CAPÍTULO 2 – LINDO COMO UM DEUS
- Que cheiro bom, Vick! Que perfume você está usando?
- Deixe de besteira, Bella. É o mesmo que o seu.
Vick estava linda, como sempre. Linda como de propósito para humilhar Bella.
Realmente era uma beleza a casa da tia Sue. O que não combinava com aquela beleza toda era a própria tia Sue. Recebia os convidados como se fosse ela que estivesse fazendo dezesseis anos. E o pior é que estava vestida como se fizesse mesmo dezesseis anos.
- Bella! Há quanto tempo! Como você está crescida... Está uma mocinha perfeita!
"E a senhora não está uma mocinha perfeita!", pensou Bella, enquanto aceitava os beijinhos da tia.
- E essa lindeza, quem é?
- È Vick, minha amiga. Pensei que a senhora não se importaria se...
- Oh, mas é claro que não me importo! Você fez muito bem em trazê-la. Jacob vai adorar mais uma menina bonita na festa. Mas entrem, entrem!
De fora, Bella já podia ouvir o som ligado naquele volume "chega-de-papo". Monotonamente, o surdo da bateria reboava como se dissesse "não entre... não entre..."
Bella apertou a mão de Vick e arrastou a amiga atrás da dona da casa.
As dimensões do salão perdiam-se nos cantos escurecidos pela iluminação precária, cheia de clarões piscantes, destinados a excitar os espíritos. Corpos sacudiam-se ao ritmo de um som frenético, meio misturados numa massa multicor que formava um bloco único, anônimo, como a representação de um inferno alegre, alucinante...
Tia Sue falava sem parar, apontava para todos os lados e ria muito, mas nenhum som humano poderia sobrepor-se àquela loucura.
- A senhora é mais ridícula do que eu esperava! – riu-se também Bella, aproveitando-se da oportunidade de acobertar a fraqueza debaixo daquele som infernal.
- Hein?
- Eu disse que a senhora é ridícula!
- Desculpe querida, mas eu não ouço nada com esta música... Oh, veja quem vem vindo!
Mesmo sem entender direito o que estava sendo dito, Bella voltou a cabeça para onde a tia apontava.
Da massa confusa de dançarinos, uma figura destacava-se.
Foi como se os mais ousados sonhos de Bella tivessem tomado corpo e forma.
Corpo e forma de sonho.
O sonho dos sonhos de Bella.
Ele se aproximou, com aquela luz maluca fazendo brilhar seus dentes e o branco dos olhos.
E que dentes!
E que olhos!
Tia Sue ria mais ainda e apontava o rapaz, papagueando sempre. Pouco ou nada dava para entender, por mais que a tia berrasse. Mas Bella praticamente leu nos lábios da tia a palavra-chave daquele discurso:
- ... Jacob...
Jacob! Aquele era Jacob!
Na memória de Bella, só havia o registro distante de um primo entre tantos, talvez um daqueles moleques briguentos que só pensavam em futebol. Mas o moleque tinha se transformado.
- Como é mesmo o nome daquele deus grego? – raciocinou Bella em voz alta, acobertada pelo som da festa. – Dionísio? Apolo? Adônis? Não importa. Vou chamá-lo "sonho"!
- Hein?
Tia Sue berrava para o filho e apontava as duas amigas. Jacob disse alguma coisa, bem humorado, e abraçou Vick, apertado. Tia Sue sacudiu a cabeça várias vezes e indicou Bella. O rapaz falou novamente, rindo sempre, e voltou-se para a garota certa.
Bella sentiu-se enlaçada por aqueles braços, e o rosto do rapaz colou-se ao dela.
- Oi, prima. Como você ficou linda... - bem próximo ao ouvido de Bella, a voz quente de Jacob envolveu-a, claramente, distintamente, fazendo-a surda que qualquer outro som.
- Linda? – sussurrou a menina, surpresa e enlevada. – Eu? Sou linda? Você disse que eu sou linda?
Mesmo colado a ela, Jacob não entendeu o sussurro. E, como se fosse um confeiteiro colocando uma cereja como um toque final de gênio sobre a torta mais apetitosa, o rapaz beijou o rosto de Bella com força, fazendo estalar os lábios.
As luzes, as cores e o sangue de Bella misturam-se numa vertigem gostosa, o ímpeto da menina foi fechar os olhos e colocar-se na pontinha dos pés, oferecendo os lábios a Jacob.
Mas em vez disso, o que fez foi rir alto, dizendo qualquer coisa, como se fosse a piada mais engraçada do mundo...
