Ron pareceu relaxar mais depois de nossa conversa. Ele começou a reclamar que o carrinho de doces não passava pelo vagão dos monitores, e estava esperando pelo banquete de início do semestre em Hogwarts.
– Será que você não pensa em nada que não seja comida? – Eu lhe perguntei, enquanto ele abria a porta para o grande compartimento.
– Bem, eu penso sobre Quadribol bastante também, e de vez em quando eu considero pensar em outras coisas. Isso conta? – Ele perguntou, sorrindo.
– Não, não conta – Eu rebati. – Talvez se você pensasse mais em outras coisas, não ficasse com tanta fome frequentemente. – Ele mostrou a língua para mim, e eu ri enquanto sentávamos em nossos lugares de costume no espaço semi-apertado. Eu não tinha notado até aquela hora o quão quieto ali estava. Olhei em volta só para checar que não tínhamos sido os primeiros a chegar, o que era altamente improvável. Certa disso, avistei Ernie McMillan e Hannah Abott da Lufa-Lufa, e Padma Patil e Terry Boot da Corvinal. Os únicos lugares de monitores não-presentes ainda eram os da Sonserina. Que típico.
– Teve um bom verão? – Eu perguntei à Padma, que era a mais próxima de mim. Ela me olhava como se outra cabeça tivesse crescido em mim, mas educadamente respondeu minha pergunta.
– Ah, sim. E você? – Ela indagou. Sua voz soou engraçada; um pouco distante, para dizer a verdade. Terry olhava para mim como se nunca tivesse me visto antes. Ernie começara a falar com Hannah, mas os dois continuaram a lançar-me olhares furtivos de vez em quando.
Honestamente, isso não foi tão ruim quanto eu esperava. Eu não queria a atenção, disso eu estava certa. Mas não foi tão ruim quanto às primeiras impressões dos meus amigos; eu ligava para o que Harry, Ron e Ginny pensavam muito mais do que qualquer outra pessoa. Eu ponderei vagamente se era assim que Harry se sentia com toda aquela fama e atenção que tinha adquirido.
Percebi que Padma ainda esperava uma resposta.
– Minhas férias foram tudo bem... – Eu disse indiferentemente. Era meio estranho conversar daquele jeito com Padma, que sempre foi uma boa conhecida. Se eu tivesse ido para a Corvinal, eu ouso dizer que teríamos acabado melhores amigas. Mas sua súbita atitude para comigo me desanimou. Quantas outras situações como essa eu teria que enfrentar?
Antes que eu pudesse falar com ela sobre isso, no entanto, a porta do compartimento abriu-se e o Monitor e Monitora Chefa entraram. O Monitor Chefe era um sétimo-anista da Grifinória, chamado Thomas Leale, que era uma versão mais legal e menos agitada de Percy Weasley. Ele tinha até mesmo óculos com aros de chifre. A Monitora Chefa era uma sétimo-anista da Corvinal, chamada Vivica Cerdas.
Thomas olhou em volta. Pausou-se momentaneamente em mim, mas não fez comentários ou agiu muito diferente. Vivica não olhou para nenhum de nós, mas sentou-se quietamente em seu assento na frente do compartimento.
– Onde estão Parkinson e Malfoy? – Thomas perguntou. Como se algum de nós soubesse. A maioria das outras casas criou um hábito de não se associar muito à Sonserina. Eu esperava silenciosamente que os dois, de algum jeito, tivessem perdido o trem ou não seriam incapazes de vir à escola esse ano, ou até nunca mais. Infelizmente, minhas esperanças desapareceram quando, momentos depois, eu ouvi a voz arrastada de Draco Malfoy.
– Não use sua varinha em vão, Leale. Estamos bem aqui. – E com isso, Malfoy entrou na sala, Pansy pendurada em seu braço. Ele agia como um príncipe indo ao encontro de seus malditos súditos. Como se tivéssemos que nos sentir agradecidos que ele se incomodara em nos gratificar com sua presença idiota.
Eu notei que Pansy, inusitadamente, não usava uma camada de batom recém-aplicado. Meu olhar viajou pelo resto dela: seu cabelo, que normalmente caia reto, estava bagunçado em alguns lugares. Sua camiseta tinha os dois primeiros botões desabotoados, como se ela a tivesse colocado com pressa. Malfoy não parecia muito melhor. Seu cabelo normalmente arrumado estava desalinhado, como se alguém tivesse corrido os dedos entre seus fios, e eu pensei ter visto uma marca de batom rosa brilhante no canto de seu pescoço.
Qualquer um adivinharia o que eles estiveram fazendo. O olhar no rosto de cada um ao meu redor mostrou o mesmo senso de desaprovação que eu estava sentindo.
