Sakura está no quarto, deitada em sua cama chorando com a revelação feita pelo irmão e desabafando com o Kero:

-Hoe Kero-chan! Como o nii-san é cruel!

-Acalme-se, acalme-se Sakura, não houve nada de mais! Afinal é típico de seu irmão fazer esse tipo de brincadeira.

-Isso não foi brincadeira Kero-chan! Isso foi uma revelação de muito mau gosto feita pelo nii-san; e agora como eu vou olhar para a cara do Yukito-san, com ele sabendo que eu gosto muito dele!? Hoee!

Sakura estava muito preocupada com o que o irmão havia dito. Não sabia como falar com Yukito após o ocorrido, não sabia nem como olhar para a cara dele. Sakura temia se revelar para Yukito, pois não sabia a reação dele, e nem mesmo sentia que o sentimento do rapaz era recíproco. Temia ser rejeitada, não queria acabar tão cedo com aquela fantasia que criara com Yukito.

Yukito era um rapaz perfeito. Gentil, educado e inteligente, qualidades que Sakura e qualquer menina valorizava em um rapaz. Não sabia quando aquilo tudo começou, toda aquela admiração que sentia por Yukito. Talvez pela amizade de Yukito com o irmão os fizessem se aproximar, e com essa aproximação vieram os contrastes entre os dois.

Sakura nunca havia conhecido a mãe de perto como o seu irmão havia conhecido; havia morrido dois anos após o seu nascimento, e era raro ter alguma memória dela. Seu irmão e seu pai eram as únicas pessoas que conviviam com ela e a protegiam de todos os perigos. O único problema dessa relação foi o enorme medo de fantasmas que a menina criara, graças ao terror imposto por seu irmão para não visitar áreas muito escuras ou vazias, principalmente à noite.

Touya era frio e duro no trato com ela e Sakura detestava o jeito frio do irmão. Ao conhecer Yukito não tinha como não se apaixonar pelo rapaz. Ele é carinhoso, gentil e amigo, tem a enorme capacidade de confortá-la em todos os perigos, ainda mais quando Touya a ameaçava com histórias sobre fantasmas.

Toda vez que chorava Sakura encontrava abrigo nas palavras de Yukito, sentia cada pequeno gesto do rapaz como um raio de sol que a esquentava no frio inverno que seu irmão representava. Desde um doce que o rapaz dava para a menina até uma simples presença ou lembrança era um conforto para Sakura. Para Sakura, Yukito não era apenas o amigo do irmão, era o homem que amava e a fazia feliz, era a pessoa que tinha decidido passar os momentos tristes e felizes da vida, e a medida em que ia envelhecendo Sakura queria cada vez mais a presença do rapaz em sua vida, em cada pequeno momento, em cada festa ou parque de diversões.

Yukito era o eleito de Sakura para a primeira vez em tudo, até mesmo do primeiro beijo, o momento mais importante da vida de uma garota. Mas Sakura não era apressada e grudenta como muitas meninas de sua idade o eram. Sua grande inspiração era Rika-chan, a quem considerava como sendo a garota mais madura de sua classe. Rika-chan buscava se aproximar aos poucos do Terada-sensei, fazendo reconhecer seu grande amor por ele em cada pequeno gesto, em cada pequeno ato. Com Yukito não seria diferente.

Sakura buscava agradar o rapaz em cada ocasião em que podia ficar ao seu lado, e sentia que Yukito fazia o mesmo por ela, mas ela não sabia o que se passava no coração de Yukito. Não queria mostrar muito de si, mas como reagir após seu irmão ter escancarado o seu coração para Yukito? Como olhar nos olhos castanhos e pegar nos cabelos cinzentos de Yukito? Quem sabe Kero-chan, a besta do lacre, aquele ser mágico bonachão dotado de uma sabedoria milenar pudesse ajudá-la. Ou não:

- Sakura o que o seu irmão falou não significa nada. O que você falar é mais importante. Lembre-se: você é a dona de seu coração e uma cardcaptor! Quando o coração de Yukito estiver pronto você irá com tudo para cima dele, fará o seu "release" e terá seu Yukito-san pertinho de si!

As palavras de Kero não fizeram diminuir as lágrimas, mas fizeram com que se animasse um pouco mais, afinal Kero sabia animá-la em momentos assim, onde o céu havia desabado sobre a terra e nenhuma esperança havia mais:

- Tem razão Kero-chan! O nii-san só falou o que ele acha e não o que eu sinto!

- É isso mesmo Sakura, só você sabe o que você sente e só você pode revelar o que sente e na hora que achar apropriado fazer isso, e você o fará com toda certeza!

- Mas Kero-chan, as palavras do nii-san foram tão impactantes que eu não poderia deixar de me sentir mal, de me sentir envergonhada pelo que ele disse...

- E você já parou pra pensar que uma reação dessas só faria com que o Yukio suspeitasse cada vez mais do seu amor por ele? Só pelo fato de você fugir já deu pra perceber que as palavras do seu nii-san te afetaram de alguma forma.

- Hoe! é verdade Kero-chan! Eu posso ter me entregado quando eu fugi para o quarto e nem pensei nisso! Kero-chan, acho que vou ficar ainda mais mau pelo que aconteceu! Hoe!

