02 – Sentimentos e esquecimento
Seus dedos doíam. Depois de quase três horas consecutivas jogando video-game os dedos de qualquer pessoa estariam doloridos como os de Ben estavam. Sentado na poltrona felpuda verde-musgo de seu quarto, Ben se espreguiçou e com a vista cansada, fechou os olhos com força e se contorceu buscando uma posição confortável. Os músculos de suas costas e barriga lentamente se descontraiam e Ben sentiu relaxar aos poucos, estava praticamente de cabeça para baixo na poltrona, os pés descalços para cima e a cabeça para baixo, a camisa deixava mostrar metade da sua barriga pálida e levemente definida, seus olhos estavam sonolentos e o joystick ainda pendurado entre seus dedos levemente flexionados.
Ultimamente Ben tinha muitos desses momentos, seus pais trabalhavam o dia todo e a três dias atrás Gwen simplesmente decidira viajar com a desculpa de 'precisar de um tempo'. Ben não gostou da idéia. Nunca precisou de um tempo para ele, além do mais, seus únicos amigos nos últimos anos tiveram sido Gwen e Kevin. Então uma onda de calor percorreu seu corpo lentamente. Kevin. Ben não o via desde que Gwen anunciara suas férias surpresa, e eles não chegaram a trocar mais que cinco palavras. Ele se recusava a passar muito tempo pensando nisso, mas era inevitável, Ben sentia falta de Kevin. Onde quer que ele estivesse.
Ben tinha a estranha sensação de estar esquecendo-se de algo, mas não devia ser muito importante. Sua vista escureceu e em poucos segundos estava dormindo profundamente. Tão profundamente que não chegou a ouvir os fortes sons que vinham do andar de baixo. Primeiro uma forte pancada, depois vidro se estilhaçando, passos. Mas nesse momento Ben já sonhava. Longe, em uma rua escura lutando contra DNAliens ao lado de Kevin, seu melhor amigo.
Kevin observava a respiração lenta de Ben esparramado na poltrona de ponta cabeça ainda segurando um joystick prestes a cair no chão. Ele estava com pressa, nervoso, esquecera completamente a promessa que fizera a Ben. Não queria decepcioná-lo, sem a Gwen por perto, Kevin se sentia mais responsável por Ben, devia ser mais atencioso, mas cuidadoso. Claro que esses eram os tipos de pensamentos que Kevin não compartilhava com ninguém. Em um segundo seu nervosismo pareceu perder o sentido, Ben estava aparentemente bem, dormindo despreocupado e com uma fina linha de saliva saindo de sua boca entreaberta, Kevin se sentiu inútil, no segundo seguinte o controle escorregou lentamente da mão de Ben e como se isso houvesse afetado seu estado inconsciente ele agilmente se levantou, os olhos arregalados de surpresa.
- Bom dia Benjy – exclamou Kevin abrindo a porta do guarda-roupa de Ben – preparado para a grande noite?
- Que grande noite? - perguntou ainda um pouco confuso levantando e dirigindo-se ao banheiro – Oh – De repente a memória daquela tarde voltou a memória, o final de semana que Kevin lhe prometera. Como ele poderia ter esquecido? Não teve tempo de descobrir, Ben foi atingido com uma muda de roupa lançada por Kevin.
- Então você esqueceu. Talvez tenha que fazer você lembrar a força – disse olhando para Ben com seu já conhecido sorriso sarcástico.
- Muito engraçado. Vou tomar um banho e me trocar. Você me espera aqui, tente não quebrar nada.
- Opa – disse o moreno jogando-se na cama e procurando o controle remoto – falando nisso, você precisa trocar o vidro da janela da cozinha.
O dono do Omnitrix revirou os olhos, respirou fundo e entrou no banheiro.
Árvores, árvores, asfalto. Era tudo o que podia ser visto desde que deixaram a casa de Ben, a noite vagarosamente aparecia e o som de animais da floresta era nítido.
- Já faz uma hora que estamos no carro e você não me diz onde é esse lugar – Ben quase gritava, estavam a 120 km por hora.
- Tá com medo Tennyson? Acha mesmo que eu faria alguma coisa ruim com você? – seus cabelos negros voavam com o vento, os traços definidos de seu rosto estavam firmes, sua voz era séria, Ben ficou assustado, não queria que Kevin pensasse que não confiava nele.
- Desculpa, eu sei que você não faria nada ruim comigo – disse Ben com os olhos preocupados encarando o moreno.
Um largo sorriso surgiu no rosto de Kevin: - Então Benjy, é melhor você pensar duas vezes – seus olhos negros procuram os de Ben que tinha o susto estampado no rosto, o moreno não se conteve e começou a rir descontroladamente – Calma Tennyson, já estamos próximos.
Então Ben ouviu, batidas eletrônicas saiam do meio das árvores e pequenas luzes coloridas agora se sobressaíam no meio da imensidão verde. Lentamente uma casa de três andares ia surgindo diante dos olhos de Ben, a casa parecia vibrar, a música era hipnótica, as luzes eram tão brilhantes que Ben pensou que teria que correr o risco de ter um ataque epilético. Adolescentes podiam ser vistos em qualquer parte da casa, segurando latas de cerveja, conversando e sorrindo.
- Essa noite Ben, você fará coisas que nem os garotos da sua idade já sonharam em fazer.
Kevin estava certo.
