Meninos Malvados e onde habitam part II

Os pneus do táxi amarelo rugiram atrás de si, enquanto ele permanecia irredutivelmente paralisado frente á enorme porta metálica a sua frente. O portão, que deveria ter cerca de quinze a dezesseis metros de altitude – um pouco abaixo do muro alto que o cercava – era intimidante o suficiente para atacar a mente hipocondríaca de Sasuke. Naquele momento, o moreno facilmente poderia ter desenvolvido uma crise asmática, embora, até então, nunca tenha tido histórico medico de bronquite. Sua saúde era bastante resistente. Eis uma vantagem em ser Uchiha: alta imunidade, pelo menos isso ele podia dizer orgulhosamente que herdara de seu pai e do mesmo gene que percorria seus imbecis irmãos mais velhos. Fazia frio ali, uma corrente de ar gelado rodeava-o fazendo encolher-se, desejando o abraço quente de sua mãe.

Droga, não queria parecer um bebezão da mamãe, mas era inevitável. Sentia falta da sua mãe, da sua casa, da sua cama...Da sua vida. Respirando fundo, ele espirrou, coçando o nariz, sem desviar os olhos do aço frio. O nome da escola estava escrito no alto do portão, sem cores chamativas, no idioma norueguês, que aliás, ele falava tão fluentemente graças ao degenerado do seu tio barra padrasto. Desde a morte de seu pai, anos antes, Madara se apoderou de tudo, inclusive de sua mãe e, a manipulando, a convenceu sem muito esforço de que seria muito bom para o futuro dos sobrinhos se eles aprendessem a falar mais de oito idiomas simultaneamente. As aulas particulares eram um porre, mas Sasuke tinha uma inteligência acima da média, e, ao contrário dos seus primitivos e desgraçados irmãos mais velhos, o moreno era caprichoso e extremamente perfeccionista. Os outros não: eram desleixados, despreocupados, e talvez por esse motivo tivessem mais facilidade para se destacar em tudo, além disso, tinham a incrível habilidade de entregar seus trabalhos em cima da hora. É, eles costumavam estudar juntos. Na verdade, há dois anos eles foram transferidos para o Lycée.

Que saudades de quando eles não estavam por perto para intimidá-lo. Os olhos ônix descobriram um aparelho que, até então, ele não havia percebido. Acima da fechadura, uma campainha fora instalada. "Como eu não percebi antes?" indagou a si, dando um passo em direção a ela e apertando o botão, em seguida, recuou, abraçando-se novamente. Desde o primeiro minuto que saíra do aeroporto amara aquele país, e em particular aquela cidade, ou, pelo menos, amara o clima frio e chuvoso. Quase mórbido. Ele odiava o calor com todas as suas forças, o calor tinha mosquitos: o deixava cansado constantemente, suor etc.

Dois minutos depois os portões foram abertos, e ele preparou-se para o que viria a seguir.

Um homem alto, de cabelos pretos longos e pele negra como ébano – totalmente o contrário do estereotipo que Sasuke imaginara encontrar na instituição – surgiu, trajando roupas formais demais pra assustá-lo com a possibilidade de ser um aluno. "Chega de covardia, Sasuke" reprimiu o ímpeto de estapear a própria face, dando um passo a frente.

—Sou o coordenador do colégio. — declarou o homem, sem exibir os dentes, porém erguendo a mão para cumprimentá-lo. O moreno retribuiu o cumprimento, e quase resmungou puxando seu braço de volta, todavia, optou por controlar-se. Não queria que descobrissem que ele era um cuzão em seu primeiro dia. Seus colegas poderiam ter a oportunidade de averiguarem isso com o passar dos dias! — Kakuzu Adamsen.

Então ele era de fato um norueguês? Curioso, pensara o moreno. Não porque fosse preconceituoso, só que tinha uma visão diferente do padrão europeu. Aparentemente, ele estava seriamente enganado.

—Sasuke Uchiha. — o garoto apresentou-se, ajeitando o óculo que ameaçava a cair a qualquer momento.

