Discleimer: Inuyasha e Cia. Não me pertencem, mas a história sim.

A bruxa traidora.

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Festival de Bruxas.

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Kagome observava da janela de seu quarto as crianças aprendizes cortando suas abóboras, falando umas com as outras sobre o que queriam que seus familiares fossem, e ansiosas por ganharem seus punhais de cerimonias e suas primeiras vestimentas de iniciantes.

As meninas ganhariam vestidos negros com fitas, como os de Kagome, e os meninos, longas capas negras com capuzes.

Era tradição que toda criança fosse oficialmente iniciada na magia no dia 31 de outubro de seu décimo ano de vida.

Quer dizer, isso se elas fossem crianças nascidas na ilha, em caso de crianças nascida na terra dos homens, devia-se inicia-las logo no primeiro dia 31 de outubro que elas passassem na ilha, não importando a sua idade, pois, segundo o conselho de anciões que redigia a ilha, era preciso inicia-las o mais depressa possível na bruxaria, por terem passado tanto tempo em companhia de humanos.

Kagome chegara à ilha aos dez anos, infelizmente ela chegou três dias após o dia 31 de outubro, e teve de esperar praticamente um ano para ser iniciada, já então com onze anos.

Sentia seu coração palpitar na garanta sempre que via mais iniciantes, prestes a se tornarem verdadeiros bruxos e bruxas, adentrarem a floresta acompanhados de seus familiares e também de seus mestres e mestras, normalmente um de seus pais, ou em caso da falta deles, um parente próximo, (para treinar crianças vindas da terra dos homens os anciões escolhiam alguém que não tivesse filhos para treinar), para escolherem a árvore da qual cortariam o galho para forjar suas varinhas, pois no dia 31 de outubro do décimo ano após a iniciação na magia os iniciantes deixavam para trás suas vestes de iniciantes e ganhavam suas próprias varinhas.

Havia, ao todo, cinco posições hierárquicas entre os bruxos.

A primeira e mais baixa de todas pertencia às crianças ainda não iniciadas na magia, logo acima estavam os aprendizes – que era o caso de Kagome – e então os bruxos.

Muitos se davam por satisfeitos e paravam por aí mesmo, como Soraia até antes de Kagome chegar.

Acima dos bruxos, estavam os "mestres da magia", que eram os bruxos que já haviam ensinado e transferido seus conhecimentos para, pelo menos, um aluno, como era o caso de Soraia e Kagome agora.

O que significava que ao final daqueles dez anos – mas faltavam apenas sete agora! – Kagome seria uma bruxa, e Soraia, uma mestra da magia, não que algum dia alguma das duas tivessem desejado por esses títulos, do contrario Kagome não sonharia tantas vezes com sua terra natal, e Soraia teria tido pelo menos um filho – muitos de seus irmãos faziam isso: tinham filhos apenas para ensinarem seus conhecimentos a eles, e obterem o titulo de "mestre da magia".

Acima dos mestres da magia, estavam somente o conselho dos anciões.

Kagome havia avisado a Inuyasha que especialmente naquele dia ele não saísse da cabana, e nem sequer se aproximasse da janela, pois a floresta estaria muito movimentada, com seus irmãos e irmãs a procura de madeira para suas varinhas.

Kagome tocou a bainha vazia em seu cinto, destinada a sua futura própria varinha, sonhando com o dia em ela não mais estaria vazia, faltam apenas mais sete anos...

Algo deslizou por cima de sua perna, Kagome olhou por cima do ombro para a cobra Celeste, a familiar de sua tutora Soraia, a cobra era enorme com 5,5 da ponta da cauda até a cabeça, ela ergueu-se sobre o próprio abdômen com um pequeno bonequinho de papel retorcendo-se em sua boca.

Kagome sorriu culpada.

_Opa.

A cobra enrodilhou-se ao redor de sua cintura e deslizou por sua costa e por cima de seu ombro para encará-la frente a frente com seus olhos cegos, Kagome sabia que era Soraia ali dentro da pele de cobra.

_Eu já estou indo, não voltarei a fazer, juro. – falou, embora soubesse que Soraia não a ouviria, pois as cobras eram totalmente surdas.

Então a cobra curvou-se e depositou o boneco de papel em seu colo, e foi embora deslizando.

Kagome sabia que já podia ir esperando seu castigo, por ter colocado pequenos bonequinhos animados de papel para fazerem suas tarefas em seu lugar.

_Eu odeio aquela cobra! – reclamou Darwin na janela, Kagome não o havia visto voltar – Ela tenta me devorar todos os dias!

_Bem talvez se você não fosse uma avezinha tão rechonchuda... – comentou estendendo o braço em sua direção.

Darwin pulou para seu braço e bateu as asas furiosamente.

_Não sou rechonchudo!

Ela riu levantando-se e alisando as macias penas azuis de Darwin.

_E Inuyasha? – murmurou – Como ele está?

Irritado, Darwin bateu as asas, Kagome sabia que seu familiar não nutria qualquer simpatia pelo humano desde que ele havia ameaçado Kagome com sua própria lamina em "agradecimento" por ela ter salvado a vida dele.

_Ele está bem, muito bem. – respondeu contrariado – Pelo menos hoje não está andando de um lado para o outro feito uma barata tonta, ao invés disso se escondeu debaixo daquele monte de palha onde dorme e não voltou a se mexer. Espero que tenha morrido!

_Darwin! – gritou horrorizada, jogando o braço para o alto.

Darwin crocitou e voou três vezes em circulo pelo quarto, antes de pousar na estante cheia de velhos pergaminhos e livros sobre magia de Kagome, onde ele havia descaradamente feito seu ninho com alguns dos pergaminhos mais antigos e folhas arrancadas de livros.

_O entregue aos seus irmãos e irmãs! – gritou batendo as asas – Imagine como será linda a celebração de iniciação de seus pequenos irmãozinhos e irmãzinhas com uma fogueira humana ardendo no centro da praça, se fizer isso vão finalmente parar de encará-la como uma párea da sociedade e trata-la como igual, faça o que eu digo, eu só quero o seu bem Kagome! Ninguém vai acreditar nele quando ele disser que já está na Ilha há três semanas!

_Não! – gritou – Quieto Darwin!

Sem paciência ela levou a mão à bolsa de pano presa na parte de trás de seu cinto, e tirou de lá um punhado de sementes, que atirou ao chão, Darwin crocitou feliz ao ver aquilo, abriu as asas e voou para o chão.

