Capítulo 1 - O Início do Plano
Um céu laranja-amarelado começou a empurrar a escuridão da noite para longe, enquanto as planícies esverdeadas de Gryffindor recebiam os primeiros raios de sol do dia. As flores abriam preguiçosamente suas pétalas, assim como os esquilos e as lebres, que já corriam pelos campos para mais um dia de trabalho.
Gina resmungou quando a luz do dia invadiu seu quarto em uma das torres do castelo. Remexeu-se entre as cobertas da cama de dossel, e balançou a mão, perto do rosto, como se espantasse um inseto implicante. Ainda em um estado entre o mundo dos sonhos e a realidade, mal se lembrava dos dois belos cavaleiros, amigos de um dragão, que conhecera no dia anterior.
Estava no meio de um devaneio conturbado. Andava por um belo jardim, que, de tantas flores e pequenas árvores e arbustos, parecia-lhe um labirinto.
"Venha até mim, criança."
Começou a andar mais rápido, seguindo a trilha de pedras polidas. Por algum motivo, aquela voz instigava-lhe a correr, a seguir sem hesitar.
Chegou então ao centro do jardim. Era um espaço circular, muito colorido pela diversidade de flores, com uma fonte de águas cristalinas no meio. O sol iluminava o lugar obrigando-a a estreitar os olhos. Mas mesmo assim ela pôde enxergar.
Sentada na borda da fonte.
Era a mulher mais bela que Gina já havia visto na vida. A pele de marfim da mulher brilhava, fazendo um contraste estonteante com os cabelos vermelhos intensos que desciam até os pés, como um manto vivo.
Ela sorriu para Gina.
- Quem, Quem é você? – Gaguejou Gina, ainda tentado absorver tão sobrenatural imagem.
Pequenas fadas voavam em torno da fonte, mergulhando na água, para depois voar novamente, espalhando pequenas gotas do líquido cristalino para todos os lados.
Assim que Gina falou, algumas fadas voaram até ela, puxando-lhe as vestes. Gina deu alguns passos hesitantes para mais perto da mulher.
- Não reconhece sua própria Deusa, Ginevra? – A mulher perguntou, com uma voz doce.
A voz da Deusa aqueceu todo o corpo de Gina, e ela sentiu-se em casa.
- Vesta? – Perguntou Gina, incerta. Seria possível? Estaria sonhando?
- Sim, Ginevra. Eu sou, como vocês mortais chamam, Vesta, a Deusa do amor.
Gina piscou repetidas vezes. Tudo era tão real.
As fadas cantavam e davam risadinhas, e Gina realmente não sabia o que falar a uma Deusa.
- Venha até mim, criança. – Vesta repetiu, estendendo os braços na direção de Gina. O mesmo sorriso maternal em seu rosto.
Gina engoliu em seco, mas alcançou os braços da Deusa. Sua cabeça rodava e seus olhos ardiam; talvez por culpa do sol forte.
Vesta segurou o rosto da Gina com as duas mãos, como uma mãe quando, preocupada, verifica se não há nenhum machucado; se está tudo em ordem.
- Minha linda descendente. Em breve estaremos juntas. – A Deusa disse de modo enigmático.
Tais palavras não fizeram sentido à Gina.
- Descendente? O que você –
Mas Gina não foi capaz de terminar a frase. Uma terrível dor nas têmporas fez-la gritar alto, enquanto lágrimas escorriam-lhe pelos olhos. Sentia como se alguém estivesse invadindo seu cérebro. E doía tanto.
Quando conseguiu abrir os olhos, mesmo que por alguns segundos, Gina percebeu que estava caída no chão, agora sujo e úmido. O jardim tornara-se sombrio e ameaçador. Não havia mais fadas, e a fonte estava seca. Sombras moviam-se em torno.
E Vesta estava em pé, olhando para Gina com o mesmo sorriso carinhoso. A dor voltou forte, e Gina tornou a gritar; a implorar. Mas a Deusa continuava parada, apenas olhando. E olhando, e olhando, e olhando.
Gina acordou de um salto. Os cabelos grudados na testa e na nuca, o coração aos pulos.
- O que raios foi esse sonho? – Exclamou, levando uma das mãos à têmpora para massageá-la.