Depois do que Kero disse, Sakura começou a chorar; não havia pensado no impacto de suas ações, só em cada palavra dita pela boca do irmão. Começou a pensar em Tomoyo, e em quanto a amiga e parceira de todas as horas era controlada em suas emoções, sempre mantendo a serenidade, não importa o momento, até mesmo diante das mais violentas cartas Clow, como a Watery. Sakura desejou aquela serenidade para si, desejava ter se mantido calma e não ser tão explosiva diante de seu irmão e de Yukito.

- Ah Tomoyo-chan, como eu gostaria que estivesse aqui comigo hoje, neste instante, me consolando minha amiga! Hoe! Como é duro ter de suportar tudo isso sozinha.

- Ah! Eu nunca vou entender mesmo essas virgens apaixonadas!

- Você fala isso porque nunca se apaixonou Kero-chan!

- E desde quando você sabe que eu nunca me apaixonei? Eu só acho que é muita besteira você ficar ai chorando e se lamentando por uma coisa que o seu irmão disse! E a minha companhia não é o bastante dinossaura?

Kero sentiu uma ponta de ciumes com o que Sakua havia dito, o mesmo ciumes que tinha com o "pirralho", agora estava sentindo por Tomoyo. Da mesma forma Sakura sentiu raiva com a provocação de Kero, não gostava de ser chamada de dinossaura, mas sabia o quanto Kero podia ser irritante quando ele queria, e aquele momento não era para se ficar irritada.

Sakura olhou para o celular que a amiga havia dado e pensou em telefonar, desabafar, sair daquela confusão criada por seu irmão e por Kero, quando de repente a porta de seu quarto bateu:

- Está tudo bem Sakura-chan? Quero falar com você.

- Yukito-san! (olhando para kero, aflita) Se esconda Kero-chan!

- Ok, ok

Kero voltou a ficar em posição de boneco inanimado junto aos outros que Sakura possuía próximos à janela, sempre suando frio como sempre, temendo ser descoberto, escondido por entre os demais para evitar ser visto por Yukito (ao mesmo tempo em que não conseguia vê-lo). Sakura correu e foi abrir a porta do quarto, não tão animada como antes e sim hesitante depois do ocorrido.

- Sakura-chan, eu preciso falar com você, podemos conversar?

- Yukito-san, eu não estou com muita vontade de conversar agora com você, estava pensando em ligar para Tomoyo, passar um tempo na casa dela pra acalmar toda essa confusão.

- Você se importaria em ir comigo até o parque do pinguim? Sabe eu estou muito bravo com Toya depois do que ele te disse e também gostaria de conversar à sós com você, só nós dois, o que você acha?

-B-b-em, Yukito-san, espere na sala, eu vou me arrumar e já saímos então.

-Ok, estou te esperando.

O rapaz fechou a porta, e bastava a imagem dele para Sakura sair de seu oceano de tristeza para uma praia ensolarada de alegria. Nunca havia imaginado que vê-lo novamente a faria melhor, ainda mais a deixava mais otimista, além de fazê-la entrar em seu "modo hanyan":

- Yukuto-san! Como você me faz feliz Yukito San!

Kero já respirava aliviado após a saída do rapaz, mas o alívio não durou muito tempo, pois imediatamente após a saída do rapaz, Sakura o agarrou e o abraçou com toda a força que Kero pensou que iria ficar sufocado:

- Sakura me solte, se não eu vou morrer sufocado!

- Desculpa Kero-chan, é que estou tão animada com o convite de Yukito! Um encontro no parque do pinguim esta hora da noite e com o Yukito-san! HOE!

Kero se admirava com a capacidade de Sakura de transmutar seu sentimento de tristeza para um de alegria em poucos segundos. Não era para menos, afinal a menina era dotada de magia e era a cardcaptor escolhida por ele, o grande Kerberos, a besta do lacre. Com a mesma felicidade com que suportava as chateações do irmão e com a força que sustentava sua filosofia de "sorrir sempre" não importa a ocasião, Kerberos pensava consigo mesmo que se Sakura e Clow Reed tivessem se conhecido ela seria uma grande alquimista sob sua orientação, com um potencia de ficar tão poderosa quanto o próprio Clow.

Kero realmetne estava certo. Não havia necessidade alguma de se preocupar com a resposta de seu irmão, a única preocupação era ser feliz, não importa o que; se Sakura tivesse mais experiência com certeza compreenderia o que Kero queria dizer.

Sakura se vestiu apressadamente e caminhou até a porta, onde seu Yukito-san a estava esperando.

Ao chegarem no parque do pinguim, Yukito sentou-se ao lado de Sakura, comprou-lhes uma pipoca, e os dois começaram a trocar as suas mais íntimas confidências, sob a lua crescente, quase cheia, os dois juntinhos; era como se Sakura estivesse se declarando com seus próprios gestos, pois o seu irmão já havia se encarregado de verbalizar o resto. Apoiou a cabeça no braço esquerdo e no peito do amado e começaram a conversar:

- Não tem problema de ficar assim com você Yukito-san? O nii-san já estragou tudo mesmo.