_Sementes! – gritou feliz comendo sua recompensa.

Kagome suspirou, às vezes tinha a impressão de que Darwin a levava ao limite da paciência só para ganhar sementes.

_Eu preciso ir, Soraia descobriu que eu coloquei fantoches de papel para fazer as minhas tarefas de novo.

Darwin ergueu seus brilhantes olhos de conta para ela.

_Você nunca aprende não é mesmo?

E voltou a catar suas preciosas sementes pelo chão.

Desde o dia em que jurara à Inuyasha que arranjaria uma maneira de tirá-lo da Ilha das Bruxas já haviam se passado seis dias, e Kagome ainda não tinha feito qualquer progresso, ela não podia ficar brincando com a sorte, precisaria tirá-lo dali o mais rápido possível, não iria se iludir acreditando que seria capaz de escondê-lo para sempre, por mais que lhe doesse pensar em separar-se dele.

Haviam voltado à praia ainda mais duas vezes, e nunca chegavam a ficar por sequer uma hora, pois não podiam se arriscar a serem vistos pela patrulha dos vigilantes olhos da patrulha alada.

A patrulha dos vigilantes alados, ou simplesmente patrulha alada, era composta por 64 de seus irmãos e irmãs, cujos familiares eram aves de rapina, que vigiavam a Ilha através dos olhos de seus familiares, a procura de qualquer irregularidade – como, por exemplo, uma jovem aprendiza de bruxa em companhia de um humano – se Darwin fosse um falcão, ou uma águia, ou um gavião ou até mesmo uma coruja Kagome estaria automaticamente na patrulha dos vigilantes alados depois que ganhasse sua varinha.

Kagome sentia-se aliviado por ele ser apenas uma gralha, não queria caçar humanos.

Talvez os outros estivessem certos, ela não era uma verdadeira bruxa, ela era apenas uma humana comum pavoneando-se de ser bruxa – pois não conseguia odiar aos humanos.

_Aí está você. – Soraia, sua tutora, estalou os lábios quando a viu chegar à sala.

Ela era uma bruxa muito bonita, verdade seja dita, tinha os cabelos negros como as asas de um corvo a ultrapassar os quadris, lábios pintados por uma tintura vermelha, e seios generosos que ficaram bem destacados nas roupas que ela gostava de usar.

Naquele dia, para a comemoração, ela usava um vestido de ombros caídos, com um corte que seguia até seu umbigo entrelaçado por cordões negros, e um cinto feito de uma fileira de crânios em miniatura, a saia longa do vestido era aberta e deixava sua perna esquerda totalmente à mostra, expondo as botas lustrosas, o chapéu típico das bruxas caia-lhe de lado na cabeça, com a ponta dobrada.

_Eu te disse para você organizar e catalogar as poções enquanto eu estava fora e não criar um exército de bonequinhos de papel e coloca-los para fazer seu trabalho. É a história dos bonecos de neve, tudo de novo.

No inverno anterior Soraia havia dado uma pá para a Kagome e lhe dito que tirasse a neve – que só caia na Ilha por obra de magia – da entrada da casa, mas ao invés disso, Kagome construiu três bonecos de neve, deu-lhe vida e entregou uma pá a cada uma deles para que limpassem a neve em seu lugar.

A magia de animação era a favorita de Kagome.

_Eu devia tirar sua voz, e só te devolver depois de ter terminado, para que não pudesse mais trapacear! – ameaçou Soraia – Oh, como odeio crianças, por isso nunca tive filhos! Por que então me deram uma criança para cuidar? Por quê?! O que ainda faz aqui? Vai já fazer o que eu mandei!

_Ah, sim!

Ela virou-se afobada, não queria que Soraia roubasse sua voz, se não como poderia conversar com Inuyasha?

Porém, antes que pudesse sumir das vistas de Soraia, a mesma voltou a chama-la:

_Kagome!

_Sim? – não roube minha voz.

Soraia colocou as mãos sobre o cinto de crânios.

_Eu reparei que uma dúzia de velas desapareceu, tem alguma ideia do que possa ter acontecido a elas?

_Não. – respondeu e saiu correndo para o porão, onde Soraia guardava as poções.

O porão era um cômodo escuro e cavernoso, com prateleiras e mais prateleiras, apinhadas de poções e ingredientes – ervas raízes dissecadas, sementes, caudas, patas, garras, aranhas... – do teto pendiam ganchos com plantas e outras coisas.

Só saiu de lá perto do por do sol quando já era hora de arrumar-se para a cerimônia, encontrou Darwin empoleirado em seu ninho arrumando as penas, assim que a viu ele contou que havia ido ver Inuyasha novamente, e acrescentou que ou ele havia saído da cabana ou morrido sufocado debaixo da palha, mas Kagome não lhe deu atenção, desafivelou o cinto e jogou-o pesadamente em cima a cama, tirou o vestido com fitas nas laterais que usava – o mesmo do dia em que conhecera Inuyasha – pela cabeça, e foi procurar em seu baú pelo vestido que usaria aquela noite.

Kagome tinha quatro vestidos ao todo, três para usar no dia a dia, e um para ocasiões especiais, este último tinha um decote redondo e baixo, e mangas curtas, assim como a saia, que precisava de uma anágua para manter-se cheia, todo negro, exceto pela anágua branca cujas bordas se podia entrever por baixo da saia, e o espartilho, ele era todo prateado com teias de aranha escarlates desenhadas nele, ah Kagome odiava aquele espartilho.

Ele era muito apertado, e Kagome era incapaz de atar os nós em suas costas, e também não sabia nenhuma magia que o fizesse amarrasse sozinho.

_Você deveria ser um macaco. – falou para Darwin enquanto puxava as meias pelos calcanhares – Assim poderia amarrar essa droga de espartilho!

Darwin a olhou com seus olhinhos de conta.

_Se eu fosse um macaco. – ele retrucou – Talvez você não tivesse esse desejo suicida por liberdade de sair voando da ilha, ou essa rebeldia em querer ajudar um humano!

Kagome calçou as pequenas botas marrons, pegou o espartilho, e saiu para pedir ajuda à Soraia, mas antes de fechar a porta pode ouvir Darwin resmungar:

_Talvez fosse melhor mesmo se eu fosse um macaco.