Jogou os lençóis para longe e correu para a janela. O céu já estava azul, e um vento fresco acariciou-lhe o rosto quando ela se debruçou no parapeito, tentando enxergar a janela de Luna.
O quarto de Luna ficava logo abaixo do de Gina. Uma imprudência por parte de Molly e de Eleonora que Gina agradecia.
'Deve estar dormindo, ainda.' Pensou Gina.
Sabia que as portas de ambos os dormitórios deveriam estar fechados, mas mesmo assim correu até a porta e tentou abri-la; não custava conferir. A porta não cedeu, e Gina bufou indignada.
Não iria desistir tão rápido.
Abriu o armário e soltou um gemido ao constatar que apenas vestidos pomposos poderiam ser encontrados ali. Resignada, pegou um deles e arrancou primeiro as mangas, depois os babados e então o excesso de tecido, tornando-o um vestido leve e confortável.
Olhou no espelho e prendeu o longo cabelo. Perfeito!
Se Molly a visse naqueles trajes, parecendo uma criada, com certeza teria uma morte súbita. Era por isso que precisava sair do castelo e encontrar os dois cavaleiros. Para salvar a vida da mãe, claro.
Com esse pensamento, Gina atou os lençóis um nos outros e amarrou a corda improvisada num dos pés da cama.
- Molly vai ter que me colocar no calabouço se quiser que eu fique presa no castelo o dia inteiro. – Murmurou, jogando a corda falsa pela janela. Era melhor não dar tal idéia à Molly; ela poderia gostar.
Gina segurou-se fortemente ao pano e começou a descer.
Parou na frente da janela de Luna e pulou para dentro. A amiga ainda estava dormindo profundamente, estirada de bruços na cama de dossel. Braços e pernas abertos para todos os lados.
A princesa aproximou-se sorrateiramente da cama e observou de perto a amiga dormindo. Ela tinha a boca entreaberta e uma pequena poça de baba marcava o travesseiro branco. Gina abafou a risada.
- Luna... – Gina cutucou o ombro da amiga.
A loira resmungou algo ininteligível e virou-se para o outro lado.
- Luna. – A ruiva chamou mais forte, balançando agora o ombro da Luna.
- Humn, não, não, eu prometo não flertar mais com o guardador de cavalos. – Resmungou Luna, semi desperta, enrolando-se mais nos lençóis.
Gina gargalhou alto, e Luna abriu os olhos, sentando-se rapidamente na cama.
- Você flerta com o Derfel? – Gina mais exclamou do que perguntou, dobrando-se de tanto rir.
- O quê? Como você...? Ah, ele é bonito. – Resmungou Luna, cruzando os braços e fazendo beiço. – Gina, você não deveria estar aqui. Se nossas mães descobrem... Já não chega o sermão colossal que recebemos ontem.
Gina parou de rir e limpou uma lágrima falsa no canto do olho.
- Nós temos um encontro. – Disse, puxando Luna da cama até o armário, de onde puxou um vestido.
- Ah, não. Gina, não! Você não pode estar falando sério. Eles podem ser perigosos! – Luna disse, tentando dissuadir a ruiva.
- Ah não digo eu, Luna! Você disse que iria, ontem. – Gina retorquiu indignada, cruzando os braços sobre o peito e lançando um olhar pouco amigável à amiga.
- Sim. Ontem, quando ainda não estávamos de castigo. – Disse Luna, quase se estapeando por usar uma justificativa tão ruim. Se alguma vez houvessem se importado com castigos, nunca teriam ido nem à vila de Gryffindor.
Gina apenas continuou olhando para Luna com uma expressão cética e debochada. A loira mordeu o lábio inferior e suspirou.
- Ah, que se dane. – Disse, rendida. Gina pulou no pescoço da amiga e empurrou um vestido para ela, logo depois de fazer nele o mesmo que fizera no próprio.
Uma vez arrumadas, ataram mais um lençol ao que caía pelo lado de fora e desceram até a janela de baixo e entraram numa sala de música. Ela não estava vazia, mas por sorte, eram os irmãos de Gina, Fred e George, que estavam ali.
Os dois viraram-se para a janela e fizeram expressões de falso espanto idênticas.
- Estamos sendo invadidos! – Gritou Fred, colocando uma mão sobre o peito.
