Disclaimer: Se Saint Seiya me pertencesse, a Netflix não teria chegado nem perto…

N/A: Lembrando que In vino, veritas é uma expressão latina que quer dizer No vinho, está a verdade, no sentido de que o comportamento de alguém que está sob o efeito do álcool reflete emoções verdadeiras, talvez mais do que as que ela manifesta quando sóbria.

E vasilopita é um bolo grego, preparado tradicionalmente no Ano-Novo, com uma moeda de ouro colocada na massa. Segundo o costume, a pessoa que encontra a moeda terá sorte extra no próximo ano.

Orphelin, carneiro-beta, obrigada pelas revisões gays todas~


Num Ano-Novo Qualquer

Parte II

Aiolia soube que tinha algo errado assim que foi arrancado de seus sonhos criativos e sono profundo pela voz de Mu, que soava alta, diferente do usual.

— Ele fez o quê?

Com a mente flutuando em neblina, Aiolia afundou o rosto no travesseiro. Quem tinha feito o quê?

— Tem certeza?

Não, Aiolia pensou, desconfiando aos poucos que Mu estava conversando com uma terceira pessoa, e não com ele. Ali no quarto? Caramba…

Ou Mu estava louco e falando sozinho? Caramba!

Todos eles?

Puxa, a entonação de Mu estava indignada, o que nunca era um bom sinal. Aiolia reconheceria aquele tom de longe, pois, em geral, era direcionado a ele.

Devagar, virou-se na cama e pestanejou. Deu de cara com a longa cabeleira de Mu. Teria que se erguer para enxergar algo além. Nah, melhor não. Estava frio. Pela fraca claridade que invadia o cômodo, dava para notar que tinha amanhecido.

O que Mu fazia acordado tão cedo? E com quem falava daquele jeito?

— Você sabe como é, Aiolos…

Ah, Mu não tinha enlouquecido. Estava conversando ao telefone com seu irmão. Quê? Por quê?

Após um muito obrigado! e uma breve despedida, Mu desligou o celular. No mesmo segundo, Aiolia fingiu que ainda estava dormindo.

Primeiro, foi sacudido com suavidade. Em seguida, Mu usou mais força e Aiolia acabou abrindo os olhos com uma languidez autêntica.

— Bom dia, querido Aiolia.

Querido? Droga, estava prestes a ser repreendido.

— Lamento acordá-lo. Temos um problema.

— Não fui eu! – Aiolia saiu em sua própria defesa sem nem suspeitar do que se tratava.

— Não, não foi. O que não significa que você não tenha sua parcela de culpa. – Mu afastou parte do edredom e analisou o rosto dele. – Vejo que não acordou de ressaca. Ótimo.

— Eu bebi ontem? – Aiolia arqueou as sobrancelhas, achando melhor se sentar, e se espreguiçou.

— Com o Milo. E não foi pouco. – Mu penteou a franja dele para o lado, com os dedos, e seguiu com amabilidade: – E, em algum momento, vocês acharam que seria genial fazer uma festa para celebrar o Ano-Novo. Aqui em casa.

— Por que eu faria isso?

— É o que eu gostaria de saber. Você não só liberou nossa casa como também se esqueceu de perguntar a minha opinião primeiro.

— Ehrm…

Mu ergueu a mão e prosseguiu:

— Tudo bem, aceitável, você convidou apenas o Milo e o Camus. O problema é que o Aiolos acabou de me ligar querendo saber sobre essa comemoração. O Aiolos que, até então, não tinha nada a ver com essa história.

— Oh-owh…

— Sim, você disse para o Milo que ele podia chamar todos os nossos amigos, se quisesse. E, bem, segundo seu irmão, ele quis.

Aiolia praguejou baixinho. Sempre dava para contar com o pior melhor amigo para colocá-lo em encrencas.

— O Aiolos me ligou porque ele é um excelente melhor amigo, que, conhecendo o irmão que tem, estranhou esse convite repentino. Você não imagina o quanto estou grato a ele. Do contrário, eu teria uma surpresa enorme. Está óbvio que você nunca iria se recordar do que aprontou.

— Ahn…

— Agora que a suposta reunião entre quatro virou uma festa de fato, diga-me: como vamos organizá-la?

Aiolia bocejou e, como recompensa, recebeu um peteleco na testa.