Como sempre Soraia apertou seu espartilho além da conta, o espartilho comprimia seu ventre, cobria parte do decote e apertava-a em demasiada, ele fazia sua cintura parecer duas vezes mais fina, e seus seios, que não eram lá grande coisa quererem saltar.

Kagome arfou quando Soraia deu um forte puxão.

_Você não acha que já está bom?

_De forma alguma! Você ainda está falando sem ofegar!

_Por que tenho de usar essa coisa? – Reclamou.

Soraia voltou a puxar os cordões de seu espartilho, desta vez com tamanha força que Kagome perdeu todo o ar, ela amarrou os cordões e bateu as palmas, satisfeita.

_Para garanti que vai se comportar, para que mais seria? Não quero ter de vigiá-la a noite inteira. – respondeu enquanto Kagome esforçava-se para respirar – Não ande rápido, não corra e não faça qualquer esforço ou vai desmaiar, vá pegar seu pássaro e sua capa e vamos.

A capa de Kagome era negra, toda forrada em cetim escarlate, presa ao seu ombro direto por um broche na forma de uma gralha azul em pleno voo, Darwin voou para seu ombro esquerdo assim que ela acabou de ajeitar a capa.

_O que tem nessa bolsa? – perguntou.

_Que bolsa?

_Essa que você teve o cuidado de esconder debaixo da capa. – e voou puxando sua capa com as garras, para mostrar a pequena bolsa tiracolo marrom que Kagome tentava esconder debaixo da capa.

_Pare com isso. – sibilou afastando-o. – São só algumas coisas para Inuyasha.

_Para Inuyasha! – gritou furioso, voando ao redor de sua cabeça, enquanto ela caminhava com dificuldade – Este humano vai acabar levando-a a morte! Ah vai! Vai sim!

_Darwin cale o bico. – ofegou – Não posso respirar direito... É difícil... Andar e discutir... Ao mesmo tempo... Quando não se pode... Respirar.

_Ei cuidado! – gritou seu familiar, agarrando-a pela capa, quando ela cambaleou na escada e foi dizendo a cada degrau, sem largar de sua capa: – Preste atenção! Não caia! Preste atenção! Preste atenção! Tome cuidado! Não caia! Não caia! Preste atenção! Cuidado! Tenha cuidado!

A cacofonia que era a voz aguda e o bater incessante das asas azuis de Darwin fez com que, ao final da descida um sino badalasse dentro da cabeça de Kagome, como se já não lhe bastasse à falta de ar.

Soraia já a esperava na porta, batendo o pé impaciente, com Celeste apoiada em seus braços dobrados passando ao redor de sua costa como uma estola de cobra, agora tinha os cabelos presos e bem arrumados debaixo de seu chapéu e uma capa prateada e cintilante que parecia tecida de teia de aranha caindo de seus ombros, presa por um broche com a forma de uma cabeça de serpente prateada, a varinha, usava muito raramente por Soraia, estava bem presa no cinto de crânios.

_Até que em fim! – reclamou – Chegaremos atrasadas ao festival! Sabe que uma tutora não deve aparecer à cerimonia de 31 de outubro sem sua pupila e nem vice versa!

A cobra Celeste, compartilhando da impaciência de sua bruxa, sibilou, Darwin grasnou assustado e foi esconde-se debaixo da capa de Kagome e de algum jeito enfiou-se em sua bolsa.

_Me desculpe... – disse arfante.

Soraia girou os olhos.

_Que seja vamos logo.

Kagome concordou, pegou seu cajado e a seguiu para fora de casa.

_Vê se não come todas as sementes. – Resmungou para Darwin que espiava com a cabeça fora de sua bolsa.

Nenhum mestre ou mestra poderia chegar à praça, onde a cerimonia era realizada todos os anos, sem a companhia de seu aluno e o mesmo valia para tutores e seus pupilos, mas eles também não eram exatamente obrigados a permanecerem juntos durante toda a cerimonia, de forma que Soraia a deixou de lado assim que elas chegaram.

Kagome enfiou a mão em sua bolsa e tirou Darwin de lá.

_Elas já foram embora Darwin.

_Até que enfim. – ele bateu as asas sem sair de seu punho – Eu estava sufocando dentro daquela bolsa abafada... – ele lançou um olhar a seu rosto azulado – Ou é a sua falta de ar que já está me deixando tonto.

_Darwin. – arfou – Corte os cordões do meu espartilho... Eu digo que foi um... Acidente.

_Nem pensar! – respondeu a gralha medrosa – Já bastam às vezes que aquela cobra tenta me comer, eu não quero que a bruxa me tente cozinha também! Vá se sentar que é melhor! Sua falta de ar já está me deixando tonto!

Ele bateu as asas e voou para longe, para empoleirar-se no galho de uma árvore junto com outras aves: uma coruja, duas águias, três corvos e uma arara vermelha, certamente que a maioria deles, senão todos eram familiares de bruxas.

Kagome pensou em sentar-se debaixo daquela árvore, mas pensou melhor, não queria que aqueles pássaros deixassem algo cair em sua cabeça, foi sentar-se num banco de madeira, ao lado de uma sorridente lanterna de abóbora.

Aquele espartilho realmente a estava incomodando... Talvez se tentasse se distrair, pensando em outras coisas, se esquecesse de um pouco de sua falta de ar.

Como estaria Inuyasha? Pegou-se pensando, no dia anterior havia deixado água e comida suficiente para que ele pudesse se manter naquele dia e neste também, pois hoje seria impossível que ela fosse vê-lo, mas segundo Darwin ele havia se escondido debaixo da palha e não saído de lá para nada.

Deveria estar faminto com certeza, e com sede... Ela tinha que enviar uma mensagem a ele, avisar-lhe que já era seguro.

Que seus irmãos e irmãs não visitariam mais a floresta, pelo menos por aquele dia.

Mas como faria isso? Darwin certamente se negaria.

Ele já reclamava de ter de ser a "babá" de Inuyasha, com certeza não iria querer se transformar em pombo correio também.

_Tirei a minha varinha de uma árvore antiga, porém muito forte ainda, mamãe me disse que uma árvore como aquela já viu muitas coisas, e certamente me tornarei mais sabia com uma varinha feita dela. – disse alguém próximo a ela.

