Capítulo 1 - Fic

Agora que sabia, Bella Swan tinha que contar a Mike imediatamente. Ele viria à Nova York na semana seguinte, mas ela não podia esperar tanto para partilhar as novidades – estava com oito semanas de gravidez. Ele seria pai em fevereiro.

O enjôo que sentia todas as manhãs agora parecia um milagre, pois compreendia que carregava um filho de Mike.

Essa gravidez era a coisa mais maravilhosa que já lhe acontecera. Logo, teria um filho só seu, uma criança para abraçar, amar e ensinar. Alguém para dividir a maravilha da vida consigo. Sete meses pareciam tempo demais para esperar!

Não importava que o médico estivesse preocupado com sua pressão alta, ordenando-lhe que ficasse na cama durante parte do dia. Assim que Mike soubesse, iria querer ajudar. Ele entenderia por que ela desistira do emprego e insistiria para que se casassem sem demora, para que pudesse tomar conta dela.

Com determinação, discou o número de telefone não relacionado que conseguira com muito custo do secretário particular de Mike, George Tronier, e esperou que a ligação se completasse.

-Allo? –respondeu por fim, uma voz desconhecida.

-Por favor, posso falar com Mike Newton? –perguntou Bella, em francês fluente.

-Ele não está. Gostaria de falar com madame Newton?

Cada vez mais ansiosa, Bella soltou um suspiro desanimado.

-Não. Não gostaria de perturbar sua mãe.

-Não, não. Não entendeu. A mãe dele já morreu já faz cinco anos, que descanse em paz. Eu estava me referindo à esposa, Lauren.

Esposa?

-Ela está no jardim com a neta mais nova. Se quiser, chamarei madame ao telefone.

Bella começou a suar frio, sentindo a náusea que a incomodara durante todo o dia se intensificar.

Pensar que ela, Bella, era a "outra mulher!" Pensar que era a "amante", morando nos Estados Unidos, enquanto a família dele prosperava no sul da França! Nenhum estardalhaço, nenhuma confusão, desde que Bella não insistisse em se juntar a ele lá.

-Allo? Ainda está aí? A senhora...

Interrompendo a criada de Newton, Bella recolocou o telefone no gancho e se agarrou à borda da cama enquanto o mundo girava a seu redor.

Incrível. O truque mais velho do mundo, e ela caíra.

Mike, com seus olhos gauleses cheios de disposição romântica, sempre insistindo em procura-la, nunca o contrário. Quantas vezes ele lhe assegurara de que a levaria a seu chatêau, que um dia a apresentaria à mãe?

Bella apertou a mão contra o coração, tentando aliviar a dor.

Tinha que conversar com Rosalie!

-Por favor, por favor, responda –rezou Bella, enquanto discava o número da irmã gêmea, desrespeitando a imposição de Bella de que só se falarem uma vez por mês.

Após quatro toques, ouviu:

-Não há ninguém no momento. Por favor, deixe seu recado e alguém retornará sua ligação.

-Que droga!

Bella bateu o fone no gancho, o nível de adrenalina subindo. Se não houvesse engravidado, quem sabia quanto tempo ainda teria mantido o relacionamento antes de exigir de Newton uma definição? Por quanto tempo ainda teria dado confiança àquele homem?

Não podia acreditar que o mesmo tipo de traição que acontecia a centenas, a milhares de mulheres em todo o mundo todos os dias lhe acontecera também.

Lado a lado com a raiva e a dor surgiu um sentimento de vergonha esmagador. Fora ludibriada como inúmeras outras e agora, como elas, estava grávida, sozinha. Forçada a encontrar algum tipo de trabalho que pudesse fazer em casa. Com poucas economias para se sustentar durante a gravidez, sem mencionar o resto da vida.

Mas uma coisa era absolutamente certa: [b]queria aquele bebê.[/b] Embora não fosse ter um pai, seu filho nunca sofreria. Gozaria de um infinito amor, de sua parte e de sua família.

Quando a irmã, Rosalie, e a madrasta, Esme, soubessem, ficariam muito felizes. E juntariam forças para ajuda-la a criar seu menininho ou menininha, uma criança que Mike nunca conheceria.

