EQUILÍBRIO

Capítulo 2. A primeira barreira

Quando saiu mais cedo do apartamento sinceramente não havia pensado que seu dia poderia ser bom. A noite anterior esteve muito longe de ser boa. Insônia não era lá algo muito fácil de superar especialmente depois de tê-la como companheira por um bom tempo, enquanto estava naquela longa espera no hospital.

Agora que estava longe daqueles corredores frios, era difícil para Aoi abandonar os velhos hábitos.E pelo jeito seria mais difícil do que pensara. Kouyou ainda não dera nenhuma mostra de que aceitaria uma aproximação. Desde que voltara da casa da família, o loiro se mantinha a distância. Falava pouco, sempre assuntos relacionados ao trabalho ou a sua própria recuperação quando isso lhe era perguntado. Não fazia piadas nem sorria, muito menos aceitava convites para sair. A noite anterior fora uma prova, estava presente quando Reita telefonara para o celular do guitarrista chamando-o para comer pizza e jogar conversa fora e teve a oferta recusada. Era o tipo de convite que ele gostava, e uma recusa era bastante significativa.

Akira era seu amigo de infância e se lembrava de como ele havia ficado ao escutar a recusa. Todos os que estavam reunidos na sala do apartamento do baixista viram a expressão triste de quem sabia estar diante de uma guerra fadada a que era uma desculpa, mesmo sabendo que os remédios realmente causavam sonolência. Era visível que a recusa significava algo bem maior, mas do qual Reita não parecia se conformar.

Sentiu-se mal por vê-lo daquele jeito. Se Aoi que não era nada além de um companheiro de trabalho de Uruha se sentia culpado, imaginava como era para alguém que o conhecia praticamente à vida toda?

Não ia ser fácil. Haviam ferido demais o outro e ele não se deixaria convencer facilmente. Diante da constatação de que seria uma árdua batalha, sua insônia foi tudo que poderia esperar. E com uma noite inteira em claro, pensou em chegar mais cedo na gravadora e quem sabe lidar com os últimos esboços de suas composições?

Só não esperava que houvesse alguém ali com a mesma ideia e muito menos que este fosse Takashima Kouyou.

Sorte estar atento o bastante para ouvir o som da guitarra do loiro e não interrompê-lo bruscamente.

Ele estava imerso em seu próprio mundo...

Ele estava...lindo.

Nunca ouvira o que ele estava tocando. Provavelmente era uma nova composição, algo novo em que ele estivesse trabalhando em segredo. Talvez algo que tivesse começado a pensar enquanto estava se recuperando em casa já que Kai providenciara que sua guitarra lhe fosse entregue e assim pudesse se distrair. E tinha de admitir que os acordes eram muito atraentes, nem poderia esperar algo diferente. Uruha tão talentoso... era o seu exemplo. Quantas vezes ele não fora o seu parâmetro? Fora Kouyou quem lhe incentivara a tocar com vontade naquele início de carreira, era pra ele quem mostrava seus novos arranjos. Seus elogios eram o seu motor.

Não era apenas um clichê a ideia de que admiração pudesse se tornar algo mais. De certa forma já o admirava a distância, primeiro pelo talento. Depois pela beleza, mesmo que se considerasse heterossexual em caráter irrevogável. Tinha para si mesmo o fato de que era muito difícil não olhar para Uruha. Ele chamava sua atenção de uma forma ou de outra e no fim...

Ah, o fim... seu problema foi ter demorado a reconhecer isso. Agora sequer podia dizer que "voltara para a estaca zero". Se quando estava tudo bem chegou a declarar em entrevista que não gostava da distância que havia entre eles, poderia dizer agora que havia um abismo. Talvez Kouyou estivesse mais inalcançável do que quando estava em coma.

Ele não deixara de falar, de conversar, mas a frieza presente em seu tom de voz machucava. Não que ele brigasse ou gritasse, mas parecia desprovido de emoção. Não parecia reclamar pela antiga amizade que havia entre os cinco, apenas tratando o The GazettE como uma parceria profissional e não mais como o sonho de outrora. Aoi apenas aceitava, mas sabia o significado disso. O loiro fora bem claro ao falar sobre a necessidade de cumprir o contrato, então suas intenções eram claras. Visíveis a qualquer um, e ninguém sabia o que fazer diante da possibilidade de que os dias estavam contados.

Tudo bem que os dias não estivessem tão contados assim. O tempo do contrato ainda era longo, não era como se faltasse apenas algumas poucas semanas, porém qualquer data marcada poderia significar um desafio diante da perspectiva de uma rejeição.

Cauteloso, Aoi optou por recuar. Por mais que sua vontade fosse ficar ali, observando Kouyou e mais nada, sabia que não seria bem recebido caso fosse descoberto. Sabia que não poderia força-lo. Resolveu então ir para a cafeteria da gravadora e ficar lá um tempo, talvez até um pouco antes dos outros chegarem. Assim, mesmo se entrasse na sala de ensaios mais cedo, não seria tão repentino. De todo modo, precisava mesmo de um café forte.

