Capítulo 1

Os raios de sol se espremiam entre as frestas da cortina, alcançando algumas partes do quarto, assim como meus olhos. Virei meu rosto, para fugir da luz tão indesejada e um cheiro doce invadiu minhas narinas. Os meus lençóis não tinham aquele cheiro. Relutantemente, abri meus olhos e sorri ao ver Caitlin dormindo serenamente. Toquei seu rosto de maneira preguiçosa e vi suas feições se suavizarem ainda mais. Ela parecia tão vulnerável naquele momento, que eu tinha uma vontade de envolvê-la em meus braços e protegê-la de tudo e de todos.

E foi então que a consciência me atingiu.

Eu estava no quarto da Caitlin! Eu tinha dormido no quarto da Caitlin! E se ela acordasse naquele momento e me visse ali, eu tinha certeza que eu seria golpeado em lugares nada interessantes. Eu podia me curar rapidamente, mas eu ainda sentia dor.

Olhei para o meu relógio. Já passava das 6:40, e eu precisava chegar ao departamento às 7. Eu tinha outras provas para analisar e catalogar, e se eu não entregasse hoje antes do meio dia, o capitão Singh iria querer me matar. Felizmente eu tinha a minha super velocidade ao meu favor. Fui até a cozinha pegar um copo d'água e deixei-o em cima da mesa de cabeceira junto com duas aspirinas, não sem antes reprogramar o despertador para algumas horas mais tarde. Ela ia precisar de umas horas extras de sono. Fitei Cait mais uma vez e sai.

Depois de passar em casa para um banho rápido e trocar de roupas, segui para a delegacia. Sorri ao olhar meu relógio novamente. 7 horas em ponto! Dessa vez eu tinha conseguido. Entrei no meu laboratório com o mesmo sorriso, mas o Capitão Singh estava lá, e como sempre, estava de mau humor.

"Que bondoso da sua parte chegar na hora, Allen." Ele comentou sarcástico ao me ver.

"Bom dia, capitão." Cumprimentei-o, tentando engolir seu sarcasmo.

"Guarde sua educação para a Srta. Bailey" Ele falou e só então notei a garota que estava ao seu lado. "Você irá dividir o laboratório com ela, temporariamente" Ele informou e saiu nos deixando sozinhos.

"Eu sou Ginny Bailey." A garota me ofereceu a mão e sorriu. Ela tinha cabelos longos e ruivos e olhos azuis escondidos por um par de óculos de armações grossas.

"Barry Allen" Apertei sua mão e o silêncio constrangedor apareceu. Ginny mordeu o lábio inferior, enquanto olhava ao redor. "Cientista Forense?" Parecia ser educado da minha parte, puxar assunto.

"Ciência da Informação." Franzi o cenho e ela sorriu. "Eu sempre recebo essa reação. E antes que pergunte: Não, eu não gosto do termo biblioteconomia e muito menos de trabalhar em bibliotecas.."

"E o que você vai fazer aqui?" Perguntei apressado e só então notei o que tinha falado "Digo..."

"Eu vou cuidar dos arquivos do departamento. Tanto os físicos quanto os digitais." Ela falou orgulhosa. "Pode deixar que eu vou ficar quietinha no meu canto."

"Barry" Uma voz conhecida me chamou e meu coração disparou, como ele sempre fazia desde que eu me entendia por gente. Era uma reação habitual, mas pela primeira vez me pareceu insuficiente, como se estivesse faltando algo. Insuficiente também era o meu sorriso que não alcançava meus olhos como sempre.

"Oi, Iris." Cumprimentei-a, ao que ela me abraçou. E só então lembrei que estava acompanhado. "Ginny essa é a Iris, minha amiga de infância. Iris essa é a Ginny, ela é bibliotecária e vai trabalhar aqui."

"Prefiro o termo Cientista da Informação." Ginny me encarou e então voltou para Iris, estendendo sua mão. "É um prazer conhecê-la"

"Igualmente." Iris sorriu.

"O que você faz aqui tão cedo?" Perguntei. As visitas dela ao departamento sempre foram frequentes, mas nunca tão cedo assim.

"Peguei uma carona com o Eddie." Ela suspirou e sentou na minha cadeira, deixando um espaço vago na mesa para que eu fizesse o mesmo. "Eu estou desesperada por uma história, então decidi ficar perto de onde as coisas acontecem." Tive vontade de dizer tudo o que estava preso na minha garganta. Em como ela pediu minha ajuda e recusou logo em seguida. Eu estava ficando de saco cheio da Iris esperar que eu estivesse a disposição sempre que ela precisasse. Eu deveria ter dito isso, mas preferi me abster. "Alguma notícia do Flash?"

"Não, sei eu..." Antes que eu pudesse responder, Ginny me interrompeu.

"Flash? Quem é Flash?" Ela perguntou, a curiosidade brilhando em seus olhos azuis.

"O heroi de Central City." Iris falou com um sorriso sonhador. Chegava a ser irônico o quanto eu desejei que ela me desse apenas uma daqueles sorrisos.

"Herois?" Ginny riu. Foi uma risada estranha. Rancorosa, talvez. "Não sei se acredito neles."Ela suspirou e por um momento pareceu entrar em algum tipo de devaneio. "Mas ninguém quer saber minha opinião. O que tem de especial nesse tal de Flash?" Ela forçou o sorriso, porém o interesse soava verdadeiro

"Ele é rápido, mais rápido do que qualquer coisa que você possa imagianar."

"Eu não fazia ideia que essa cidade era tão especial." Ginny falou pensativa.

"Há quanto tempo está aqui?" Iris indagou.

"Dois dias. Ainda nem tive tempo de desfazer minha mudança." Ginny deu uma risada.

"Você conhece alguém na cidade?" Perguntei.