Bella tinha de dar crédito a George, que, ao ouvir sua voz, devia ter ficado com dó, sabendo exatamente o que fazia ao revelar aquele número de telefone.

Talvez ela não fosse a primeira a se envolver num relacionamento extraconjugal com o patrão. Talvez houvesse outra mulher insuspeita na vida de Mike naquele exato momento. Nunca saberia. Não queria saber.Não queria mais nada com ele.

O barulho em seu ouvido se intensificou e o gosto amargo a impeliu ao banheiro. Novamente. Já passara por aquilo naquele dia.

Precisava de Rosalie. Por que ela não estava em casa? Quando não havia mais nada no estômago, Bella começou a perambular pelo apartamento minúsculo, tentando imaginar onde colocaria o berço e toda a parafernália de que o bebê precisaria. Sem mencionar como pagaria por todas essas coisas.

O riso histérico repentino transformou-se em lágrimas, e ela escondeu o rosto nas mãos, soluçando.

Não saberia dizer quanto tempo ficou ali parada antes de captar as batidas na porta. Não podia ser Philippe, pois ele sempre telefonava antes de visitá-la no apartamento.

Bella nunca abria a porta, a menos que a pessoa do outro lado se identificasse. Quanto a vizinhos, vigorava no prédio a lei informal quanto à sempre telefonar antes de aparecer. Como o visitante insistisse, ela foi de mansinho até a porta e apurou o ouvido, não querendo denunciar sua presença.

-Rômulo? –chamou uma voz familiar. –Está tão paranóica quanto antes. Abra. Sei que está aí.

-Remo? –Bella gritou a outra metade da senha que ela e Rosalie usavam desde a sétima série, quando aprenderam sobre os gêmeos famosos de Roma. –Ainda bem que você veio!

Com mãos trêmulas, liberou as trancas e escancarou a porta.

-Acabo de ligar para você. Tudo o que consegui foi sua secretária eletrônica dizendo que não tinha ninguém. Não acredito que esteja aqui!

Conduziu a irmã para a sala e, entre lágrimas e risos, as duas se abraçaram com força.

Bella balançou a cabeça e agarrou as mãos de Rosalie, ainda encantada por vê-la em carne e osso à sua frente.

-Como passou pelo portei... –Bella parou no meio da frase. –Claro! Ele pensou que você fosse eu.

-Peguei você numa hora ruim, não foi? –Rosalie não deixava escapar nada.

Bella assentiu, enxugando os olhos.

-Como Edward deixou você vir? Ou ele veio à Nova York com você? Vou conhece-lo finalmente?

-Ele não sabe que estou aqui. Partiu há quase cinco semanas num caso de proteção de testemunhas que deve durar uns três meses.

-Que tipo de casamento é esse?

-O tipo que eu e Edward queremos. –Rosalie sorriu e soltou Bella para que ela pudesse fechar a porta. –Fazemos o que queremos quando estamos separados, o que nos convém muito bem.

-Como agüenta isso, Rosalie? Eu não poderia viver com um homem que estivesse em perigo constante.

-Edward pode cuidar de si mesmo. É o homem mais confiante que conheço, e gosta de aventura. É por isso que só a fazenda não basta, e ele trabalha como agente também.

Bella balançou a cabeça, incrédula. Então sorriu. Rezara para conversar com a irmã e, como um milagre, Rosalie se materializara.

-Já faz um ano desde que nos vimos pela última vez! Sei o que Esme disse sobre devermos tentar viver vidas separadas, mas nos falarmos só uma vez por mês é ridículo, Rosalie. Não é bom.

-Concordo. É horrível estar separada de você. –Rosalie pousou a bolsa sobre o sofá.

Bella seguiu seu movimento com o olhar, maravilhada ante a graça e beleza inconsciente da irmã. Apenas por um momento, entretanto, pareceu-lhe que ela bamboleara um pouco. Mas devia ser imaginação. Ainda se sentia um pouco abalada após o acesso de vômito.

-Por que não disse nada antes, Rosalie? Estava ansiosa por visitá-la.

