Era começo de noite e eu já estava começando a achar que eu estava ficando louca. A sombra estava em todo lugar! Estava na minha janela, ou então no quintal ou se não na cozinha... Estava começando a ficar preocupada de verdade.
Depois de comer subi para meu quarto, me ajeitei e deitei na cama, porém não conseguia dormir... Aquela sombra. Será que estou imaginando coisas? Será que eu estou sendo perseguida? Essas perguntas atormentavam minha cabeça.
Meu quarto pequeno de repente pareceu gigante e escuro, muito escuro, e frio. Eu me sentia perturbada, sozinha, ameaçada e com medo. Virei-me de cara para o travesseiro e me cobri até não sobrar nenhuma parte minha a vista. Uma bobagem é claro. O medo não pararia somente com um ou dois pedaços de pano como barreira. Ouvi o barulho de minha tranca, logo um facho de luz percorreu meu quarto e se apagou. Alguém tinha entrado.
Silenciosa, porém rapidamente eu me virei, esperando encontrar um assassino com uma serra elétrica, ou um tigre, ou um tigre segurando a serra elétrica. Mas tudo o que eu encontrei foi meu pai, que estava tentando alcançar meu estoque quase secreto de chocolate em meu guarda roupa. Aha! – pensei – É por isso que eles têm acabado tão rápido ultimamente. Mas resolvi deixar isso quieto, resolveria amanha.
Meu pai comeu alguns bombons e voltou para seu quarto, ou para a sala, ou para qualquer outro local aonde meu pai ia. Eu não tinha muito contato com ele já que ele trabalha muito.
Assim que a porta se fechou atrás daquele corpo alto e desajeitado a sombra voltou, mas agora não como uma sobra, um vulto, de cabelos brancos.
- Q- Quem está ai? – bela pergunta, Júlia! Um ladrão psicopata, mas não precisa se preocupar não, eu só vou pegar suas coisas e te espancar até a morte...
O vulto parou, se tornando uma figura, pouco visível na escuridão, mas eu consegui ver a forma de um humano, um pouco maior que eu. Ele se aproximava de mim a medida em que eu ia me arrastando em minha cama, até bater de costas com a parede. Joguei minha mão para trás a procura do interruptor e quando eu finalmente o encontrei o vulto estava perto o suficiente para me tocar. Liguei as luzes e dei de cara com algo que eu não esperava. Um menino.
Aquele menino era simplesmente lindo. Seus olhos azuis se destacavam em seu rosto pálido e combinavam com seu casaco com riscas brancas, parecidas com os desenhos em flocos de neve, em filmes. Seus cabelos eram tão brancos que pareciam tingidos, suas sobrancelhas eram marrons, o que só ajudava na minha hipótese. Sua boca era fina e seu rosto era meio oval. Bem, ele era lindo, mas isso não mudava o fato de que ele estava a poucos metros de mim, no meu quarto e que eu não o conhecia.
Ele me olhou com desconfiança e se afastou um pouco, depois acenou com a mão livre, a outra segurava um cajado. Eu acenei de volta. Ele sorriu.
- Sabia. – ele riu, tinha uma voz tão... Tão. Arrg, que voz sexy – Você me enxerga! Você acredita em mim!
- Bem – eu falei meio baixo – É difícil ignorar um cara, parado no meio do meu quarto, que, por acaso, eu não conheço.
Mas uma vez ele riu, depois deu uma cambalhota no ar, foi ai que eu percebi, o garoto flutuava. Isso, definitivamente estava me assustando.
- Quem é você? – minha voz saiu um pouco tremida.
- Eu? Sou Jack Frost...
Eu ri, não tinha alternativa.
- Certo, certo. Se você é o Jack Frost eu sou o papai Noel.
- Uhm – ele me avaliou pensativo – Não... Eu o conheço e, acredite, você não é nada parecida com ele.
- Vou levar isso como um elogio... – eu sabia o que deveria fazer, tinha um louco que falava ser Jack Frost no meu quarto e meu celular estava a poucos metros de mim, tinha que chamar a policia.
Ele me olhou desconfiado
- Você acredita no Jack Frost, não é? – ele perguntou
- Sim, mas... – não tive tempo de terminar, o suposto Jack sentou na minha cama e apontou para minha janela. Lindos desenhos começaram a sair de lá, até que eu senti algo muito gelado em minha cabeça. Olhei para cima, estava caindo neve somente em uma parte do meu quarto.
- Acredita agora? – ele riu e pegou em minha mão, seu toque era incrivelmente quente.
Eu ri, isso era mesmo possível? Jack Frost, aqui? Ele deu um daqueles sorrisos tortos, lindos, com o qual eu logo me acostumei.
- Não – falei, ele pareceu desapontado.
- Vou lhe fazer acreditar, então.
Daquela noite eu já não lembro muita coisa, logo que ele disse isso apareceu algo dourado, não algo, mas alguém e meus olhos foram ficando pesados, ouvi vozes, e a ultima coisa que eu vi foi Jack com uma caneta e um papel na mão. Aquele dia mudou tudo, mas eu ainda não descobri se foi para melhor ou para pior.
Acordei meio zonza, onde eu estava? Tentei fazer como fazia todas as manhas, passar o repertorio inteiro da minha vida na cabeça: Meu nome é Julia, moro em uma cidadezinha no meio do nada, com os meus pais e minha vida é normal. Vou para a escola, saio com meus amigos, tenho problemas em casa...
Virei-me para pegar meus óculos, que descansavam na minha mesa de cabeceira. Não me lembrava de tê-los deixado lá. Coloquei meus óculos e me deparei com um bilhete.
"No lago, as sete".
Era tudo o que ele dizia. Comecei a me lembrar: o vulto, o garoto, Jack Frost, homem dourado, vozes... Tudo parecia um sonho tão distante, mas ainda havia aquele bilhete para me provar de que tudo fora real.
As palavras ficaram ecoando na minha mente, com a Sua voz: "No lago, as sete. No lago, as sete"