_Oh que bom. – respondeu outra pessoa – Eu tirei a minha de uma árvore florida, para que a varinha me emprestasse sua beleza, minha avó me disse que os feitiços de sedução são muito mais poderosos com uma varinha dessas. Ei não é aquela garota vinda da terra dos homens, bem ali?

_É sim. – a primeira pessoa deu uma risadinha – Veja como está sozinha. Aquela ali nem que fizesse uma centena de varinhas de árvores floridas poderia se tornar bonita.

_Por quê?

_Você já viu os olhos dela?

_Ah sim, se eu tivesse olhos como aqueles certamente que os manteria o tempo todo fechados também!

_Minha avó disse... – as vozes estavam se afastando – Que ela tem os olhos daquele jeito, para que todos saibam que está manchada. Veio da terra dos homens. O sangue da traidora corre em suas veias.

_Sh. É proibido falar disso!

Kagome abriu os olhos. Sob a luz das tochas e lanternas de abóbora eles não pareciam azul e castanho, mas sim verde e negro.

Entre os homens eles eram vistos como sinal de mau agouro, parecia que com as bruxas não era diferente, embora Kagome soubesse que não era seus olhos o real motivo pelo qual a desprezavam, era sim por causa de sua origem.

Suspirou e voltou a fechar os olhos, relaxando o máximo para respirar o mínimo possível, quando sentiu que alguém a tocava no ombro por cima do tecido de sua capa, e voltou a abrir os olhos.

A sua frente, estava uma senhora encarquilhada com uma ovelha aos seus calcanhares, encolhida debaixo de um capuz de uma túnica amarelo, cuja mão enrugada e manchada agarrava-se ao ombro de Kagome.

_Não fique triste filha. – ela disse – Um dia você será aceita entre eles, basta provar seu valor, como eu fiz.

A velha, também trazida da terra dos homens quando ainda era uma menina assim como Kagome, pertencia ao conselho dos anciões, os sábios que regiam a Ilha das Bruxas, os anciões eram os mais velhos e sábios habitantes de toda Ilha.

Eles eram sete ao todo, três mulheres, três homens, e uma sétima figura misteriosa, que ninguém sabia se era homem ou mulher, pois nunca era vista sem uma máscara animal que reproduzia seu familiar, os habitantes da ilha apenas sabiam quando o sétimo ancião era trocado quando a máscara mudava, pois os familiares dos anciões tinham a vida tão ligada à deles que apenas morriam junto com o próprio ancião, o que de certa forma deixava-os vulneráveis, porque se seus familiares morressem eles morriam também.

Eles governavam a Ilha, e regiam as cerimonias, como funerais, casamentos, iniciações... Ou fogueiras humanas.

Kagome estremeceu, e olhou nos olhos da velha anciã.

Ambos eram negros, e não desiguais como os de Kagome, talvez só as traidoras tivessem olhos como os dela, quem sabe não era verdade que Kagome estava mesmo manchada, e o sangue da traidora realmente corria forte em suas veias?

_Provarei o meu valor. – prometeu. Mas não será entregando um humano à justiça de meus irmãos como a senhora fez.

A história da senhora bruxa Eleonor era bem conhecida, setenta anos antes quando ela não tinha mais do que vinte e dois anos de idade, ela fora até a praia buscar materiais para um feitiço qualquer que estava aprendendo, pois ainda era somente uma aprendiza com três anos pela frente antes de tornar-se uma verdadeira bruxa, e encontrara um homem semimorto na praia com uma criança nos braços.

Ela voltou correndo a vila e contou a todos o que havia encontrado, mas quando retornaram o homem já havia falecido morto pela exaustão, pois havia gastado todas as suas forçar para salvar a criança.

Uma garotinha de não mais de sete anos, cabelos dourados e olhos azuis.

Foi a própria Eleonor quem acendeu a fogueira que consumiu a criança aos gritos, naquela mesma noite, provando assim o seu valor.

Não queimarei Inuyasha. – pensou com ferocidade – Terão de me matar primeiro!

A velha Eleonor sorriu encorajadora.

_É claro que vai filha, eu sei que vai. – era de conhecimento geral que Eleonor apoiava e incentivava todos aqueles vindos da terra dos homens, sempre querendo provar que eles podiam ser tão bons quanto qualquer outro "puro sangue" da Ilha – Agora, se me dá licença, a cerimonia deve ser iniciada.

Kagome sorriu fracamente e concordou a senhora voltou a sorri-lhe e deu-lhe um ultimo e amigável aperto no ombro antes de se afastar com sua ovelha. O que diria Eleonor se soubesse do homem que Kagome escondia na floresta? Provavelmente a amarraria lá dentro junto com Inuyasha e botaria fogo em tudo.

_Eu quero que meu familiar seja um pássaro, para que eu possa fazer parte da patrulha alada depois. – dizia um menino pra um trio de meninas ali perto. – Uma águia talvez, uma águia seria bem legal.

A cerimonia iniciou-se só quase meia hora depois.

Os sete anciões reuniram-se em um pequeno palco no centro da praça e o sétimo ancião que usava uma máscara de javali com maciças e brilhantes presas metálicas – Kagome podia apostar que ele, ou ela, polia aquelas presas todos os dias – ergueu os braços finos, cobertos pelas mangas da túnica violeta mostrando as mãos pálidas e ossudas para silenciar a multidão, havia um imenso javali ao seu lado, tão grande que Kagome poderia montá-lo, que grunhiu diante o silencio da multidão espantando alguns pássaros de suas árvores.

Os outros anciões – vermelho, laranja, amarelo, verde azul e cinza – começaram a falar em juntamente, os homens na forma masculina, e as mulheres na forma feminina, suas vozes ecoaram pela silenciosa multidão:

_Esta é uma noite mística, onde tudo se transforma, ergam-se jovens noviças/noviços tirem seus/suas vestidos/capas de aprendizas/aprendizes e empunhem suas varinhas e tornem-se verdadeiras/verdadeiros bruxas/bruxos.

Por toda a praça jovens rapazes baixaram seus capuzes e deixaram as capas caírem aos seus pés, enquanto as garotas arrancavam seus vestidos por cima das cabeças, algumas os atiraram aos ares, permanecendo apenas com pequenos tops e shorts que usavam por baixo – Kagome não sabia se seria capaz de fazer o mesmo quando fosse a sua vez, dali a sete anos – e logo em seguida recebiam de seus mestres e mestras na magia as varinhas que haviam cortado naquele dia.

