Vesti minha camisa nova por cima da que estava usando, sem me importar com nada, e logo depois os outros calouros librianos me chamaram para ficar junto deles, onde começamos a conversar. Em pouco tempo, já sabia o nome de todos, onde moravam, idade, e muitas coisas mais, mas não tinha certeza de que decoraria tudo aquilo de cara. Klaus conversava com uma menina loira de óculos muito sorridente e, quando me viu, ergueu o polegar e fez um breve gesto de aprovação, como se tivesse gostado de descobrir qual o meu signo. Ele e a garota vestiam camisas brancas com o símbolo de Câncer.

Com os grupos agora bem definidos por doze colorações distintas, o pessoal só queria saber de conversar com seus respectivos parceiros, mas o diretor Ofélio tomou a palavra mais uma vez.

— Sei que estão muito ansiosos para se conhecerem, mas terão tempo de sobra para isso logo, logo. Agora, vocês farão um pequeno tour pelos dormitórios e, até à noite, quando conhecerão seus instrutores líderes e receberão as instruções finais, poderão fazer o que bem quiserem.

O homem que nos recebeu na entrada da mansão juntou-se aos outros que trouxeram os uniformes e conduziram todos de volta, clamando pelo silêncio e atenção de todos, principalmente do grupo de camisa laranja, que tagarelavam uns com os outros sem parar.

Assim que saímos, descobri que a construção ao lado era, na verdade, o dormitório de Virgem. Era uma casa de dois andares, mas muito simples, branca e com detalhes em vermelho escuro, com portas e janelas amplas, além de uma discreta chaminé. A partir dali, começamos uma verdadeira excursão por todo o limite da escola, já que os dormitórios ficavam consideravelmente afastados uns dos outros. Atravessamos o bosque, a beira do lago, subimos até o alto da serra e, ao final, estávamos exaustos, mas fora uma jornada interessante. Fomos informados de que os veteranos só chegariam no dia seguinte, então, pudemos conhecer um a um os dormitórios com facilidade.

O dormitório de Áries era uma casa de madeira pintada com cores quentes, bem próxima à entrada da escola. Ficava cercada por uma cerca também de madeira e ainda havia dois outros compartimentos de tamanho médio ao lado da casa principal: uma modesta academia de ginástica e um salão vazio, destinado para qualquer finalidade que possa surgir. Embora simples, parecia ser uma casa espaçosa e confortável e, pelo fato de haverem objetos de uso pessoal pela casa, imaginei que os veteranos da escola costumavam largar suas coisas por lá mesmo enquanto estavam fora, mesmo que isso parecesse estranho.

O dormitório de Touro, perto do bosque, era muito grande e elegante, com vasos de flores vermelhas sobre as janelas. Era como a Casa Grande de uma enorme fazenda, imponente e muito bem cuidada. O interior, repleto de obras de arte, peças de artesanato e retratos de várias pessoas, crianças, adultos e idosos, que imaginei logo serem os parentes dos veteranos.

Entre o bosque e o lago, estava o dormitório duplo de Gêmeos. Dois pavilhões compridos, decorados com elementos naturais, e uma pequena horta. Objetos variados encontrados pelo lugar o tornavam extremamente dinâmico. Sem dúvida, o dormitório onde meninos e meninas teriam mais privacidade já que teriam, além dos quartos, sala, cozinha e banheiros exclusivos. Também havia duas torres metálicas nos telhados.

À beira do lago, o belíssimo dormitório de Câncer se destacava. Uma casa aconchegante e moderna, embora fosse relativamente pequena, mas como as que se vê num típico bairro nobre residencial, sendo a única que possuía campainha e interfone. Por dentro, ambiente arejado em tons claros de branco e azul, piso de mármore e móveis de aparência delicada e acolhedora, além de aparelhos de som e DVD de última geração, e um televisor de plasma de fazer cair o queixo.

Ao oeste do topo da serra, o dormitório de Leão era impossível de não se notar. A fachada do lugar era reluzente (e digo isso literalmente, pois havia um letreiro de neon onde se lia AQUI SÓ ENTRAM FERAS). Fora esse pequeno detalhe, vários holofotes posicionados num pequeno jardim frontal apontavam para o casarão. Entretanto, o mais surpreendente era que toda a parte frontal tinha o formato duma enorme boca de um leão, sendo a sua língua o tapete de entrada. Do lado de dentro, havia ainda mais luzes, uma vez que todos os cômodos tinham lâmpadas enormes, sem falar nos banheiros que eram, de longe, os mais luxuosos de todos os dormitórios.

