Fantasmas são os espíritos que ficam para trás, presos aos laços que deixaram durante a vida. São aqueles que não conseguem progredir e permanecem num mundo que não tem mais atrativos, exceto sofrimento.


- Taichou...? – perguntou Matsumoto - O que significa esse formulário?

Hitsugaya tomou a folha em suas mãos e correu os olhos sobre ela. Era incrível que uma shinigami com muito mais experiência dependesse dele para saber o que os formulários significavam, mas é claro, Rangiku nunca havia sido exatamente metódica com o preenchimento de documentos. Ou arquivamento. Ou mesmo leitura.

- Formulário padrão descritivo de combate entre Shinigamis. Quando, por exemplo, você atiça dois fukutaichous a duelarem do lado de fora do bar, Matsumoto.

- Ah, sim... Kira-kun e Hisagi-kun deveriam preencher isso, então, não eu.

E o formulário foi prontamente amassado e jogado pela janela.

- MATSUMOTO!!

- Renji.

- Sim, Kuchiki Taichou!? – berrou Renji, pulando de pé, e batendo continência.

Não escapou a capacidade analítica de Byakuya a constatação de que seu principal subordinado provavelmente estava dormindo. Ou, ao menos, muito concentrado em salivar sobre o documento que devia estar preenchendo.

- Vá descansar.

E Renji deixou seu queixo pender livremente até o chão.

- Já basta um documento vandalizado. – completou Byakuya, dirigindo o olhar para a mesa do fukutaichou.

E Renji saiu, literalmente atordoado.


Rangiku foi literalmente convidada a "ir buscar a droga do formulário antes que eu te faça ir pedir a segunda via para o Yamamoto-soutaichou". E foi o que ela fez, seu plano saindo as mil maravilhas. Um plano que formulara em meio as numerosas discussões que travara consigo mesma nos últimos dias.

Afinal, quem ele pensava que era para tratá-la daquele jeito? Um nobrezinho arrogante, com o cabo da zanpakutou enfiado... Teve que segurar o acesso de riso. Era o tipo de frase que ela esperaria de Gin.

O tipo de frase que não ouvia há cinco anos.


Byakuya deixou que o pincel descansasse sobre a mesa. Estava estranhamente mal-humorado, e isso estava começando a afetar seu desempenho, o que era inaceitável. Havia sido bastante adequado o fato de ter podido dispensar Renji com uma desculpa razoavelmente plausível. E era mais do que lógico que ele separaria alguns formulários mais extensos e deixaria na mesa do fukutaichou, como uma maneira de... Compensar o tempo livre. Sem falar na Requisição de Verba para Reparos e Reposições de Danos Causados pela Décima Primeira Divisão, que Yamamoto fazia questão de que não fossem emitidas segundas vias e que estava arruinada.

Seriam alguns vários formulários mais extensos, então. Alguns muitos, para ser mais preciso.

Mas vingar-se de seu fukutaichou poderia esperar. O que ele precisava era de alguns goles generosos de chá bem quente, e alguns minutos sem roncos ou perturbações para clarear as idéias.

As cerejeiras já estavam em flor novamente. Não, ele não faria essa mesma reflexão. Havia cinqüenta anos que essa frase volta e meia surgia em seus pensamentos, e realmente não se sentia disposto a remoer essas lembranças, ao menos não agora.

Levantou-se e se aproximou da mesa que continha um bule de chá fumegante e xícaras. Mal havia começado a se servir, quando ouviu uma batida leve, mas suficientemente alta para se notada, na porta. Sentiu vontade de blasfemar em voz alta, mas apenas respirou com um mínimo a mais de força.

- Entre. – o tom de voz quase modulado que esperaria de um membro do clã Kuchiki veio de dentro da sala.

Era agora ou nunca. Uma última ajeitada rápida no cabelo e abriu a porta com delicadeza, mas sem deixar transparecer seu nervosismo. Afinal, além de estar um tanto irritada com o Capitão da Sexta Divisão, as histórias que Renji sempre contava pareciam estranhamente mais assustadoras quando você as ouvia de uma perspectiva... não sóbria.

Enfim. Shiro-chan acabaria economizando com coroas de flores, caso algumas dessas histórias assustadoras fossem reais.

- Boa tarde, Kuchiki-Taichou.

- Matsumoto-fukutaichou. – foi a resposta mecânica de Byakuya – O que a traz aqui?

- Eu preciso conversar com o senhor.

Byakuya aparentemente havia fixado o olhar diretamente nos olhos de Matsumoto. Isso a incomodou, pois estava mais acostumada com olhares que... divagassem mais.

- Sente-se. – disse Byakuya, apontando uma cadeira em frente a sua mesa.

E isso não era um pedido, havia ficado bem claro. E o gesto que apontava a cadeira conseguiu deixar Matsumoto ainda mais irritada.

- Eu aceito uma xícara de chá, Kuchiki-taichou. – disse a tenente do décimo esquadrão, se acomodando graciosamente na cadeira, com um sorriso falso.

- Sem dúvida, tens mais motivos do que uma xícara de chá para vir até aqui. – disse o capitão, sentando-se a frente de Matsumoto.

Ele tinha apenas uma xícara em suas mãos.

- Na verdade, eu tenho. O senhor conseguiu me deixar muito irritada outro dia no cemitério. – Matsumoto começou a alterar o seu tom de voz costumeiro para algo um tanto mais... seco.

