O início...

Lembranças: parte II

Após uma longe conversa com Carlisle sobre todas as benevolências e malevolências sobre a vida de vampiro, ele me levou até a reserva florestal nos arredores de Illinois.
lembro-me de ter ido ali algumas vezes com meu pai, íamos basicamente pescar e na temporada de ursos, íamos junto com três ou quatro amigos de meu pai para caçarmos ursos.
engraçado que até aquele momento, eu estava enxergando as coisas, todas elas, de forma diferente, tudo parecia mais vivo, mais brilhante, mais nítido.
eu passei a enxergar com clareza, todas as pequenas coisas, eu conseguia ver com perfeição através de distâncias incríveis.
foi quando me dei conta do "poder" que tinha sido me dado, por um momento, cheguei a esquecer a dor em meu estômago.
foi então que perguntei a Carlisle, que andava pela noite e cumprimentava a todos como se fossem velhos amigos.
- Carlisle, eu sinto uma dor profunda em meu estômago, sinto fome, onde podemos nos alimentar?
ele sorriu para mim e disse: - Edward, a esta altura, você é desprovido de órgãos.
você não possui estômago, coração, pulmão, nada disso.
eles estão aí, porém, a fisiologia do seu corpo, funciona sem a necessidade dos mesmos.
mais uma coisa... você não precisa respirar, mas creio ser extremamente desagradável privar-se do olfato, ele pode ser muito útil em certas ocasiões.
as palavras dele me pegaram desprevenido, eu sabia que tinha virado um vampiro, mas não tinha consciência de que não comeria ou beberia, cheguei a pensar se teria que conviver com a dor no que devia ser meu estômago.
ponderei por um momento e cheguei a uma questão: - se não nos alimentamos com comida, o que comemos?
neste exato momento, um turbilhão de perguntas e imagens surgiram em minha cabeça...
"o que faríamos para nos alimentar?"
entenda naquela época, durante a minha infância, meu pai costumava ler alguns contos de John Polidori, depois que cresci, sempre achei que aquilo não passava de mitos e lendas criadas por divertimento daqueles que contam histórias, lembrei-me de um trecho do conto que dizia:
"[...]e eis que os vampiros saíam de seus sepulcros e atacavam os humanos, sugando-lhes o sangue do pescoço e estômago, quando se saciavam, voltavam então as suas criptas...[...]"
neste exato momento pensei: - merda, eu vou ter que viver em baixo da terra e beber sangue de pessoas?
Olhei apreensivo para Carlisle, sua tranqüilidade enquanto caminhava, o mesmo sorriso de lado nos lábios...
será que este mesmo homem, médico, de bonita aparência, bem vestido e educado... habitava uma cripta?
Tentei me focar em outros pensamentos, isso seria no mínimo impossível, eu me recusava a aceitar os meus próprios pensamentos, foi neste momento que tive meu primeiro tormento...
"-olhem ali, é o doutor Cullen e aquele garoto que ele salvou da peste..."
"-uhm... doutor Cullen, sempre magnífico, Deus, me permita ser a esposa... hum, será filho dele, pela beleza deve ser!"
"- nossa, não sabia que ele tinha um filho, tão novo. Nunca o vi com uma mulher, como pode ele ter filhos?"
"- quem será aquele rapaz com o doutorzinho?"
"- merda! Perdi tudo... como voou explicar a minha mulher...?"
"-ali, vamos... é ela que queremos..."
"-hum, porque não ouvi minha mãe? Eu não deveria ter vindo ao hospital visitar o Mark a esta hora..."
sem conseguir pensar direito, me amparei no ombro de Carlisle e murmurei tão baixo que pensei que ele jamais fosse capaz de ouvir, disse-lhe: - alguém vai ser atacado... vai ser... ela... será... eles...
minhas palavras destoavam, minha cabeça parecia a ponto de explodir, eu não conseguia pensar se quer falar e os pensamentos continuavam incessantes em minha mente.
"-agora, é agora... vamos!"
sem ter a menor noção do que isso causaria, comecei a correr na direção do pensamento que me prendeu a atenção...
acabei por deixar Carlisle sem entender absolutamente nada, eu corri tão rápido que nem dei chance a ele de se aproximar ou ao menos vislumbrar o que eu faria...
corri tanto e tão rápido... porém, não me senti cansado, a medida que corria, eu me sentia bem, me sentia melhor, os pensamentos iam diminuindo e ficando distantes, as preocupações e frustrações dos outros tornaram-se apenas lamentos distantes, quando cheguei próximo a rua do hospital, parei na entrada de um beco escuro, no extremo oposto estava uma mulher jovem, aparentando seus 23 ou 24 anos.
andava apressada, vez ou outra olhava para trás o medo era aparente em toda a extensão do seu corpo.
lá atrás, alguns metros atrás dela, três sujeitos, donos dos pensamentos de "agora, vamos, é ela que queremos..." eu me concentrei neles e quando ela se aproximou de mim, e viu meus olhos, seu medo cresceu, isso tornou-se aparente em seu corpo e olhar, eu ouvi seu coração batendo apressado, os três que a seguiam chegaram até nós e me olharam com dúvida, um deles agarrou no braço dela e disse em seguida: -cai fora daqui moleque, antes que você acabe se machucando!"
o outro disse: - hey Mike, não fale com o garotinho assim, ele vai acabar contanto prá mamãezinha que nós chateamos ele!
o terceiro apenas sorriu e balançou a cabeça negativamente. - vamos, temos muito a fazer com esse docinho aqui!
suas mãos tocaram o rosto da mulher e ela gritou, o terror estava estampado em seus olhos, ela começou a implorar...
- por favor, não, não façam isso, eu estou indo para casa, só fui ao hospi...
nesse exato momento, ela recebe uma bofetada e vai ao chão, seu vestido sendo castigado pela terra e pela lama.
em questão se segundos, eu estava muito próximo de todos eles, quanto mais me aproximava, mais meu "estômago" rugia, era como ter um animal dentro de mim, ele rugia e gritava e tudo o que eu conseguia "ver" era a minha própria imagem acabando com eles, estripando-os, arrancando seus membros, alimentando-me da maldade que possuía aqueles corpos...
assim como a visão surgiu, ela desapareceu...
em questão de segundos, ouviu-se gritos e pedidos desesperados de "por favor não" eu apenas rugia e destroçava...
um de cada vez...
enquanto eu me alimentava do sangue daqueles mal-feitores, a mulher estática, completamente imóvel perante o terror que presenciou, começou a soluçar e chorar, eu então larguei o corpo, ao menos o que restava dele, e me aproximei dela, o intuito foi de acalmá-la, dizer que tudo ficaria bem...
mas não foi bem isso que aconteceu.
quando me aproximei dela, o cheiro me atingiu com uma força devastadora, tentei resistir...
juro que tentei, mas em questão de segundos, o corpo dela jazia inerte em meus braços, a comunhão do coração se esvaindo com os batimentos que mais parecia um simples ruflar de tambor.
quando dei por mim, quando minha "consciência" finalmente retornou a mim e vi o que tinha feito, meu desespero tomou proporções gigantescas...
eu desejava sair dali, mas ao mesmo tempo, não tive forças de mover um pé...
foi quando Carlisle me encontrou, ele viu o que aconteceu e para meu alívio, não me perguntou absolutamente nada, ajudou-me a levantar e disse: - vamos para casa meu filho...