Chegando com o segundo capítulo. Deu trabalho escrever este. Eu sempre seleciono imagens para colocar no final de cada capítulo, mas o FFN não exibe os links... é uma pena. Estamos no começo da estória, prometo esquentar nos próximos capítulos. Queria deixar avisado que essa fic vai tratar de um romance. Não será de yaoi. Também não vou entrar no conteúdo bíblico que cerca os anjos, apesar de eu citar os nomes e a maioria estar na bíblia. Em fim, não é uma fic religiosa. Espero isso ter ficado claro.
Desejo boa leitura!
CAPÍTULO II – Acordando
Lembro-me de ouvir som de água batendo nos meu ouvidos, mas isso é uma lembrança muito vaga. Eu sabia que estava nadando, mas não por minha vontade. Esse som de água borbulhando nos ouvidos e a sensação de estar embaixo d'água ficou em mim até aquela hora que acordei. Tentei abrir os olhos minimamente e tudo o que eu vi foram sombras claras, o mundo estava completamente nublado.
A primeira coisa que ouvi além das ondas da minha mente foram vozes. Vozes masculinas. Difícil identificar o que diziam num primeiro momento, pois elas pareciam vir de muito longe, talvez de outro mundo. Não sabia se estava sonhando com aquelas vozes ou se aquelas vozes tinham entrado em meus sonhos.
Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam muito pesadas. Uma vertigem interminável me atingiu assim que abri um mais pouco os olhos, e não era só a minha cabeça que estava instável, meu corpo todo não respondia a nenhum de meus estímulos. Estava tremendo.
Tudo girava. Não consegui distinguir se estava claro ou escuro, nem nada que estava a minha volta era distinguível. Lembro de ter visto uma mancha azulada e outra castanha ao meu lado, não mais do que isso. Essas duas manchas foram tudo que pude apreender dos dois homens que falavam ao meu lado. Respirando com dificuldade, senti que pouco a pouco o mar foi me abandonando e já não ouvia mais o som das ondas, mas ainda era incapaz de manter meus olhos abertos.
Tentei me concentrar só nas vozes. Estas ainda eram um tanto indistintas, como se ainda estivessem a quilômetros de distância de mim, mas eu sentia que estavam se aproximando cada vez mais. Uma delas me soou muito familiar. De alguma forma ouvi-la me trouxe imensa paz de espírito, como se eu tivesse certeza de ter chegado onde eu queria mesmo sem saber onde me encontrava deitada. Estava segura.
Eis tudo o que eu ouvi antes de adormecer:
- Onde você a encontrou? – esta voz era grave, porém suave. Parecia muito assustado.
- No mar... E não me pergunte como foi parar lá, por que não faço a menor ideia... – esta foi a que achei familiar.
A segunda voz era bem mais grave que a primeira. Era grave também no jeito de falar, parecia ofegante.
- Ela está gelada, precisa aquecê-la!
Os sons voltaram a ficar distantes de meus ouvidos. Meu peito doía a cada vez que tentava puxar o ar para dentro dos pulmões. Meu corpo estava sofrendo os efeitos de uma possível massagem cardíaca, eu imaginei. Aquela dor fora causada por mãos fortes que pressionaram meu tórax para me obrigar a expelir água pela boca. Um deles salvou a minha vida. A próxima coisa que eu senti além da dor fora um tecido grosso e macio envolvendo todo o meu corpo molhado.
A voz familiar disse mais alguma coisa, mas esta frase eu não peguei. Ouvi claramente o que ele disse depois, quando me virou de bruços:
- Já viu um ferimento como esse na sua vida?
- Não. É muito profundo... Perece que alguma coisa grande fora arrancada das costas violentamente...
Ouvir essa última frase não me fez bem. Na hora senti uma emoção estranha me invadir, um horrível sentimento de perda pelo que quer que tenha sido arrancado de mim. Uma lágrima escorregou dos meus olhos e morreu no lençol.
- Ela perdeu muito sangue. Achei que não chegaria viva a praia, de tanto sangue que perdeu no mar. Nunca nadei tão rápido em toda a minha vida... Teve sorte eu estar no mar quando caiu...
