II-SONHOS
II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
Os sonhos já duram um mês e são sempre iguais. Rony me olha e parece que nada vê. Estou evitando adormecer e isso está acabando comigo, mas é melhor do que ficar vendo os olhos do meu amigo me olhando daquele jeito. Um jeito tão vazio.
O trabalho nunca esteve pior. Apesar de saber que houve crime, não avançamos a partir daí. É como se um fantasma tivesse incendiado o prédio,deixando a visibilidade da rua impossível e matando meu melhor amigo no processo. Meus superiores dizem que estou envolvido pessoalmente e não posso fazer meu trabalho assim. Eu só digo que esse é o único trabalho em que consigo pensar. E é verdade. Abandonei meus outros casos e quase não vou pra casa descansar.
Também quem precisa dormir quando não há descanso no sono?
Hermione veio me ver no trabalho de novo. Ela está preocupada comigo. Pede pra que eu tire uma folga e vá visitar ela e as crianças. Digo que estou ocupado. Preciso resolver esse caso por ela também.
Meu chefe me mandou pra casa por eu estar cochilando na mesa. Há um limite para a cafeína também. Ela não parece mais fazer efeito em mim.
O sofá é desconfortável e a TV é inútil. Mesmo música no último volume não consegue me impedir de dormir. Tento manter meus olhos abertos mais um pouco. Não consigo.
Não há Rony nesse sonho, mas sei que é um sonho. Tudo está distorcido. Estou no colégio de novo. Meu rival, Draco, olha pra mim com olhos de aço, depois sorri como se soubesse algo que eu não sei. Então desaparece e a fumaça encobre minha visão. A mesma fumaça do dia do acidente. Vejo cabelo vermelho a frente e acordo assustado. Pelo menos não vi aqueles olhos dessa vez.
É a primeira vez que vou à igreja desde o casamento de Rony e Mione e nem sei bem o motivo de estar aqui. Um colega me disse que traz paz de espírito. Ao olhar para o altar e ver a cruz só sinto tormento. Dou meia volta e saio. Não preciso de paz, preciso de respostas.
Nunca me debrucei tanto em um caso, preciso achar uma pista, qualquer uma, algo que deixamos passar. Talvez só assim meus sonhos fiquem bem. Espero que até conseguir, minha mente não me permita sonhar.
