– Meu Deus, você não mudou nada! – disse uma morena me abraçando pela quarta vez em cinco minutos.
– Você já disse isso. – sorri.
– Desculpe por não poder vir antes Sel, mas minha mãe tava com problemas. – disse Emily.
– Tudo bem. – afirmei soltando a outra. – Só faz dois dias que cheguei, teria achado estranho se minhas amigas mais atrasadas viessem me ver no primeiro dia. Mas, então, tudo bem?
– Não podia ficar melhor, ainda mais com você aqui. – disse Miley. – Ai Sel, nós sentimos tanto sua falta. Doze anos sem se ver pessoalmente, isso é muito.
– Verdade. – concordei, me sentando na grama do quintal da frente de minha velha casa. – Senti que precisava voltar.
Elas sentaram-se ao meu lado.
– Foi por causa de sua irmã, não é? – perguntou Miley.
– Eu preciso ter esperanças. – suspirei. – Eu tenho que pelo menos tentar tirar ela desse mundo.
– Eu concordo e qualquer ajuda que precisar, estamos aqui. – sorriu Emily.
– Senti tanta saudade! – me joguei nos braços das duas e nós caímos deitadas sobre o verde, rindo.
Era tão bom reencontrar minhas amigas de infância. Me fazia reviver os velhos momentos, as velhas lembranças de quando éramos somente crianças sem responsabilidades e compromissos. Quando minha família ainda era inteira e feliz, sem problemas. Não que não esteja feliz com a situação dela agora afinal, meus pais estão alegres em suas vidas particulares, mas me doía ver o quanto nos distanciamos sem perceber, e agora meu coração dá saltos imensos de empolgação vendo essas duas garotas com os mesmo sorrisos de doze anos atrás.
– Que momento comovente. – disse uma voz comovida.
Sentamos tentando nos equilibrar e vi a figura encostada em um lustroso Mustang conversível.
Ela vestia mesma calça jeans que me lembrava ter visto em meu primeiro dia, com uma camisa xadrez vermelha sob um tecido branco comum.
– Hm, oi Demi. – cumprimentei. – Garotas essa é...
– Demi Lovato. – completou Miley. – Sabemos quem é.
Elas pareciam envergonhadas.
– Sua irmã esta pronta? – perguntou para mim.
– Pronta? Pra que? – respondi com perguntas desconfiadas.
– Festa. – sorriu ela, cantarolando a palavra.
– Mas são seis horas da tarde, nem noite é ainda. – enruguei a testa.
– É normal, geralmente essas festas viram a noite... Aaah, oi Meg. – Megan apareceu atrás da porta da frente e foi em direção ao carro.
– Avise o pai que saí, Sel. – soprou um beijo para mim. – Estou de volta amanhã a tarde, acho.
Demi gargalhou entrando no lugar do motorista.
– Tchau Selena. Garotas. – despediu-se Demi, quando Megan sentou ao seu lado.
– Meu Deus, estou com medo. – sussurrei.
– Meu Deus estou morrendo.- abanou-se Emily. – A Demi falou conosco!
– O quê? – perguntei indignada. – Elas foram para uma possível festa de drogas e vocês falam do quão demais foi Demi falar com vocês?
– Fala sério, ela é muito gata. – disse Miley, ainda olhando para o lugar onde o carro não jazia mais estacionado.
– Minha irmã... – ignorei Miley. – Estou realmente com medo.
– Calma Sel, elas sempre fazem isso. – confortou-me Emily, ou tentou. – Uma amiga minha também vai nessas festas e elas vão ficar bem.
– O problemas não é elas ficarem lá e sim voltarem. As chances são cada vez menores. – abracei meus joelhos.
Aquela felicidade de minutos atrás parecia impossível agora. Minha irmã foi se drogar com sua melhor amiga.
– Não gostei do riso de Demi. – completei.
– Eu gostei, me fez quase derreter. – Disse Miley, a voz mole.
– Miley! – repreendi-a. – Eu digo quando disseram que voltariam amanhã à tarde. Já é tanto tempo e com aquilo, fez parecer que iram demorar mais.
– Minha colega já ficou uma semana sumida em festas assim. – disse Emily.
– Isso ai Emy, ajuda mesmo. – ironizou Miley. – Vai ficar tudo bem Sel, sua irmã vai voltar bem.
– Tomara. Tomara que elas fiquem bem. – afundei minha cabeça entre as pernas.
(...)
– Pai, eu não aguento mais. – me encolhi ao seu lado no sofá. – Não aguento esperar mais.
Ele passou os braços ao meu redor, apertando-me contra seu peito.
– Não queria ter de falar isso, mas... é normal. – sussurrou meu pai.
– Mas não deveria! – elevei a voz chorando, as lagrimas vazando de meus olhos e escorrendo com rapidez despencando de meu queixo. – Pai, fez três dias que elas saíram e nada. Nem um telefonema ou mensagem de texto. Nada!
– Agora você entendeu minha preocupação do primeiro mês. – começou ele. – No segundo eu chorava quieto em um canto, mas chegou uma hora que eu não pude fazer mais isso. Não que não tenha vontade querida, mas... ela precisa perceber sozinha o que está fazendo. Se Megan pensa que é certo, o que vai adiantar nós secarmos de tanto chorar? Ela não vai parar, a única que pode salva-la é ela mesma.
– Por isso o senhor não a impede? – sussurrei, controlando os soluços.
– Exatamente. – sorriu, levantando meu queixo com o indicador. – Agora quero ver um super sorriso nesse rosto lindo.
Levantei os cantos da boca.
– Isso não é o bastante para um pai que não vê a filha há quase uma vida. Vai, super sorriso. – falou.
