********************Cap 2 Pornô para virginianos.***********************

O clima não poderia estar mais perfeito!

Era a hora!

Foi pensando nisso que Mu, vendo que já estavam estirados sobre o tapete felpudo enquanto tomavam uma taça de vinho, tomou coragem e se levantou para ir apanhar o presente deixado sobre a estante.

— Shaka... — ensaiou dizer algo, mas suas mãos tremiam e sua voz falhava.

O cavaleiro de Virgem olhou para ele e balançou a cabeça sutilmente, à moda indiana, como quem faz uma pergunta.

— Sim... é... bem — o lemuriano caminhava de volta enquanto tentava encontrar as palavras certas a dizer —... Esse ano eu quis te fazer algo diferente, algo que te impressionasse. Sabe que sou um pouco tímido, mas você sempre faz umas surpresas tão incríveis para mim que eu senti a necessidade de retribuir.

Mu olhou para o loiro e novamente Shaka o questionou apenas com um sutil chacoalhar de cabeça, cuja intenção foi captada de pronto pelo lemuriano.

— Ah, sim, precisava sim! Bom, é de comum acordo que eu não sou nenhum dançarino, loiro, indiano e sexy, então... Bem, eu fiz... isso. — estendeu para ele o embrulho.

Shaka o tomou nas mãos colocando a taça de vinho ao lado para começar a desembrulhar o pacote com ansiedade.

Executava a operação com tanta minúcia, puxando cuidadosamente as fitas colantes, primeiro de um lado, desdobrando o papel, depois do outro lado, desamassando a dobradura e puxando as pontas para fora, que ao observa-lo Mu já suava frio, angustiado com aquela demora.

Áries já pensava em arrancar o maldito pacote das mãos de Shaka para rasgar aquele o papel com os dentes quando finalmente o loiro revelou o conteúdo.

— Um DVD? — disse Virgem surpreso, depois leu o encarte na capa em voz alta — Para meu amado virginiano. Cuidado! Contem cenas fortes!

Shaka então dobrou o papel e o colocou do lado, no chão.

Ainda olhando para o DVD em suas mãos, arqueou uma sobrancelha e então ergueu o olhar para Mu.

— Mu de Áries, não me diga que isso é um filme mundano de pornografia. — disse em tom sério.

— Não... é... bem... pode ser... mas não é... é como se fosse. — Mu respondeu sentindo seu rosto queimar e a boca secar, tamanho seu nervosismo e vergonha.

— Como assim, como se fosse? — Virgem questionou.

— É que fui eu quem fiz... Para você.

Shaka arregalou os olhos, chocado.

— Você fez um filme mundano pornográfico... para mim?

— Não! — Mu quase gritou, aflito — Quer dizer, sim. Eu fiz, mas... Não é um filme mundano é... um pornô para virginianos... Mais especificamente um pornô para o meu virginiano... Olha, é melhor por logo... que... que você vai entender, luz da minha vida!

Um silêncio se fez entre eles.

Shaka encarava o rosto corado de Mu ainda processando o que ele acabara de dizer, até que sem paciência e aflitíssimo o lemuriano pegou o DVD das mãos do indiano e foi até a estante.

Com pressa para acabar com aquele silêncio e com o mistério todo antes que a coragem lhe faltasse, Mu desligou o som, ligou a televisão e colocou o disco no leitor do aparelho de DVD.

Rapidamente voltou para onde estava e sentando-se ao lado de Shaka com o controle nas mãos.

— Preparado? — disse olhando para os olhos azuis curiosos.

— Mas é claro que sim! Anda com isso, por Buda! — respondeu Shaka.

Mu apertou o play.

Então na tela da televisão surgiu o cavaleiro de Áries.

Estava sem camisa e vestia um shortinho bem curto, branco, de algodão, o mesmo que Shaka usava para fazer faxina em seu Templo. Na cabeça tinha um lenço que lhe mantinha os cabelos presos e nas mãos um par de luvas de borracha de um tom amarelo limão vibrante.

