Inglaterra, 1788.
Vozes iradas despertaram à menina. Sentou-se na cama e se esfregou os olhos para despertar.
—Nanny? Chamou no repentino silêncio. A cadeira de balanço que havia ao lado do lar estava vazia. Rapidamente, a menina entrou de novo debaixo do edredom de plumas, tremendo de frio e medo. Nanny não estava onde se supunha que devia estar.
Na chaminé, as brasas agonizantes resplandeciam com um laranja brilhante e, para a imaginação da pequena de quatro anos, parecia-se com olhos de demônios e bruxas. Decidiu que não os olharia. Voltou à vista para as janelas, mas aqueles olhos a seguiam, aterrorizando-a com as horripilantes sombras de gigantes e monstros refletidas contra as janelas, lhe dando vida aos ramos nus que roçavam os vidros.
—Nanny? Repetiu a menina, sussurrando entre lágrimas.
Então ouviu a voz de seu pai. Estava gritando e, embora seu tom era áspero e inflexível, o medo abandonou à menina. Não se encontrava sozinha. Seu pai estava perto e ela não tinha nada que temer. Tranquilizada, sentiu curiosidade. Estava vivendo na casa nova fazia um mês e em todo esse tempo nunca havia visto visitante algum. Seu pai lhe estava gritando a alguém e ela quis ver e ouvir o que ocorria. Aproximou-se da beira da cama e girou sobre si mesma para deslizar até o chão. A ambos os lados da cama, sobre o piso de madeira, havia distribuído travesseiros; Ao apoiar-se no chão, apartou uma de seu passo.
Descalça, cruzou pelo quarto sem fazer ruído, com os pés ocultos pela comprida camisola branca. Afastou dos olhos o cabelo marrom e suavemente encaracolado e, cuidadosamente, girou o pomo da porta.
Quando chegou ao patamar da escada, deteve-se. Ouviu outra voz de homem. O estranho tinha começado a gritar, proferindo violentas palavras que fizeram que os olhos chocolate da menina se abrissem de surpresa e temor. A pequena espiou da balaustrada¹ e viu que seu pai se enfrentava ao estranho. Desde sua localização, no alto da escada, distinguiu a outro personagem, parcialmente oculto pelas sombras da entrada do vestíbulo.
—Já te tinha advertido, Brandon! — Gritou o estranho com voz cortante e gutural —. Nos pagaram bem para que nos ocupemos de que não cause mais problemas.
Empunhava uma pistola muito parecida com a que seu pai frequentemente levava para seu próprio amparo, e lhe estava apontando. A menina se precipitou escada abaixo, tratando de chegar até seu pai para que a tranquilizasse e lhe dissesse que tudo ia bem. Ao chegar ao último degrau, deteve-se e observou como seu pai golpeava ao estranho e lhe arrebatava a pistola de um tapa. A arma aterrissou aos pés da menina com um ruído surdo.
Outro homem apareceu de entre as sombras.
—Volturi lhe envia seus respeitos — disse com voz rouca —. Também lhe diz que não tem que se preocupar com a menina. Obterá um bom preço por ela.
A pequena começou a tremer. Não podia olhar ao homem que falava. Sabia que se o fizesse, veria os olhos do demônio, alaranjados e brilhantes. O terror a embargou. Sentia que o mal a rodeava, podia cheirá-lo e degustá-lo. Se atrevia a olhar, cegaria-a.
O homem ao que a menina tinha acreditado o demônio mesmo voltou para as sombras no momento em que o outro arremetia contra o pai da pequena e lhe dava um forte batida.
—Com a garganta atalho já não irá por aí dando discursos —lhe disse, e soltou uma brusca gargalhada. O pai da menina caiu de joelhos e se debateu para ficar de pé, quando nas mãos do atacante apareceu uma faca. Uma risada horrível e perversa alagou o vestíbulo, reverberando² contra as paredes como centenas de espectros cegos chiando-se mutuamente.
O homem passava a faca de uma mão à outra enquanto rodeava lentamente ao cansado.
—Papai, ajudarei-te — choramingou a menina enquanto recolhia a pistola. Era pesada e estava tão fria como se tivesse permanecido sobre a neve. Quando um de seus dedos gordinhos se apoiou no gatilho ouviu um estalo.
Seus pequenos braços estavam estirados e tensos, e suas mãozinhas tremeram de medo quando apontou aos dois homens que brigavam. Lentamente, começou a caminhar em direção a seu pai para lhe dar a arma, mas se deteve abruptamente ao ver que o estranho afundava a comprida e curva faca no ombro de seu pai. A menina gritou cheia de angústia.
—Papai, ajudarei-te! Papai!
O soluço da pequena, cheio de terror e desespero, abriu-se passo entre os grunhidos dos dois opositores. O estranho que espreitava entre as sombras correu a unir-se à cena. A luta cessou e os três homens olharam, pasmados de incredulidade, por volta daquela garotinha de quatro anos que lhes mirava com a pistola.
—Não! —Chiou o diabo. Já não ria.
—Corre, Isabella! Corre, pequena, corre...
A advertência chegou muito tarde. Deu um passo para seu pai e se enganchou com a prega da camisola. Instintivamente, ao cair, apertou o gatilho e fechou os olhos para proteger-se do estrondo que reverberou tão diabolicamente como a risada do demônio.
A menina abriu os olhos e viu o que tinha feito. E logo não viu nada mais.
Balaustrada¹ - É a denominação dada aos conjuntos arquitetônicos, construídos sobre pilotis ou mesmo num andar superior de uma construção.
Reverberando² - Açoitar, fustigar, flagelar.
