Sasuke sabia.
Ia sair caro livrar-se do gângster, mas valia a pena — cada centavo. Dobrar o que o homem estava ganhando era um pequeno preço a pagar para demovê-lo da idéia de permanecer no cassino, o que Sasuke conseguiu alertando-o sobre o fato da polícia espanhola ter detetives à paisana espalhados pela casa, pois suspeitavam de dinheiro ilícito sendo lavado, com isso Sasuke esperava não vê-lo de volta tão cedo.
Acreditando, Kiba sinalizou com os dedos para seus acompanhantes e levantou-se. Sasuke relaxou por um instante. Quando o fez, seus olhos deslizaram novamente pela garota. Gostaria de não tê-lo feito. De perto, ela era ainda mais estonteante do que pensou. Seu rosto, de um oval perfeito era ainda mais bonito que seu perfil. Nariz delicado, lábios perfeitos e um par de olhos perolados incomuns.
Quanto ao seu corpo...
Era alta para uma mulher, mas não um tipo musculoso, de ossos largos. Era delicada — uma linda curva da cintura aos quadris, acentuada por aquela justa atrocidade prateada que vestia e seios fartos demais para o decote desalinhado como estava. Mas, ele pensou divertidamente, aquilo permitia que ele visse quase tudo de um pêssego, exceto o mamilo.
Sentindo o corpo reagir, o que era previsível, ele afastou a luxúria. Não se interessava por garotas como ela. Ela e as outras passariam como doces naquela noite, por Kiba e seus companheiros — bens de consumo, usando um termo gentil.
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Duas manchas rosadas apareceram de leve sob a maquiagem, nas bochechas de Hinata. O espanhol a observava — e ela sabia exatamente o que ele estava vendo.
Está vendo uma mulher da vida.
O que mais a entristecia é que não podia culpá-lo por pensar aquilo. O que mais pensaria sobre ela e as outras garotas, cujos nomes nem sabia, mas cujos tipos eram das que sempre estão rodeando homens ricos pelo que podem tirar deles?
Afastou o olhar. Não havia nada a fazer, não foi sua escolha estar ali — Sakura lhe pediu um favor e jamais poderia negar-lhe ajuda.
Eles estavam saindo. Jiraiya, com o braço em volta dela, seguia Kiba. Uma das garotas estava pendurada no braço de Kiba perguntando de forma intrometida sobre o que estava acontecendo. Ele a ignorou dizendo algo aos seus compatriotas. Foram em direção ao caixa e Hinata esperou Kiba receber o que pareceu ser uma montanha de notas, que ele contou e depois guardou no paletó.
Tanto dinheiro — Hinata mal conseguia evitar o olhar fixo...
Enquanto se dirigiam para o enorme saguão do cassino, Hinata sentiu que o espanhol ainda os olhava.
Pensou que ele devia ser o detetive ou segurança do cassino e que estava se garantindo de suas saídas. Talvez tivesse avisado Kiba Inuzuka que algum rival nos negócios o havia localizado e o espreitava na intenção de vingar-se de algo. O que fosse, definitivamente fez com que Kiba não quisesse ficar ali.
O ar frio da noite a atingiu quando saíram do cassino. Ela tremeu e sentiu Jiraiya apertá-la mais.
— Eu a mantenho quente — ele sorriu, o ouro brilhando generosamente em seus dentes, o hálito cheirando a uísque.
O inglês dele não era bom e tinha forte sotaque, mas o seu olhar mostrava suas intenções. Hinata esboçou um sorriso falso e não respondeu. Com os olhos se ajustando à luz viu o belo e alto espanhol pela porta aberta. Por um segundo sentiu seus olhares se encontrando.
E sentiu o desprezo dele passar por ela.
Abaixou o rosto não querendo vê-lo e quando olhou novamente, ele tinha sumido.
Uma imensa limusine preta estacionou diante do grupo. Um dos companheiros de Kiba abriu a porta.
— Aonde vamos? — Ela se ouviu perguntando rispidamente.