-Você sabe por quê. Esme disse que mamãe costumava nos encorajar a ficar juntas demais, a sermos muito parecidas. Ela achava que devíamos tentar ser mais independentes. Sob um aspecto, ela estava certa. Se você e eu não tivéssemos decidido tirar férias separadas no verão passado, eu nunca teria conhecido Edward, nem você Mike.

Talvez eu não tivesse me sentido tão só e abandonada a ponto de me envolver com o primeiro bonitão que apareceu, pensou Bella, numa percepção súbita.

Elas se olharam. Rosalie quebrou o silêncio primeiro:

-Desculpe se levei a sugestão de Esme longe demais. Estou aqui para consertar.

-Eu amo você. –Bella se estendeu e abraçou a irmã novamente.

Rosalie correspondeu ao abraço.

-Você é um arraso, Bella. Todo esse cabelo ruivo e olhos verdes. Pernas longas e maravilhosas. Assim como as minhas. Mas, franchemente, ma chère, você parece, "como dirrá..." – imitou o sotaque francês. –Tão, tão horrible. –Ergueu os ombros exageradamente e afundou-se no sofá.

Bella riu, apesar da gravidade de sua situação, divertindo-se com a habilidade da irmã e respeitando sua honestidade. Duas mentes como uma. Dois seres humanos formados da mesma célula.

-Ia dizer a mesma coisa de você, ma chère. Parece que está tendo um péssimo dia. –Passou para um tom mais sério. –Por que está parecendo tão esgotada? Tão... Frágil?

-Tentou pegar um vôo comercial ultimamente, voar pelos Estados Unidos numa lata de sardinha com um piloto Kamikaze? –Justificou Rosalie, balançando a cabeça, fazendo uma nuvem de cabelo ruivo gingar gentilmente antes de pousar em seus ombros. Nesse movimento, agarrou-se no braço do sofá tão firmemente que seus dedos ficaram brancos.

Rosalie deixou de sorrir.

-Vamos. É hora da verdade. O que foi? Está tonta, não está?

-Meus períodos andam irregulares, do jeito que eram quando começamos a menstruar. Mal consigo viver durante a síndrome pré-menstrual. Os remédios ajudam, mas um dos efeitos é que me deixa um pouco tonta. Qual é a sua desculpa?

-Acho que é exatamente o oposto. Eu... Eu estou grávida.

-Oh, Meu Deus!

Rosalie olhou para o estômago achatado da irmã. Desde que voltara do consultório do obstetra, Bella passara a mão pela região uma dezena de vezes, ainda incapaz de acreditar que uma vida começava a crescer dentro dela.

-Nosso francês atraente do Midi?

-Nosso francês atraente e bem casado.

Mônica endureceu a expressão.

-Que se dane o cara por toda a eternidade. Já contou a ele? –Rosalie estava revoltada.

-Ia contar, mas ele não estava em casa. Perguntaram se eu gostaria de falar com madame. A mãe dele?, Perguntei. Não, não, a criada me disse. Ela já se foi. Refiro-me à esposa, que está lá fora com a neta caçula. –Com a voz fraca, Bella já não conseguia controlar os soluços.

-Oh, venha cá. –Rosalie estendeu os braços e a irmã se refugiou neles.

Ficaram assim por um bom tempo, até as lágrimas de Bella secarem.

-Acredita que na semana passada Mike disse que iria visitar a mãe viúva em Cap D'Agde, e... E que talvez na próxima visita ele me levasse, para nós duas nos conhecermos?

-Bella, querida. Sinto tanto.

-Eu devia ter percebido. Ele é mais velho. Muito sofisticado. Como Louis Jourdan. Lembra-se dele em Gigi? Nosso filme favorito? Mike se parece muito com ele. Fiquei encantada quando ele disse que queria me ver. Disse que se casara jovem, e que tudo terminara havia muitos anos. Naturalmente, presumi...

-Não se culpe –interrompeu Rosalie. –Você é uma mulher adorável, bonita e desejável. Ele não a merece.

Bella fungou.

-Concordo.

-Vai contar-lhe sobre o bebê?

-Não. Decidi não contar. Acha que estou sendo má?

-Não. Tomou a decisão certa, maninha –provocou Rosalie, gentil, lembrando que, segundo a mãe, ela nascera primeiro, por diferença de quinze minutos. Portanto, considerava-se protetora de Bella. – Mike não merece saber de uma criança que ele nunca teve intenção de gerar ou reconhecer.