Ouch! Foi mal. A gente pode discutir outra hora? Não sei como resolver isso e ainda é tão cedo. Quero dormir.

— E eu quero te jogar pela janela.

A maioria das pessoas, ponderou Aiolia, usaria um timbre furioso em uma frase daquelas. No entanto, Mu, sendo Mu, afirmou aquilo com toda a serenidade.

— Vejamos… – Aiolia esfregou o rosto, desgrenhando a franja inteira. – Basta falar pra todo mundo que desistimos, não? Ninguém vai estranhar. Eles conhecem bem o Milo e eu.

Eles diriam claro, outra invenção brilhante daqueles dois, nada de novo sob o sol, e ponto final. Nenhuma frustração.

— Acontece qu-…

— Resolvido! – Aiolia o envolveu com um braço e voltou a se deitar, levando-o junto.

Em silêncio, Mu aninhou-se sobre ele e começou a enrolar uma mecha daqueles cabelos castanho-dourados entre os dedos. Depois outra mecha e outra.

Aiolia ronronou e entreabriu os olhos.

— O que foi, Mu?

— É que você queria essa confraternização. Ficou bastante animado quando eu concordei.

— Se eu estava bêbado, como você diz, minha animação nem fazia sentido.

— Imagino, mas, como o Aiolos diz, In vino, veritas. Você quer reunir nossos amigos aqui. Eu entendo que desde que estamos morando juntos não tivemos essa oportunidade.

— Espera aí. Está disposto a festejar?

— Não no Réveillon. Podemos fazer no meio de janeiro.

— Mu, se é pra festejar, vamos fazer logo isso. Comemoramos o Ano-Novo e começamos o ano nos divertindo. Acho que dá.

Mu hesitou.

— Talvez… Talvez seja possível, sim…

Ano-Novo não demandava o trabalho de preparar uma superceia caprichada. Em geral, a casa vivia limpa e organizada – na medida do possível, porque Aiolia tendia a bagunçar –, portanto, havia pouco a arrumar para receber visitas. Por outro lado, precisariam de copos e talheres extras, e…

— Opa. – Aiolia alcançou o celular na mesinha de cabeceira depressa. – Whoa! Já fizeram até um grupo com todos que confirmaram. Vamos pedir pra cada um trazer algo. Vai diminuir nosso trabalho.

— É o jeito, embora eu suspeite que a quantidade de bebidas vá prevalecer sobre a de comidas.

Aiolia deu de ombros, murmurando um simples c'est la vie – reflexo da convivência com Camus e Milo.

— Como me induz a seus planos duvidosos com facilidade, Aiolia?

— Você adora. – Deu um beijo no topo da cabeça de Mu. – Sua vida era um tédio antes da minha gloriosa presença, admita.

Apesar de tê-lo fitado com severidade, Mu não discordou. Tampouco admitiu.

— Bom, permanecemos tendo muito a fazer. – Levantou da cama, gesticulando para que Aiolia o acompanhasse.

— Eu ainda quero dormir!

Mu abriu a janela, inundando o quarto com uma luz ofuscante e uma brisa gélida.

— Aff… Okaay, posso aguentar o sono se rolar uns amassos. Que tal?

— Quem sabe depois. – Puxou o edredom de cima de Aiolia e sorriu. – Se você levantar agora e fizer tudo direitinho, digo.


Mu apoiou o celular entre o rosto e o ombro, para ficar com as mãos livres, e bufou de leve.

— Como é que você sempre perde a lista de compras? – De forma mecânica, pegou a jaqueta que Aiolia abandonara no sofá e a agitou. – Eu o alertei a tirar uma foto dela por causa disso.

Esqueci. Estou atordoado de sono porque você me acordou supercedo! Diz o que é pra eu comprar

Debaixo da jaqueta havia um caderno. Mu olhou ao redor. Era impressionante a quantidade de coisas que surgiam nos cômodos errados da noite para o dia. Precisava arrumar tudo aquilo para deixar a casa pronta – algo complicado, visto que seu doce namorado não era sequer capaz de fazer as compras sozinho.

— Hmm, são vários itens. Os ingredientes para o vasilopita, romãs e… e… não vou lembrar todos assim, de súbito. Espere um instante. Daqui uns minutos, eu mando a lista inteira.

Naah, o que eu vou ficar fazendo aqui no mercado?