—Vem, eu levo suas malas. — dissera o grandalhão e, naturalmente, o Uchiha não se opôs a idéia. Aquele cara deveria ter cento e vinte centímetros a mais do que ele, literalmente. Parecia um armário de tão grande e musculoso.

Seguiu o homem, que, sem esforço algum carregava as malas dele, para dentro de um verdadeiro achado arquitetônico. O prédio principal era composto por colunas gregas, semelhantes a da Casa Branca e possuía uma longa escada de aproximadamente vinte e três degraus, os prédios adjacentes – do lado esquerdo e do lado direito – eram bem extensos, pegando toda a área do gramado, que por sinal era belíssimo e muito bem cuidado. Os orbes cor de carvão analisaram as janelas, erguidas bem no alto, os noruegueses tinham certa tara por altitude ou o diretor daquela instituição era realmente sacana. De qualquer modo, Sasuke chegou à conclusão de que não haveria misericórdia para aqueles que tentassem fugir por aquelas janelas de madrugada. Enquanto prosseguia, a passos lentos, se sentia exposto, como o Hulk voltava a ser o doutor Banner e acabava pelado em alguma área. Respirou fundo, engolindo em seco.

Enquanto andava, pôde perceber que alguns alunos olhavam fixamente para a sua direção. Não desviou o olhar, tampouco curvou a cabeça, olhara-os de volta, de maneira analítica. O uniforme era exatamente o que ele esperava de um país tão tradicional e nacionalista: camisetas sociais brancas, gravatas azul escura e por cima um blazer preto, a calça era da mesma cor. Os sapatos eram pontudos e tinham salto baixo. Visualmente era interessante, mas imaginava o calor infernal que não deveria ser aquelas calças.

O interior do prédio também era esteticamente agradável e tinha cheiro fresco de tinta. As paredes eram pintadas com detalhes na parte inferior tingidas de vermelho.

—Senhor Adamsen — pigarreou, a espreita do homem alto e fortão. — Sei que a pergunta soa estúpida, mas qual a necessidade daquela campainha?

—Não é uma campainha comum, ela identifica os alunos digitalmente. É tecnologia de alta ponta, garoto. — explicou, livre de qualquer tom arrogante ou egocêntrico. Era apenas didático, o nerd apreciou isso. — Você terá muitas explicações sobre isso, portanto não se preocupe. — dissera ele, virando à esquerda, sendo acompanhado pelo novato. — Lycée está cheia dessa coisas de nerds, vai se dar bem aqui.

O que basicamente era uma tradução livre sobre ele ficar trancafiado o tempo inteiro dentro dos laboratórios. Obviamente ele não se importou, era verdade – ele ficaria trancado quantas horas fossem necessárias.

Em silêncio, continuaram o trajeto até alcançar uma porta, vermelho cor de sangue fresco. Bem no alto, em um placa vermelha estava escrito T, o que em inglês significava diretoria. De todo, não foram ruins aquelas aulas particulares. Ele realmente aprendera a dominar o idioma.

O coordenador bateu duas vezes na porta e aguardou. Sasuke contou vinte e três segundos antes de a porta ser aberta.

—Entre, garoto. — instrui-lhe Kakuzu. O garoto assentiu, obedecendo a instrução.

—Ah, você deve ser Sasuke. — um homem alto, de longo cabelo loiro estava sentado frente a uma tela led de 30 polegadas branca. O emblema da instituição: um elmo viking de chifres ao lado de um machado, era usado como plano de fundo. — Sou o diretor do colégio, Yamanaka Inoichi. — e estendeu a mão para o garoto, que a apertou. Ali estava algo com que estava acostumado a vida inteira: adultos agindo civilizadamente consigo. E era por isso que ele sempre respeitara muito seus professores e diretores, e soube de cara, que com Inoichi não seria diferente. — É um prazer tê-lo conosco! Só ouvimos coisas boas a seu respeito.