-O que me deixa zangada é que conversamos sobre o futuro, sobre crianças. Ele não havia proposto ainda, mas eu tinha certeza de que o faria. –Sua voz ficou mais trêmula.

-Onde está o crétin agora?

Bella adorava quando a irmã praguejava em francês. Mesmo agora, sorriu.

-Provavelmente na cama de outra mulher –resmungou, cínica.

-Provavelmente.

-Não a da esposa –disseram em uníssono, exatamente como fizeram inúmeras vezes durante a vida, os pensamentos em tão perfeita sintonia que era quase assustador.

De repente, estavam gargalhando, a reação atuando como uma catarse necessária.

Mas quando a alegria cedeu, Rosalie ficou totalmente séria.

-Foi ao médico?

Bella assentiu.

-Na hora do almoço. E por isso que estava tentando falar com você.

A irmã estreitou o olhar.

-Conte-me tudo. Vamos. Vá falando.

-Oh, Rosalie... As coisas não poderiam ser piores. –Aliviada por poder extravasar os medos para alguém que a amava incondicionalmente, contou o que o médico disse, não omitindo nada. –Não sei o que vou fazer. Ele explicou que, se eu não quisesse perder esse bebê, deveria ficar de cama durante parte do dia até que o perigo passasse. O que significa que tenho de largar meu emprego de intérprete e arranjar algum trabalho para fazer em casa. Não sei por onde começar.

-Isso é fácil. Vai sair deste apartamento e voar para a fazenda amanhã.

-Não, Rosalie. Não posso fazer isso.

-Não seja egoísta. Estamos nisso juntas. Tenho capital investido em meu próprio sobrinho ou sobrinha. Quem sabe? Talvez esteja esperando gêmeos. Mamãe não sabia até nascermos.

Bella quase desmaiou ante a idéia, enquanto a irmã prosseguia.

-Além disso, não tem escolha, não quando há risco para você e para o bebê.

Bella também sabia ser teimosa.

-Não é problema seu.

-Vai ficar aí sentada e me dizer que não faria a mesma coisa por mim se estivesse no seu lugar? Edward ganha bem. Desde o nosso casamento, não tive de me preocupar com dinheiro.

-É esse o ponto. Tem um marido para ajudar. Eu não.

-Nem eu –disparou Rosalie. –Não estou falando sobre uma estada de nove meses.

-Então, de que está falando?

-Você precisa organizar suas idéias, para tomar uma decisão sobre o resto de sua vida. Não pode fazer isso neste apartamento do tamanho de um selo postal, preocupada com dinheiro e trabalho! O que estou sugerindo é que fique na fazenda por algumas semanas. Deixe nossa caseira, ida, mima-la, e, sem tempo definido. Vai encontrar a solução com a qual ambas possamos viver. Que tal?

Bella franziu o cenho.

-Parece maravilhoso, exceto por você estar falando como se não fosse estar lá.

-Não estarei.

-Mônica...

-Vou para a Europa por algumas semanas. Estou preocupada com Esme, então decidi ir vê-la enquanto Edward está fora.

-Também estou preocupada com ela. Gostaria de poder ir com você... –resmungou Bella. Ainda sentia falta das longas conversas com a madrasta, uma francesa maravilhosa com quem o pai se casara vários anos após a morte da mãe delas, de câncer. Infelizmente, tudo mudara novamente quando o pai sofrera um ataque cardíaco fulminante e Esme se unira a Paul Beliveau. –Ela não me escreve há semanas.

-Deve ter sido um choque tremendo, para Paul, descobrir que esme estava criando duas enteadas de dezessete anos. Ele nos odiava.

-Acho que ele odiava qualquer pessoa a quem não pudesse controlar ainda mais depois que observamos que Giselle amara e se casara com nosso pai primeiro. Ainda fico espantada por termos conseguido ficar com Giselle até os vinte e dois anos. Ainda bem que ela conseguiu esse trabalho de tradução e interpretação aqui.

-Pode imaginar a vida dela a partir daí?

-Não paro de pensar nisso.