O cenário era o banheiro do Templo de Virgem, e a trilha sonora ficava por conta da sensual canção de George Michael, Careless Whisper.

A gravação era, obviamente, caseira, feita pelo próprio Santo de Áries com auxílio de um tripé.

Enquanto olhava para a câmera com o melhor apelo sensual de que fora capaz alcançar, Mu segurava uma garrafa de água sanitária enquanto lentamente despejava o alvejando no piso absurdamente branco. Em seguida ficou de quatro e passou a esfregar o chão com uma escovinha de limpeza.

"Veja, Luz da minha vida!... O banheiro, eu lavei ele todinho!"

Dizia o ariano fazendo uma voz sensual, sussurrada, entre um close e outro.

"Está vendo o rejunte? Limpei todo ele... com escovinha! Aaaahh... Humm."

Gemidos, sussurros, arquejos, saiam da boca de Mu e se juntavam à melodia erótica de George Michael.

Um rápido corte na cena e agora o cavaleiro de Áries aparecia na lavanderia do sagrado Sexto Templo.

A música de fundo continuava ininterrupta, dando o clima erótico pretendido, enquanto Mu, agora só de cueca e ainda com o lencinho na cabeça, se posicionava ao lado e uma enorme pilha de roupas para passar, muito bem organizada em cores.

Sempre olhando para a câmera, Áries ajeitou uma calça de linho sobre a mesa de passar, e com um cuidado quase cirúrgico deslizava o ferro a vapor em uma das pernas da calça.

"Esta vendo, meu amor? São vincos!... E estão perfeitos!"

Fora da tela da televisão, sentado sobre o tapete felpudo, rijo e imóvel feito uma estátua de cera, Shaka assistia aquilo boquiaberto, bestificado.

Se fosse capaz de executar qualquer movimento que fosse, talvez retirasse seu próprio sentido da visão, se privando de olhar para... "aquilo".

Seus olhos azuis lacrimejavam, já que assistia a tudo sem ao menos piscar, vidrado, não devido ao erotismo proposto, mas porque sua mente tentava decifrar o que os olhos viam.

Era um vídeo de Mu fazendo faxina... de cueca?

Era para ser... sensual?

Enquanto no filme Mu passava a calça a ferro e vapor, remexendo-se e fazendo trejeitos mil, a cabeça de Shaka trabalhava de forma prática.

De fato havia notado que o rejunte do banheiro estava mais claro naquela semana. Também, com tanto alvejante...

Já os vincos das calças estavam tortos, todos eles, e assistindo ao "filme" soube o motivo. Mu os estava passando com o lado errado do ferro.

A cena lhe causava tanto desconforto, que Shaka teve uma crise de coceira no queixo.

"Buda! Como que ele não percebeu que é com o bico do ferro que se faz o vinco e não com a parte de trás!" — pensou, raspando as unhas no queixo num gesto de nervosismo e aflição, mas ficaria ainda mais tenso ao ver a cena que se seguiu na tela da TV, a qual lhe fez esquecer dos vincos tortos.

Mu agora estava em frente à mesa do escritório.

Novamente vestia o short surrado de Shaka para fazer faxina.

Nas mãos trazia um frasco de lustra moveis e um pano de limpeza.

Sobre a escrivaninha era possível ver uma fileira grande de lápis de cor, todos organizados em ordem a começar pelos tons quentes e terminar pelos frios.

"Eu lustrei escrivaninha toda."

O ariano disse enquanto passava o pano besuntado de lustra móveis na madeira de forma provocante, remexendo o corpo todo e olhando para a câmera.

"E olha os lápis!... Estão em sistema pantone de cores... Hmmm"

Enquanto as cenas corriam na tela, um ariano muito angustiado olhava com o canto dos olhos para o marido a seu lado.

A aura de Shaka, e também suas expressões, não condiziam com o esperado por Mu, e isso estava lhe causando extrema aflição.

Shaka era um homem extremamente obsessivo por limpeza e organização.