—Fico muito feliz em ouvir isso, senhor. — exclamara de maneira respeitosa, esboçando um sorriso amigável.

Após uma saudação de boas vindas, fora entregue a ele um mapa geográfico contendo a localização exata dos cômodos; dormitórios, salas de exercícios – que ele tinha certeza absoluta de que jamais pisaria os pés, ao menos por livre e espontânea vontade – biblioteca, laboratório de química, quadra de basquete, ginásio e etc. Bom, certamente ele só se interessava pelo laboratório, biblioteca e principalmente pela a sala da informática. Tendo terminado a conversa, Sasuke resolveu explorar todo o colégio.

Com passos apressados e desajeitados, o adolescente olhou deslumbrado para alguns quadros pendurados na parede. Fotos antigas de alunos consagrados, descobriu, após ler as inscrições abaixo das imagens. Aproximou-se para observar melhor uma foto, onde uma versão mais nova e jovem do diretor Yamanaka estava usando o uniforme de futebol do colégio, abraçado a mais alguns colegas de classe. O ano datava de 1975. Então, olhara para a seqüencia de fotos a seguir, estava tão distraído que não percebera quando uma figura alta e cheia de músculos aproximou-se.

E esse foi o seu primeiro grande erro idiota.

—Seja bem-vindo, frangote. — fora o que seu algoz dissera, antes de presenteá-lo com uma bela cotovelada na costa, fazendo com que ele quase batesse contra a parede; quase, felizmente, ele fora esperto o suficiente para cobrir seu rosto a tempo de impedir que seu novo aparelho ou seus óculos fossem comprometidos no processo.

Mas que merda...?

Ele reconhecia aquela voz em qualquer lugar. Ao virar-se, não ficou exatamente surpreso ao se deparar com Shisui. O terceiro maior imbecil que ele já tivera o desprazer de dividir sua casa e seus pais.

—Escuta bem o que eu vou falar, Sasuke. Presta muita atenção. — seu tom de voz, sério, pegou o moreno desprevenido. Shisui o segurou pelo pescoço, prensando-o contra a parede. Embora o caçula fosse relativamente alto, não chegava nem perto dos seus irmãos mais velhos que além da altura, detinham da força e do porte físico como vantagem. — É melhor você fingir que não nos conhece, está ouvindo? Trabalhamos arduamente para construir nossa reputação nesse internato. E se você estragar isso, será um garoto morto. Aqui não tem a Mikoto para te defender o tempo inteiro, está me escutando? — ao terminar de dizer isso, o jogou bruscamente, contra a lata de lixo mais próxima. — Não se esqueça: é melhor fingir que não me conhece, ou a coisa vai ficar muito séria. Seu nerd do caralho!

Sasuke sentiu todo o terror, pelo qual ele vinha antecipando a viagem inteira ressurgir com força total. E permaneceu ali, estancado no chão, sem o óculo de grau e qualquer vestígio de sua dignidade.

—Agora eu quero ouvir você falar em voz alta que entendeu, porra! — resmungou Shisui, com impaciência.

—Eu entendi, eu entendi. — gaguejou, com a voz embargada pelo choro que certamente viria. Seus irmãos eram realmente ótimos naquele lance de terror psicológico, e desconfiava que aquele colégio viking havia contribuído para a personalidade genocida deles.

O irmão chutou-lhe na barriga algumas vezes antes de desaparecer corredor adentro, com a sua melhor postura de bad boy. Mas um importantíssimo detalhe prendera a atenção do caçula: ao invés do blazer, Shisui usava uma jaqueta preta, com uma embalagem de preservativo desenhada nas costas, na cor verde-neon e embaixo estava escrito Penetrador U.

Espera.

Penetrador? O que aquilo significava?

Fosse o que fosse, ele não gostara nada daquilo. Definitivamente não!