Não soube quanto tempo ficou sentado ali, distraído com o café que pediu até que alguém chegasse e interrompesse seus pensamentos ao sentir uma mão em seu ombro. Era Ruki.

- Será que todos tiveram a mesma ideia e resolveram vir mais cedo para o ensaio?

- Bom dia pra você também, Takanori.

- Não era para estar na sala de ensaios?

- Iie. Na prática cheguei muito cedo e então tenho todo o tempo do mundo pra tomar um café. Cadê o Reita?

- Vagando pelo corredor tentando decidir se entra na sala ou não, já que o Kouyou está lá. Foi por isso que você não entrou?

- Eu não quis interromper. – justificou – Ele te viu?

- Iie, nem a mim nem a Akira. Preferi vir pra cá e não interromper nada, seja lá qual for a intenção dele. Reita está muito tenso, talvez queira conversar com Kou-chan... você viu como ele ficou ontem.

- Vi, vi sim.

- Ele ficou muito mal. Está se sentindo um traidor por tudo que aconteceu. Acha que perdeu a amigo de infância. E eu não queria pensar nisso, mas... acho que está sendo bem mais difícil do que pensamos. Kou-chan está irredutível. Infelizmente demos motivos pra isso, não? Uruha só está retribuindo o que fizemos.

- Eu fui o maior culpado.

- Pode até ser o maior culpado, porém todos nós agimos mal. Tornamos a situação insustentável. Ele não tem nenhum motivo pra facilitar as coisas pra nós.

- Eu não esperava mesmo que facilitasse, mas eu só queria... – suspirou, sem completar o que pretendia dizer, esfregando os olhos.

- Ainda não conseguiram conversar, não é?

- Nós conversamos naquele dia em que voltamos pra cá e o deixamos no hospital, mas não foi o que pensei que poderia ser. Queria pedir desculpas, tentar consertar as coisas ou pelo menos começar a consertar e tudo que ele fez foi pedir perdão e dizer que não faria mais nada pra atrapalhar a convivência com a banda. Depois disso, não consegui mais me aproximar. Eu me sinto como se os dias estivessem contados. De certa forma estão mesmo... tudo que eu queria era voltar no tempo, para aquele maldito live.

- E o que você faria se pudesse voltar? Teria pedido desculpas?

- Eu teria retribuído. – disse, rápido e engolindo o café que pedira, mesmo que este já estivesse frio. Aquele era um desabafo que tinha de fazer, mas do qual tinha medo de pronunciar em voz alta e demonstrar toda a certeza com a qual já admitira para si mesmo.

Sim, teria retribuído o beijo de Uruha. E isso já não seria mais segredo para ninguém.

ooOOoo

Distraído enquanto dedilhava a guitarra, Uruha não se deu conta de que estava sendo observado. Alheio a aquilo, apenas continuava imerso em sua música: há muito já não pensava ou tentava não pensar no que tinha perdido ao longo daquele tempo. Isso incluía seu amigo de infância.

Às vezes se lembrava de Akira com ressentimento, com mágoa, com a sensação de que tinha sido traído, mas não costumava durar muito tempo. Já havia perdido muito tempo se lamentando e não queria mais isso. Simplesmente não esperava muito, preferia sequer esperar algo. Assim ao menos se decepcionaria menos. Também estava farto de se lamentar.

Era um novo mantra com o qual vinha lidando em sua mente além das habituais. As vezes recriminar a si mesmo era aborrecedor demais e precisava de algo que lhe desse forças para seguir, mesmo não sendo muito.

Três batidas leves na porta interromperam o soar de seus os acordes e com isso acabou parando de tocar. Viu justamente o baixista parado frente a porta aberta, pedindo licença. Educado, apenas meneou a cabeça, parando de tocar em definitivo e prestando atenção aos papéis que estavam ao seu lado.

- Bom dia, Kou-chan. Não pensei que fosse do time que acorda cedo.

- A noite não foi das melhores. – o mais alto deu de ombros, sem muito interesse em conversar, mas tentando ser minimamente educado. – Como foi a sua? Imagino que a pizza tenha sido boa.

- Foi boa sim, mas faltou você.

Suspirou levemente, sem dar importância ao que o outro estava dizendo. Normalmente seria reconfortante saber que sua presença era desejada em algum lugar, mas não acreditava nessa possibilidade, por mais que parecessem estar agindo de forma mais branda depois de tudo. Não tinha ilusões nem expectativas e preferia manter-se distante.

- Não se pode ter tudo, não é mesmo? Gomen, não podia ignorar a hora do remédio.

- Não nos importaríamos se você caísse de sono enquanto comia.

- Não me passa pela cabeça ser um peso, Akira. Não estou mais precisando de babá, portanto é hora de me cuidar. Sei bem os horários dos meus remédios e o que pode acontecer se eu não toma-los. A banda não precisa de mais problemas.