- Os Vikings estão tomando o castelo! – Completou George.
Gina revirou os olhos, e Luna deu uma rápida espiada pela janela, antes de entender a piada.
- Haha. Muito engraçado. Hilário, se me permite dizer. – Debochou Gina, jogando os cabelos para trás.
- Sempre soube que os Vikings não tinham senso de humor. – Disse George, dando de ombros e voltando a sentar-se no banquinho do piano.
- Esse não é o pior. Quero dizer, olhe para essas roupas! – Exclamou Fred, em um tom agudo e afetado, abanando as mãos em direção às garotas.
O Rei Arthur e a Rainha Molly tinham sete filhos, dois quais seis eram homens.
Willian Arthur Weasley, o primogênito e futuro herdeiro do trono, mora também no castelo e ajuda o pai com os assuntos políticos do reino.
Charlie Weasley, o segundo filho, não mora mais em Hogwarts. Casou-se com uma princesa de um reino além mar, a Romênia, e diz-se que se tornou também um grande caçador de dragões.
Percy Weasley, o intelectual da família, deixou o reino para conhecer novas culturas e filosofias. Eventualmente manda livros e cartas para a mãe.
Friederich e George não moram, literalmente, no castelo. Aparecem de vez em quando, sem aviso prévio, geralmente depois de se meterem em alguma enrascada. Passam alguns dias e partem. Gina sente uma grande inveja da liberdade dos dois, que vivem viajando, conhecendo o mundo inteiro, aprontando muitas travessuras.
Rony Weasley, o sexto e último filho, morrera numa guerra contra os Vikings há dois anos. Era um guerreiro valoroso e sua morte abalara todo o clã Weasley. Gina e Luna sofreram muito com a notícia, visto que fora graças a ele que elas desenvolveram seu senso de aventura e liberdade.
Eram muito amigos, os três, e sempre saíam às escondidas. Fora Rony que ensinara as duas a cavalgar e a burlar a segurança do castelo.
- Vocês querem parar? – Retrucou Gina, andando até a porta e dando uma olhada no corredor. Fred e George a imitaram, e se alguém passasse ali naquele momento, veria três cabecinhas ruivas, uma em cima da outra, espiando.
- A barra está limpa, irmãzinha. – Sussurrou Fred.
- Colocamos sonífero no chá da mamãe, ontem de noite. Ela não vai acordar tão cedo. – Informou George, voltando para dentro da sala e esguichando um líquido incolor de um pequeno frasco no rosto de Luna.
- Hey! Por que você fez isso? – Reclamou Luna, secando o rosto.
Fred virou-se e retirou um bloquinho e um lápis do bolso.
- Como você se sente? Algum efeito colateral? Alguma alergia? – Perguntou, e os gêmeos olharam Luna em expectativa.
Gina agarrou o braço da amiga e começou a puxá-la para fora da sala.
- Não temos tempo para isso, rapazes. – Ela disse, mas parou, antes de sair para os corredores e virou-se novamente para os irmãos. – Fred, George, é sempre um desprazer. – Disse, piscando um olho.
Os dois fizeram uma suave reverência, garantindo ser recíproco, e as garotas sumiram pelos corredores.
Sair do castelo seria moleza, agora.
O ritual para trazer a Deusa Vesta de volta para Midgard não era difícil de ser realizado. O mais complicado era juntar todas as peças necessárias para ele que ocorresse.
Tom Riddle precisava encontrar as pessoas certas se quisesse prosseguir com seu plano, e teria que ser extremamente discreto e manipulador para tanto. Afinal, Dumbledore e os Elfos já deveriam saber sobre sua traição e estariam atrás dele. Ele tomou as devidas providências antes de começar tudo aquilo, é claro.
Dumbledore, poderoso como era, encontrá-lo-ia facilmente se Tom não tivesse feito em si próprio um feitiço desilusório, que impedia que suas características fossem rastreadas pelo velho feiticeiro.
Seguro quanto a isto, Tom Riddle seguia para o reino de Ravenclaw.
As informações extraídas das raízes de Yggdrasil diziam que a primeira pessoa necessária para o ritual era a descendente da suposta traidora da Deusa, uma de suas sacerdotisas.