- Mas o que você estava fazendo àquela hora no mar, pode-se saber?
Não ouvi a resposta. As vozes voltaram a se distanciar de mim até sumirem por completo. Minha respiração estava muito pesada. Senti que não dava para fugir da sensação de dormência que me completava dos pés à cabeça. Então perdi os sentidos.
**\L/**
Ainda estava no mundo do sono quando senti uma coisa áspera e comprida passar pelo meu rosto. Além de áspera e cumprida, a coisa era úmida e emitia um barulho de motor. Apertei os olhos e virei o rosto para fugir daquele contato nojento. Percebi que não era um motor, era um ronronado. Um ronronado alto e potente.
Abri os olhos e dei de cara um gato enorme me encarando. Eu tentei me mexer, mas era um pouco difícil com aquele bicho peludo em cima de mim lambendo meu rosto. Lambia ao mesmo tempo esfregava seu pelo macio e quente nos meus ombros e cabeça. Não tive duvidas que ele queria que eu despertasse a todo custo.
Apesar do susto de ser acordada por um gato daquele tamanho me lambendo, eu não tive medo. Era até agradável. Os longos bigodes brancos faziam-me cócegas pela pele. Senti que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Com muito esforço consegui afastar seu fusinho do meu rosto. Ronronando ele se esfregou pela minha lateral e deitou-se ao meu lado. Ficou me encarando.
Já sem a vista tão nublada pelo sono eu pude enxergá-lo melhor. O pelo do gato era pintado com vários tons de amarelo, marrom, preto, cinza e pinceladas de branco no pescoço peludo. Só a ponta da calda, muito felpuda, tinha um tom mais escuro, mais puxado para o negro. Era gordo, do tipo robusto com grandes patas listradas de preto. Pelo longo e macio. Era lindo, majestoso eu diria.
Percebi que ele também me analisava, e tinha uma espécie de olhar imponente e doce ao mesmo tempo. Olhava bem no fundo de meus olhos. Não tirava os olhos de mim na verdade. A cada movimento que eu fazia ele seguia com aqueles grandes olhos verdes muito claros de brilho dourado. Pelo tamanho e pelas orelhas pontudas só podia ser um maine coon¹, eu deduzi.
Antes que ele chegasse perto eu me levantei. Sentei na cama e afaguei sua grande cabeça. Ele pareceu adorar o carinho, levantou-se na hora e projetou a cabeça contra minha mão falando através dos ronronados que queria mais.
- Já estou acordada, não se preocupe.
Disse para o gato. Segui fazendo carinhos em sua cabeça para agradá-lo. Olhei em volta para tentar descobrir onde eu estava. Estava num quarto amplo. A minha esquerda uma grande janela envidraçada coberta por grossas cortinas beges. Pela luz que entrava pela janela eu percebi que era dia. Dia claro. A minha direita, um criado mudo com um abajur apagado, e logo atrás um grande guarda-roupa de mogno escuro. Em todo quarto não percebi luxo, apenas uma grande pintura do céu com moldura dourada na parede logo acima da minha cabeça. Provavelmente o dono ou dona não gostava de ostentação e era uma pessoa muito organizada.
O mais estranho era que aquele ambiente acolhedor, porém sombrio por conta das largas cortinas e dos moveis sóbrios, me pareceu familiar. Já estive ali antes, só não lembrava quando nem por que. Mexi-me para levantar da cama, mas o gato foi mais rápido e subiu no meu colo. Começou a esfregar a cabeça no meu rosto novamente. Ele queria me ver acordada mas não fora da cama. Segurei suas patas e disse encarando os olhos verdes.
- Você me permite ir até a janela?
Ele se quer piscou em resposta. Cravou as orbes esverdeadas no meu rosto aumentando o som do ronronado. Ele parecia agitado, mas eu tinha que saber onde estava, portanto resolvi ignorá-lo. Removi o pesado gato do meu colo e levantei da cama. Caminhei até a janela sentindo os pelos macios do maine coon se esfregarem pelas minhas pernas.
