VINTE E DOIS ANOS DEPOIS...
- Senhor? – Anthea entrou no escritório, uma pasta de arquivo grossa em mãos. – Eu trouxe o arquivo do policial que está aceitando a ajuda do seu irmão nas investigações. – Mycroft ergueu os olhos do computador, uma sobrancelha erguida.
- E qual é o nome do valente oficial que se deixou arrastar pela insanidade de meu irmão? – Anthea abriu o arquivo e largou sobre a mesa.
- Detetive Sargento Gregory Lestrade, senhor. – Mycroft empalideceu e agarrou a pasta. Da primeira página, um par de olhos castanhos familiares o observava. O cabelo agora era de um tom vivo de prata, mas os lábios ainda eram os mesmos: cheios, convidativos, prontos a se abrir em um sorriso. – Senhor? O senhor está bem? – Mycroft balançou a cabeça e fez um sinal com a mão, dispensando as preocupações de sua assistente.
- Pode ir, Anthea. E por favor, tenha um carro e um local seguro prontos para daqui a uma hora... preciso conversar com o Detetive Sargento. – Anthea assentiu e saiu da sala em silêncio. Mycroft levou a mão à corrente que trazia em volta do pescoço e sorriu.
O.o.O
DS Lestrade desceu do carro preto no, armazém mal iluminado na periferia de Londres, extremamente tenso. O caso em que vinha trabalhando o mantinha acordado há duas noites já – assim como o jovem viciado que agora acampava em seu sofá. Claro que o garoto era brilhante, isso qualquer um com meio cérebro era capaz de ver; mas também era rude, sem tato e sem nenhuma noção de convenções sociais. Um verdadeiro pesadelo de 1,83m e olhos capazes de perfurar até o âmago da alma de uma pessoa.
E agora, a cereja no topo do seu bolo de desgostos: quando ele chegara a sua sala há pouco mais de meia hora, aquela garota bem vestida, com cada polegada de sua postura gritando "Alto cargo no Governo", estava sentada diante de sua mesa, encarando o próprio Blackberry como se ele carregasse a resposta de todos os mistérios do Universo.
- Com licença, senhorita. – ele falara, com toda a educação que 46 horas sem dormir e algo próximo a uma overdose de cafeína lhe permitiam – Apenas funcionários da Yard são permitidos aqui. – a garota ergueu brevemente os olhos, como se checando a identidade de seu interlocutor, e levantou-se.
- DS Lestrade, peço que o senhor me acompanhe. Meu empregador solicita uma entrevista com o senhor. – ele olhou-a sério, a testa franzida.
- E quem é o seu empregador, senhorita...? – ele formulou, esperando que ela dissesse o próprio nome. O que ela, obviamente, não fez.
- Um homem muito importante, cujo tempo não pode ser desperdiçado. – ela respondeu, com a mão na maçaneta. Lestrade cruzou os braços e sentou-se na beira da mesa.
- Eu não vou a lugar algum antes de saber quem é o misterioso cavalheiro que tem tanta urgência em falar comigo. – a garota suspirou e ergueu os olhos do telefone.
- Muito bem. Eu entendo sua desconfiança, depois dos episódios com a Tríade e a célula local do I.R.A. – Lestrade arregalou os olhos, espantado. Como aquela garota poderia saber...? – Por favor, ligue para o DCI Morgan e diga exatamente isso: Anthea está aqui com instruções do Vermelho Alfa 00. Apenas isso. – o policial franziu a testa, irritação borbulhando no fundo de sua mente. Agora a garota (Anthea, ao que parecia) vinha com todo aquele papo de espião. Se ele descobrisse que aquilo era algum trote de Gregson para ridicularizá-lo diante de Morgan... Contendo um suspiro irritado, ele pegou o telefone e discou o ramal do Detetive Chefe Inspetor.
- Chefe? Aqui é Lestrade, da Homicídios. Escute... – ele respirou fundo, sentindo-se tolo. – Anthea está aqui com instruções do Vermelho Alfa 00. – ele ouviu por um momento. – Nada que eu saiba, senhor. Tento manter minha cabeça abaixada e meu trabalho feito. Sim, senhor... Obrigado, senhor. – ele desligou o telefone, agora mais intrigado do que irritado. – Bom, Chefe Morgan disse claramente pra eu segui-la sem fazer mais perguntas... e também me desejou boa sorte e disse que foi uma honra trabalhar comigo. – ele ergueu-se e, pegando seu casaco, seguiu Anthea porta afora. – Devo me preocupar?
- A princípio, não.
E foi tudo o que ela falou durante os vinte minutos que eles levaram da Yard até o armazém mal iluminado e sinistramente vazio. Antes de descer do carro preto, ele olhou para Anthea e lançou em tom de mofa.