Os anciões continuaram:

_Crianças que hoje se tornam adultos. Tudo se modifica. Hoje recebem suas varinhas, amanhã estarão entregando as varinhas de suas/seus filhas/filhos, e alguns de vocês para suas/seus pupilas/pupilos. – Ninguém queria ter um pupilo, Kagome sabia disso, porque só as crianças da terra dos humanos eram pupilos – Hoje jovens bruxas/bruxos amanhã mestras/mestres da magia, e talvez um dia sábias/sábios anciãs/anciões.

O javali do sétimo ancião grunhiu mais uma vez, e raspou o casco no palco de madeira, e Kagome ouviu azas batendo próximo ao seu ouvido, Darwin pousava na abóbora ao seu lado.

_Consegue se imaginar como uma sabia anciã, tendo de falar essa mesma baboseira todo ano? – ele perguntou.

Kagome balançou a cabeça, mas não por causa dos longos discursos enfadonhos dos sete anciões que teria de recitar caso fosse uma deles, e sim porque os anciões eram aqueles que na maioria das vezes ascendiam às fogueiras humanas. Ela não seria capaz de tal atrocidade.

_ Esta é uma noite mística, onde tudo se transforma, pequenas crianças coloquem seus/suas vestidos/capas e abracem a magia, pois hoje se tornam aprendizas/aprendizes. – recitaram os sábios anciões arrumando-se em um semicírculo.

O sétimo ancião tirou algo da manga e atirou no palco, fazendo uma explosão de chamas romperem do nada no centro do semicírculo que os anciões haviam formado, o coelho malhado do ancião vermelho assustou-se e escondeu-se debaixo de sua túnica, a raposa da anciã laranja correu assustada para trás de seus calcanhares, a ovelha da anciã amarela baliu e recuou alguns passos, a cacatua do ancião verde gritou e voou para o alto afastando-se das chamas e unindo-se ao albatroz da anciã cinza, o mico leão dourado do ancião azul gritou histericamente e escondeu-se debaixo do capuz de sua túnica.

Somente o javali do ancião violeta – o sétimo ancião – permaneceu firme em seu lugar, grunhindo e raspando o casco na madeira do palco.

O sétimo ancião ergueu suas mãos, e os outros seis o imitaram, juntos os seis anciões recitaram:

_O fogo mostrará a vocês jovens aprendizas/aprendizes os seus familiares! Seus familiares os ajudarão e os guiarão em sua longa jornada de vida, eles serão parte de vocês e morreram com vocês...

_Mas vocês não morreram conosco. – resmungou Darwin ao seu lado logo antes de perceber que ela estava se levantando – Ei aonde vai?!

Kagome apoiou-se em seu cajado e respondeu:

_Pra que vou ficar? Eu não estou me iniciando ou me formando hoje. Nem sei por que vim.

_Porque é obrigatório. Por isso você veio! – Darwin a lembrou, voando para acompanha-la.

_Mas não é obrigatório que eu fique. – ela replicou – Já sei o que vai acontecer: animais de fogo vão sair das chamas e mostrar aos novos aprendizes quais devem ser suas escolhas para seus familiares, alguns ficarão felizes, outros zangados e o resto vão simplesmente se conformar.

_Não tente me enrolar, você só esta arranjando desculpas para sair daqui e ir se encontrar com Inuyasha! – Darwin bateu as azas próximo de se rosto – Ei! Quando descobriu que seu familiar seria uma gralha azul você ficou o que?

_Isso não vem ao caso. – e apoiando-se um pouco mais no cajado ela afastou-se arfante.

Zangada, tinha estado muito zangada no dia de sua iniciação, e triste também.

Pois no fundo ela ainda tinha esperanças de que tudo não passará de um mal entendido e que a devolveriam a sua família quando todos descobrisse que ela era completamente humana – uma esperança infantil, pois mesmo que isso fosse verdade, por mais impossível que fosse, ela jamais seria devolvida a família, se ela fosse humana seria queimada viva – e ter um familiar havia tirado sua última esperança, a prova final e concreta de que sim ela era uma bruxa.

Então ela havia estado muito zangada quando descobrira que seu familiar seria uma gralha azul, mas não pelo animal em si, e sim por ele simplesmente existir.

Atrás dos dois, em seu palco com as mãos erguidas os anciões entoaram:

_Sob a lua cheia desta noite mística, iluminem-se agora com a sabedoria do fogo, e vejam em suas chamas aqueles que devem guia-los!

Animais azuis, amarelos, laranjas e vermelhos, feitos de um fogo que não queimava rugiram, e criaram vida, saindo correndo da fogueira e costurando pela multidão que se aglomerava ali, procurando pelas crianças iniciadas, e quando encontravam aquela que procuravam pulavam em seus peitos e fundiam-se a eles, criando ao redor das mesmas uma aura de fogo com a forma do animal.

Eram raposas, cachorros, gatos, pássaros, cavalos, lobos, cobras, coelhos, javalis, macacos... Um menino gritou furioso na multidão quando seu animal de fogo o encontrou e foi envolvido pela aura do mesmo.

_Não! – ele sibilou sacudindo os braços como se o fogo que o cercava o consumisse – Eu queria uma águia! Uma águia! Não um pinguim tropical! Pinguins não voam, nunca farei parte da patrulha alada com um pinguim! Eu queria uma águia! Uma águia!

E em meio a tantos animais de fogo, ninguém percebeu uma gralha azul de carne ossos e penas, seguindo a sua pequena e arfante bruxa para longe da praça.

Quando chegou a cabana onde escondia Inuyasha, já tonta e meio inconsciente, encontrou-a escura e silenciosa, como se não houvesse ninguém lá, sem conseguir mais apoiar-se no cajado ela caiu de joelhos, aquele espartilho estava matando-a!

_Inuyasha! – arfou – Oh, por favor, Inuyasha, onde você está?

O cajado caiu no chão, e ela apoiou-se nas mãos respirando pesadamente.

Darwin pousou esgotado na janela, também atingido pela falta de ar de Kagome.

Ao som familiar da voz de Kagome e de seu corvo irritante, Inuyasha moveu-se e sentou-se, espalhando a palha ao seu redor, tinha a garganta seca de sede, e o estomago doído de fome, não comera nem bebera nada durante o dia inteiro.

Na verdade ele se sentia meio morto, inclusive naquele momento saindo do monte de palha, parecia um morto vivo escapando de sua tumba.