Calmamente afastei só um pouco o pano da janela. Abri um pequeno espaço para encaixar meu rosto e nada mais. Vi uma esplendorosa paisagem à minha frente. Céu azul, bem no fundo o mar, logo abaixo da janela um imenso jardim muito bem cuidado com uma fonte no centro cercado por colunas gregas. Percorri meu olhar por toda a paisagem coberta pela luz do Sol e vi no canto esquerdo escadas se projetando logo abaixo das arvores do jardim. A tal escada se estendia em ziguezague dando numa casa com aspecto de templo.
Pela posição inclinada das terras, percebi que estava em grande altitude, talvez no alto de uma colina ou montanha. O gato se agarrou as cortinas, puxando o pano com força para chamar minha atenção. Quando ele ficou em cima das patas traseiras, sua cabeça chegou tranquilamente a meu baixo ventre, e suas patas se prenderam no camisão, bem na altura da minha barriga. Era um gato com tamanho de um cachorro. Com aquele tamanho todo podia até rasgar as cortinas se quisesse. Agitei as mãos na frente do fusinho para afastá-lo dali. Voltei para cama de casal onde eu estava deitada e sentei na beirada. Imediatamente o gato gigante pulou no meu colo.
Pensar em alguma coisa, tais como onde eu estava e como cheguei ali era difícil com o bichano esbarrando a cabeça contra a minha sem parar. Mesmo assim eu me perguntei várias vezes como tinha chegado ali naquele quarto, e por que achava tudo naquele lugar e na paisagem além da janela tão familiar.
O gato passou pelas minhas pernas e andou sobre a cama de lençóis brancos até próximo dos travesseiros. Ficou sentado bem embaixo da pintura do céu cheio de anjos e nuvens ronronando.
Não entendi o olhar que me dirigiu naquele momento, nem a atitude. De repente toda a agitação do animal havia sumido só por estar ali embaixo daquela pintura. Olhei com mais atenção para o gato depois para a pintura. Ver aquele céu luminoso e aquelas pequenas figuras aladas voando entre as nuvens me deixou confusa. Senti uma inexplicável tristeza ao contemplar aquela cena. Fiquei sem saber de onde vinha aquela saudade, aquela sensação de perda e abandono...
Então vi um flash de luz, depois ouvi claramente o som do vento passando a toda velocidade pelos meus ouvidos, a queda livre, as manchas brancas se desprendendo de mim, a visão do céu, o mergulho violento no oceano, as ondas, o verde azulado do mar a minha volta, a sensação de estar afundando, o sangue saindo das minhas costas...
Outro flash e eu estava de volta ao quarto de frente para o gato. Atordoada com aquelas imagens perturbadoras levantei da cama soltando e puxando ar para dentro dos pulmões rápido. Não me atrevia mais a olhar à pintura, eu queria fugir dela na verdade. Andei pelo quarto e esbarrei com a minha própria imagem refletida num grande espelho de corpo inteiro. Parei para me observar.
A primeira coisa que eu fiz foi me virar para ver se o ferimento nas minhas costas ainda estava lá. Levantei a camisa larga que me vestia até os joelhos e vi grandes curativos fazendo um V invertido pregados nas minhas costas. Estava lá. A pele se repuxou involuntariamente e eu senti dor. O ferimento parecia fechado, mas cada vez que respirava fundo eu sentia sua profundidade.
Rasguei parte do curativo movida pela curiosidade mórbida de ver como estava. Eu sentia a pele rasgada por dentro. Aquele ferimento era tão profundo que tive a impressão que atingia os meus ossos, ou a minha alma. Minha surpresa foi tamanha quando eu vi que por baixo do curativo só havia uma cicatriz. Uma dolorosa e horrível cicatriz negra.
Fiquei apavorada. Procurei a todo custo acalmar a minha respiração, mas meu peito subia e descia rápido e contra a minha vontade. Meu pavor era justamente por que não conseguia lembrar como fui ferida, nem onde nem por que. Até o meu rosto me parecia estranho no espelho. Eu não sabia quem eu era.
Afastei-me cambaleante do reflexo desconhecido. Engoli várias vezes em seco. Queria raciocinar uma decisão, o que fazer, para onde ir, mas as batidas aceleradas do órgão dentro do meu peito não deixavam. Olhei em volta e vi a porta do quarto fechada. Para lá, disse uma voz dentro da minha mente. Ela vinha de uma região que tentava raciocinar. Algo em mim ainda se mantinha no controle. Resolvi obedecer a essa voz racional e decidida.