Vesta era a Deusa do amor e do ódio. Personificação do fogo sagrado. Suas vestais tinham como incumbência vigiar esse fogo nos templos.
Vesta também pregava a castidade, e um juramento feito em seu nome era o mais sagrado dos juramentos.
Mas ela própria quebrou um de seus juramentos ao se apaixonar por um semi-Deus. Belerofonte era o seu nome, e ele tratava a Deusa com um amor casto e devotado. Nunca poderiam consumar esse amor, não quando Vesta já havia rejeitado dois outros Deuses – Apolo e Netuno – para manter sua virgindade e sua palavra. Ela estaria traindo todos que para ela rezavam; estaria traindo o juramento que fizera a Júpiter sobre permanecer solteira.
E esse grande amor, e a ternura e a dor que ele trazia à Deusa, fez com que o equilíbrio entre o ódio e o amor ruísse, e o amor triunfasse. Foram dias de paz e alegria em Midgard.
Até que Belerofonte traísse Vesta com uma de suas sacerdotisas. Tal ato matou o amor da Deusa, e o ódio voltou com força total. Renovado, vingativo, dando início a um período chamado "Crepúsculo dos Deuses", conhecido por muitos nomes diferentes em cada cultura.
Ragnarök. Armageddon. Apocalipse. Juízo Final. E tantos outros.
Ódio desceu sobre Midgard sob a forma de destruição, medo e tragédia. Criaturas malignas foram libertadas, tanto do Tártaro, quanto de seus esconderijos sobre a terra, onde estiveram escondidas, enfraquecidas pelo equilíbrio entre o bem e o mau. Catástrofes, como tornados, tempestades, vulcões tornaram-se comum naquela época de terror.
Outros Deuses, como Odin - que tinha sua existência ameaçada pela libertação do monstruoso lobo Fenris - com ajuda de outros entes como os Elfos – seres de grande sabedoria – selaram Vesta em seu castelo em Asgard, sem poderes para influenciar qualquer coisa além de suas paredes.
A paz voltou a Midgard e o equilíbrio foi restaurado, ainda que de forma precária, pois muitas criaturas das trevas continuaram caminhando pela terra dos homens. Enfraquecidas, mas ainda sim perigosas. Alguns as chamam de espectros, outras de demônios. Independente do nome, não é seguro para um mortal andar pelos lugares sombrios e esquecidos de Midgard.
Presa em seu castelo, Vesta prometeu vingança, garantindo que retornaria ao poder e arrasaria todos aqueles que contra ela armaram no passado. Mas os séculos se passaram, e a Deusa permaneceu presa, e o Crepúsculo dos Deuses foi esquecido no decorrer das eras.
Vesta passou a ser vista apenas como Deusa do amor, pois era mais fácil ignorar tudo que se passara. Todo o horror e o sofrimento foram esquecidos pelos homens, pois estes se preocupam apenas com o presente, se muito com o futuro. E o passado permanece no passado. E os homens permanecem ignorantes.
Durante anos Tom juntara informações sobre o retorno de Vesta, e em sua busca encontrara uma pena encantada que apontava a direção das duas pessoas necessárias para o sucesso do ritual.
Uma delas estava no castelo de Ravenclaw. Castelo esse que Tom agora admirava, com um sorriso maldoso.
Gina e Luna cavalgaram pelo mesmo caminho do dia anterior. Conseguiram sair relativamente fácil do castelo, ainda mais depois de Gina descobrir que Derfel tinha uma queda por Luna e usar isso a favor das duas.
Passaram rapidamente pela vila para pegar os cavalos na propriedade de Mirtes e seguiram viagem.
- Chegaremos lá bem cedo, eles provavelmente nem estarão lá. – Disse Luna, torcendo para que eles houvessem esquecido o encontro.
Uma pequena parte de Luna não queria encontrá-los porque sabia do perigo se eles descobrissem a verdade. Mas a maior parte era porque seu coração acelerava e borboletas remexiam-se em seu estômago só de imaginar estar perto daquele cavaleiro de pele morena novamente. Ele tinha um olhar tão profundo, como um poço sem fim, e ainda assim, tão penetrante, insinuante...
Luna sentiu a pele se arrepiar antes que Gina respondesse.
- Não tem problema, nós podemos explorar mais aqueles lados se eles ainda não estiverem lá.
