Nota da Tradutora: Em itálico são as mensagens do Chris e em negrito, as do Jesse.
Somebody to Love You
Original de northstar61
Capítulo 02
O quarto estava escuro e silencioso, a única iluminação vinda do abajur de metal preto que havia sido colocado diretamente no meio de uma escrivaninha gasta. Jesse esfregou os olhos, com a fatiga ameaçando destruir seus planos de estudo noturno. Na verdade, ele não devia estar tão cansado. Depois de tantos anos de extenuantes ensaios no Vocal Adrenaline, esse estudo de última hora para uma prova devia ser mamão com açúcar.
Levantando de sua cadeira, ele se arrastou até a cafeteira e, pela quarta vez nas últimas duas horas, reencheu sua xícara com a infusão extra-forte da qual se tornara dependente para suas doses diárias de cafeína. Colocando a xícara na mesa antes de abrir o iTunes em seu notebook, ele selecionou uma nova música em uma de suas inúmeras playlists e aumentou o volume. Movendo-se para o meio do pequeno espaço que era seu dormitório na UCLA, ele começou a alongar-se em um esforço para diminuir a tensão nos músculos e fazer o sangue circular mais uma vez. Não pela primeira vez desde sua chegada à Califórnia, Jesse ficou grato que a fortuna de seus pais havia lhe bancado o luxo da privacidade, mesmo ele sendo um calouro. A mera idéia de ter que dividir um espaço tão pequeno com alguém o fez estremecer. Uma criatura de natureza noturna, que pouco precisava de sono, ele não podia nem começar a imaginar ter que ajustar seu estilo de vida à agenda de outra pessoa – bom, a não ser que essa pessoa fosse Rachel Berry.
Sua expressão abrandou-se ao pensamento da garota que ele deixara para trás em Lima, Ohio. Ele sorriu, lembrando-se da primeira vez que a ouvira cantar, durante a pequena missão de reconhecimento de Shelby para sondar as forças e as fraquezas dos outros corais da área. Desde os primeiros acordes de 'Don't Rain On My Parade', ele fora fisgado. Ela havia cantado como se a música tivesse sido escrita expressamente para ela, fazendo o coração dele disparar enquanto imaginava os dois dividindo um palco, seu talento finalmente tendo encontrado outro à altura. Não havia questão. Ele apenas tinha que conhecê-la.
Apesar do controle que Rachel já exercia sobre ele, Jesse havia se assegurado de passar o que ia fazer para Shelby primeiro. Por mais que ansiasse por um dueto – e, se fosse honesto, por muito mais – com a belíssima morena, ele não queria arriscar seu futuro com o Vocal Adrenaline. Apesar de ele ter detectado uma leve hesitação, sua técnica no fim havia concordado que não haveria dano se ele 'dormisse com o inimigo', por assim dizer, e havia lhe dado sua bênção.
Sabendo que uma fã de musicais como Rachel certamente freqüentaria a única loja de música de Lima, Jesse começou a passar pelo local regularmente, na esperança de esbarrar 'acidentalmente de propósito' nela. Quando ela finalmente apareceu, ele havia se acostumado a gastar suas horas ali dando shows inesperados, acompanhando a si mesmo com o piano e acumulando a adoração da multidão que invariavelmente se juntava para ouvir. Então, tinha sido inteiramente instintivo tirar o livro de partituras que ela estava segurando da mão dela e tentar fazer a melhor primeira impressão possível ao cantar para ela.
Ela o conhecia de nome, e pareceu mais que um pouco fascinada por sua presença. Mas em pouco tempo, contudo, sua natureza havia emergido, e quando ela uniu a voz à dele, tinha sido exatamente como ele esperava. Sem esforço. Mágico. Absoluta perfeição. Era como se, depois de esperar a vida inteira, ele havia finalmente encontrado a pessoa que podia completá-lo em todos os aspectos. Querendo tomar vantagem da situação, ele sugeriu um encontro na sexta à noite, e ela concordou imediatamente. Indo para casa naquela noite, ele tivera certeza de que as coisas podiam apenas melhorar a partir daí.