Andei até a porta a passos rápidos. Ouvi o gato pular da cama e correr atrás de mim. Ele começou a se esfregar nas minhas pernas com tudo. Mas a voz da racionalidade gritou para que eu saísse e fosse buscar respostas ou alguém, qualquer coisa. Então eu ignorei o carinho do felino. Num golpe só abri, sai e fechei a porta atrás de mim. A ação foi rápida e certeira. Respirei fundo do lado de fora do quarto com uma das mãos apoiadas na porta ouvindo o gato arranhar a madeira querendo sair.
Dei dois passos de costas para me afastar da porta. Eu tinha que sair e ele tinha que ficar lá dentro, foi o que eu pensei e isso me pareceu ser o mais correto. Respirei fundo uma última vez e me afastei da porta. Caminhei por um extenso corredor em marcha lenta. Agradeci por estar descalça, assim ninguém me ouviria se aproximando. Ninguém? Eu estava sozinha naquele corredor. Apenas eu e o chão de pedra sob os meus pés caminhando para não sei onde, por não sei onde.
Diminui ainda mais a marcha à medida que me aproximava do final do corredor. De longe eu vi uma enorme sala com várias cortinas vermelhas nas paredes. Encostei-me à parede e percorri a sala com o olhar. Alem das cortinas eu vi mais colunas gregas dispostas em linha até o fundo, eu supus. Mas o que tinha no fundo da sala eu não conseguia ver de onde eu estava. Esgueirei-me pela parede até chegar ao limite para poder observar melhor.
Olhei com um olho só e vi dois homens conversando distante. Não dava para ouvir o que eles falavam. As vozes chegavam até mim em forma de sussurros incompreensíveis. Aproveitei o momento em que eles ficaram de costas para mim e fui para trás de uma coluna. Agora sim podia ouvi-los melhor, pois estava mais perto.
De alguma forma eu sabia que podia ouvir tudo sem ser vista, sabia que sabia me ocultar muito bem. Esgueirar-me até a próxima coluna foi um ato quase mecânico para mim. Apoiei minhas costas na larga coluna e abri bem os ouvidos para escutar a conversa.
- Ela já acordou? – disse um homem de cabelos castanhos e faixa vermelha na cabeça. Ele era bem robusto.
- Não e parece que não vai acordar tão cedo... – respondeu o outro de longos cabelos azuis.
Ele tinha uma postura demasiadamente séria e era bem mais alto e robusto do que o outro.
- Dois dias dormindo... Seja o que for que tenha acontecido deve ter causado um grande trauma. Talvez acorde com sequelas...
- Tomara que não.
O homem de cabelos azuis disse essa última frase com uma expressão ainda mais séria em seguida sentou-se num trono situado a menos de um metro de distância. Apoiou o cotovelo num dos braços da enorme cadeira e fez a mão de apoio para o queixo. Lançou um olhar indefinido para onde eu estava, me encolhi atrás da coluna para não ser vista.
A visão daquele homem sentado me fez estremecer dos pés a cabeça. Logo após o choque inicial, uma onda de calor e conforto misturada a satisfação chegou até meu cérebro. Mordi os lábios para prender um sorriso insistente que vinha. A conversa recomeçou e eu não me atrevi a me mexer para olhar os dois homens. Mantive-me imóvel colada à coluna controlando minha agitação querendo manter total atenção ao que eles falavam.
- Como passou essa noite? – pela voz só podia ser o de cabelos curtos.
- Agitada. Passou horas delirando de febre. Disse coisas sem sentido, frases sem conexão alguma. "Sangue ruim caminha sobre a terra... traição de Miguel... corra para avisá-los, avise os cavaleiros... o céu está caindo sobre a Terra... Chayyliel² não pode mais combatê-los...Raziel³ e Uriel caíram... Gabriel está sozinho...Disse também palavras num idioma que não consegui identificar:"Barakiel (4),Zathael (5), Tzadkiel(6), todos estão mortos."
