Chapter 2

"Quem é aquela garota?" a pergunta de Willow pairou no ar, interrompendo Xander.. O que ela sentia era algo tão forte que perdeu o fôlego por alguns segundos, estava difícil de respirar, como se seus pulmões não conseguissem absorver oxigênio. O rapaz ao seu lado percebeu que a menina não estava bem e, preocupado, se colocou ao lado dela, a mão forte sobre o ombro da garota. "Will? Willow, vc está bem?" Ofegante, a ruiva mantinha os olhos fixos na outra garota, que, ao lado da mulher asiática, atravessava o pátio sem nem saber o que acontecia com ela.

Willow puxou bem o ar, respirando fundo... Os olhos fechados, numa tentativa de se acalmar, como Giles tinha ensinado a ela durante o verão, a ajudou a se sentir melhor, a se tranqüilizar... Embora não entendesse pq a visão de uma aluna nova a fizera reagir assim, algo dizia que não era para se preocupar, embora sua mente racional gritasse o contrario.. Eles viviam sobre a HellMouth, qualquer perturbação na força era algo digno de nota... e se aquela garota causava isso, cabia a Willow entender por que...

Buffy não estava ali... Ao que parecia, Xander não tinha sentido nada como ela. Então, cabia a Willow cuidar desse assunto, entender pq disso ter acontecido. "Está tudo bem, Xan.." ela tocou a mão do amigo, tentando tirar a expressão de preocupação do rosto dele.

Alexander Harris era seu amigo desde o jardim de infância, quando ela quebrou um crayon amarelo e ficou com medo de contar a professora. Sempre fora corajoso, a defendia de tudo e de todos e como eram filhos únicos, não fora difícil deles forjaram um laço forte. Eram sempre eles e Jesse... embora Willow soubesse que sua ligação com Xander era muito maior do que com o outro amigo falecido Por muito tempo, Willow fora completamente apaixonada por ele. Por anos a fio ela passou ao lado dele, o ouvindo falar sobre garotas, garotas e mais garotas... E Xander nunca tinha percebido os sentimentos dela... e depois que Buffy chegara à cidade, Willow continuava sendo a melhor amiga, um ser disforme e assexuado, enquanto a Slayer era o alvo das atenções do rapaz.. Podia culpá-lo? Claro que não.. Buffy era bonita, esperta, recém chegada de uma cidade grande.. Buffy era interessante, novidade. E Willow? Ela era a amiga, entediante.

Agora, olhando os grandes olhos castanhos do rapaz, cheios de preocupação. Depois de chorar inúmeras vezes no ombro de Buffy, ela conseguiu superar essa paixão, voltando a ver Xander apenas como o irmão que nunca teve. Mais uma coisa que Buffy a ajudara... e como sentia falta dela...

Levantou-se com cuidado, não queria deixar Xander mais preocupado e ela estava bem agora, só tinha sido algo inexplicável, pensaria nisso depois. Willow sorriu para ele, tocando o braço do rapaz com carinho. O sinal havia acabado de tocar e eles teriam aulas agora até o almoço. Marcaram de se encontrar ali depois, ir até a biblioteca para ver Giles e resolver o plano de ações de mais tarde.. Se o mal não descansava, eles também não dariam trégua. Viu Xander se afastar devagar, indo na direção do prédio onde ficavam as oficinas, teria aula de carpintaria agora, uma das poucas coisas que ele gostava na escola. Willow sabia que Xander gostava de trabalhar com as mãos, embora ele nunca admitisse em voz alta isso.. e a oficina era um bom lugar para se fazer estacas e cruzes sem levantar muitas suspeitas.

Enquanto ela mesma se encaminhava para o prédio onde ficava sua sala de aula, ficou pensando no que havia acontecido. Não tinha sido algo completamente ruim, só.. diferente... Pensou por um segundo na aluna loira que atravessara o pátio com uma expressão tranqüila.

Como teria acesso ao computador da biblioteca depois do almoço, ia aproveitar e pesquisar sobre a garota. Agora, o que mais a preocupava era não se atrasar no primeiro dia de aula.

****

Lee ajudara Tara em atravessar o pátio, explicando sobre as aulas que teria e a função da asiática ali.. Como só estudara em escolas especiais, Tara desconhecia a mecânica de uma escola normal. A garota sabia que era necessário e que levaria um tempo para se acostumar com aquilo tudo. Lee tinha uma voz serena e parecia empenhada na nova função, que era de ajudar Tara com qualquer dificuldade que a menina tivesse, ou que os professores encontrassem ao ter uma aluna como ela. Pelo histórico da garota, ela era uma boa aluna, especialmente em Inglês e Literatura. Tinha certa dificuldade com Matemática, o que já era esperado, mas usava bem o ábaco. Como já tinha aprendido o básico para fazer os SATs caso quisesse ir para a faculdade, agora ela tinha que cumprir com poucos pré requisitos para se graduar na escola e pelas aulas em que se matriculara, levando em conta também as que já cursara na outra escola, Lee não tinha dúvida que Tara se sairia bem.