Ele deu uma risada de desgosto. Como se tudo fosse assim fácil para ele. Apesar da aparência em contrário, a vida de Jesse não fora apenas uma série de triunfos sempre maiores. Sim, é claro, ele era o muito admirado cantor principal do coral mais importante de Ohio, abençoado com talento, beleza e fortuna, mas toda a fama e a popularidade do mundo não compensavam pela sufocante solidão que experimentara desde quando era um menininho. Ah, os pais dele adoravam o filho prodígio – isto é, à distância. Ficavam mais que felizes de matriculá-lo nas melhores escolas, pagarem pelas aulas adicionais que ele ou um professor julgassem necessárias, e assistirem as performances obrigatórias, contanto que nada disso interferisse com seu estilo de vida ao redor do mundo. Na oportunidade mais cedo possível, eles haviam jogado-o sem cerimônia na porta do tio em Ohio e, embora os tios o tratassem bem, não era o mesmo que estar cercado de pais amorosos e dedicados. Por causa desse vácuo em sua vida, ele havia se agarrado à sua técnica e colegas do Vocal Adrenaline como uma família adotiva. A opinião que tinham dele era importante – bem mais do que deveria, na verdade – então quando Shelby dividiu seu chocante segredo com ele e pediu sua ajuda, ele não podia recusar-se. No fundo, ele sabia que era improvável que tudo acabasse bem, mas ele sentiu-se dividido entre a mulher que fora como uma mãe para ele e a garota que vinha roubando seu coração um pouco mais a cada dia.
No fim das contas, quando entre a cruz e a espada, ele optara pela segurança do mundo que conhecia bem, em vez da incerteza de um futuro com Rachel, e nem um momento se passava desde então sem que ele não se arrependesse dessa escolha. Deus, ele sentia falta dela, com uma dor que era profunda e visceral. Se não fosse pelo fato de que ela não estava atualmente falando com ele, ele teria tomado um avião para o leste há semanas. Na situação atual, ele ainda não havia descartado completamente a idéia. Talvez ela tivesse se acalmado com ele no dia de ação de graças...
Olhando para o relógio ao lado da cama, ele balançou a cabeça em um esforço para focalizar sua atenção para os livros abertos à sua frente. Embora não tivesse o menor interesse em estudar no momento, lembrou a si mesmo que seria tolice, e desperdício, não aproveitar as oportunidades dadas pela UCLA – especialmente considerando o que ele sacrificara. Exatamente quando se dedicou ao que devia fazer, foi interrompido pelo zumbido de seu telefone. Abrindo-o, sorriu quando viu a mensagem que recebeu.
Ei, surfista, como a costa está te tratando?
Tudo bem. UCLA é maravilhosa. E vc? Como está o VA?
Não tão bem quanto ano passado. Vc faz falta, cara.
Tenho certeza que não é assim, Chris. Agora vc pode ter todos os solos que te negaram por tanto tempo.
Bom, já que vc falou... O Goolsby já me deu o solo em alguns números.
Que ótimo! Vc merece, depois de todo o tempo e esforço que devotou ao clube.
Era fácil ser magnânimo agora que ele e Chris não mais se batiam por uma posição no Vocal Adrenaline, admitiu Jesse, em silêncio.
Valeu.
E aí, alguma carne fresca?
Sim, e você vai amar a história.
?
É uma menina. Uma anãzinha, com uma puta voz. Entrou há uns dias.
E daí?
Ela era do McKinley.
Jesse ficou sem ar. Seria possível? Agora que ele e Shelby tinham partido, teria Rachel decidido entrar no coral que asseguraria que ela se tornasse uma campeã regional, e talvez até mesmo nacional? Apesar do que poderia parecer, ele tinha que perguntar.