Havia estado escondido sob a palha o dia inteiro, com medo que o encontrassem, desde que chegará ali nunca ouvira a floresta tão movimentada ao redor de sua cabana, era vozes e machados, e animais dos mais diversos, por todos os lados, algumas vozes inclusive haviam estado próximas demais.

Mas quando viu Kagome, caída no chão, esqueceu-se de tudo isso e o mais depressa possível foi tropeçando em sua direção.

_Kagome! – chamou pegando-a pelos ombros, seu rosto estava ficando azul – Kagome, o que foi? O que você tem? Diga!

_Não consigo... – ela tentou responder – Não consigo respirar... O espartilho esta... Muito apertado. Ar! – implorou – Ar!

_O espartilho, certo, eu vou tirá-lo! – respondeu agitado.

Ele arrancou a capa de seus ombros, fazendo o broche de gralha soltar-se de sua roupa e sair voando para o chão, e moveu-se rapidamente em direção as suas costas, não demoraria a livrá-la daquele espartilho para que ela pudesse respirar, pois já tinha certa experiência em desatar nós de espartilhos, mas Kagome segurou-lhe o pulso.

_Não – ela murmurou deslizando seu punhal de cerimonias para fora da bolsa e o apertando contra a palma de Inuyasha – Corte... Rápido. Por favor... Rápido.

O som suave de seda rasgando preencheu o ar, e Kagome finalmente foi capaz respirar.

Ela caiu exausta no chão.

_Sempre odiei esse espartilho. – comentou com um sorriso débil.

Darwin bateu as asas, enchendo seus pulmões de ar, e quando o soltou, desatou a brigar furiosamente com Kagome:

_Você esta maluca?! Nós quase morremos asfixiados, você e eu! Este humano vai acabar nos matando eu digo, direta ou indiretamente, não importa de qualquer forma vai ser culpa dele!

Inuyasha olhou a ave inexpressivamente, e perguntou enquanto ajudava Kagome a se levantar:

_Seu pássaro pirou de vez?

_Não, ele só está zangado comigo. – ela pegou o espartilho do chão e fez uma careta – Me pergunto que outro método disciplinar Soraia usará agora.

_Método disciplinar? – repetiu sem entender.

_O espartilho é encantado, quanto mais eu caminhar, correr, ou fizer qualquer esforço físico, mais ele vai me sufocar, pode até me matar asfixiada, Soraia o coloca em mim, em ocasiões como esta para garantir que eu não vá me afastar da vila durante as cerimonias.

_Parece que não deu muito certo. – ele brincou.

_Eu precisava ver você. – justificou corando, e desviou o olhar enquanto mexia em sua bolsa para mostrar as coisas que havia furtado da cozinha de Soraia dessa vez – Muito me admira que ela não me obrigue a usar isso diariamente, já que eu fujo da vila todos os dias.

Inuyasha sorriu.

_Então você foge de casa todos os dias? Por isso você aparece aqui todos os dias, mesmo tendo dito ser proibido sair da vila sem acompanhamento.

_É. – confirmou tirando um embrulho da bolsa – Mas não é tão difícil de fugir, quando ninguém se importa com v... Inuyasha!

Gritou quando de repente ele perdeu os sentidos.

Novamente Inuyasha sonhou que alguém o alimentava, enquanto uma canção era entoada em seus ouvidos numa língua antiga e morta.

Suas pálpebras tremeram quando ele sentiu que alguém limpava o canto de sua boca, e abriu fracamente os olhos, tinha a cabeça deitada no colo de Kagome, enquanto ela lhe alimentava com um ensopado de carne tirado de uma tigela e cantava para ele.

Sorriu, e engoliu a ultima colherada que ela colocara em sua boca.

_Não foi um sonho. – murmurou fazendo-a perceber que ele já não estava mais dormindo.

Kagome sorriu, parando de cantar e deixando a tigela de lado.

_Que bom que já está melhor Inuyasha. Fiquei preocupada... Mas você passou o dia todo sem comer ou beber qualquer coisa, só podia passar mal mesmo. O que não foi um sonho?

_A canção. – ele sentou-se e pegou a tigela, para começar a comer sozinho o ensopado com o qual ela o alimentava. Não se importou em perguntar o que tinha ali, ou em vê-la comendo primeiro, pois já confiava em Kagome. – Antes de acordar nessa cabana pela primeira vez, sonhei que alguém estava cantando. Mas não foi um sonho.

_Não.

Kagome baixou o olhar, desejando que ele não se lembrasse do resto, mas foi em vão.

_Me lembro de que você me beijou também, e deitou-se comigo sem roupas. – um sorriso maldoso passou pelo rosto de Inuyasha – Não tem vergonha de se aproveitar de um homem indefeso, assim desse jeito Kagome?

Rapidamente o rosto de Kagome tornou-se vermelho escuro.

Darwin, que estava empoleirado na bolsa de Kagome pendurada em um gancho na parede, resmungou algo mal-humorado.

_Eu não... Não estava me aproveitando. – Kagome tinha os olhos fixos no chão – Havia água em seus pulmões, não podia respirar eu precisei soprar ar em seus pulmões, e você estava com frio, tinha de aquecê-lo, ou então morreria... Eu...

_Me aquecer tirando minhas roupas? – provocou.

O rosto de Kagome ficou um pouco mais vermelho.

_A melhor forma de se aquecer uma pessoa é transferido o calor humano do corpo de outra pessoa para ela, e para isso eu precisava, eu...

Era divertido constrange-la, mas ele já a havia feito sofrer demais, e decidiu que já estava bom... Por enquanto.

Estendeu a tigela, já vazia, em sua direção.

_Pode me dar um pouco mais, por favor?

Ela assentiu, aliviada pela mudança de assunto, pegou a tigela e levantou-se, o fogo estava aceso, deixando fumaça escapar pelo buraco da fumaça, mas o pequeno caldeirão metálico onde ela cozinhava permanecia ao lado do fogo.

_Eu roubei algumas coisas da cozinha da casa de Soraia para você, uma cenoura pequena, uma batata minúscula e meio repolho, eu ia trazer o repolho inteiro, mas Darwin disse-me que eu já estava abusando da sorte.

E a ave certamente não estava errada, Kagome andava roubando muitas coisas da casa onde era criada, comida, mantas para mantê-lo aquecido, velas para iluminar suas noites, e seis baldes de madeira.

