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O valor do recomeço
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Me chamo Pandora Heinstein
No dia seguinte, tudo correu normalmente. Às margens da floresta negra, o clima geralmente era bastante nublado, então era um dia bastante comum. Comum... Não era todo dia que se recebia um convite escrito de uma mulher desconhecida. Sorriu de uma maneira que não combinava nada com ele ao imaginar a face de um certo alquimista das chamas.
"Cinco e meia... Melhor ficar pronto." – pensou o alquimista. Era um pouco estranho esse convite, qualquer um conseguiria entender isso. Mas... Ainda assim se sentia com vontade de aceitar. Não era mais um adolescente afinal de contas.
– Minha nossa! – Bradou o professor VonBraun – Edward! Abaixe-se!! Vai explodir!!!
Meio surpreso, mas com os reflexos costumeiros, Edward jogou-se no chão. Algumas lembranças de experiências envolvendo combustíveis muito inflamáveis contribuíam bastante com os reflexos. Ergueu a cabeça quando ouviu os risos do professor começaram do nada.
– Edward... Honestamente... Podes ser um jovem extraordinariamente inteligente, mas... Eu não usava essa colônia desde que me graduei em Viena. O cheiro dela me assustou tanto que achei que tivesse deixado algo fervendo no laboratório.
O professor também tinha reflexos rápidos pelo visto. Não era qualquer um que desviava de um banquinho lançado com tanta violência. Mas a fúria que havia surgido de repente foi logo substituída por uma sensação de vazio e nostalgia. Alphonse sempre estava lá para conter os ímpetos mais violentos de Edward.
Foi tirado desse devaneio por meia dúzia de estrondos que mais pareciam bárbaros tentando derrubar uma fortaleza do que batidas na porta.
– Acho que eles chegaram. – foi o comentário do professor VonBraun.
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Edward desceu as escadas com a costumeira dificuldade, embora jamais permitisse que ninguém o auxiliasse. Não era um fraco. Não podia ser um fraco. Não queria ser um fraco.
– Senhor Edward Elric? – um homem loiro, que parecia capaz de partí-lo ao meio caso se irritasse, perguntou.
– Eu mesmo. O senhor seria?
– Meu nome é Radamanthys. Estes aqui ao meu lado – apontou para o homem moreno e para o ruivo que o acompanhavam – são Aiacos e Valentine. Fomos enviados por Lady Pandora para acompanhá-lo.
– Uma escolta de três homens para uma visita social? Isso não me parece muito... razoável?
– O senhor deve entender, senhor Elric. – disse o ruivo Valentine – As estradas não são seguras à noite. Especialmente tão perto do crepúsculo. Nunca se sabe o que está a nossa espreita. Não...
– Basta, Valentine. As ordens de Lady Pandora já são motivo suficiente para nós, senhor Elric. Por falar em Lady Pandora, creio que ela lhe mandou um convite, não é mesmo?
– Sim, ela...
– Poderia nos mostrar? – Perguntou o homem chamado Aiacos, falando pela primeira vez.
Edward pôs a mão dento do bolso do casaco e sem hesitar, estendeu o controle. Não se sentia nem um pouco a vontade na presença daqueles três homens. Aiacos tomou a carta e a leu rapidamente, lançando um rápido olhar na direção de Edward.
– Podemos ir agora. – foi o comentário lacônico.
Com essa frase, Radamanthys e Valentine praticamente saíram ventando da sala, Sem nem ao menos despedir-se do Professor VonBraun ou confirmar a vontade de Ed em seguir com eles. Provavelmente achavam que ele não seria tão tolo de contrariá-los.
Aiacos esperou Ed começar a andar em direção da porta antes de acompanhá-lo. Um gesto claro de que sairia daquela casa por bem ou por mal. Mas o alquimista foi surpreendido por um par de mãos que o forçaram na direção oposta para encontrar os olhos brincalhões de VonBraun sérios como nunca tinha visto.
– Tome cuidado, jovem Elric. – foi a despedida simples e a advertência implícita.
Edward concordou com um gesto da cabeça e voltou a caminhar em direção a porta, onde viu uma carruagem a sua espera. Mais seis ou sete homens a cavalo o esperavam do lado de fora. Suspirou consigo mesmo e, com a ajuda de Radamanthys e Valentine, que não pareciam muito dispostos a ouvir reclamações sobre ele não precisar de ajuda, subiu na carruagem.
Ouviu claramente Aiacos resmungar um simples, porém educado "Com sua licença, Professor" antes que a porta da carruagem fosse fechada.
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Talvez essa tenha sido uma das horas mais tensas da vida de Edward. Uma carruagem praticamente lacrada, três homens que mais pareciam assassinos de sangue frio, o ruído incessante de cascos de cavalo e os constantes berros de um cocheiro que parecia estar tentando fugir do inferno não eram exatamente relaxantes.
Apesar de tudo isso, tinha que ser racional. Se não tivesse aceitado o convite da tal Pandora, sabe-se lá o que esses homens poderiam ter feito com o professor ou com ele mesmo. Mesmo assim... A sensação de estar mergulhando numa confusão dos diabos não saia da cabeça dele. Era nessas horas que mais sentia falta do irmão, Alphonse.
Tudo bem, no final de qualquer discussão, apesar de todas as advertências, de todos os conselhos e, acima de tudo, de todas as súplicas, era sempre a vontade de Edward que prevalecia. Mas ainda assim era bom saber que havia alguém se preocupando com o que estava fazendo. Apesar de nem sempre ter certeza do que estava fazendo. Assim como agora.
– Quando fores apresentado a Lady Pandora, deverá tratá-la com o devido respeito. Espero ter sido claro. – a voz tonitruante de Radamanthys quase fez Edward pular.
– Ahn... Sim, sim, claro.
– Honestamente, não estou nem um pouco impressionado com o senhor, senhor Elric. – apesar de Valentine tratá-lo respeitosamente como "senhor", era bem simples perceber que esse respeito não passava de fachada – Esperava alguém que, ao menos, não precisasse de dez homens armados para escoltá-lo.
Os dedos de Edward se crisparam ao ouvir os insultos.
– Por favor, Valentine. Do que adianta humilhar alguém nas condições do senhor Elric? – a voz de Aiacos se fez presente – Acho que você já deve ter ouvido esse conselho, talvez não pela minha boca: "Os ratos podem morder os gatos quando acuados".
Ah, se ainda tivesse seu automail!!
– Do lugar de onde venho, Aiacos, filhotes de cães que nascem aleijados são afogados ao nascer.
A paciência de Edward se esgotou no mesmo instante que Radamanthys tossiu, como para lembrá-lo de que havia mais uma pessoa naquela carruagem. O lembrete também foi dirigido a Aiacos e a Valentine, já que eles pararam de falar imediatamente.
E Edward conseguiu ficar ainda mais irritado com uma sensação de gratidão que tentou nascer em seu interior. Não era um fraco. Não podia ser um fraco. Não queria ser um fraco.
Especialmente agora que a carruagem havia parado e o ser mais belo de todo o mundo estava dirigindo toda sua atenção para os olhos de Edward.
– Prazer em conhecê-lo, Senhor Elric. Me chamo Pandora Heinstein.