Os professores com quem Tara teria aula pelo resto do semestre já estavam cientes da aluna nova que teriam.. Não era muito comum terem transferências no ultimo ano, mas numa cidade como Sunnydale, podiam esperar tudo. Lee devia confessar que estava um pouco apreensiva. Como Tara, era ela nova na escola, também era um ambiente desconhecido para ela. Por sorte, os professores com quem tivera contato nas ultimas semanas, para poder ajudá-los com os materiais para a as aulas, eram pessoas tranqüilas e prestativas, pareciam bem entusiasmados com o desafio que tinham diante deles. A sorte era que Tara era sênior e as matérias que faria nesse ultimo ano não exigiam muitas mudanças. A mulher ficou feliz em trabalhar com uma equipe tão motivada, quando era mais nova, achava os professores muito rígidos e entediantes. Só enfrentara certa resistência com o professor de Informática, contratado para ocupar o lugar da Srta. Calendar. Ele era um homem quieto e não parecia confiar muito nas pessoas. Como o diretor Snyder, que, mesmo sendo diretor de uma escola para adolescentes, parecia odia-los com todas as suas forças.

Fazia sol naquele 1º de setembro. Os alunos estavam espalhados pelo pátio a espera do sinal, os calouros ainda pareciam meio perdidos, enquanto os seniors comentavam sobre as férias, muitos deles não teriam a primeira aula, então estavam no pátio colocando a conversa em dia. Eles nem perceberam as duas passando por eles, ou se perceberam, nem ligaram muito.. a escola estava cheia de caras novas, mais uma, menos uma, não fazia tanta diferença. Com a mão no braço de Lee, Tara caminhava tranqüila, sentindo o calor do sol sobre si, enquanto prestava atenção na mulher ao seu lado, que explicava a localização de alguns dos prédios onde ela estudaria de uma forma fácil e clara. A garota sorria, podia sentir as pessoas a sua volta, elas pareciam tão... felizes... tranqüilas até... Não que achasse estranho, quando chegara a Sunnydale com a mãe, sentiu uma energia pesada e carregada, algo realmente ruim pairava sobre a cidade. Mas ali, no meio de tantos jovens, ela não sentia nada de muito anormal, era quase a mesma energia que sentia das vezes que voltava a escola, na Carolina do Sul. Não era pela volta às aulas, mas pelo reencontro dos amigos, disso ela tinha certeza.. adolescentes eram adolescentes em qualquer lugar do planeta, cegos ou não.

Mas uma das energias chamou sua atenção. Era quente, acolhedora, carinhosa. Um pouco preocupada sim, mas era uma boa sensação. Piscou algumas vezes, se perdendo um pouco das palavras de Lee. O chão sumiu aos seus pés e ela quase tropeçou, sendo aparada pela mulher ao seu lado, que, ao que parecia não tinha percebido nada.

Tara sorriu para ela, sentindo a preocupação. "Eu estou bem, só uma pedra solta" tentou explicar rápido, tinha guardado a bengala qnd saíram do prédio onde ficava a diretoria e pôde perceber que Lee estava se culpando. "Está tudo bem, Ms. Lee, eu já caiu muito por ai" ela tentou fazer uma graça. Fechou os olhos por um segundo, sentindo todas as energias das pessoas que estavam no pátio, e localizou aquela que chamou sua atenção. Algo de dentro dela disparou, como se quisesse entrar em sintonia com algo tão similar a ela mesma.. 'Deve ter outra bruxa aqui...' pensou, fazendo uma nota mental de comentar isso com a mãe mais tarde.

"Pronto, chegamos.. O meu escritório fica no fim do corredor." Lee explicou, qnd entraram no outro prédio. Depois Tara ia procurar o dono da energia que sentia antes e que ainda deixara alguns traços sobre ela... Estava curiosa e intrigada...