- O sentimento é mútuo. – Respondeu o capitão, com a expressão costumeiramente impassível.

Matsumoto emudeceu por um instante.

- Eu estava errado em querer prestar uma homenagem a minha esposa em silêncio, tenente?

- Não, é claro que não.

- Então porque ficou irritada? – era o tom de quem falaria com uma criança pequena, e Matsumoto não gostou nem um pouco daquilo.

- Porque eu não estava errada em prestar minhas homenagens lembrando de Gin e mostrando que eu estou feliz, que eu estou bem! Apesar de ele ter partido, eu continuo!

- Entendo. Então por isso que fazias tanto barulho? Para que Gin a visse feliz?

- Algo que o senhor, Kuchiki-taichou, talvez devesse mostrar a Hisana.

Os olhos de Byakuya tremeram quando Matsumoto ousou falar dessa maneira sobre Hisana.

- Você ousa...? – a expressão do capitão se endureceu ainda mais.

- Eu sei muito bem que eu sinto saudade de Gin. Eu tenho certeza de que hoje, eu não estaria viva se ele não tivesse me ajudado várias vezes durante nossa infância em Rukongai. E eu tenho absoluta certeza de que ele vê através do que eu tento demonstrar na frente do túmulo dele, de que eu estou feliz, e sabe que eu faço isso unicamente porque eu penso no bem dele. – Matsumoto abaixou a cabeça – Estranho, não é?

- Ichimaru não merece esse tipo de atenção e respeito, Matsumoto-fukutaichou. – o brilho perigoso dos olhos de Byakuya começava a se tornar cada vez mais presente.

Rangiku sacudiu a cabeça.

- É claro que merece. Até mesmo o senhor faz o mesmo com Hisana, não é?

- Matsumoto! – Byakuya estava começando a se sentir irritado de verdade – Isso já está ultrapassando os limites!

- Uma fachada de mármore... Não é? O senhor sofre da mesma maneira que eu, e também não demonstra. Hisana...

E então o ruído de uma espada que é desembainhada. Senbonzakura parou a milímetros do pescoço de Matsumoto.

- Mais uma palavra, Matsumoto-fukutaichou... – os olhos de Byakuya brilhavam com uma fúria inédita. – Mais uma palavra e não haverá força na Seireitei que me impeça de fazer isso. Saia daqui agora.

E então ouviram uma batida firme na porta. Renji entrou, estranhamente contrariando a ordem dada por Byakuya mais cedo.

- Taichou, eu esqueci de um formulário que tinha que...

E o tenente do Sexto esquadrão eventualmente acabou captando a cena que se desdobrava a sua frente. Não sem alguns bons instantes de contemplação muda e de medo.

- FORA DAQUI, ABARAI! – e uma onda de Reiatsu quase arrancou o tenente da sexta divisão e a porta do lugar.

Renji não precisou de mais ordens para disparar porta afora, correndo e gritando na direção do décimo esquadrão.

- Literalmente, Renji-kun é um empata-foda. – foi o comentário de Matsumoto, ignorando completamente o fato de que um irado capitão da sexta divisão estava prestes a degolá-la.

- Você caçoa de mim? – Byakuya estava lívido de ira.

- Mas é claro. Assim eu morro de uma vez e não preciso me esforçar tanto na frente do túmulo de Gin, tentando parecer feliz e fazendo um barulhão enquanto atrapalho o senhor!!

E Byakuya afastou a lâmina do pescoço de Rangiku. Apenas alguns centímetros, mas o suficiente para deixar a tenente mais aliviada. Estranhamente, o capitão parecia olhar pela primeira vez para Matsumoto sem ira e sem o ar arrogante de uma das quatro famílias nobres.

Olhava para ela como olharia para...

- Não é uma fachada. – Byakuya disse enquanto embainhava sua zanpakutou.

- Não...?

- É claro que não. Muito embora Hisana esteja presente nos meus pensamentos e lembrar dela seja... Doloroso, como você mesma disse – e Byakuya fechou os olhos por um instante – minhas responsabilidades não me permitem decisões levianas, movidas pela emoção ou por julgamentos precipitados. Eu sou um nobre; como membro da nobreza de Seireitei, eu não posso me rebaixar e sentir da mesma maneira como pessoas comuns de Rukongai.

- Eu não falei em dor. Mencionei apenas saudade e sofrimento.

Os olhos de Byakuya expressaram um mínimo de surpresa, não mais do que um leve arquear de sobrancelhas.

- É verdade. Tens mais alguma coisa que gostaria de me dizer ou posso julgar que já está de saída?

- Muitas coisas, apenas não sei por onde começar. – disse Rangiku – Acho que nunca ouvi o senhor falar tanto de uma vez só. – sorriu.

E nisso, Hitsugaya e Renji, irromperam porta adentro, espadas desembainhadas, prontos a tentar impedir um assassinato. Foram recebidos por um capitão e uma tenente levemente surpresos, mas incólumes.

- O termo "empata-foda", apesar de eu desconhecer o significado dessa expressão, seria apropriado para a presente situação, Matsumoto-fukutaichou? – comentou Byakuya, a sobrancelha levemente arqueada para um misto de reações de espanto, vergonha e total hilaridade.