O dia parecia normal e o calor era infernal, o que fazia Lisbon se questionar se sacramento estava ou não, mais próxima do sol que as outras cidades da Califórnia. Ela resolvia burocracia, Jane se isolava no sótão, Cho permanecia com o olhar tedioso habitual e Rigsby entreolhava Grace, que desviava o olhar numa tentativa frustrada de esconder a retomada do relacionamento.
– Quem ela imagina que engana ... Lisbon se pegou pensando nisso, e em como o meio tempo que trabalhara com Patrick Jane a transformou em uma espectadora dos segredos alheios, uma verdadeira bisbilhoteira. Se ver nesta situação fez Lisbon sorrir. Carregar um pedaço do mundo de Jane consigo, era uma tarefa por vezes divertida. As pessoas são engraçadas quando tentam mentir, e embora o façam com uma frequência absurda, só nos damos conta quando paramos pra reparar. Por outro lado, ela dividia outro pedaço não muito quisto da vida do consultor: Red John havia se tornado uma espécie de obsessão velada. Não poderia negar que a captura do serial killer, lhe faria mais satisfeita que qualquer caso antes solucionado. E ali, perdida em seus pensamentos, não ousaria tentar mentir pra si mesma: Não era a respeito da glória ou justiça que esta resolução era desejada. Era por ele... Dar paz ao espírito de Patrick Jane havia se tornado parte de seus objetivos pessoais. De repente seus devaneios foram interrompidos, e o marasmo típico de um dia um dia como aquele, cessara com um toque do telefone.
-Chamem o Jane, temos um caso.
O consultor se recusava a abandonar seu QG, até tocarem no nome do serial killer vermelho. Ah sim, o sorriso deu as caras novamente, mas de maneira incomum, o telefonema havia chegado de Nova York. -Como assim? – Se perguntavam todos. Red John não costumava atuar em outros estados, e se o fizesse, seria caso para os federais, não para o grupo de sacramento.
Provavelmente era o que iria acontecer. Os federais tomariam posse do caso. Mas a princípio, a delegacia da cidade de Nova York entrara em contato por saber da reputação de Jane e equipe, que se arrastava como "o time dono do caso". Ao que parece precisavam de apenas algumas informações, e os convidaram para uma breve reunião, a fim de esclarecerem algumas duvidas.
Jane achou a situação perfeita, Lisbon como de costume, torceu o nariz. Toda vez que outra equipe se envolvia entre Jane e Red John, significava mais papelada para resolver. Como se tratava apenas de uma reunião, decidiu deixar a equipe na Califórnia e combinou de seguir viagem apenas com seu consultor.
Dirigiam-se de carro ao aeroporto de sacramento, era noite e chovia bastante. Jane conduzia enquanto Lisbon encostada na porta do carona observava a chuva cair pela janela.
-Jane... Não acha estranho isso? Crimes fora da Califórnia...
- Não sei Lisbon, ele havia me dito que mataria muitas pessoas. Sabemos que quando Red John muda seu modus operandi, é sempre por algum motivo específico.
-É verdade, mas também não podemos presumir que todos os passos de Red John se resumem a te infernizar. De repente é apenas alguém tentando se passar por ele, o que não seria novidade.
O silencio reinava em absoluto, por uns segundos ouvia-se apenas o motor do carro.
-Deve haver algum motivo... Sempre há. – Jane retoma o assunto.
-Não sei, não consigo ver o motivo que você vê nisso tudo... Não consigo ver razão em matar mulheres, sangrá-las feito gado. Acho que nunca vou me acostumar com isso. – Falava Lisbon entre os dentes, não tentando esconder a raiva e desconforto que esse assunto causava.
-Digo que tem motivo, não que este faça algum sentido pra gente, nem sempre faz... Mas a verdade é que dentro da cabeça dele, tudo que faz tem uma razão maior. Tudo que fazemos tem Lisbon, com ele não seria diferente.