Gina tinha um sorriso radiante. Ao contrário de Luna, dificilmente sentia-se intimidada. Era um espírito livre, e quando pensava no cavaleiro de cabelos loiros, seu coração também acelerava, mas não de nervosismo, mas sim de ansiedade. A ousadia por estarem indo de encontro ao inimigo fazia Gina sentir-se como em alguma história cheia de aventura e perigo.
- Vamos, Luna. Não faça essa cara. Vai ser legal, você vai ver. – Garantiu a ruiva. – Que tal irmos incomodar alguns Goblins antes de seguirmos até o lago? – Perguntou com um sorriso travesso.
Luna sorriu também. Goblins eram criaturas verdes, pequenas e estúpidas e vê-los irritados, correndo de um lado para o outro como baratas tontas melhorava o humor de qualquer um.
Blaise e Draco chegaram ao local combinado antes das duas garotas. Deixaram os cavalos matarem a sede nas águas do lago e sentaram-se para esperar.
Erebus estava voando acima das nuvens, enquanto os dois conversavam.
-... e não diga a elas que eu sou o filho do rei. – Pediu Draco, ao fim de uma conversa em que discutiam sobre como confirmariam que elas não eram apenas camponesas. – É melhor não me chamar de Draco.
- Humn... – Resmungou Blaise, deitando-se na grama. – Que tal Diego?
Draco deitou-se também.
- Tanto faz. Pode ser. – Disse Draco, sentando-se ao ouvir o barulho de cavalos se aproximando. – Elas estão chegando.
Eles se levantaram e esperaram as garotas atravessarem os rios e descerem do cavalo. Os quatro se encararam por alguns segundos antes que alguém falasse alguma coisa.
- Seus braços estão sangrando! – Blaise exclamou, olhando atônito para os machucados.
Gina riu e balançou a mão em desprezo à preocupação de Blaise.
- Goblins. – Informou. – Criaturas sem senso de humor. – Ela riu mais.
- Vocês apanharam para Goblins? – Draco perguntou cético. – Goblins?
- Eles estavam organizados. – Explicou Luna, esfregando um hematoma no braço. – Descobriram que pedras pontiagudas podem ser um tanto úteis.
- Vocês estão bem? – Perguntou Blaise, erguendo as sobrancelhas.
- Não foi nada de mais. – Gina deu de ombros. – Foi divertido.
Os garotos se entreolharam.
- Onde está o dragão? – Gina continuou olhando para o céu. Draco assobiou alto, colocando dois dedos na boca, e alguns segundos depois um ponto preto surgiu entre as nuvens e começou a descer.
Erebus pousou na planície e olhou para Draco com uma expressão interrogativa.
- Então, você está a fim de dar uma volta? – Perguntou Draco, galanteador, curvando-se um pouco e estendendo uma mão. Blaise pedira para que Draco desse um jeito de sumir com a ruiva por algumas horas. Segundo ele, quando duas amigas estão juntas, elas são mais "difíceis".
Gina olhou para Luna com um olhar interrogativo e a loira murmurou um "vai logo". Gina virou-se para Draco com um sorriso imenso e apanhou a mão de Draco, surpreendendo-o ao sair correndo em direção a Erebus, arrastando-o no processo.
Luna olhou a amiga se distanciar e então se virou para Blaise. Ele a olhava com um sorriso maroto, o que a fez corar instantaneamente. Por que Gina sempre conseguia convencê-la a fazer o que menos queria?
- Então... – Blaise começou arrastando a voz. – Já que não temos o dragão, que tal começarmos com uma cavalgada?
Olhou para o garoto e achou-o ainda mais bonito do que antes, quem sabe por causa do sorriso muito branco.
Bem, talvez ela devesse agradecer Gina mais tarde.
Tom esperava em uma das várias salas do castelo, sentado em uma poltrona confortável perto de uma lareira, onde um fogo baixo crepitava com estalidos ritmados.
Não demorou muito para que o Rei de Ravenclaw aparecesse, não quando ele afirmava ter informações preciosas sobre uma das maiores cobiças do Rei.