-Parece –comentou Bella –que ela é uma esposa maltratada.

-É por isso que não vou esperar mais. Achei que poderíamos viajar juntas, mas, já que isso está fora de questão, vou sozinha.

-Vai precisar ser cuidadosa, Rosalie. –Bella se levantou e fitou a irmã.

-Não se preocupe – ela a tranquilizou. –Tenho um plano. Se puder tirá-la da casa por cinco minutos, vou convencê-la a procurar um esconderijo, ou algum aconselhamento.

Bella sentiu as lágrimas emergirem.

-Pobre Esme, e nem poso ajuda-la numa hora dessas. Isso... –gesticulou em direção ao estômago –mudou minha vida para sempre.

Rosalie se levantou também e pousou as duas mãos sobre os ombros de Bella.

-Está me dizendo que não quer essa criança?

-Sabe que não é isso. –Bella ergueu a cabeça. –Só não posso suportar ser um estorvo para você e Edward.

-Então, não seja. Duas semanas devem ser suficientes para pensar sobre o tipo de trabalho que poderia fazer em casa. Há dezenas de editoras precisando de tradutores de textos e coisas assim.

-Sei, mas trabalho free lance é difícil, e é preciso estar atento às oportunidades.

-É exatamente por isso que deve ir para a fazenda e ficar longe de outras preocupações. Pode ficar deitada o dia inteiro e dar os telefonemas. Com sua experiência, logo vai conseguir alguma coisa de concreto.

-Oh, Rosalie. –Bella passou a mão pelo cabelo. –Quando fala, parece fácil, mas não poso fazer isso. Ficaria muito embaraçada de aparecer na fazenda, sendo esperada. O que vão pensar da irmã perdida há tanto tempo que nem sequer apareceu no casamento? Tenho certeza de que minha ausência não deixou boa impressão em ninguém, em especial ao Edward.

-Bem, nós nos casamos de repente mesmo, mas foi culpa minha você não estar na cerimônia. Você estava na França sob contrato com uma empresa de informática, e eu lhe disse para ficar lá. Segundo Esme, para meu casamento começar bem, eu devia ficar longe de você por algum tempo. –Rosalie parou, franzindo o cenho. –E, Bella, não fique chocada, mas tenho uma confissão. Edward sabe que tenho uma irmã, mas... Não sabe que somos gêmeas. No início, não contei por causa do conselho de Esme, e então... Nunca parecia ser a hora certa. Então, decidi esperar até que pudessem se conhecer...

-Ele não sabe que somos gêmeas? –repetiu Bella, rouca. –Oh, Rosalie, como pôde?

-Desculpe. Mas tem de admitir que, até passarmos a viver vidas separadas, nossa proximidade sempre sabotou nossos relacionamentos com os homens.

-É verdade, mas está casada agora –murmurou Bella, ainda se sentindo perturbada, e traída, pela revelação da irmã.

Embora compreendesse. Para o próprio bem delas, Esme providenciara que lessem a literatura disponível e os últimos estudos sobre gêmeos idênticos, certa de que teriam uma vida emocional mais saudável se entendessem os inconvenientes, bem como os benefícios, de estarem ligadas em vários níveis.

-Tem razão. Fui estúpida. Me desculpa?

-O que você acha?

-Senti saudade, Rômulo.

-Senti saudade também, Remo. O problema é que, se eu aparecer na fazenda, todo o mundo vai ficar escandalizado ao saber que você tinha uma irmã gêmea e manteve isso em segredo.

-Não, não vão. Não se você fingir ser eu.

Rosalie tinha uma expressão traquina no olhar. Bella a detectara milhares de vezes antes, sempre um prenúncio de encrenca para ambas.

-Não estamos crescidas demais para isso?

-Sim. Mas é isso que é divertido, e não me divirto assim desde quando dividimos aquele emprego durante um ano inteiro na crémerie em Neuilly e ninguém descobriu.

-E Monsieur LeClerc e seu filho tentaram começar namoro conosco.

Os risos foram se intensificando até se tornarem gargalhadas. Sem uma palavra, sentaram-se no sofá, ambas cruzando a perna direita sobre a esquerda, o que as fez rir ainda mais.

