amigos e ser sozinho.

Draco apoiou-se na pia e abaixou a cabeça. De seus olhos caiam lágrimas, lágrimas verdadeiras. Harry sentiu a dor de Draco. Por instinto se aproximou e colocou sua mão em seu ombro mostrando que apesar de tudo ele estava ali, que poderia ajudá-lo se ele quisesse.