Olhou para os lados, a fim de se certificar-se de que ninguém mais tinha presenciado aquela cena bizarra, felizmente não havia o menor sinal de alma penada. Levantou-se, tremulamente, procurando por seu óculo e pelo mapa de papel, precisaria dele para se orientar e o mais importante: para riscar algumas áreas, que tinha certeza que aqueles cretinos estariam. Odiaria cruzar o caminho de algum deles.

Por fim, recolhendo seus pertences, girou os calcanhares e precipitou-se nas escadarias, subindo-as como se sua vida dependesse disso.

FORSIKTIGE HIGH SCHOOL

13h

O inverno era uma das estações mais temidas pelas garotas, especialmente por aquelas que tinham em sua grade curricular de atividades extras o ballet. Em decorrência do frio esmagador, muitas vezes as aulas eram canceladas o que prejudicava não somente seu rendimento na dança, mas, principalmente nas competições que invariavelmente eram adiadas. Em palavras mais curtas, elas odiavam o inverno.

O Forsiktige ficava a alguns quilômetros de distância de Lycée e, para contrabalançar, aquele era um internato somente para garotas, fundado alguns anos após o Lycée. As regras eram muitas, porém nada que as cansasse mais do que a intrépida professora de artes.

Já era a quinta aula seguida sobre escultura grego-romana e, embora a mitologia lhe fosse atrativa, não era ao ponto de tornar-se o único assunto pelo qual valia à pena desenhar. A loira jogou as pernas para o outro lado, bocejando.

A morena ao seu lado amassou um pedaço de papel, quando a professora estava distraída e arremessou-lhe, passando por cima do esboço que ela estava desenhando. A loira ergueu os olhos da folha e virou a cabeça na direção de uma Hyuuga que sorria travessa.

—Você não está ansiosa? — perguntou, sem se preocupar em comedir seu tom de voz. A professora Kin tinha o mal habito de dormir nas aulas. Ela dizia que a qualidade do trabalho de suas alunas deixava-na sonolenta.

Naquela altura do campeonato, porém, ninguém mais dava ouvidos para a ironia diabólica de Kin.

—Ansiosa? Para quê?

—Ora, Jonsok. Quermesse. Festa Junina. — exclamou em tom malicioso. — Os meninos disseram que os penetradores vão dar a maior festa de todos os tempos...

Ino levou o dedo até a boca, simulando vômito.

—Aqueles garotos trouxeram uma epidemia de herpes e clamídia para as garotas do terceiro ano, Hina. — exclamou em tom sério, com o rosto levemente empalidecido em decorrência da náusea que sentia.

—Acorda, isso já tem três anos.

—Sim, o que é pior ainda, já que eles deveriam estar o que... Na sétima série quando começaram a coisar? — arqueou a sobrancelha. — Se você quer compactuar com os demônios, é por sua conta e risco. Mas eu tenho outros planos para a festa junina desse ano. — afirmou, sorrindo divertidamente, quando o sinal tocou, interrompendo a conversação. Era aula de filosofia, felizmente.

Ela levantou-se, agarrando sua mochila, que estava jogada no chão e fora seguida pela morena de olhos perolados, que não se abalou com sua resposta. Hinata tinha uma cabeça mirabolante e Ino apostava cem dólares como a outra deveria estar planejando uma forma de convencê-la a ir.

—Muito bem, chata, aproveite a festa junina para beijar aqueles personagens fictícios da Marvel que você tanto ama. — provocou a perolada. — Se continuar nesse ritmo, loirinha, você só vai perder o BV com oitenta e cinco anos.

A bailarina parou de andar subitamente, virando-se para encará-la.

—Você sabe a quantidade de germes que podemos contrair em um beijo? — perguntou, exibindo o aparelho de seus dentes. — Ainda mais sendo a boca de um maldito penetrador? — acrescentou, fazendo careta de nojo. — Prefiro manter a castidade da minha boca, muito obrigada.

Hinata tombou a cabeça para trás, em um rompante de riso espontâneo completamente exagerado na concepção de Ino.