"Até o momento o Capitão e vocês dois. "

"Então você vem para uma cidade completamente nova, que você não conhece ninguém e ainda vai trabalhar para a polícia. Uau!" Ela devia ter no máximo uns 21 anos e já buscava trocar a familiaridade de uma cidade natal, pelo desconhecido. Será que ela fugia de alguma coisa?

" É muito corajoso da sua parte." Iris sorriu encorajadora.

"Ou muito desesperador."Ela sussurrou mais para si mesma. "Eu acho que vou ficar ali no canto, arrumando as minhas coisas."

Ginny se afastou e Iris ficou parada me encarando. Nossas vidas estavam seguindo cursos diferentes, mas Iris ainda me conhecia mais do que qualquer outra pessoa.

"O que foi? Você parece diferente." Ela me analisou. E aquela era uma pergunta que nem eu sabia responder ao certo.

"Eu me sinto diferente. Sabe aqueles dias em que um simples momento faz como que tudo mude?" Iris acenou com a cabeça. "Na verdade, eu não sei mais o que pensar."

"Desde que eu te conheço, parece que a sua vida é definida por esses momentos." Ela sorriu e continuou: " Mas uma coisas eu tenho certeza, você sempre os supera. E você sabe que pode contar comigo sempre que precisar." Iris sorriu e colocou sua mão sob a minha. Esperei que aquele calor se espalhasse pelo meu corpo, mas isso não aconteceu.

"Iris! Ah, Oi Barry." Eddie apareceu agitado. "Amor, temos um assalto à banco. Interessada?"

"Com certeza!" Iris deu um pulo da cadeira, me deu um beijo no rosto e saiu. E eu fiquei ali parado, olhando para a porta.

"É uma droga, não é?" Ginny reapareceu ao meu lado.

"O quê?" Enruguei a testa.

"O amor." Ela lamentou. "Ou seja lá o que você sente por ela."

"Eu não sei do que você está falando."

"A negação costuma ser o primeiro passo." Ela observou com um meio sorriso.

"Você não disse que ia ficar quieta no seu canto?" Retruquei.

"Como quiser, Barry Allen." Ela deu de ombros e voltou para o seu lado da sala.

Às 11 horas, eu já tinha conseguido processar a maioria das evidências pendentes e decidi ir até o STAR Labs, ver como Caitlin estava se sentindo. Coincidentemente, ela chegou segundos depois de mim

"Hey!" Cumprimentei-a e ela se encolheu.

"Por que tão alto?" Cait resmungou.

"Desculpa, eu só queria saber como você estava." Sorri.

"Minha cabeça parece que vai explodir. E meu estômago parece um mar revolto. Eu realmente invejo a sua inabilidade de ficar bêbado. E para completar, o meu relógio despertou três horas atrasado." Ela resmungou. "Eu nunca mais vou beber na vida!"

"E deixar de agraciar o mundo com sua performance no Karaokê? Isso é uma atrocidade que eu nunca permitirei." Se ela tivesse algum poder especial, tenho certeza que Cait teria me congelado apenas com o seu olhar.

"Bom ver vocês!" Dr. Wells nos cumprimentou. "Acho que finalmente encontramos uma maneira para deter Shawna. Essa aqui é uma amostra das partículas que a Shawna deixou para trás. Agora olha o que acontece quando removemos a luz."

"Ela só pode se transportar para onde ela consegue ver." Cisco completou.

"Então precisamos atraí-la para um lugar escuro? Mas como?" Caitlin murmurou, pensativa "O que foi?" Ela disparou ao ver o olhar constante de Cisco em cima dela.

"Você tá de ressaca."Ele acusou.

"Claro que não! Apenas não dormi direito ontem a noite."

"Summer Loving..." Cantarolei baixinho, ganhando uma pisada no meu pé.

"Sr. Allen, uma palavrinha por favor?" Caitlin falou entre dentes.

"Eu preciso voltar para o departamento." Menti. "Qualquer coisa vocês já sabem"

Peek-a boo, como Caitlin havia apelidado Shawna, finalmente estava presa, impedida de usar seus poderes. Aquela sensação de dever cumprido era o que mais me motivava. Saber que eu tinha contribuído para uma cidade mais segura, era um sentimento muito bom.

Uma luz vinda do laboratório chamou minha atenção. Já era tarde e não era para ninguém mais estar ali.

"Caitlin?" Perguntei surpreso.

"Oi." Ela desviou o olhar do monitor

"Já passam das 9"

"Já?! Eu nem tinha percebido." Ela esfregou o rosto, tentando espantar o cansaço. "Eu estava atualizando meu relatório sobre os meta-humanos. Eu não acredito como mesmo depois de tudo o que o Clay fez, a Shawna ainda o ama. Isso é loucura!"

"Por algumas pessoas vale a pena ser louco." Algumas pessoas eram dignas de se correr todos os riscos imagináveis .

"Por falar em loucura, eu queria pedir desculpas por ontem a noite. Eu sei que eu estava um pouquinho bêbada." Cait sorriu sem graça.

"Na verdade, foi bem engraçado." Sorri.

"É, foi sim."

"Quer saber de uma coisa? Acho que todo mundo está certo sobre você e eu. Nós ficamos fixados por outras pessoas e esquecemos de nós mesmos."

"Se o que o Cisco falou for verdade, e o Ronnie se fundiu com o Martin Stein, então ele não está mais vivo. Quer saber, você está certo. É tempo para seguir em frente e achar uma nova pessoa por quem eu possa enlouquecer." Caitlin sorriu, seus olhos brilhavam com algo que eu não consegui identificar, mas que me impedia de pensar e sequer articular uma palavra.

"É." Foi tudo o que eu consegui dizer.

Talvez eu já estivesse começando a enlouquecer.