Bella sempre ficava fascinada com seus movimentos de corpo idênticos, que, embora não combinassem, freqüentemente ocorriam da mesma forma e ao mesmo tempo. Desde cedo, perceberam que preferiam se deitar na cama de modo igual: sobre o lado direito, perna esquerda dobrada e a direita estendida.

Da mesma forma, usavam o mesmo perfume francês, liam as mesmas biografias históricas e mistérios, preferiam Brahms a todos os outros clássicos e devoravam cannelloni autênticos. A lista era interminável.

-Vamos, Bella. Que mal pode haver?

-Acho que nenhum, mas quero saber o motivo real de você estar sugerindo essa peça. Sou sua outra metade, lembra-se? Diga a verdade.

-Sua chata – a irmã falou, sorrindo. – A verdade é que Edward ficaria preocupado se soubesse que fui ver Esme sem ele. Depois de tudo o que contei sobre Paul, ele teme que minha interferência possa piorar as coisas. Embora ele nunca tenha comentado, acho que Eedward tem medo de que Paul possa machucar a mim.

-Talvez ele esteja certo.

-Não. –Rosalie balançou a cabeça. – Paul nunca encostou um dedo em você ou em mim. Max está apenas sendo super-protetor. Afinal, esse é seu trabalho. E é por isso que estou determinada a visitar Esme antes que Edward volte à fazenda. Este é o caso mais longo de que ele já participou, então é a hora perfeita para eu ir a Paris, verificar tudo e voltar antes que ele dê pela minha falta. Não quero preocupa-lo.

-Não a culpo. Mas, pelo que me disse, sua caseira e o marido são fiéis a Edward. Não vão contar sobre sua viagem?

-É por isso que Ida e Jesse não fazem a mínima idéia de onde estou agora.

-Está brincando...

-Não. Não quis dizer nada até vê-la primeiro. Tinha esperança de que pudesse tirar uma folga, e iríamos juntas visitar Esme. Então, telefonaria a Ida e diria que estávamos sentindo tanto a falta uma da outra que decidi ficar com você em Nova York uma semana ou duas. Ela não veria nada de errado nisso, e Edward ficaria satisfeito. Ele se espantava por estarmos já há tanto tempo sem nos ver.

Bella esfregou as têmporas, pressentindo uma dor de cabeça.

-Preferia ir com você. Lamento que meu estado tenha arruinado seus planos.

-Nada está arruinado. Não, se você fingir ser eu por uma ou duas semanas. Jesse e Ida nunca vão descobrir, pois pensam que você é minha irmã mais nova, o que é verdade. Você quase nem terá de vê-los, exceto quando Ida for levar as refeições.

Olhando fixamente a irmã, Bella comentou:

-Está falando sério, não está?

Rosalie assentiu.

-Estou. Esme é importante demais para mim, para nós duas. Tenho de descobrir se ela está bem. Mas é essencial que Edward não saiba o que está acontecendo. Não quero que ele se desconcentre enquanto trabalha no caso. Já é bem perigoso ser guarda-costas de alguém. Se Edward perder a concentração, mesmo por um momento, pode ser morto, junto com a pessoa que está protegendo.

Bella sentiu o amor e o medo pelo marido na voz de Rosalie. Considerando o silêncio perturbador de Esme e a vulnerabilidade de Edward, sucumbiu aos desejos da irmã.

-Que desculpa vou dar a Ida e Jesse para ficar na cama?

-Diga que ficou gripada e que o médico em Rexburg deu instruções para que descansasse.

-E se eles perceberem que não sou você?

-Se eles realmente descobrirem, diga que estávamos apenas brincando. Explique que sempre fazíamos isso, que estou de férias em Nova York. Como você não tinha podido visitar a fazenda até agora, pensamos que essa seria uma boa maneira de você conhece-los e sentir como é a minha vida. Então, desculpe-se por decepciona-los. São pessoas excelentes, vão superar.

Bella não parecia muito certa.

-E se Edward voltar antes de você?

-Não vai. Já disse, ele está numa missão de três meses.

-Mas suponha que ele volte. Ele não vai ficar intrigado com esse segredo? E ele nunca perguntou por que jamais fui visitá-la? Por que quase não nos telefonamos?