- Pesadelos?
- Acredito que sim.
Pesadelo ou não. Aquelas palavras me causaram arrepios. Torci para serem só pesadelos...
- Você ficou ao lado dela esse tempo todo? – notei um tom de malícia e deboche nessa pergunta.
- Sim, mas não durante todo o tempo... Qual a razão dessa pergunta afinal?
- Nenhuma. E você pretende deixá-la em sua cama para sempre? – novamente percebi o tom de malícia e deboche.
Fiquei constrangida, pois eu sabia que eles estavam falando de mim.
- Eu só a coloquei no meu quarto por que todos os outros estavam sendo limpos pelas servas quando a trouxe. O meu era o único vago no momento...
- Não estou questionando isso. Eu perguntei a razão de tê-la deixado lá e você ter ido dormir em outro aposento.
Houve uma pausa.
- Não achei prudente remove-la, pelo menos não antes de baixar a febre.
- Entendo. Quando ao ferimento nas costas?
- Está sarando. Felizmente não houve inflamação.
- Ela teve muita sorte de se recuperar tão bem de um ferimento daqueles. Estou curioso para saber quem ela é e como foi parar no mar...
- Também estou, mas acho que só teremos essas informações quando ela acordar...
"Vão perguntar para a pessoa errada. Também não sei como fui parar no mar, nem como me feri...", uma onda de angustia interrompeu meus pensamentos. Eu não sabia o que aqueles homens queriam saber, nem lembrava nada do meu passado. Se quer o meu nome eu lembrava! Levei a mão à boca para sufocar um grito imaginário. Passei a mão pelo meu rosto e trouxe uma mecha de meus cabelos para frente dos olhos. Nada. Eu não reconhecia aqueles fios negros.
Tentei forçar a memória, mas foi inútil. Tudo que eu lembrava era de cair no mar e depois estar sendo levada por alguém. Desesperei-me com a falta de informações sobre mim mesma. A causa do meu aperto no peito era a certeza que devia lembrar o passado, por que eu não sei.
- Você ainda não me disse o que estava fazendo no mar aquela tarde, Saga?
Saga... Esse nome entrou pelos meus ouvidos e foi direto para o meu espírito. Foi como um afago. Novamente mordi os lábios para não sorrir. Não era a primeira vez que eu ouvia aquele nome. O coração deu pulos. Não entendi por que estava tão eufórica, só por estar ali escondida perto dele... Queria olhar para seu rosto, mas não me atrevia a me mexer, temia ser descoberta.
Fechei a mão esperando o coração parar de dar pulos. O celular de um deles tocou e eu ouvi quando o de voz mais suave se despediu de Saga para atender, dizendo que conversava com ele depois. Felizmente, o lugar onde eu estava escondida, atrás da coluna, era mal iluminado, por isso ele não me viu quando passou por mim. Estava distraído com o celular.
Esperei ele sair da sala. Sabia, não, tinha certeza que seria descoberta. Eu me sentia muito exposta. Não daria para voltar para o quarto sem que Saga não me visse. Nem eu queria voltar para lá, era bem verdade. Articulando friamente como faria minha aparição, respirei fundo lentamente umas três vezes. Olhei para mim mesma. Senti vergonha por estar descalça, vestida só com aquela camisa preta enorme que ia até meus joelhos e com os cabelos desgrenhados. Passei a mão na parte da frente tentando arrumá-los pelo menos um pouco. Eu queria me apresentar bonita, queria parecer bem apesar de estar em farrapos. Física e emocionalmente.
Porém, não conseguir sair de trás da coluna logo de cara. Não tive coragem. Comecei a imaginar ele me tirando da água depois me colocando naquela cama onde eu acordei. Eu lembrava perfeitamente de estar com as roupa completamente rasgada, possivelmente quase nua. Senti vergonha.
Dividida entre me revelar e ficar onde estava, ouvi o som dos passos dele se aproximando. Ele me veria, não restava a menor dúvida. Então num impulso de coragem eu sai de trás da coluna e parei bem na frente dele. Por pouco não nos esbarramos.