– Desculpe, estamos atrasados. – Pansy disse, dando risadinhas. – Estávamos um pouco... er... ocupados. – A declaração implícita foi tão pouco escondida que eu fiquei surpresa que os Monitores Chefes não tenham dito nada. Inferno, por que ela não ia logo em frente e dizia ao mundo inteiro que ela era uma puta? Todos já sabíamos do mesmo jeito. Chacoalhei minha cabeça. Eu não daria nunca, nunca, um motivo para as pessoas pensarem aquilo de mim.
Draco esparramou-se em seu assento. Pansy sentou-se mais graciosamente. O resto de nós estava extasiado com o que o Monitor Chefe diria; Pansy examinava suas unhas, enquanto Draco girava sua varinha preguiçosamente. Criancinhas ingratas e insolentes. Era isso o que eram. Oh, como eu queria que o Professor Dumbledore tirasse os distintivos deles...
– Nós temos muitos trabalhos previstos pelo ano à frente, mas como todos sabem, algumas vezes, coisas com o que não estamos preparados acontecem. – Thomas dizia. – E enquanto Vivica e eu – Ele inclinou seu rosto na direção dela, que sorriu fracamente. – trabalhávamos durante quase todas as férias para conseguir um horário de patrulhas que funcionasse com todos, nós descobrimos que não seríamos capazes disso. Entre Quadribol, grupos de estudos e outras atividades que vocês nos avisaram por meio de corujas, nós não conseguimos fixar um horário a vocês. Entretanto, seu horário deve ser pregado em suas Salas Comunais toda Sexta-feira à noite, assim estarão prontos na Segunda-feira se ocorrerem mudanças. – Ele se sentou, seu discurso terminado, e Vivica ficou graciosamente de pé.
– Eu sei que todos vocês querem ir bem em suas NIEM's esse ano, então nós tentamos fazer os horários o mais compatível o possível entre todos, mas nem sempre vocês farão par com seus companheiros de mesma casa. – Sua delicada voz carregou o compartimento. Vivica começou a lista todos os trabalhos que também faríamos esse ano: ajudar a decorar o castelo, ajudar o Sr. Filch de todos os jeitos possíveis, guiar os primeiro-anistas... Eu parei de ouvir naquele ponto, porque senti alguém me encarando. Eu me empurrei mais para trás no assento, e mais perto das sombras. Esperei que a sensação fosse embora, mas ela não foi. Não pude agüentar mais, e finalmente me forcei a olhar para aqueles olhos cinza metálicos que eu sabia que teria de lidar alguma hora.
Malfoy olhava para mim do outro lado do compartimento. O que me espantou foi que seu olhar não era malevolente. Não era apreciativo, como os que eu recebi dos garotos em seus compartimentos enquanto fazia meu caminho com Ron pelo trem. Seria melhor descrever como se ele estivesse pensado profundamente. Talvez até um pouco frustrado. Muito bem. Eu sabia que ele não ousaria me insultar na frente dos Chefes, porque isso o levaria a uma detenção imediata, o que contava como parte da frustração. Seu pequeno cérebro tamanho ervilha estava provavelmente pensando em insultos para mais tarde.
Ok, eu não estava sendo muito justa. Malfoy não era tão inteligente como eu, mas também não era burro. Eu, de má vontade, tinha que concordar com isso. Sim, ele era um pirralho mimado. Sim, ele fez coisas horríveis comigo e meus amigos. Sim, ele me atormentou basicamente todos os dias desde minha primeira noite em Hogwarts. Mas pessoas inteligentes eram pessoas inteligentes, e mesmo que eu o odiasse ou não, eu tinha que respeitá-lo um pouco por isso.
– E então é isso. – Vivia encerrou seu discurso. Bem, caramba, eu tinha perdido quase coisa toda, só pensando sobre o Malfoy. Que perda de tempo! Levantei-me para sair do compartimento, pronta para ir para bem longe dos malditos Sonserinos e de volta para o conforto de meus amigos.
No entanto, eu tinha escolhido imprudentemente sentar-me ao final do compartimento. O Monitor e Monitora Chefa foram os primeiros a sair, seguidos dos monitores da Sonserina, Lufa-Lufa, e então os Corvinais. Ron e eu fomos os últimos e quando estávamos prestes a passar pela porta, eu senti a costura ao longo do canto da minha calça rasgar. Hum. Ela estava normal de manhã. Ah bem, eu provavelmente tinha me mexido errado, ou coisa assim. Rony parou para me esperar. Eu me curvei para examinar o estrago, e a costura rasgou mais. Estava aberto agora até o topo de minha coxa.