É a...?
O que? Ah, não, cara. Ela não. É uma aluna de intercâmbio, das Filipinas ou algo assim. Mas está aqui por causa da Berry.
Hein?
Aparentemente a Berry ouviu a Sunshine – esse é o nome dela – cantando no banheiro das meninas, e se encrespou toda.
Isso parecia com a Rachel que ele conhecia e amava, Jesse pensou.
E?
Como um guri saiu do clube de McKinley, eles estão com um a menos, então precisam de membros novos. Rachel ofereceu um teste pra Sunshine.
Isso não explica por que ela está no VA em vez de no ND.
É porque ainda não te contei a melhor parte. A Rachel deu instruções escritas de como chegar ao teste.
Ela é tão burra que não conseguiu achar o auditório ou a sala onde o ND ensaia?
Não é isso. Ela é até bem esperta. A Rachel que deliberadamente armou pra cima dela.
Pra onde ela mandou a garota? O vestiário dos meninos?
Nada assim tão benigno. A Berry mandou a competição pra uma boca de fumo!
Café saiu da boca de Jesse enquanto ele caía na risada. Apenas seus excelentes reflexos impediram que o líquido tocasse seu celular ou teclado. Pegando um pano, ele limpou rapidamente sua mesa enquanto Chris mandava mais detalhes.
Em defesa da Berry, não era uma boca de fumo ativa.
Tudo bem então ;) Depois dessa foi fácil pro Goolsby atrair a novata pro VA.
A arte da Berry ajudou, sem dúvida, mas as vantagens de sempre do VA também não foram nada mal.
Carro novo?
Melhor ainda. Cidadania e um apartamento.
Nossa! Ela deve ser mesmo ótima.
O Goolsby quis se assegurar que o ND não criasse idéias de nos derrotar agora que vc se foi. Ter a Sunshine vai garantir nossa contínua supremacia.
Espero que o VA esmague a competição como sempre.
Pode apostar. Opa, o chefe tá chamando. Preciso voltar.
O Goolsby te deu um break tão grande? Parece um molenga comparado com a Shelby.
Não. Ele montou um número só pras meninas, então estava dispensado. Mas agora se olhar matasse... Depois.
Jesse fechou o telefone e recostou-se em sua cadeira para melhor digerir as notícias que recebera. Não pôde deixar de sorrir com malícia às ações de Rachel. Para falar a verdade, era precisamente o que ele fizera em mais de uma vez, para melhor manter moleques com ilusões de grandeza longe de se sentirem muito convencidos e pensarem que tinham a menor chance de usurparem sua posição como a principal voz masculina do Vocal Adrenaline. Sim, ele nunca havia mandado ninguém para uma boca de fumo, mas eram apenas detalhes. O impulso era o mesmo, e lhe deu infinita satisfação perceber que, como ele sempre suspeitara, Rachel era em todos os aspectos seu par ideal.
Ele especulou como os colegas dela haviam reagido a essa demonstração de insegurança – a qual, se eles a conhecessem bem, eles teriam reconhecido instantaneamente. Sem dúvida eles todos estavam recriminando-a por causa disso, criticando-a por causar-lhes a perda de uma ótima artista e de uma de suas melhores chances de bater a competição nas regionais. Eles não entendiam que não seriam nada sem ela? Era apenas por causa do imenso talento e da ambição de Rachel que o New Directions era algo mais que um triste e patético grupo de cantores.
Ainda assim... Se eles estavam criticando-a, ele sabia que ela estaria sofrendo por isso. Não podia imaginar ninguém no time apoiando-a por isso, nem mesmo aquele namorado varapau dela. Provavelmente, ela estava necessitando de um ouvido apoiador e algumas palavras de conforto. Seus olhos brilharam de malícia. Talvez havia algo que ele pudesse fazer sobre isso..