Sirius Black não era o que se poderia chamar de um homem convencional. Era um Rei cheio de excentricidades e adorava colecionar objetos fora do comum. Dizia-se que em sua coleção constavam coisas como um tapete voador, um cálice que cuspia fogo, um pomo de ouro que voava sozinho, um espelho que mostrava os maiores desejos de quem o olhasse e o diadema pertencente os primeiro rei de Ravenclaw e que garantia grande sabedoria aqueles que o usassem.
Riddle ficara sabendo através de Dumbledore, alguns anos atrás, que o grande desejo de Sirius era obter a Adaga da Morte. Objeto capaz de trazer a alma de uma pessoa de volta. Para tanto, precisa-se de um vessel, ou seja, um corpo disposto a aceitar essa alma.
Dumbledore sabia onde a Adaga estava escondida. Ele era o guardião do objeto mágico, na verdade, e apenas dissera a Riddle que ela não se encontrava em Hogwarts, mas sim nas terras geladas de além mar.
Era tudo que Riddle poderia contar ao Rei, mas sabia que seria suficiente para que ganhasse sua confiança. Precisava apenas de alguns dias no castelo. Agiria rápido e preciso, antes que os Elfos chegassem a Ravenclaw. Quanto a Dumbledore, ele não fazia idéia onde o velho mago estaria.
- Para onde estamos indo? – Gritou Gina, olhando maravilhada para as nuvens logo abaixo. O ar era rarefeito em uma altitude tão alta e muito gelado também, mas havia tanta adrenalina circulando por sua corrente sanguínea que ela mal conseguia se importar.
Draco estava sentado logo atrás dela e, por algum motivo, segurava-a pela cintura com uma das mãos. Era um toque quente em meio ao ar gelado e Gina não se atreveu a afastá-lo.
- Você vai ver em breve. – Draco respondeu, mantendo Gina na mais completa curiosidade.
Draco conseguia ver apenas uma parte do rosto de Gina, mas podia senti-la sorrindo. Ele já fizera aquilo tantas vezes que não se sentia mais tão extasiado, mas ainda se lembrava da primeira vez em que Erebus fora capaz de voar com uma carga extra. Sabia bem as sensações desconhecidas que ela estava experimentando.
Sorriu também quando ela segurou a mão que ele mantinha em sua cintura e devolveu o aperto.
Erebus começou então a baixar a altitude, revelando uma linda praia de calmas águas azul-esverdeadas, salpicadas de pedras enormes que se estendiam das areias douradas até muitos metros mar adentro.
- Estamos em Hufflepluff! – Exclamou Gina, mais para si mesma. – Eu nunca tinha visto o mar...
Erebus pousou na areia fofa e os dois jovens desceram. Gina agradeceu o dragão, que bocejou, antes de se espreguiçar e fechar os olhos.
- Ele adora pegar um sol. – Disse Draco, revirando os olhos. – Vem, tem algo que eu acho que você gostaria de ver.
- Mais do que tudo isso que eu já estou vendo? – Perguntou Gina, erguendo as sobrancelhas em descrença.
Já tinha ganhado o dia, ou melhor, o ano. Nunca poderia ter chegado até tão longe a cavalo.
Draco riu.
- Você já conversou com uma sereia? – Perguntou, e não precisou dizer mais nada para fazer com que Gina o arrastasse pelas areias da praia.
Subiram algumas rochas e chegaram até um lago dentro do mar, ou era o que parecia, pois as rochas circundavam o local. A água entrava por algumas falhas, o que não deixava a superfície totalmente parada.
- Tem sereias aqui? Como vamos chamá-las? – Perguntou Gina, ficando de joelhos em uma das rochas e olhando para dentro d'água. Ao que parecia, o lugar era bem profundo, pois não conseguia ver o fundo, apenas uma intensa escuridão.
- Não precisamos chamá-las. Elas são muito curiosas para não vir conferir uma humana de cabelos tão chamativos. – Disse Draco, sorrindo torto.
Gina lançou ao garoto um olhar estreito, mas esqueceu o comentário quando a cabeça de uma mulher emergiu da água. Gina ouvira falar que não era seguro irritar uma sereia, ou até mesmo deixá-la entediada. Eram criaturas perigosas e instáveis, apesar da aparência sedutora.
Eram capazes de enfeitiçar os homens com seu canto e controlar grandes proporções de água.
- Você trouxe uma mulher, jovem Celta? – Ela perguntou, olhando para Gina de forma estranha.