O meu dormitório, Libra, era o único que parecia um dormitório normal. Uma casa bem larga e luxuosa, não tanto quando a de Câncer, mas, por outro lado, muito maior, com várias portas lado a lado e uma pequena varanda para tomar sol. A maioria dos quartos estava repleta de objetos de arte e retratos e todos os móveis pareciam finos e muito elegantes. Estava localizado entre o bosque e o pé da serra.

O dormitório de Escorpião, que ficava numa área bem afastada, nos fundos do bosque, era uma das coisas mais estranhas que eu já vira. Um casarão retangular enorme, com portas e janelas com grades, parecendo mais um presídio ou uma casa de festas. Após um dos guias se atrapalhar tentando abrir os sete cadeados da estreita porta, entramos rapidamente e vimos uma bagunça tremenda: copos descartáveis e de vidro, garrafas vazias, tocos de cigarro, preservativos e outras coisas mais estavam espalhadas pelos quartos, o que garantiu um olhar de reprovação por parte dos guias, dizendo que comunicariam à direção sobre todas aquelas irregularidades. Eu tenho certeza de que vi algo semelhante a uma arma jogada num canto, mas resolvi ficar quieto.

O dormitório de Sagitário, bem, não era exatamente um dormitório, mas sim um acampamento ao ar livre montado numa pequena clareira no meio do bosque. Os meninos ocupavam o lado esquerdo da clareira e, as meninas, o direito. Logo de cara pensei que isso era uma tremenda injustiça com os caras, pra não dizer coisa pior, mas os sagitarianos que estavam conosco pareceram adorar a ideia. Vários CDs, livros e outros objetos estavam simplesmente jogados pelo chão.

No alto na serra, quase à fronteira leste da área da escola, erguia-se o dormitório de Capricórnio, que mais parecia o minicastelo dum cavaleiro do mal. Toda a construção tinha um aspecto medieval e era cercado por uma imponente muralha de pedras escuras e arame farpado. Duas torres e janelas estreitas e um conjunto de portas duplas de madeira. Foi o único dormitório onde não conseguimos entrar, pois o cadeado tinha uma combinação numérica que só o instrutor sabia e teriam de procurá entanto, eu, particularmente, não me incomodei nem um pouco em não poder entrar ali, mas tive a impressão de que deveria ter a melhor vista de todas.

O dormitório de Aquário era uma coisa impressionante. Era um prédio branco e oval enorme com janelas de vidro, dando uma ideia de como as casas seriam daqui uns trezentos anos, localizado no meio do caminho para o topo da serra. O guia usou um cartão magnético para abrir a porta frontal. Tinha a melhor cozinha de todas, e todos os eletrodomésticos que você pudesse imaginar eram vistos por ali. Os aquarianos do grupo quiseram voar de encontro aos PS3 que jaziam no chão em frente às TVs, mas ninguém podia se instalar nos dormitórios ainda.

Quanto ao dormitório de Peixes...esse era na verdade uma carreta que puxava dois compartimentos gigantes com portas nas laterais e várias janelinhas para assegurar a passagem de ar. O lugar tinha uma atmosfera altamente enjoativa e tocos de vela por todos os cantos. Como era um dormitório "móvel", a cada dia estaria num lugar diferente e topamos com ele por acaso no meio do bosque, depois de passar pelo acampamento sagitariano. Seus banheiros ficavam espalhados por toda a área escolar com o símbolo do signo em azul ou rosa, representando masculino ou feminino, e foi dito a nós que somente piscianos podem usá-los.

Depois que o tour terminou, fomos dispensados até a hora da reunião com os instrutores, mais à noite. Sentei na sombra duma árvore e chamei Klaus, que não estava muito longe.

— Parece que vamos dormir em lugares legais

— É...mas eu ainda preferia os videogames dos aquarianos em vez duma casa cheia de trique-trique — disse ele

— Talvez os veteranos tenham algum — eu disse, me lembrando do imenso televisor do dormitório de Câncer.

— Cara, acho que já vou arrumar minhas coisas por lá. A Renata — e me apontou a garota loira com quem conversava antes — disse que, segundo o irmão dela, que é veterano, eles gostam que os novatos já estejam devidamente instalados assim que chegarem, pra evitar confusão.

— Se é assim, eu também vou, acho que lembro o caminho, hehehe.

E assim, nos despedimos por hora e eu segui junto com alguns novatos de volta ao dormitório de Libra. Estava começando a gostar desse lugar, certo de que seria uma experiência marcante...e como foi.