Puxei mais os cantos em um sorriso tímido, mas logo minha boca foi aberta com gargalhadas.
– Não, pai, não! – gritei entre risadas tentando parar suas mãos que se mexiam com rapidez sobre minha barriga. – Cócegas é covardia! P-para, por favor!
– Super sorriso. – exigiu ele.
– Ok, eu faço! – implorei. – Agora para, por favor!
Ele levantou as mãos para cima, me olhando com atenção.
Abri o que costumavamos chamar de "super sorriso" quando pequena.
– Essa é minha pequena! – me abraçou com saudade. – Viu como não é difícil esquecer os problem... meu Deus!
Ele pulou de meus braços com desespero se levantando do sofá.
– O que acontec... – não precisei terminar a frase pois, pela grande janela de vidro, vimos um carro conhecido estacionado. – São elas!
Esperamos alguns segundos, mas ninguém se moveu para fora do conversível com o capo fechado.
– Vamos lá. – todo seu discurso de momentos atrás foi esquecido com o tom de sua voz.
Pela porta já víamos um corpo imóvel no banco no motorista, a testa encostada no volante. Essa visão já foi suficiente para nos fazer correr.
– Megan? Demi? – disse meu pai.
– No b-banco de tr-trás. – gaguejou a voz rouca de Demi.
Meu pai escancarou a porta de trás da relíquia e tirou o corpo de Megan no colo, desacordada.
– Meg? Deus, fale comigo! – disse quando meu pai oscilou com seu peso nos braços.
– Esta dor-dormindo. – sussurrou Demi novamente do banco da frente. – Ta t-tudo bem.
Acompanhei meu pai a passos largos até o sofá, onde Megan foi depositada.
– Ela precisa de um banho e chá de boldo, muito chá de boldo. – ele parecia bem menos apavorado.
– Eu posso fazer. – me ofereci, mas ele negou com a cabeça.
– Não, ela precisa dormir antes. – seu olhar correu sobre seus braços e pareceu aliviar-se mais. – Nenhuma droga pesada, graças a Deus.
– Como assim?
– Drogas fortes são líquidos densos demais para serem colocadas em pílulas ou encaixadas em cigarros, são aplicadas das veias com seringas. – recitou ele, sem tirar os olhos da filha mais velha. – Aprendemos muito estudando como cuidar de filhos usuários de drogas. Vou levá-la para cima, você vem?
– Vou. – me levantei. – Pensando bem, preciso pensar um pouco.
– Te entendo, só não saia de casa, por favor. Já é tarde. – olhei no relógio que marcava o começo das dez horas da noite.
Assenti e observei o corpo inconsciente de minha irmã pender em seus braços até eles desaparecerem na escada.
Me joguei no sofá novamente.
A vontade de chorar era imensa, mas tinha que ser forte. Forte igual meu pai.
Acho que foi uma das piores cenas de minha vida: minha irmã jogada no sofá, impregnada com cheiros de misturas estranhas e praticamente desmaiada por virar três dias se drogando...
Mas meus pensamentos foram parados de expressar sua filosofia quando olhei novamente pela janela.
Lá estava o carro. Não tinha se mexido um mero centímetro e a figura dentro dele também.
A verdade era que estava com raiva. Raiva da pessoa inerte em seu volante, não me pergunte a razão, pois não tenho mesmo sabendo que a culpa não era dela. Estava decidida a subir para meu quarto esquecendo-me dessa cena quando senti minhas pernas irem na direção errada. Na direção da porta.
Aproximei-me com hesitação até chegar perto o suficiente para ver e ouvir sua respiração pesada.
– D-demi? – sussurrei.
Sem resposta.
– Demi pare de brincadeira. – sussurrei novamente.
Sem resposta.
Arrastei meus pés para mais perto no automóvel e ela pareceu assustar-se com o som.
– Demi? – tentei novamente.
Ela virou a cabeça em uma lentidão agonizante, como se o pensamento de se mover já doesse. A cabeça ainda apoiada no volante.
– Q-quem? – ouvi em um resmungo.
Seus olhos estavam fechados, mas não por cansaço. Não estavam pesados assim. Ela simplesmente não queria mostrá-los.
– Você esta... bem?
Tentou rir, mas o movimento pareceu arder o peito.
– Sim. – respondeu.
– Eu sei que esta mentindo.
– Não estou... – eu a cortei.
– Vou te levar para dentro. – abri a porta do carro, mas suas unhas cravaram na borracha da guia.
– Não... não quero... – mas foi impedida de continuar por conta de uma crise de tosse.
– Não importa. – fechei os dedos envolta de seu braço e ela fez o barulho mais alto de nossa conversa. – Desculpe, eu não queria te machucar.
– Você não o fez, fui eu. – sua voz parecia a beira do choro. – Eu sempre faço. Penso que vou aguentar, mas nunca acontece.
Peguei sua mão delicadamente e ergui a manga na camisa xadrez até achar o que procurava.
– Demi... – assustei-me.
Meu estomago remexeu desconfortavelmente vendo todas aquelas marcas.
As picadas de grossas agulhas eram visíveis a cada meio centímetro de sua pele e, em sua volta, a pele tornava-se roxa. As mais recentes, vermelhas. As veias saltadas deixavam a visão ainda mais sombria, fazendo linhas azulas percorrerem o percurso todo no desenho assustador.
Rocei a ponta de meus dedos pelo braço, onde a porcelana de sua pele não era mais visível.
– Demi... – tentei dizer algo, mas por sair seu nome já era muita coisa.
– Selena. – ela abriu os olhos e prendi a respiração – Selena, eu não consigo parar.
Um lagrima escorreu de seus olhos de vinho.