Não somos obrigados a compreender e nem concordar. Posso usar minhas motivações a respeito deste caso para exemplificar: são de seu conhecimento, elas existem embora você não concorde. Assim como as suas também existem, apesar de não concordar e nem entender. Digo... Olha o que fazemos: Cruzamos o estado, visitando pessoas deprimidas, perguntando o paradeiro de alguém que já se foi... A troco de que?! Pode até fazer sentido pros familiares da vítima, mas não entendo a motivação de gente como você. Essa capa que os policiais travestem, de justiça e igualdade não me parece convincente.
Acredito que todos somos movidos por sentimentos minimamente egoístas. Meu desafio é identificar qual o seu, sua real motivação. – Lisbon permanece calada, enquanto Jane continua a leitura - Você me responderia Justiça, mas eu discordo. Ninguém se interessa verdadeiramente por justiça, até porque esta é subjetiva e manipulável. Poderia ser única e exclusivamente por se sentir bem em cumprir o dever, fazer "o que é certo", mas hoje não sou capaz de acreditar realmente nisto. Antigamente talvez, mas ao te conhecer melhor, concluo que é uma motivação rasa demais para uma personalidade tão forte. – Esta ultima frase fez Lisbon se sentir minimamente orgulhosa. – Poderia ser a fama, mas esta fica para as pessoas que se inflam com vaidades, não para gente como você.
E então eu jogo a tolha, desisto realmente de tentar adivinhar. Gostaria que me dissesse, para que eu possa compreender. O que faz com que você perca suas noites bem dormidas, atravesse o estado, arrisque sua vida, sacrifique seus relacionamentos... Qual a razão de tudo isso?
Parecia mais um ultimato que uma pergunta propriamente dita. Lisbon pensou muito sobre o que iria responder, até porque, nunca havia feito essa pergunta a si mesma. Sabia de algo que a movia nesse caso específico, mas a questão era muito maior que isso, suas reais motivações, "as egoístas" como Jane chamara. Imaginou que deveria ser sincera, até porque ele conseguia perceber quando ela estava mentindo. Por outro lado, acreditava que não seria uma boa ideia contar a Jane, a única motivação que lhe vinha à cabeça. Permaneceu em silencio por um instante, e depois de refletir, serenamente continuou:
-Não sei Jane... Nunca havia pensado sobre isso. Às vezes acho que o que eu faço é dar uma resposta aos familiares das vítimas. As pessoas merecem saber o que aconteceu, e mesmo que doa, ter uma história para contar. Porque é disso que tudo se trata, não?! Lembranças... Quero dar a elas o que lembrar, e também quero ser lembrada o máximo que eu puder. Sabe, uma pessoa pode morrer, mas só deixamos de existir quando somos esquecidos. É a tristeza maior, pior que a morte, e assim como ela, nosso destino comum. Eu não sou uma exceção. Sei que isso vai acontecer comigo, mas gostaria de deixar pedaços de mim nas pessoas que eu encontrar pelo caminho, para que eu possa viver mais, dentro de cada uma delas, e aguardar minha vez, até que tudo relacionado a mim desapareça com o tempo – Lisbon olha para as gotas d'água escorrendo sobre o para brisa – Como lágrimas na chuva.
Jane fica em silêncio. Era bonito... Quem não quer ser lembrado? Escrever um pedaço na vida de alguém, e ali ficar cravado, até os últimos dias daquela pessoa?
-Egoísta e altruísta simultaneamente, se é que é possível. Essa é nossa Lisbon! – O consultor sorri despretensiosamente, recebendo de volta um sorriso acanhado da agente sênior. O cérebro de Jane vagueia, passeando pelo seu caso com Red John, por Lisbon e suas motivações - "Ser lembrado. Não como um herói, mas como alguém, dentro de outro alguém"- e de repente, como em um truque de mágica, Jane soube o que aquilo significava.
Continua...
Então... desculpem a demora para atualizar, tenho trabalhado demais e só escrevo nos momentos de ócio.
No próximo capítulo teremos o contato da equipe da Califórnia com o povo de NY, e mais investigação também! O caso precisa caminhar. rs
Espero que gostem, agradeço pela visita, e se possível deixem reviews! Estou estreando com fics longas, sua opinião é muito importante pra mim.
Agradecimento especial pra Myahhh pela força!