Vivia dizendo que arrumar, limpar e organizar lhe causava prazer e satisfação, e que se não pudesse fazê-lo, ao contrário, sentia angústia e desconforto.

Áries então havia tentado explorar essa compulsão do marido no intento de seduzi-lo, e pensou em fazer isso criando uma espécie de filme pornô para pessoas que sofriam de Transtorno Obsessivo Compulsivo, usando a si mesmo como astro principal.

Sem dúvida, uma péssima ideia.

Vendo a reação de Shaka, Mu começou a se sentir extremamente envergonhado com o que passava na tela da televisão, mas como ambos se mantinham calados, meio que paralisados, cada qual com seu motivo, continuaram a assistir ao vídeo.

Na cena seguinte à do escritório com os lápis organizados, Mu aparecia vestindo um avental de cozinha, e nada mais.

Fato que se evidenciou quando o ariano virou-se de costas para a câmera e suas nádegas nuas puderam ser vistas enquanto ele caminhava até a dispensa.

Abriu uma das portas de um grande armário de madeira com entalhes delicados de flores de lótus e pavões e chamou a atenção para as inúmeras caixinhas de chá dentro dele.

"Hmmm... Todas ordenadas em ordem alfabética!"

Disse num sussurro, voltando a olhar para a câmera, então esta fez um close de seu rosto.

"Eu conferi Shaka, uma a uma... T-R-Ê-S V-E-Z-E-S!"

Falou pausadamente, já que Virgem sempre conferia três vezes tudo que fazia.

Olhar para as nádegas branquelas e tão bem definidas do ariano foi a gota d´água para Shaka, que assim que as viu balançar macilentas conforme Mu caminhava, levou ambas as mãos ao rosto e cobriu a boca aberta, em choque.

Então nessa hora Shaka virou a cabeça lentamente para o lado e encarou os olhos de Mu, muito sério, que o olhou de volta mortificado.

— O que pelos seis Infernos de Samsara, a Roda das Encarnações e todas as divindades do Ganges, significa isso, Mu de Áries? — disse o virginiano estupefato.

Mu continuava encarando o indiano sem saber o que responder.

— O que... Pelas lótus do descanso de Buda, o que você quer... quis... pretendia com isso? — disse Shaka apontando para a tela da televisão, a qual agora exibia uma cena do Santo de Áries alinhando a ponta do papel higiênico com a linha da fileira de azulejos enquanto olhava para a câmera passando a língua entre os lábios.

— É... é assim que você me vê? — Shaka o questionou, franzindo as sobrancelhas — Me vê como... como um faxineiro maluco e... erótico?

— EU? N-não... eu... — Mu gaguejou aflito.

— Mas pelo que está me mostrando ai... — apontou para a televisão novamente, começando a se sentir irritado —... Se isso não é para tirar um sarro da minha cara é para que? Para me mostrar que sou o tarado da vassoura e do escovão? Por Buda, Mu de Áries!

Shaka então se levantou do chão e pegou, apoquentado, a garrafa de vinho que estava na mesinha ao lado.

Nem se deu ao trabalho de usar a taça, tomou um generoso gole da bebida no gargalo mesmo.

Mu pensou em conversar com ele, mas não conseguiu.

Estava constrangido demais, arrependido demais. Até queria se explicar ao amado, tirar o DVD, fazer qualquer coisa, mas sentia-se tão estupido que apenas olhava para Shaka com o canto dos olhos sem conseguir ao menos encara-lo, olho no olho.

Para seu completo embaraço outra cena surgia na tela.

Ao som romântico do saxofone, no vídeo Mu agora usava uma cueca boxer preta enquanto terminava de organizar as túnicas de Shaka em seu closet.

"Luz da minha vida, elas agora também estão em escala pantone!"

Disse dando uma piscadinha para a câmera, depois caminhou até a penteadeira do virginiano e abriu uma das caixas de madeira onde ele guardava suas joias.