- Deseje-me sorte. – ela olhou-o por um momento, com uma expressão que só poderia ser explicada como educado desinteresse. Ao descer do carro, a bolha de irritação voltou a alojar-se em seu peito, e ele deixou-a crescer enquanto dirigia-se à figura imersa em sombras no fundo do salão, que estava em pé apoiado no que parecia ser uma bengala. – Há alguma real necessidade para toda a brincadeira de espião, senhor Vermelho Alfa 00? – ele observou o homem endireitar-se e dar um passo a frente, parando sob um foco de luz estrategicamente posicionado. Ele era alto e esguio, e a luz provocava reflexos avermelhados nos cabelos cuidadosamente penteados. O paletó negro risca-de-giz estava aberto, revelando um colete combinando, de onde pendia uma corrente dourada de relógio. Ele girava despreocupadamente nas mãos um grande guarda-chuva preto. Cada polegada do homem estampava aristocracia e poder, e Lestrade sentiu-se levemente constrangido pelo seu terno gasto, a camisa branca amarfanhada e o longo casaco que, num dia distante, fora preto. Os olhos azuis do homem brilhavam de uma maneira estranhamente gentil, e Lestrade achou que havia algo curiosamente familiar na figura em pé diante de si.
- Nunca se é cuidadoso demais quando se tem inimigos em excesso, Detetive Sargento. – ele parou a poucos passos de Lestrade e apoiou-se no guarda-chuva, olhando-o com a cabeça inclinada. – Qual sua ligação com Sherlock Holmes? – Lestrade cruzou os braços e ergueu o queixo, encarando o desconhecido com dureza.
- E por que, eu pergunto, isso seria da sua conta?
- Porque eu me preocupo com meu irmão... constantemente. E gosto de conhecer as pessoas com quem ele se envolve. – ele posicionou o guarda-chuva diante de seu corpo, inclinando a cabeça. – Sou Mycroft Holmes, irmão mais velho de Sherlock.
- Bom, isso explica porque eu achei você familiar. – algo passou nos olhos do Holmes mais velho; parecia... decepção? Estranho. – Olhe, Sherlock apareceu no meio de uma cena de crime, completamente chapado, mas parecia ter uma compreensão sobrenatural do que estava vendo. Eu o prendi por uma noite, esperei ele ficar sóbrio, conversei com ele sobre o caso... e ele vem me ajudando desde então, com a condição de que se mantenha longe das drogas. – Mycroft deu um longo suspiro, e uma expressão dolorosa cruzou suas feições.
- O senhor conseguiu mais em poucas semanas do que eu nos últimos oito anos. – ele falou, a voz suave. – O senhor tem um futuro brilhante pela frente, Detetive. DCI Morgan colocou seu nome no topo da lista para as promoções do final do ano. Um cargo de Detetive Inspetor o espera antes do Natal. – Lestrade espantou-se e encarou o homem. – Detetive Inspetor Greg Lestrade. – um arrepio quente correu-lhe espinha abaixo. Por que a voz deste homem, dizendo essas palavras, soava tão familiar? Parecia...
- Como diabos você pode saber de algo assim, senhor Holmes? – ele perguntou, tentando afastar os pensamentos impossíveis que lhe tomavam a mente. Não... este homem era um aristocrata empedrado até o âmago. Não podia ser ele.
- Eu ocupo uma posição subalterna no Governo. Assuntos desse tipo costumam passar pela minha mesa. – ele encarou firmemente o policial. – O senhor não acha que uma associação prolongada com Sherlock pode atrapalhar sua promoção? – Lestrade esfregou os olhos em um gesto cansado.
-Olhe, mesmo que isso mate a minha chance de progredir na carreira, não vou abrir mão de trabalhar com seu irmão. Temos casos demais em aberto, precisamos de toda a ajuda possível.
- Exatamente a resposta que eu esperava de um homem de caráter. – Mycroft respondeu, sorrindo de leve.
- Sherlock é brilhante, senhor Holmes. Se ele conseguir se manter afastado das drogas, ele pode ser uma grande ajuda para a Yard. Claro, ele é um bastardo com uma personalidade horrível e nenhuma noção de como conviver com outras pessoas, mas ele tem uma grande mente. – ele observou Mycroft sorrir e levar a mão ao pescoço, tirando de sob a gola da camisa uma corrente fina, de onde pendia uma pequena chave. Seu coração parou por um momento. Os olhos azuis de Mycroft prenderam os seus.
- . Na verdade, eu acho que Lockie nunca vai entender o que é tabu e o que não é; ele não liga muito para convenções sociais. – ele falou, citando palavra por palavra um trecho de sua conversa há mais de vinte anos. Lestrade estava pálido, e o encarava como se ele fosse um fantasma.
- Não pode ser... Myc? Myc Edwin? – Mycroft sorriu timidamente, a mão segurando com força a pequena chave que pendia de seu pescoço.
- Olá, Greg. Faz um tempo, não é mesmo?