Tinha olhos como um vidro verde, a pele acinzentada e os cabelos escuros e emaranhados. Não usava nada para proteger os seios e Gina olhou rapidamente para o garoto para verificar se ele estaria admirando o peito nu da sereia. Mas ele limitava-se a olhá-la nos olhos, ao que parecia. De repente, Gina percebeu que não sabia o nome dele.
- Você está com ciúmes, Parténope? – Ele perguntou, de modo muito convencido, na opinião de Gina.
A sereia deslizou sobre a água e Gina pôde admirar a longa e colorida cauda, era um azul turquesa misturado a um vermelho cobre e quando o sol refletia sobre as escamas, elas pareciam prata pura.
- Talvez... – Ela disse, como se pensasse sobre o assunto. – Você sempre vem sozinho para me ver e agora trás essa garotinha de cabelos vermelhos.
Gina deu pulo quando no segundo seguinte a sereia estava logo a frente, acariciando seus cabelos flamejantes.
- Ela estava apenas curiosa por conhecê-la. – Bajulou Draco, com um sorriso sedutor.
A sereia olhou diretamente nos olhos de Gina, que viu-se meio hipnotizada por tal olhar.
- Vocês são namorados? – Sussurrou, e Gina podia jurar que ela não abrira a boca ao falar.
- Não! – Apressou-se em dizer. – É claro que não. Eu mal o conheço. – Gina olhou para Draco. – Eu nem sei o seu nome.
- Diego. – Draco disse sem hesitar, e a sereia riu.
- Cuidado com esses Celtas, são pouco confiáveis. – Disse, sorrindo, como se se divertisse com a ingenuidade de Gina.
Draco achou melhor partir, visto que Parténope poderia revelar sua verdadeira identidade à Gina. Era bom que ela sempre o chamava de Celta, devido aos seus cabelos muito claros, mas nada a impedia de chamá-lo pelo verdadeiro nome a qualquer momento.
- Eu acho melhor nós irmos, Gina. – Ele disse, apenas. Gina estava prestes a concordar quando Parténope a interrompeu.
- Não! – Ela exclamou. – Ela é muito bonita para que eu simplesmente a deixe ir. Eu gostaria de tê-la para mim.
Gina quase gritou um "O quê?", mas mais uma vez foi interrompida, dessa vez por Draco.
- Ela não será mais um de seus brinquedinhos, Parténope. Atraia outro humano para você. – Draco não parecia brabo, falava com a sereia de modo calmo, neutro.
- Ela é especial. – A sereia disse. – Não é uma simples humana.
- Mas é claro que sou! – Gina indignou-se. Não era porque era uma sereia que poderia chamá-la de aberração, ou algo do gênero.
- Eu os deixarei partir, desde que ela dispute uma canção comigo. – A sereia sentou-se em uma das pedras, dobrando a cauda. Jogou os cabelos para trás, e olhava para Draco de modo provocante.
- Gina. – Draco virou-se para a ruiva, que se levantara. – Você sabe cantar?
Gina abriu e fechou a boca repetidas vezes.
- Um pouco...? – Disse, hesitante, mas ao mesmo tempo excitada. Podia sentir o perigo no ar, a tensão.
- Então dê o seu melhor. O único jeito de derrotar uma sereia é cantar melhor do que ela. – Informou, muito sério.
Gina mordeu o lábio inferior. Cantar melhor do que um sereia? Aí já era pedir demais.
Draco segurou o rosto de Gina e acariciou a bochecha sardenta com o polegar.
- Você vai se sair bem.
A sereia começou a cantar e a melodia espalhou-se pelo ar como um ser invisível que envolve os que estão por perto. Era relaxante, e por um momento, Gina sentiu vontade de pular dentro da água e passar a eternidade ali dentro.
Mas também ela queria cantar, e foi o que fez. Pôde ouvir a própria voz misturando-se a da sereia. Cantava bem também. Muito bem, para falar a verdade. Alguns segundos depois ouvia apenas a própria voz e então abriu os olhos que nem mesmo percebera fechar.
- Eu disse que ela não era uma humana qualquer. – Disse a sereia. – Cuide bem dela, jovem Celta.