Saga tomou um grande susto. Pude ver pelos seus olhos arregalados e pelo passo brusco para trás que deu quando me viu. Passou um tempo indeterminável me olhando e eu achei que fosse explodir de vergonha, alegria e medo quando eu o vi frente a frente. Estava com a mesma sensação experimentada há poucos minutos atrás da coluna quando ouvi o seu nome, a mesma euforia, só que multiplicada por um milhão.
Ele andou um passo na minha direção com uma expressão no rosto que só me dizia o quanto estava surpreso por me ver ali de pé na frente dele. Pelos deuses, eu conhecia aquela expressão, conhecia cada linha de seu rosto... Mordi os lábios mais uma vez prendendo um sorriso. Senti-me feliz por encontrar um rosto conhecido, mas estava com os pés colados no chão, era incapaz de demonstrar qualquer reação. Estava completamente imóvel olhando para aquele par de olhos azuis surpresos que me fitavam.
- Como veio parar aqui? – ele perguntou agora me analisando de cima a baixo discretamente.
Abri a boca para falar, mas não saiu outro som da minha boca a não ser um Ah. Pisquei várias vezes os olhos e olhei para baixo. De repente minhas mãos ficaram geladas e eu fiquei tonta.
- Como está se sentindo?
Ele disse tocando a minha testa. Seu toque era imensamente quente. Fechei os olhos.
- Ainda está com febre. Venha comigo... – gentilmente me virou e me conduziu até o corredor de onde eu tinha vindo – Vamos voltar para o quarto, você ainda precisa descansar...
"Febre?" Mas que febre? Como fiquei com febre, ou melhor, quando a febre voltou? Acho que foi por conta da emoção de encontrar aquele homem. Enquanto ele me levava até o quarto, isto é, durante aquele percurso, onde eu fiquei bem perto dele, eu tive certeza que já o tinha visto antes. Minhas narinas também confirmaram. Aquele cheiro amadeirado com notas de água da chuva não me era nenhum pouco estranho.
O tempo perto dele fez minhas mãos ficarem muito mais úmidas e meus lábios se molharam com uma saliva que eu não sei de onde vinha. Apesar da minha respiração calma, eu me sentia pesada, meus passos estavam vacilantes. Estava febril mesmo, mas perto dele não me importei com nada relativo ao meu estado ou qualquer outra coisa. A sensação de satisfação e de dever cumprido era muito grande perto dele.
Entramos no quarto e ele me levou até a cama. Deitei olhando para seu rosto azul. Saga era todo azul. Tinha cabelos num tom de azul forte. Forte também eram as linhas de seu rosto. As sobrancelhas eram azuis assim como os cabelos, um pouco arqueadas em simetria total com a linha do nariz bem projetado. Azul também era a cor das suas roupas informais, mas o tom de azul mais belo da composição ficava nos olhos. Seus olhos eram o que havia de mais bonito em seu rosto. A tonalidade da íris era um azul profundo e acinzentado. Lembrava o céu, mas era um céu carregado de nuvens de chuva. Num primeiro momento que contemplei aquele olhar azul eu senti toda a sua beleza, depois me veio certa tristeza. Havia melancolia escondida naquele olhar. Bem lá no fundo...
Fiquei assustada por conhecer tanto e ao mesmo tempo não conhecer nada daquele homem que tinha me salvado a vida. Eu poderia dizer a sua altura exata, o seu peso, sabia identificar sua forma de olhar, mas não sabia nada sobre ele de fato. Eu tinha um punhado de informações superficiais sobre um suposto desconhecido e nada sobre mim mesma.
Franzi as sobrancelhas enquanto divagava sobre um passado que eu desconhecia, o meu passado. Senti uma onda de enjoou subir até minha mente. Devia estar ficando pálida com certeza.
- Respire devagar... – Saga disse sentado ao meu lado na cama.
Ele notou que eu estava me sentindo mal. Pousou a mão sobre minha testa depois tocou meu pescoço com as costas da mão.
– Está com febre mesmo. – determinou.
Ou era a febre turvando meu raciocínio ou os toques imensamente quentes de sua mão. O certo era que cada vez que ele me tocava eu sentia algo dentro de mim tremer. Engoli em seco e puxei ar para dentro dos pulmões para vencer aquela emoção que me dominava. Abri novamente a boca para falar, mas novamente só saiu um misero ah.