– Huuumm, vá em frente. Eu te alcanço; só preciso consertar isso. – Eu disse a ele. Eu particularmente não queria que ele visse tanto de minha pele nua, principalmente daquele lugar. Ron apenas deu de ombros, e se foi. Desejei que eu já estivesse com minhas vestimentas bruxas. Elas eram bem mais volumosas que a calça apertada que eu vestia agora. Virei-me, ficando de frente para a parede para avaliar os danos. O rasgo ia desde do alto do joelho, perto da coxa interna, até o ponto onde se usam shorts. Se os shorts fossem extremamente curtos, é. Suspirei. Droga. Não era bem um problema consertar aquilo, mas isso provava o que eu vinha dizendo à minha mãe sobre precisar de roupas maiores. Saquei minha varinha, pronta para reparar o rasgo.
– Belo traseiro, Granger. – Uma voz arrastou-se atrás de mim. Virei-me para encarar Malfoy, momentaneamente esquecendo sobre o rasgo em minha calça que deixava uma boa parte de minha coxa descoberta.
– Fique bem longe de mim, Malfoy. – Eu disse, levantando minha varinha. Graças a Deus eu já tinhas minha varinha em mãos, ou ele provavelmente me amaldiçoaria antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Ele olhou minha varinha cautelosamente, mas seu sorriso sarcástico nunca deixou seu rosto.
– Eu só estava te elogiando. – Ele disse maliciosamente. Ele deu um passo à frente. Eu dei um passo para trás.
– É? Bem, eu não me imagino recebendo elogios de você, seu imbecil. – Eu disse bruscamente. – Agora, vou dizer isso de novo: fique bem longe de mim.
– Por que diabos eu faria isso? – Ele sorriu com escárnio. – Eu não posso ter nenhum pouco de diversão se eu for embora. E Potter e Weasley estão tão convenientemente ausentes... Não, eu não acho que vou ter outra chance como essa, Granger. – Seu sorriso era de pura maldade.
– Bom, desculpe por acabar com sua 'diversão', mas não quero nenhuma parte disso. Ou de você. Agora mova-se. – Entretanto, ele não foi embora, mas veio para mais perto de mim. Eu dei vários passos pra trás, e bati na parede. Droga, como eu deixei isso acontecer? Draco Malfoy tinha me encurralado num compartimento, sozinha. Pelo menos ainda não estava sem minha varinha. Ele sabia que eu estava encurralada. O olhar em seu rosto parecia o de um gato prestes a comer um canário. Ou que comeu o canário. Tanto faz.
– Mas Granger, você não pode ir. Eu sei que não ia querer sair correndo pelo trem com essa calça rasgada, ia? – Ele tinha um ponto. – Mas olha, esse é o brilhantismo no meu plano. – Ele sorriu sarcasticamente uma outra vez.
– VOCÊ fez isso com a minha calça? – Eu quase gritei. O desgraçado planejou aquilo! – Dê mais um passo para mais perto de mim e eu vou gritar, Malfoy. Veja se você consegue sua diversão assim.
– Ah, mas veja, pequena Sangue-ruim, isso é fácil de se consertar. 'Silencio!' – Ele disse, tendo certeza que ninguém nos ouviria. É, esse teria sido um bom plano se eu não o tivesse dito. Eu simulei uma desistência.
– Certo, Malfoy. – Eu disse, fechando meus olhos. – Faça seu pior. – Fiquei esperando algum tipo de dor ou ao menos uma coisa desagradável em qualquer momento. O que eu não esperava era seu hálito quente em minha face.
– Cresceu um pouco, não Granger? – Sua voz soou rouca em minha orelha. Isso mandou arrepios por minha espinha. Eu não estava certa do que mais me aterrorizava: ele estar tão perto, ou o fato de eu não ter certeza se aquele arrepio tinha alguma coisa a ver com medo. Senti sua mão tocar minha coxa exposta. Seu dedo deixou uma trilha de calafrios pelo caminho que sua mão percorria em minha perna. Eu não podia deixar isso continuar nem mais um segundo.
Atirei um feitiço mudo em suas partes baixas. Ele urrou de dor, e eu escorreguei por de baixo de seus braços aprisionadores.
– Isso vai te ensinar algo, seu patife arrogante! – Gritei enquanto saia. Consertei a costura enquanto tentava andar calmamente pelo corredor. Que diabos? Malfoy tinha acabado de me abordar?
Talvez eu tivesse imaginado a coisa toda. Provavelmente eu acordaria e descobriria que tudo foi um sonho ruim. Mas a sensação no meu estômago me dizia que não era. Contudo, metade da sensação só se devia à ansiedade. Eu não sabia dizer o que a outra metade era, mas não era nada que eu já sentira antes. Aaaarg. Eu ia matar aquela maldita fuinha, se fosse a última coisa que eu faria.