-Realmente não.

Intrigada, Bella perguntou por quê.

-Bem, ele sabe sobre seu trabalho, que é muito puxado, e que você quase não pode tirar férias ainda. Como nem imagina que somos gêmeas...

-Ele nunca pediu para ver fotografias?

-Claro que sim, mas eu disse que ficaram todas com Esme. – Rosalie lançou um olhar cândido a Bella, pedindo perdão em silêncio. –Acho que estava com medo de que, se ele a visse, poderia gostar mais de você do que de mim.

Estupefata, Bella se enrijeceu.

-Só pode estar brincando.

-Bem... –Rosalie sorria misteriosa -, não completamente.

-Mas ele se apaixonou por você!

-Vamos ser sinceras, Bella. Algum homem já conseguiu nos diferenciar? Nove vezes em dez, papai e mamãe não conseguiam. Quando conheci Edward, quis que ele me amasse, e só a mim.

Bella entendia. Edward Cullen fizera seu coração disparar quando vira suas fotos pela primeira vez. Numa delas, ele usava roupas de fazendeiro. Em outras, aparecia elegantemente vestido com terno. Com um metro e noventa de altura, era um belo espécime masculino, mais vigoroso do que bonito, com cabelo escuro e um olhar distante que deviam ter chamado a atenção de Rosalie. Os dois pareciam perfeitos juntos.

Bella pensou em Mike. Fisicamente, a diferença entre os dois era enorme, mas pelo menos Mike nunca a intimidara. Percebeu tratar-se de uma observação estranha, já que nunca vira o cunhado pessoalmente, e só lhe falara brevemente em duas ocasiões. Ainda se lembrava da voz grave e distinta.

Tomando fôlego, comentou:

-Lembro-me das longas discussões que costumávamos ter sobre nossos futuros maridos, quando éramos adolescentes. Mas somos adultas agora, e Max a amava o bastante para se casar. Vivem juntos há mais de um ano. Ele vai perceber a diferença, acredite em mim.

-É bom mesmo – retrucou Rosalie. –Acho que até Esme vai concordar que esse negócio de separação já foi muito longe. Não posso esperar para ver as duas pessoas que mais amo nesse mundo se conhecerem.

-Estou ansiosa também. Mas nunca imaginei que seria sob falsas circunstâncias. Rosalie, uma coisa é fingir ser você em sua casa e outra, completamente diferente, passar por você diante de Edward. Não poderia. De várias formas, você e eu não somos parecidas. Não de fato.

-Mas na beleza sim, só você e eu estamos cientes da diferença sutil. Como o fato de que sou a mais velha e que você tem que fazer o que digo –sentenciou Rosalie, superior. – Bella, que mal pode haver? Mesmo que o impossível aconteça e Edward volte mesmo para casa, basta me telefonar em Paris, e eu conto toda a verdade a ele. Quando ele tiver certeza de que estou bem, vai achar engraçado termos trocado de lugar. Pode ver uma maneira mais legal de conhece-lo?

Bella suspirou, e então balançou a cabeça.

-Não. –Sorriu timidamente. –É perfeito. Um tipo de tributo a todas as proezas que fizemos no passado. Esta tem que ser a última.

Nunca perdia o senso de humor quando suas brincadeiras de gêmeas eram o tema. E tinha de admitir que estava satisfeita por Rosalie se sentir assim. A ligação sempre estaria ali, algo que as separava de todos os outros na terra.

Aquela ligação e a recusa de Rosalie em aceitar não como resposta derrubaram suas objeções.

-Ótimo. Então, está combinado. –Rosalie saltou do sofá. –Vá se deitar enquanto faço uma reserva para você.

Bella pôs as mãos nos quadris.

-Não tenho tempo para deitar. Tenho de fazer as malas.

-Não, não precisa. Está tomando meu lugar, lembra-se? Deixei minhas malas no aeroporto. A única coisa que me recuso a dividir com você é a escova de dentes.

Trocaram olhares divertidos.

-Mas meu apartamento... E tenho de conversar com meu chefe e explicar tudo.