—Certo, certo. Como quiser. — debochou, com um largo sorriso nos lábios. Na sua cabeça, é claro, ela já tinha uma estratégia para obrigar à outra a ir.

Deslocaram-se até a sala 12, onde a professora Mabui estava à espera para começar a questioná-las sobre religião e a influência na sociedade atual, etc. Embora muitos acreditassem que a matéria fosse insuportável, e na teoria deveria ser de fato, a senhora Abramsen conseguia explicar com tanta naturalidade que era simplesmente preferível a aula de filosofia a de artes.

Adentraram a sala, sendo seguida por uma multidão de garotas eufóricas. É claro que ninguém poderia culpá-las pela efusividade, já que ao término das aulas, a diretora prometera uma surpresa para elas.

Hinata quase podia adivinhar o que se passava na cabeça daquelas malucas – festas. Mas, a sua racionalidade duvidava muito de que fosse haver outro baile desde o ocorrido no final de dezembro do ano passado!

—Dá pra acreditar que os penetradores vão bancar a quermesse desse ano? — indagou Sakura, inclinando-se na cadeira para cochichar com Hinata, que meneou a cabeça, virando-se para respondê-la. Ao lado delas, Ino revirava os olhos, entediada.

—E parece que o Shisui finalmente vai nomear alguém a sua garota — comentou a Hyuuga, em tom baixo. — Disseram que ele vai entregar o moletom dos penetradores.

—Não brinca! — murmurou Sakura, com a boca escancarada. Um moletom equivalia basicamente à coroa britânica. Só que era ainda melhor!

—Será que eu também poderia participar da conversa, garotas? — a voz da professora soou próxima a elas, e quando a dupla virou-se, depararam-se com grandes olhos castanhos da senhora Mabui.

A sala inteira explodiu em estrondosas gargalhadas.

—Meninas — prosseguiu a senhorita Abramsen, em tom descontraído. Ela era uma excelente profissional e sem sombra de dúvidas uma das melhores professoras do colégio. — Sei que vocês estão morrendo de ansiedade para beijarem na boca, mas, por favor, vamos focar na minha matéria ok? Um moletom dos penetradores não livrarão a cara de vocês da recuperação, isso eu garanto!

Rindo, a sala inteira começou a uivar para a dupla, que se limitou a dar língua para as demais e a fazer bolinhas de papel para jogar nas mesmas.

Pararam de rir subitamente, consertando suas posturas na cadeira e focando sua atenção no quadro negro – que, na prática, na verdade é verde – em que a morena traçava uma conexão entre os pensamentos de Aristóteles com Platão, usando exemplos , citando diferenças e até mesmo fazendo alguns desenhos relacionados a matéria. As horas foram se passando sem que elas se dessem conta e então, finalmente, era hora do intervalo.

—Estou morrendo de sono. — bocejou Karin, espreguiçando-se e surgindo a vista das garotas.

O uniforme do colégio feminino era composto por camiseta social longa, gravata vermelha listrada, blazer vermelho, e saia vermelha com listras amarelas, além de saias longas e sapatilhas de cor opcional.

Aos poucos, as demais integrantes do grupo foram juntando-se, espalhando-se ao redor da mesa, e continuaram conversando a respeito da quermesse que estava por vir. Com exceção de das duas loiras e da morena de cabelos castanhos, as demais pareciam excepcionalmente excitadas para aquele grande evento. Também pudera, eram raras as ocasiões em que tinham permissão para deixar a escola. O fato é que o cronograma era bastante puxado, e havia os deveres e principalmente as leituras que consumiam muito de seus tempos.

O moreno sequer tivera tempo de dizer qualquer coisa em sua defesa; simplesmente fora pressionado contra o longo armário e trancado ali dentro, onde permaneceu muitas horas a fio.

—Me tirem daqui! — gritou histericamente, debatendo-se. Não era novidade ficar confinado em lugares escuros e umedecidos, contudo era a primeira vez que seria obrigado a pernoitar dentro do armário de seus livros. O surpreendente foi que ele coubera perfeitamente ali! Argh, maldita fosse sua baixa massa de gordura corporal! — Socorro! — desatou a berrar, na esperança de que alguém o libertasse. Em vão.