- (sorrindo) Que nada Sakura-chan! Se você não fizesse eu mesmo me apoiaria em você.

- Não liga pro que ele disse não Yukito-san, ele sempre procura alguma coisa pra me irritar, mas dessa vez colocou você no meio.

- (acariciando os cabelos da moça) Quem disse que eu ligo Sakura-chan? Eu só me importo com o que você me diz e com a sua felicidade; você é como uma irmã para mim, não gosto de vê-la triste e nem daqueles que te fazem magoar.

- (com o rosto vermelho e esquentando) essa "irmãzinha" também quer te ver feliz Yukito-san, faço tudo por sua felicidade, se me pedir um chá, um obentou eu vou te fazer com todo o carinho, até mesmo quando você não pede eu faço.

- Sabe Sakura-chan, tudo o que sempre fiz por você só fica bom porque eu realmente gosto muito de você Sakura-chan! Se eu não fizesse com amor nada daria certo; você quer me dar um chá e eu quero te dar a lua, aquela lua crescente quase cheia; pena que ela é tão grande para eu segurar com as mãos Sakura-chan; sei que isso é meio meloso e apaixonado, mas se ser meloso e apaixonado enquanto estou com você significar meus reais sentimentos por você que assim seja; eu amo você Sakura-chan, amo como uma irmã e espero te amar muito mais daqui pra frente.

Sakura quase que não acreditava no que acabara de escutar de Yukito. Já imaginava que Yukito uma hora poderia se declarar para Sakura, mas não esperava que fosse em um momento desses e dessa forma. Yukito disse que a amava, como uma irmã e esperava amá-la ainda mais em um futuro próximo, o futuro onde os dois estariam mais maduros para o amor, um amor pleno. Sakura quase não se conteve quando Yukito disse isso e queria confessar todo o amor que sentia por ele, porém ao se lembrar de Tomoyo e sobre quando ela era reservada ao demonstrar as suas emoções, se conteve; e como se sentisse a presença dela como se fosse de uma carta clow, disse à Yukito:

- Yukito-san, você só me diz isso pra me deixar feliz!

- Eu quero sua felicidade Sakura-chan! Você já é minha irmã de coração há muito tempo. Desde aquele momento no parque você me faz sentir mais feliz quando estou ao seu lado.

- Yukito-san...

Ao ver o rapaz se declarar com tanta profundidade e com tanta desinibição, Sakura se sentia mais segura, mais confortável nos braços de Yukito-san; sentia-se mais segura por saber que o rapaz a amava e ela sentia o mesmo por ele; afundou-se nos braços do rapaz e ficaram assim durante um bom tempo, com o rapaz acariciando os seus cabelos. Depois quando estava ficando tarde os dois se levantaram e Sakura falou, sem inibição e sem arrependimentos:

- Eu também te amo muito Yukito-san!

Os dois se abraçaram fortemente, não como um abraço de amantes, mas como um abraço entre dois irmãos que há muito tempo não se viam e acabaram de se encontrar.

- Então vamos?

Os dois saíram do quarto e voltaram para a casa dos Kinomoto.

Chegando em casa, Toya os aguardava na escada, e imediatamente se dirigiu à irmã:

- Me desculpe. Estava preocupado com você, e está ficando tarde já está na hora de dormir.

Sakura sorri e replica ao irmão:

- Não precisa se desculpar; tive um bom momento com Yukito-san e isso apaga tudo o que passou, não é Yukito-san?

- Sim Sakura-chan, Oyasumi Sakura-chan, bom sonhos.

- Oyasumi Yukito-san, uma boa noite!

Os três foram dormir.

- Eu não ia perder nenhum momento seu Sakura-chan, principalmente nesse encontro seu com o Yukito-san! Como você é bonita Sakura-chan, ainda mais quando está apaixonada assim pelo Yukito-san; seu rosto fica tão bonito e radiante quando está com o homem que ama; você não faz nem ideia de como eu fico quando eu estou ao seu lado – disse, pousando o rosto na palma da mão esquerda.

No parque do pinguim, após o encontro de Sakura com Yukito, uma figura conhecida, de longos cabelos cinzas, olhos púrpura e com uma câmera na mão, acompanhava toda a ação; Era Tomoyo. Tomoyo havia saído com as suas guarda-costas para comprar alguns bonecos na loja da Maki, buscando também inspiração para a próxima roupa de batalha da Sakura. Nem esperava encontrar Sakura no caminho, mas tudo foi uma feliz coincidência para a garota.

Tomoyo amava filmar Sakura, e se sentiu privilegiada em filmar mais um momento de sua melhor amiga, o momento de florescimento de seu amor por Yukito e também o do rapaz pela garota. Sentiu-se beneficiada pelo destino, talvez uma oportunidade oferecida por Nadeshiko para poder demonstrar e sentir o amor da garota pelo rapaz, que de certa forma é o seu amor também; tudo o que a garota sentia também fazia Tomoyo se sentir da mesma forma, se alegre ou triste, sentia-se ligada à garota, e sentia isso a cada dia mais.

FIM DA QUINTA-FEIRA