-Deixe isso comigo. Marquei um vôo noturno para Paris, e não preciso estar no aeroporto até amanhã às seis da tarde. Tenho muito tempo para acertar seus assuntos. Mal posso esperar para pôr as mãos naquele seu vestido azul de crepe. Não se importa, não é? –perguntou, dando um rápido sorriso. –Daqui em diante, sou Bella Swan, a irmãzinha de Rosalie Cullen.

-Ouça, Rosalie... – Bella começava a ficar nervosa novamente –temos de combinar o que vai dizer se Mike telefonar amanhã. Não estou esperando, mas pode acontecer. Ele deve vir na semana que vem...

-Já estava pensando nisso. Pessoalmente, gostaria de manda-lo para aquele lugar!

-Eu sei.

Sorriram, entendendo-se perfeitamente.

-Mas não seria do meu feitio – admitiu Rosalie – e ele é o pai do seu bebê, o que dá a ele alguns pontos. Vou dizer uma coisa. Vou ser mais sutil e ele nem vai saber o que o atingiu.

-Está esperando que ele ligue! –choramingou Bella.

-Ora, claro que estou. E, seja honesta, você também.

Bella sentiu os olhos marejarem.

-Mesmo sabendo a verdade, não é fácil desligar meus sentimentos.

Rosalie fitou-a por um instante.

-Não, não é – murmurou, parecendo distante. – Então, o que tem na geladeira? Estou morrendo de fome.

Ambas pesavam cinqüenta e cinco quilos, distribuídos por um metro e setenta e cinco de altura. Sempre puderam comer tudo o que tinham vontade sem se preocupar com as medidas.

-Não muita coisa.

-podíamos pedir uma pizza, mas, como você não pode comer sal, não dá.

-Não seja tola. Peça uma. Hoje em dia, fico feliz quando consigo reter uma coca-cola com bolachas. O médico disse que isso deve passar no mês que vem.

-Ele deu algum remédio?

-Sim. Vou tomar hoje à noite.

-Gostaria de estar grávida –confessou Rosalie. –Não só Edward ficaria em êxtase, como eu daria um au revoir à síndrome menstrual.

-E diria bonjour à náusea –grunhiu Bella. Enjoara-se com a sugestão da pizza.

-Pobrezinha... Vá se deitar. Assim que acabar de comer, vou lá dar os detalhes mundanos da minha vida diária, tais como o fato e eu e Edward termos conta em West Yellowstone.

-De que tamanho mesmo é a fazenda?

-Só quatrocentos acres, ou seja, cento e sessenta hectares, mas ele consegue uma boa renda da madeira. Três empregados fazem o corte e cuidam do estábulo; moram em West Yellowstone e recebem ordens de Jesse na maior parte do tempo. Raramente os verá, se os vir. Darei todos os detalhes à noite.

Bella parou junto à porta do quarto.

-Sabe tão bem quanto eu que, assim que eu chegar lá, essa farsa não vai durar nem dois minutos.

-Oh, por favor, maninha. É melhor atriz do que eu. Prometa que não vai desistir até eu voltar! –Rosalie era inflexível.

-Mas nunca vi um cavalo, e você se tornou uma amazona.

-Bem... você está doente demais para cavalgar agora, lembra-se? Está com gripe.

Bella começou a rir.

-Você é impossível.

-Quer dizer, sou mais aventureira. E você já está se sentindo melhor. Estou vendo.

Bella assentiu. Só Rosalie podia erguer seu moral assim. Só Rosalie podia reavivar seu otimismo e sua alegria.

-Diga a verdade agora, Rômulo. Quem se diverte mais que nós?

-Ninguém, Remo.

-Tenha isso em mente, ma chère.

-Eu amo você, Rosalie.

-Também amo você, Bella.

-Nunca deixe nada de mau lhe acontecer – pediram uma à outra, juntas.

Primeiro capítulo postado!

Demorou mais veio.

Eu quero perdir pra que se vocês acharam erros quanto a nomes,me falem pq: primeiro eu estava muito cansada na hora que estava adaptando(semana de prova acabou comigo) e posso ter deixado passar alguma coisa e Tb pq mesmo que a gente leia logo depois de escrever sempre pode passar despercebido.

Comentem e me digam se querem que eu continue postando!