- Jacob, era você que eu estive esperando a vida toda...
Como se aquilo fosse um jogo, o rapaz falava também, rindo, sem entender nada do que ouvia.
- Sonho. O meu sonho. Você é o meu sonho feito homem...
Ainda segurando os ombros de Bella, Jacob ria muito.
- Eu nasci para amar você, meu sonho...
Naquele instante, a fita chegou ao fim, e a palavra "sonho" ressoou claramente pelo salão.
- Hein? Sonho? O que você disse?
- Nada, primo...
Os acordes de uma música lenta, romântica, iniciaram uma nova seleção, preparada para secar o suor dos dançarinos. Bella esperou o calor do abraço de Jacob, pronta a deslizar pelo salão ao seu comando, não importava para onde ele a guiasse. Ao infinito, talvez...
- E esta beleza aqui, quem é?
- Hã? Ah! É Vick, minha amiga...
- Então vamos nos apresentar, Vick.
E foi Vick que aqueles braços envolveram e carregaram para misturar-se à nova massa que se formava, agora numa forma lenta, arfante.
Tia Sue já desaparecera. A música desta vez não encobria a voz, e foi num murmúrio que Bella falou:
- Vick, devolva meu sonho... ______________________________________________________________________
Maquinalmente, Bella tinha apanhado um copo de uma bandeja que alguém lhe estendera. O liquido estava amargo demais para um refrigerante, e aquele já devia ser o terceiro copo que Bella aceitava. Ou talvez fosse o quarto.
Tinha escapado silenciosamente pela porta-janela envidraçada que dava para o jardim e agora estava na penumbra, sozinha, com seu copo, vendo de fora o grupo de dançarinos consumir, uma após outra, as músicas da seleção romântica. Com aquela iluminação, não era possível distinguir ninguém, mas Bella via, em todos os casais, um só par de namorados.
A porta-janela era como uma tela de cinema. Sozinha, no escuro da platéia, Bella assistia àquele filme, imaginando a história, criando cada fala, cada cena.
Interrompendo o filme, na tela iluminada surgiu um silhueta que não fazia parte do enredo. A silhueta caminhou até ela.
- Oi. È uma festa particular? Por que não me convida?
A luz do salão iluminou o rosto do rapaz à sua frente, que te olhava nos olhos, sorrindo.
Bella desviou o olhar e por um momento odiou aquele rapaz que vinha distraí-la em sua sentinela.
- Eu sou Edward. E você?
- Eu? Sou a ilusão...
- É um nome estranho para quem está sozinha. A ilusão nunca está sozinha...
- Pode me chamar de cretina, então. É o meu apelido.
- Cretino é aquele que crê em tudo o que ouve. Você acredita em tudo?
- Eu? Não. Só naquilo que me ilude.
- Acredita se eu dissesse que é a garota mais linda da festa?
- Não. Eu diria que você está me gozando. E o esbofetearia.
- Seria uma nova experiência ser esbofeteado por uma ilusão.
- Ou por uma cretina...
- Você tem resposta pra tudo, não é?
- Não. Só pra quem tem pergunta pra tudo.
Bella entornou rapidamente o resto do copo e o liquido escorreu quente, queimando tudo por onde passava.
- Quer outro refrigerante? Vou buscar.
Edward afastou-se e Bella aproveitou-se para internar-se no jardim, escondendo-se na sombra.
Pela porta-janela saía o vulto de um casal abraçado. Impossível reconhecê-los sob a pouca luz do jardim, mas Bella adivinhou. Eram eles. Só podiam ser Jacob e Vick. Viu quando a menina ergueu o rosto e quando o rapaz a envolveu num beijo longo, definido. Apenas duas silhuetas. Mas só podiam ser os dois. Ai...
Dentro da cabeça de Bella, os vapores da bebida explodiram, lançando fogo através de todas as veias e artérias. O mundo oscilou de repente, e a menina sentiu a terra úmida contra o rosto.
Não perdeu a consciência, mas não conseguia mover-se. Tudo sentia, porém. Parece até que sentia mais do que nunca. Percebia a grama a picar-lhe o rosto e os braços fortes que começavam a levantá-la. Não conseguia falar, mas seu cérebro vibrava, excitava-se, pulsava como um coração:
"Jacob... você veio..."
Apertou-se intensamente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia masculina. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados...
Uma boca maravilhosa colou-se à dela, enquanto o vigor daqueles braços a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado estourando em sua cabeça como um coro de anjos.
"Jacob..."
FIM DO CAPITULO 2