_Kagome. – chamou.

_Sim?

_Como foi que aprendeste aquelas coisas, respiração boca a boca e como aquecer uma pessoa. Suponho que vocês não sejam muito hospitaleiros com náufragos aqui.

_Meu pai era pescador. Ele me ensinou essas coisas. – ela disse – Também peguei um pouco de carne, e fiz um ensopado, também há três pãezinhos, ah, eu trouxe um odre de vinho também se estiver com sede.

Inuyasha sorriu quando ela lhe devolveu a tigela cheia novamente do ensopado de carne que ela havia feito.

_Vinho seria ótimo. – e observou-a levantar e espantar seu corvo azul para pegar a bebida escondida em sua bolsa – O que mais você trouxe ai nessa sua bolsa mágica Kagome?

_Não é bolsa mágica nenhuma. – respondeu puxando o odre de vinho – Eu só trouxe esse odre e alguns alimentos para você, além do meu punhal de cerimonias e sementes para Darwin.

Darwin crocitou e bateu as asas quando ouviu aquilo, e suspirando Kagome tirou junto com o odre de vinho um punhado de sementes, e jogou-as descuidadamente ao chão, para sua ave gulosa.

_Você nunca me trouxe vinho antes. – observou enquanto ela enchia um copo com o vinho.

_Bem... Não. – Kagome lhe entregou o copo de vinho – É que hoje é um dia especial... Eu sei que os humanos não celebram nada hoje, mas pensei...

_O que as bruxas celebram hoje?

Kagome umedeceu os lábios.

_Hoje é à noite em que as crianças se tornam aprendizes, e os aprendizes se tornam verdadeiros bruxos. Gostamos de chamar de dia das bruxas. O Halloween.

Inuyasha concordou.

_Então porque não come comigo?

_O que?

_Hoje é dia das bruxas, no entanto você que é a bruxa aqui, não está comendo.

A expressão de Kagome tornou-se sombria, Inuyasha percebera que ela não gostava de ser chamada de bruxa, talvez porque não lhe agradasse o ódio que os seus iguais nutriam pelos humanos, ou simplesmente porque os outros bruxos e bruxas a desprezavam por ela ter vindo da "terra dos homens", era como o pássaro dela, que não gostava de ser chamado de corvo.

_Não sou bruxa nenhuma. – disse, mas ainda assim levantou-se para se servir – Sou apenas uma jovem aprendiza. Só serei uma bruxa verdadeira daqui a sete anos.

Ela não parecia ansiosa por isso.

Darwin pousou em seu pulso e roubou um pedaço de carne de sua tigela, mas ela não esboçou qualquer reclamação. Inuyasha supôs que fosse porque eles já compartilhavam muitas coisas.

_Não beberei vinho. – anunciou sentando-se ao seu lado para comer.

_Nem eu permitiria. – ele comentou – Você é nova demais.

A mão de Kagome apertou-se em volta da colher.

_Você me toma por uma criança não é?

É claro que sim. Mas preciso ficar lembrando constantemente disso. – pensou tomando um gole de seu vinho. – Você é mais nova que minha irmã caçula.

_Ainda que seja eu a alimentá-lo, trata-lo e esconde-lo desde que chegou aqui. Você ainda me vê como uma criança!

Inuyasha suspirou.

Havia deixado-a irritada, mas sinceramente não sabia como deveria trata-la, ela não gostava de ser tomada por bruxa, apesar de viver na ilha das bruxas e estar sendo treinada para se tornar uma bruxa no futuro, e também não gostava de ser tomada por criança, mesmo que só tivesse vivido quatorze primaveras.

_Como quer que eu a veja então?

Kagome pensou um pouco, tomando duas colheradas de seu ensopado nesse meio tempo.

Por alguma razão queria que ele a visse como uma mulher, independente e autossuficiente, não como uma criança bruxa tola e inconsequente, não sabia por que, mas não gostava de ser enxergada como criança através dos olhos de Inuyasha. Porém ao invés disso o que respondeu foi:

_Quero que me veja como Kagome. Apenas Kagome.

Era uma resposta vaga.

Mas mesmo assim Inuyasha aceitou-a.

_Muito bem, apenas Kagome, por acaso não gostaria de me acompanhar em uma taça de vinho?

Ela olhou-o surpresa.

_Mas eu...!

_É nova demais? – provocou, apenas porque era divertido.

Um fogo obstinado queimou no olho azul da menina, e o castanho brilhou determinado quando ela ergueu o queixo, marcado pela tênue cicatriz.

_Muito bem. – disse – Eu beberei então. Mas não temos taças aqui. Um copo terá de servir.

E quando estendeu a mão, Darwin, que já havia terminado suas sementes, depositou um copo ali.

_Beba somente um copo. – avisou cuidadosamente – Não quero que chegue bêbada a sua casa, e sua tutora comece a fazer perguntas sobre como e onde você se embriagou, e chegue a esta cabana.

Kagome concordou.

_Você tem razão.

_Tome cuidado com esse ai. – Darwin resmungou em seu ouvido – Ele pode estar querendo embriaga-la para se aproveitar de você.

_Que bobagem, Darwin, ele mesmo me disse para tomar somente um copo, e além do mais ele ainda me vê apenas como uma criança.

_Um homem e uma mulher bêbada sozinhos numa cabana. Desculpe-me se isso não inspira qualquer confiança. – Darwin voou de seu ombro e pousou no chão em frente a eles, com os olhos fixos em Inuyasha – Vou ficar de olho nesse aí.

Inuyasha, que não havia entendido absolutamente nenhuma das palavras da ave, mexeu-se desconfortavelmente.

_O que é que ele disse? Por que está me olhando assim como se quisesse arrancar meus olhos?

_Quem diria, o homem pode ler pensamentos! – debochou Darwin – Talvez aja um pouco de magia em seu sangue afinal!

_Não ligue para Darwin. – Kagome lhe disse, enquanto colocava vinho em seu próprio copo.

_Ei! – protestou a gralha azul – Você não disse que seria um copo assim tão cheio!

Kagome o ignorou e tomou cuidadosamente o primeiro gole enquanto Inuyasha a observava.

_Eu sempre tive uma curiosidade a respeito dessa ilha. – contou.

_Qual?

_Como é que conhecemos sua existência e as coisas que acontecem aqui?

_O que?

_Alguns humanos chegam aqui.