- Não fale. Não se esforce. – ele me pediu e eu não tive força nenhuma para ir contra aquele olhar de céu azul cheio de nuvens de chuva que me encaravam.
O vi levantar e pegar um lençol grosso no grande guarda roupa. Cobriu-me por completo, depois disse sério, mas com muita ternura na voz:
- Vai ficar tudo bem.
Segurei seu pulso quando ele fez menção de sair de perto de mim.
- Não se preocupe. Vou apenas buscar um antitérmico para você tomar. Voltou logo. – ele disse me lançando um olhar tão terno que novamente senti minha alma ser afagada.
Fiz que sim com a cabeça e então Saga deixou o quarto. Segundos depois ele voltou, mas para mim sua ausência passou como uma era geológica. Meu coração se acelerou quando ele entrou no quarto. Com muita gentileza colocou-me sentada na cama, fez com que tomasse o pequeno comprimido, depois me fez deitar para novamente me cobrir.
- Logo vai se sentir melhor. É só esperar quietinha.
Eu já estava vermelha pela febre, agora fiquei vermelha de vergonha depois do sorriso que ele me deu. Forcei manter minha expressão impassível perante aquele sorriso, mas foi inútil. Sorri de volta em seguida mordi bem forte os lábios para não passar a próxima meia hora sorrindo. Eu me sentia boba demais perto dele, e olhe que nem o conhecia, apesar de sua presença e aparência serem tão familiares.
O remédio fez efeito rápido. Passados alguns minutos eu já me sentia melhor, menos amolecida, menos enjoada. Sentia-me preparada para falar com ele, mas antes que puxasse algum assunto, Saga foi mais rápido:
- Faz muito tempo que está acordada?
- Não. Acho que faz uns 20 minutos... – respondi meio acanhada.
- Não devia ter saído da cama. Deve ter sido por isso que passou mal. Essa pequena caminhada fora uma grande esforço para o seu organismo debilitado. Sabia que passou dois dias inteiros dormindo?
- Sabia. Acabei ouvindo parte da conversa de vocês na outra sala...
Falta grave. Agora ele ia me achar uma grande mexeriqueira. Do tipo que fica ouvindo atrás das portas. Que belo papel. Porém, eu tinha que falar a verdade, não queria mentir para ele.
Saga suspirou.
- Ficamos muito preocupados. Você perdeu muito sangue e ingeriu uma grande quantidade de água salgada. Achamos que não sobreviveria.
- O que aconteceu comigo? – aproveitei a deixa para perguntar.
- Você não sabe? – Saga olhou-me intrigado.
- Não. Só me lembro de ter caído no mar e de mais nada.
Saga se mexeu sentado na cama ao meu lado e me olhou bem no fundo dos olhos. Estava me analisando, eu tive certeza. Também reconheci aquele olhar analisador.
- Tem certeza que não se lembra de mais nada, nem como se feriu nas costas?
Antes que pudesse responder ouvi o som de um miado, então o maine coon pulou na cama diretamente sobre minhas pernas. Soltei um ai devido ao impacto de um gato daquele tamanho bater com tudo as patas na minha perna. Ate Saga se assustou com a entrada do bichano.
Esqueci que tinha deixado o gato trancado no quarto.
- Como entrou aqui Uri? – fez Saga olhando para o enorme gato que andava por cima do colchão ronronando.
- Acordei com ele em cima de mim. – soltei uma risadinha quando ele veio para o meu colo e começou a esfregar a cabeça no meu rosto – Exatamente como agora.
- Parece que ele gostou de você. Uri não costuma ser assim tão afetuoso. – reforçou a palavra "afetuoso" com um tom divertido.
- Como você o chamou? – perguntei tentando fugir das cabeçadas.
Era um pouco difícil prestar atenção ao que Saga falava com aquele gato gordo em cima de mim querendo me beijar a todo custo.