Quem é que iria contrariar a figura degenerada de Shisui para salvar o irmão bundão dele?! Só mesmo um demente para querer medir forças. Pelo pouco que pudera observar, era o seu trio de irmãos demoníacos que mandavam e desmandavam naquela bosta. Nunca se arrependera tanto de acatar as ordens de seu tio quanto naquele momento.

—Socorro! — gritou mais uma vez, em vão.

Alguns minutos depois, porém, percebera que alguém estava tentando forçar a chave do armário, e ele se acalmou um pouco. Suspirou aliviado quando, enfim fora puxado para fora e permitiu-se cair de joelhos, respirando fundo, com o coração batendo em um ritmo descompassado. Ergueu a cabeça, deparando-se com um garoto esquisito de cabelos prateados e estranhos olhos lilases, que ele julgara ser lentes de contato.

—O que você estava fazendo ai dentro, garoto? — perguntou com um sotaque carregado. Um legítimo norueguês!

O moreno respirou fundo, levantando-se com dificuldade.

—Estava rezando... Espera. — ele olhou para trás, com ar debochado. — Não é o confessionário da Igreja? Droga! — bateu os pés e, então bufou, irritado. — Um macaco cheio de músculos me enfiou ali! — gritou, como se fosse óbvio. — Eu fiquei trinta minutos gritando igual um imbecil. Por que ninguém veio me socorrer?

Resolvera omitir a parte que se sucedeu os trinta minutos; quase três horas desmaiado, e vinte e cinco minutos depois, havia despertado no auge de sua fúria.

—Cara, você viu o emblema do colégio? — perguntou o garoto calmamente, apontando para o elmo de chifres e machado vikings. — Existe uma razão para esse colégio ser tão adepto dos vikings: só os bárbaros sobrevivem por aqui. Ou você aprende a se tornar invisível, ou sai do caminho, o pessoal daqui é bruto e os coordenadores estão pouco se fudendo para fracassados como você e eu.

Aquele era o tom de voz de alguém que já passara pela mesma situação inconveniente de Sasuke, pelo menos, várias vezes antes. Por esse motivo, o moreno comoveu-se com o garoto.

—Desculpe-me pelo sarcasmo, estou desesperado. Mal cheguei nessa escola e já posso contar nos dedos quantas vezes fui espancado, arremessado, enforcado e agora... — franziu o cenho. — Trancafiado dentro de uma porra de armário.

—O curioso é que você é bem alto, não sei como conseguiram te enfiar ali dentro. — observou, com uma sobrancelha arqueada. — A propósito, sou Suigetsu Hoshigaki. — estendeu a mão para cumprimentá-lo.

O moreno retribuiu ao cumprimento.

—Sou Sasuke... Sasuke Taka. — dissera, após gaguejar. A última coisa de que precisava era ser associado aos psicopatas pervertidos.

—Taka? — indagou Suigetsu pensativo, seguindo pelo corredor com o moreno em seu encalço. O Uchiha acrescentou algumas informações utópicas sobre seu sobrenome, porém o prateado não dera muita atenção a isso. — Bom, Taka, você conhece a Teoria Do Forrester Gump?

—É aquele filme com o Hanks, certo? — o outro assentiu mecanicamente. — Não, não conheço essa teoria.

— A teoria é o seguinte: Se um cara muito mais forte e brutamontes quiser te bater, você corre. Corre o mais longe que suas pernas agüentar, igual o Tom Hanks no filme! — e abriu um largo sorriso. — Você, sendo alto e magrelo do jeito que é, aposto que consegue correr bem mais rápido que os neandertais daqui. — dissera, dando de ombros.

Sasuke estancou no corredor, pensativo. Teoria do Forrester Gump! Mas que conceito original! Sem sombra de duvidas, aquela teoria seria muito útil em sua nova vida!