_Uma vez ou outra. Sim. – ela confirmou.

_Mas são todos mortos.

_Na fogueira. – acrescentou.

Inuyasha estremeceu. Certo ele não precisava saber de todos os detalhes.

Mas ainda assim continuou, para chegar ao ponto em que queria:

_Então como sabemos o que acontece aqui, se ninguém sobrevive para contar a história?

Kagome baixou os olhos desiguais para sua tigela, e tomou mais uma colherada do ensopado.

_É proibido falar disso.

_E também é proibido sair da vila durante a noite, ou desacompanhada, e dar guarita a humanos, além de roubar coisas de sua tutora. Um delito a mais um delito a menos, que diferença faz? Conte logo a história de uma vez!

Darwin roubou um pedaço de cenoura de sua tigela, e voou para o canto da cabana com seu prêmio.

Kagome suspirou. Ele tinha toda razão.

_Muito bem eu conto. – tomou mais um gole de vinho para que lhe emprestasse um pouco de coragem – É por causa da traidora.

_A traidora?

_A bruxa traidora. É como a chamam. Alguns dizem que ela viveu depois da Primeira bruxa, décadas ou séculos, não importa, outros dizem que ela era uma das irmãs da Primeira bruxa. E os anciões tentam nos convencer de que ela nunca existiu. Mas nós sabemos que é mentira, um dia, em alguma época essa bruxa realmente existiu.

"Certo dia a Bruxa Traidora andava pela praia a procura de conchas do mar, para moê-las e fazer com elas uma tinta branca especial seu familiar era uma gata cinzenta, assim conta a história, quando encontrou na areia um naufrago, um homem vitima da perpetua tormenta, trazido pela maré."

"Pela lei, a Bruxa Traidora deveria entrega-lo as chamas, mas ela não fez isso. Pois não compartilhava do ódio de seus iguais para com os humanos, e ao invés disso ela abrigou o homem no porão de sua casa, pois eis que ela vivia afastada da vila, já que não lhe agradava ver as fogueiras humanas que eram acesas por vezes".

"Ela arriscou-se muito escondendo aquele humano, alguns dizem que ela esteve com ele por semanas outros que foram meses, e ainda alguns insistem que foi por mais de ano, porém todos concordam em uma coisa: a Bruxa Traidora apaixonou-se por aquele humano."

"Aos poucos se foi desconfiando do estranho comportamento que a Bruxa Traidora vinha demonstrando ultimamente, e um de seus irmãos, que segundo alguns contam, era apaixonado pela Bruxa Traidora, enviou seu familiar para investigar o que se passava na casa dela, seu familiar era um grande rato branco, assim contam as histórias, através dos olhos de seu familiar ele viu o interior da casa da Bruxa Traidora, e encontrou em seu porão um homem humano, mas a gata cinza que compartilhava o elo de familiar com a Bruxa Traidora matou ao rato espião".

"O bruxo gritou a dor de seu familiar e contou a todas sobre a traição daquela que amava, liderando assim a perseguição a Traidora, encurralada e ciente de sua morte certa, a Bruxa traidora, em um ultimo ato de amor, libertou o humano e mando-o de volta a terra dos homens."

"Contam alguns que a Bruxa Traidora conseguiu escapar com seu humano, e que hoje as crianças nascidas bruxas na terra dos homens são descendentes dessa bruxa, porém outros dizem que ela não pôde escapar, mas todos concordam em uma coisa: este humano que escapou, contou aos humanos as terríveis atrocidades que se passavam na Ilha das Bruxas, com o passar dos séculos o homem foi esquecido, mas não as suas histórias".

"A Bruxa Traidora, teve seu nome proibido de ser pronunciado em voz alta, até que caísse no mais completo esquecimento, e fosse conhecida por todos somente como a Bruxa Traidora, e sua história não passasse de uma confusão de relados dos quais não se sabe quais são verdadeiros e quais são apenas mitos."

Kagome encarou se copo já vazio.

_É certo que o homem escapou, mas não se sabe ao certo qual foi o destino da Bruxa... Muitos acreditam que ela também escapou, e que por isso o sangue da traidora corre nas veias de todos que vem das terras dos homens... Ouvir dizer também que ela tinha olhos desiguais como os meus. Porém creio que isso são apenas boatos que inventaram depois que eu cheguei à ilha.

Inuyasha colocou a mão em suas costas.

_Kagome...

Ela era tão bonita, ainda que não passasse de uma criança, Inuyasha queria beijá-la, um beijo rápido, talvez ela nem notasse, embora ele soubesse que o real perigo em beijá-la não estava nela, e sim naquele corvo infernal dela.

_Talvez somente as traidoras tenham olhos como os meus. – ela olhou-o sorrindo.

Tinha bebido somente um copo de vinho, mas isto já fora o bastante para deixar suas bochechas coradas e os olhos – tanto o olho azul quanto o castanho – brilhando de forma ébria.

O próprio Inuyasha, já acostumado com vinhos, estava se sentindo meio zonzo, e ele não tinha bebido mais de... O que? Dois ou três copos?

Não importava de qualquer forma ele precisava admitir que estivesse um pouco bêbado, aquele vinho das bruxas era mais forte que qualquer outro que ele já tinha bebido antes... Estava bêbado ao ponto de começar a esquecer-se de que deveria ver Kagome apenas como uma criança.

Afinal, não fora ela mesma que lhe pedira que não a visse mais como criança?

_Kagome... – sussurrou inclinando-se para beijá-la.

*.*.*.*

Bem me disseram que levarão Percy para o concerto ainda essa semana, mas tentarão trazê-lo no mesmo dia, infelizmente, como eu temia, com todos os arquivos apagados, de forma que tentarei postar máximo possível de capítulos antes disso. U.U

E é isso, por hoje é só pessoal, então até, se possível, amanhã!

Review's ou travessuras?

Respostas as review's:

Guest: Confesso que também me divirto escrevendo Ela é o cara. ^^

Ah isso é porque eu sou fascinada por olhos com heterocromia, e sempre quis ter olhos assim, visto que isso não é possível decidi criar um personagem assim, e que personagem melhor que uma pequena bruxinha? :D

Geniahny: Também é divertido escrever Ela é o cara, acredite. ;)

KKK assim me deixa encabulada.

SailorSodero: Tornou-se um hábito meu, todo ano tenho de postar uma história de Halloween!