****

Willow estava feliz.. depois do pequeno incidente da manhã, ela tinha se reunido a Xander e, a contragosto, a Cordelia, tinham marcado de almoçar juntos e ainda não entendia porque a outra garota ainda andava com eles... Ok, ela sabia sobre a Slayer, sabia sobre as patrulhas, Por Deus, já até a tinham usado como isca de vampiros.. O que não as tornava melhores amigas, muito pelo contrario, para Cordelia, Willow ainda era aquela menininha que conhecera a anos atrás, tímida e inadequada. Mas enfim, as pessoas faziam as coisas mais insanas. Lembrou-se de quando descobriria que ela e Xander andavam pelas salas vazias ou entre as estantes da biblioteca aos beijos, e em como isso a afetara. Agora, ela estava bem, mas ainda doía um pouco. Uma paixão de anos não ia desaparecer por completo em algumas semanas.

Os três conversavam civilizadamente no caminho da biblioteca. Willow tinha pensando em algumas maneiras de fazer a patrulha mais eficiente e queria logo discutir essas idéias com Giles. O Watcher não aprovava muito a idéia deles saírem em patrulha, mas não tinha outra idéia melhor...

"Acho que eu vou mudar meu codinome ara algo mais... másculo como Nighthawk ou algo assim... Cupcake não mete medo nenhum, Cordy..." Xander explicou, o sorriso infantil no rosto, vendo a namorada fechar a expressão. "hey, eu ainda sou seu cupcake, ok? Vc sabe disso..." "Acho que agora todos nós sabemos, Xander..." a ruiva falou, tb sorrindo.. Eles entraram na biblioteca aos risos, que logo desapareceram quando viram Giles.. Ele estava encostado na mesa de pesquisa, diversos livros abertos atrás dele e ele limpava os óculos com uma fúria contida... Ao lado dele, estava Buffy. A Slayer parecia bem, para quem ficou desaparecida por meses...

Sem saber o que dizer, tanto Xander quanto Willow apenas a encararam as palavras fugiam agora. Não sabiam se sentiam raiva, se sentiam alegria, uma mistura de sentimentos contrários queimava dentro deles.

Willow queria gritar com ela.. Queria que Buffy soubesse o quanto ela sofrera com o desdém e o egoísmo da amiga, por tem abandonado a mercê dos vampiros e demônios. Por tê-los abandonado qnd ela mais precisava dos amigos, logo após a perda de Angel. Por ter passado meses sem dar uma noticia sequer, nem para avisá-los que estava bem, que ainda estava viva.

Mas as palavras não vieram.. Para quem era conhecida por ser uma babbling machine, Willow ficou estranhamente calada... Apenas correu e abraçou a outra menina forte, as lagrimas correndo livres de seus olhos. "Nunca mais faça isso de novo, ok?" foi tudo que ela conseguiu dizer.

*****

Com um pouco de dificuldade e depois de se perder algumas vezes, Tara finalmente localizou a biblioteca. Quando chegou à porta, percebeu que teria sido melhor ter se guiado pela energia que emanava do lugar. Embora ela soubesse que não devia depender tanto assim do seu dom, ela não ia recusar a ajuda providencial que tinha da sua capacidade, pelo menos no começo, seria mais fácil se guiar assim que apenas contando passos ou memorizando o caminho.

Assim que entrou, sentiu-se mal.. sentiu suas entranhas se revirarem e a vontade de vomitar subiu pela sua garganta, o almoço que sua mãe fizera com tanto carinho quase viu a luz do dia novamente. Sentia um cheiro fétido vindo do chão e ficou tonta, perdendo a noção do espaço e ficou sem saber onde estava. Estendeu a mão para se apoiar em algum lugar, mas estava difícil de respirar, por mais que puxasse o ar, ele não chegava aos seus pulmões. Fechou os olhos, tentando se acalmar... o lugar era ruim, mas se ela estava no lugar certo, se ali era a biblioteca, teria que aprender a conviver com isso, teria que se controlar em não deixar seus sentidos tão apurados ali. Quando os reabriu, percebeu que havia pessoas ali, e que elas estavam confusas. Talvez tivesse feito um papelão na frente de completos estranhos... Deu um sorriso nervoso, caminhando devagar na direção deles.

"Posso ajudá-la em algo, Tara?" o mesmo sotaque britânico de antes, a mesma energia paternal e gentil. Giles estava ali, não tinha errado enfim. "Mr. Giles... e-eu vim.. p-pegar os meus livros..." Ela falava lentamente, a estúpida gagueira se fazendo presente, devia estar nervosa...

Mas terminou por se acalmar qnd percebeu que entre as pessoas que estavam ali, o dono daquela energia tão cálida e acolhedora de antes... O mal estar de antes quase desapareceu por completo, era fácil identificar quem tinha energia tão doce... Encarou Willow e sorriu. Agora ela estaria segura.

TBC..