— Céus, eu falei minutos. Oh, estão me ligando, comporte-se. – Mu encerrou a ligação, antes que viessem os protestos, e atendeu a nova chamada. – Bom dia, Shion.

Sim, explicou ao irmão, a celebração tinha sido uma das ideias tortas de Aiolia. Sim, organizando certinho, achava que seriam capazes. Não, não precisava de ajuda. Dariam conta sozinhos. Sim, ia ser complicado. Não, não pretendia punir Aiolia pelo transtorno. E como é que estava o Dohko? Os dois viriam no Revéillon?

Nesse ritmo, o assunto se desenrolou. Mu se distraiu tanto que se surpreendeu apoiado contra uma parede em vez de retomar a arrumação da sala. Deu um tapinha na própria testa ao se despedir de Shion. Também não tinha mandado a lista para Aiolia.

Mal precisou procurar para encontrar uma caneta abandonada no chão. Mu aproveitou o caderno para anotar o que era preciso, conforme vasculhava a cozinha para relembrar o que tinha marcado da primeira vez.

Não chegou a fotografá-la para enviar a Aiolia. Ele apareceu antes.

— Já? – Mu verificou a duração da conversa com Shion. Cerca de vinte minutos. E tinha certeza de que não gastara mais do que cinco escrevendo. – Foi tão rápido. O que é que você comprou? Ou deixou de comprar?

— Hey, você não mandava a lista nunca. Eu comprei o que lembrei e umas outras coisas que deram vontade. – Aiolia piscou para ele e foi para a cozinha colocar as sacolas em cima da mesa.

Mu o seguiu, seus olhos se estreitando ao checar os produtos, um por um. Ele não tinha trazido quase nada que era necessário.

— Só se passaram uns vinte e cinco minutos. Você não podia ter esperado?

— Se for ver, eu esperei demais até. Tenho a sensação de que fiquei horas lá. – Aiolia ergueu uma caixa e sorriu com uma satisfação evidente. – Cereais coloridos!

O olhar de Mu atravessou a janela da cozinha, perdendo-se no céu frio e cinzento. Em outros lugares do mundo, havia pessoas vivendo em paz. Do tipo que acordavam e adormeciam com a certeza plausível de que não seriam levadas a concordar com alguma proposta festiva sem sentido e propensa ao desastre.

Tais pensamentos trouxeram uma leve sensação nostálgica.

Soltou um suspiro filosófico. Por que desejara tanto viver com aquele impaciente? Hmm… Ah, sim. Estava apaixonado por ele. Queria ter adivinhado que aquilo significaria ter rompantes de insanidade. Será que conseguiriam celebrar aquele evento sem prejuízos – materiais e mentais?

— Certo… – Mu massageou as têmporas, voltando a si a tempo de observá-lo desempacotar outras tranqueiras. – Vamos voltar ao mercado. Dessa vez, vou com você.

Voltar? Por quê?

— Querido… Você não pretende servir cereais no Réveillon, pretende?

Aiolia mordeu o lábio inferior. Seu olhar foi de Mu para a caixa em suas mãos, retornou para Mu e de novo para a caixa.

— Ué… Aposto que todo mundo gosta de cereais coloridos. São os melhores!

Com os anos de namoro, Mu vinha desenvolvendo uma espécie de muralha mental contra absurdos. E por mais que ela falhasse às vezes e precisasse ser aprimorada, daquela vez funcionou. Continuou a falar como se não tivesse escutado:

— Se formos rápidos, acho que estaremos de volta próximo ao meio-dia.

Aiolia fez um muxoxo.

— Não posso ficar em casa arrumando enquanto você vai?

— Prefiro não correr o risco de chegar e você ter destruído algo, como costuma acontecer… – Mu pegou a lista e empurrou as costas dele, guiando-o em direção à porta. – Vamos. Cheguei a arrumar uma parte. Quando voltarmos, terminaremos juntos.

Com ambos fazendo as mesmas atividades, era possível que economizassem tempo. Cada um agindo em separado não estava funcionando como tinha planejado.

O pior é que tinha lá suas dúvidas em relação a trabalhar em equipe ser a melhor opção.

Continua…


N/A: Para a sorte do Mu, o Aiolos o salvou de uma enrascada, como o herói que ele é xD -q

Que tal esse capítulo? :3

Obrigada pelas reviews: Svanhild, Diana Lua e Orphelin~

Feliz Ano-Novo!