- Uri. O nome dele é Uri. Foi Athena que o batizou. Ela o encontrou perambulando pelo Santuário quando ele ainda era só um filhote. Ele foi carinhoso com ela assim como está sendo com você agora. Athena ficou encantada e o trouxe para seu templo. Achávamos que ele era um gato comum, até que começou a crescer e não parou mais até ficar desse tamanho. Não sabíamos que se tratava de um maine coon.
- Você disse que ele não costuma ser agitado assim com todo mundo? – não consegui desviar de calda. Tomei uma cabeçada seguida de uma rabada.
- Sim. Uri não permite que o toquem do jeito que você está fazendo. Depois que envelheceu, ele se tornou bastante arisco...
Olhei para Saga sem jeito. Eu queria dar toda atenção a ele, mas era impossível com aquele felino me empurrando, me lambendo, me dando cabeçadas. Uri era bastante forte, sabia bem usar seu tamanho para conseguir o que queria. Não conseguia imaginar aquele gigante peludo sendo um gato arisco. Será que Saga estava falando do mesmo gato que me acordou?
Saga deu um sorriso de pena vendo a minha situação embaraçosa. Com muito custo consegui colocá-lo deitado no meu colo, com a barriga colada as minhas pernas. Assim eu conseguia mantê-lo controlado através de carinho, que era o que ele queria. Mantive-me deslizando a mão da cabeça até o início da calda, até Saga se atreveu a acarinhar Uri. Pelo olhar de satisfação, percebi que Saga não fazia isso a um bom tempo.
Ficamos passando a mão no pelo macio de Uri por alguns minutos. Então Saga me fez uma pergunta totalmente obvia, mas que me pegou de surpresa:
- Qual é o seu nome?
Uri: .
1 – Maine Coon: também conhecido como "o gigante gentil", o maine coon é uma raça de gatos reconhecida oficialmente no estado do Maine (EUA), onde era famoso por sua capacidade de caçar ratos e suportar as baixas temperaturas daquela região. A origem do nome é controversa. Há quem diga que a raça veio do cruzamento entre gatos domésticos com guaxinins (raccoon em inglês), história alimentada pela cauda cheia e a coloração de seu pelo ser similar a do guaxinim. Outra história famosa afirma que a raça ganhou esse nome em homenagem a um capitão de navio chamado Coon que teria sido responsável pela chegada do mesmo ao litoral do Maine. Apesar da similaridade (pelo e nome), biologicamente é impossível o cruzamento entre um guaxinim e um gato, portando a maioria dos criadores aceita a hipótese do maine coon ter vindo de cruzamentos entre gatos de pelo curto nativos e europeus de pelo longo, provavelmente Angorás. O maine coon tem comportamento dócil e é bastante companheiro. Na fase adulta pode chegar a pesar até 13 kg e medir d 1,20 m (cabeça até a ponta da calda). Como veio de uma região muito fria, o maine coon é todo adaptado para esse tipo de clima. Possui pelo longo, grosso e a prova d'água; tufos de pelos nas pontas das orelhas e internamente; grandes pés redondos também com tufos de pelos que servem como "sapatos de neve". Admitem qualquer cor para a pelagem, exceto o chocolate e azul alfazema.
2 – Chayyliel: anjo cujo nome significa "exército" e identificado com os Querubins.
3 – Raziel: anjo-chefe dos tronos, guarda os segredos do universo. É o anjo dos mistérios, cujo nome significa o segredo de Deus.
4 – Barakiel: também identificado como Barbiel e Barchiel, é outro dos sete grandes arcanjos e príncipe do Segundo Céu. Diz-se que controla os relâmpagos e, juntamente com Uriel e Rubiel, é invocado para ganhar ao jogo. O seu nome significa "relâmpago de Deus" e é um dos anjos que controlam o relâmpago.
5 – Zathael: um dos doze anjos da vingança, entre os quais se contam Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel e Nathanael. Os anjos da vingança foram os primeiros anjos criados por Deus e são também os anjos da Divina Presença.
6 – Tzadkiel: identificado também com Zadkiel e Sadkiel, é o anjo da benevolência, da compaixão, regente de Júpiter, de Sagitário e príncipe do Coro dos Dominações. Diz-se também que dá boa memória. É um dos nove regentes do Céu e um dos sete grandes arcanjos da Divina Presença.
*LDR