A sereia mergulhou e Gina olhou então para Draco. Ele tinha apenas uma sobrancelha erguida e encarava Gina com um olhar indecifrável.
- Quê? – Perguntou Gina, antes de seguir de volta para onde Erebus ficara.
Draco a seguiu, sem dizer nada. Sabia apenas de uma coisa; ela definitivamente não era uma camponesa.
Riddle sorriu quando Sirius apresentou-lhe Isabella. Um jovem muito graciosa, de cabelos vermelhos, pele pálida, sem sardas.
O feiticeiro curvou-se e beijou a mão da moça, sorrindo de lado.
Depois que contara a Sirius sobre a Adaga, o Rei ficou extremamente satisfeito e ofereceu toda sua hospitalidade a Tom Riddle e não tardou para que ele exibisse a lindíssima Isabella, seu grande amor não assumido.
Ao que parecia, a moça era uma das conselheiras do Rei. Ajudava-o em sua busca extravagante por relíquias perdidas e até mesmo lutava ao seu lado em batalhas.
Mas ela não procedia de uma família nobre, o que impedia o casamento entre eles. Talvez fossem amantes, pensou Riddle. Sem dúvidas eram amantes, pensou melhor, ao reparar na troca de olhares entre eles. Ela era o motivo pelo qual o Rei, com mais de trinta anos, permanecia solteiro.
Seria uma pena separá-los para todo sempre, pensou, rindo logo em seguida.
- Algum problema, Riddle? – Perguntou Sirius.
Riddle balançou a cabeça, extasiado com toda a situação.
- Não é nada, meu rei. Apenas feliz em ajudar.
Sirius e Isabella sorriram. Talvez um dos últimos sorrisos que dariam juntos, depois que Riddle realizasse a primeira parte de seu plano.
Gina e Draco alcançaram a areia em silêncio, até que Gina não aguentou mais a própria curiosidade.
- Como você sabia que eu me sairia bem?
Draco deu de ombros.
- Sereias nunca desafiam alguém a cantar se essa pessoa não valer a pena. – Disse e completou ao ver mais uma pergunta se formando nos lábios de Gina. – Não me pergunte como, elas apenas sabem.
Gina assentiu, pensativa.
- Por que você me levou para vê-la com o risco dela me levar para o fundo do mar?
Draco sorriu de canto.
- Você não gosta de correr alguns riscos? – Perguntou, parando e olhando para Gina com um olhar malicioso.
Gina cruzou os braços e devolveu o olhar.
- Eu não disse que não gostava. Eu estou com você aqui agora, e pelo que Parténope falou, você não é confiável, jovem Celta.
O sorriso de Draco entortou e ele voltou a caminhar.
- Ela estava só brincando. Não iria levá-la para o fundo do mar.
Gina duvidou seriamente de tal suposição.
Alcançaram Erebus e montaram no pescoço do dragão, só que desta vez Draco puxou Gina contra si, segurando-a firmemente pela cintura. Gina estremeceu quando ele aproximou o rosto e sussurrou algo em seu ouvido.
- É melhor você se segurar firme; depois que dorme, Erebus fica muito mais agitado.
Gina assentiu e agarrou com mais força as escamas do dragão, tentando não pensar no calor do corpo do garoto às suas costas.
Erebus levantou voou com um impulso forte e repentino, e voou com velocidade dobrada. Fez piruetas, giros, mergulhos durante toda a viagem de volta, e Gina agradeceu pela mão do loiro continuar firme em sua cintura.
Nota da autora: Uma breve explicação sobre Vesta (ou Héstia, para os gregos). Ela não era a Deusa do amor e do ódio, eu inventei isso para o enredo da fic. Mas ela realmente era considerada a personificação do fogo sagrado (representava a divindade do lar e defendia a vida da família), e nos templos em sua homenagem esse fogo era guardado pelas vestais. Ela também negou o amor dos Deuses Apolo e Netuno e pediu a Júpiter que a protegesse para que pudesse manter sua promessa de virgindade. Um juramento em nome de Vesta era mesmo o mais sagrado de todos, e como ela era uma das Deusas mais antigas do Olimpo, era muito respeitada por todos.
Belerofonte nunca teve nada com ela, obviamente, mas muitas coisas que eu escrever sobre ele nessa fic serão verdade, e eu direi quais ao longo das notas!
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