- Um peso? O que é isso, Kou? De onde tirou essa ideia?

- Sou um peso para o The GazettE, porque além de um ato inconsequente meu ter causado problemas à imagem de um dos integrantes, o acidente que sofri ainda obrigou uma agenda inteira a ser reprogramada. – justificou-se, repetindo em voz alta o que quase sempre dizia a si mesmo, ainda que talvez não houvesse necessidade de falar isso para Reita. Provavelmente era isso que ele e todos os outros pensavam de si, mas talvez com explicações do gênero ele pudesse finalmente deixá-lo em paz. – Quanto mais tempo eu demoro a me recuperar significo mais prejuízo para a banda, então é melhor que eu me cuide e não faça mais nenhuma besteira.

- Por que está falando desse jeito?

- Jura mesmo que não sabe? – o mais alto soou irônico, sem acreditar naquela pergunta. – Estranho... depois sou eu quem tenho fama de lento... não percebeu mesmo o que aconteceu nos últimos tempos? Eu não sonhei com tudo isso, Akira! Não aja como o idiota que você não é.

- Eu sou um idiota, e acho que não estou em condições de negar isso.

- O que está querendo dizer?

- Não sou tão estúpido a ponto de não saber que te decepcionei. Se não fosse por isso, você não...

- Nem venha dizer que foi um dos culpados pelo acidente que sofri. Como já disse ao Aoi, não me consta que nenhum de vocês seja o caminhoneiro bêbado, portanto essa conversa não tem o menor sentido...

- Isso não muda o fato de termos te decepcionado, nem o fato de que está se distanciando.

- Não estou me distanciando, Reita. Eu me comportava de uma forma, achando que era recíproco, mas agora que percebi não ser o caso, pelo menos não para mim, estou fazendo as coisas como devem ser feitas. Não dá pra arriscar o nome da banda, o The GazettE não é uma banda de garagem e estou me esforçando ao máximo pra que as coisas não deem errado de novo. Se encara isso como distância...

- Você não sai mais conosco, sempre recusa qualquer convite e nem conversamos mais. Nós éramos amigos!

- É disso que estou falando. Pode haver amizade entre vocês quatro, mas isso não se estende a mim. Eu achei que se estendesse e me enganei, mas estou tentando ser profissional e fazer com que isso não prejudique a banda. Se não for pedir demais, eu gostaria que colaborasse.

- Kou, eu sei que errei. Sou mesmo um estúpido. Eu deveria ter ficado do seu lado.

- Não precisava ter ficado do meu lado, Reita. Sequer precisava ter concordado comigo. Mas eu não esperava que fosse mudar e você mudou. – disse finalmente o que estava preso em sua garganta durante tanto tempo – Como espera que eu aja agora? Como se isso não tivesse me magoado? Sinto muito se não sou de demonstrar o que sinto, mas isso não quer dizer que eu não sinta nada. Pensei que pelo menos você soubesse disso. – lamentou o loiro – Não é agradável ser chamado de doente ou demente, ou ser evitado como se fosse um pervertido. Você não ergueu a voz pra me dizer isso, mas dizem que quem cala consente. E quer mesmo saber? Estou cansado. Isso não vai nos levar a lugar nenhum.

Havia desviado o seu olhar do baixista e voltado a se concentrar nos papéis, mas perdeu o foco ao escutar um suspiro. Ao olhar para Akira, encontrou-o com a expressão desolada. Era como se Reita finalmente houvesse se dado conta de algo que não havia percebido e agora se arrependesse. Esperava pela polidez reservada, pela cortesia destinada a quem agora era pouco mais que um estranho. Não esperava que ele fosse atingido de alguma forma.

- Onegai, Kou... me desculpe. Eu não queria ter te magoado, nunca quis... não quero perder sua amizade. Por favor. Nós ficamos desesperados quando você sofreu o acidente... todos se arrependeram pelo que aconteceu, por como te tratamos. Eu só... não quero que pense que não tem ninguém pra você. Onegai, perdão.

Estranhando aquelas palavras, Kouyou o encarou, tentando entender o que se passava, tentando saber se havia verdade no que ele dizia. E sim, havia. Mesmo julgando que as coisas poderiam ter mudado naqueles tempos, conhecia Akira o suficiente para entender o que ele pretendia. Ele estava sendo absolutamente sincero, reconhecia seus atos e pedia perdão por eles. Sabia que estava tendo de Akira o máximo que ele poderia oferecer.

E ainda sentia uma puta falta do seu melhor amigo.

- Sou um peso tão grande para a banda que ainda consegui fazer o baixista quase fazer a maior merda profissional de toda a vida. Como está a sua mão? – perguntou o loiro, reparando em uma das mãos de Reita, que embora não estivesse mais enfaixada, ainda tinha uma marca quase negra.

- Vai melhorar. – balbuciou Akira, que sorria desajeitado, como se mal pudesse acreditar no que estava escutando.

Uruha havia acabado de perdoar o seu melhor amigo.