"Organizei todas elas por tamanho, modelo, cor e material... Hmmm, e sabe o que mais?"

Agora caminhava até a janela e a fechava. Depois, caminhou até o closet e também o fechou. Por último, agachou-se ao lado da cama e conferiu se não havia nada em baixo, nenhuma ameaça fantasmagórica ou peça de roupa suja.

Repetiu isso três vezes. Janela, closet e cama. Então deitou-se no leito de bruços e olhou para a câmera fazendo uma expressão sensual.

"Viu? Eu conferi tudinho, amor... Três vezes!... Você está seguro!"

Aquilo foi o limite para Virgem que de pé, com a garrafa de vinho na mão, olhava para a televisão sentindo a pálpebra de seu olho esquerdo dar pulos repetitivos.

Shaka jamais pôde imaginar que até mesmo o número de vezes que conferia se a porta do closet estava fechada, ou se havia algum inseto, objeto, assombração ou corpo estranho debaixo da cama Mu havia reparado.

Não achava que seus rituais, ou manias por assim dizer, fossem tão exagerados e repetitivos a ponto de Mu reproduzi-los tão bem.

Bem, não tão bem assim, já que os vincos passados com o lado errado do ferro estavam um verdadeiro horror.

Shaka estava confuso com aquilo.

Afinal Mu estava tirando um sarro de suas manias, estava tentando lhe mostrar que precisava de ajuda médica de uma maneira bem humorada, ou realmente estava tentando seduzi-lo com aquilo?

O pior é que, por mais esdruxula que fosse a ultima opção, era a ela que Shaka atribuía legitimidade, uma vez que o rosto vermelho como pimentão de Mu, somado ao seu desconforto explicito, não deixavam duvida.

Foi considerando a última opção que rendeu-se e riu divertido.

— Por tudo que é mais sagrado, Mu. — pousou a garrafa de vinho sobre a mesinha, rindo ainda mais — É mesmo sério isso? É... isso é um vídeo erótico?

Mu baixou a cabeça em desconforto.

— Era para ser. — disse em voz baixa.

Ainda rindo, Shaka caminhou trôpego de volta ao centro da sala e se jogou sobre as almofadas ao lado do ariano.

— Mas que ideia torta, amor! — ria ainda mais depois da confissão do ariano — Não... Eu não estou acreditando que você... que você achou que isso seria erótico! — ria tanto que seus olhos chegavam a ficar marejados, mas percebendo o incomodo do outro tentou ficar sério e retratar-se — Não! Espera... Eu... eu gostei. Sim eu... gostei... Afinal você teve todo um trabalho de filmar e atuar... De tentar ser... sexy.

Não aguentou e desandou a rir novamente, dessa vez se jogando de costas do tapete.

— Ai Budaaaaa! Shaka vai rir disso até as próximas vinte encarnações dele na Terra! — dizia o loiro quase afogando-se em risadas.

Mu por sua vez, não estava achando graça nenhuma.

Toda vergonha e constrangimento que já sentia triplicaram com aquela reação de Shaka.

Desejou morrer ali mesmo, ser tragado por um buraco negro e desaparecer, enfiar-se no fundo de uma cova.

Sentiu-se ridículo e humilhado.

Que Shaka fosse achar graça isso Mu já esperava, mas que fosse rir daquela maneira, a ponto de perder o fôlego, e estirado nas almofadas, era uma reação demasiadamente exagerada.

Com o rosto vermelho feito um tomate, o Santo de Áries se levantou do chão e às pressas desligou a televisão.

Estava trêmulo e perturbado.

A reação de Shaka o magoou profundamente, porque mesmo sendo uma péssima ideia a tivera na intenção de agradá-lo, e a executou com todo capricho.

Havia tentado retribuir as surpresas sensuais que o loiro fazia para si, e as quais ele jamais recebera com risadas e deboches.

Calado e zangado, Mu guardou rapidamente o DVD dentro da capa e com a face adoravelmente emburrada e corada passou por Shaka lhe lançando um olhar dardejante.