— Hotel — Jiraiya ofereceu esperançoso. — Suíte do Sr. Inuzuka. Temos uma festa lá.
Ela se afastou. Não conseguiu evitar.
O homem pareceu pensar que era uma brincadeira. Puxou-a de volta mais para perto, com sua mão gorda e forte. Encostou a boca em sua orelha.
— A suíte tem banheira quente. Ficaremos todos limpos! — Deu uma risada rouca e esfregou a mão gorda no braço de Hinata. — Vou esfregá-la toda — riu novamente, rouco — Todo seu corpo adorável nu!
Hinata gelou do alto da cabeça à ponta dos pés.
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Sasuke ergueu a mão agradecendo o rapaz do estacionamento que trouxe seu carro e sentou-se. Estava contente por ir embora. A noite deixou um gosto amargo em sua boca. Afastar os gângsters foi simples, mas não gostou de tê-los por lá. Enquanto dava a partida olhou para o grande pórtico do cassino. Quanto tempo levou criando aquele lugar? Às vezes — pensou exausto — sentia como se tivesse levado uma vida, ainda que tenha se tornado dono de um dos principais resorts da costa em menos de doze anos. Doze duros anos transformando o pobre formando que era em um empresário bem-sucedido.
Não que tenha sido difícil. A costa espanhola do Mediterrâneo é uma mina de ouro para quem estiver alvejando, tanto os turistas com um orçamento para gastar, quanto aqueles em que ele se focalizou — os visitantes sem problemas de orçamento, que só querem queimar dinheiro ostensivamente com tudo, de iates a campos verdes.
Virou seu carro conversível pela via de palmeiras, cruzando a paisagem arborizada do El Paraíso e passou pela bifurcação levando ao luxuoso hotel aninhado sobre uma praia particular com suas fileiras de piscinas e casas de veraneio que dão vista para a marina — onde milionários ancoram seus iates antes de irem perder seu dinheiro no cassino El Paraíso ou jogar golfe no clube exclusivo, anexo ao hotel.
O resort cheirava a dinheiro — assim como o resort gêmeo, em Maiorca, e o do Algarve. Sasuke sentiu a mente deslizar para terreno conhecido — a expansão dos negócios. Onde abrir o próximo El Paraíso? Talvez Menorca, ou uma das ilhas Canárias? Em Costa de Luz, na costa espanhola do Atlântico, que se desenvolvia rapidamente? Ou quem sabe na costa norte, onde a aristocracia eduardiana adora apostar os lucros da cidade e os aluguéis dos imóveis?
Sorriu levemente. Uns cem anos e a Espanha ainda era uma Meca para os europeus do norte famintos de sol. A fome deles trouxe prosperidade, mas a um preço. A antiga Espanha estava mudando, desaparecendo para sempre. A pobreza também, assim como as tradições, a cultura, as diferenças que separaram a Espanha do resto da Europa por séculos, quando os dias de glória se afastaram como o ouro inca gasto.
Afastou o pensamento. História sempre foi um assunto que o fascinou, mas o tempo em que queria ser professor havia passado há muito. Perseguiu o dinheiro e foi mais bem-sucedido nisso do que jamais sonhou. Agora o dinheiro o perseguia.
Assim como as mulheres.
Um brilho cínico apareceu em seus olhos escuros enquanto se dirigia para a estrada costeira principal e aumentava a velocidade. As mulheres sempre vinham com facilidade para ele — especialmente as do norte, que pareciam ficar loucas por sexo quando chegavam à Espanha!
Fazer dinheiro tinha sido diferente. A expressão cínica aumentou, enquanto apertava mais o acelerador. Ainda lembrava-se de seu primeiro choque verdadeiro ao perceber, que quando um homem tem dinheiro pode ter qualquer mulher que quiser. A costa estava cheia de mulheres buscando por um homem rico; velho, feio, gordo — mulheres como aquelas não se importavam.
Aprendeu isso quando percebeu que elas achavam sua carteira mais sexy do que ele.
Mudou a marcha e forçou o motor. Bem, pelo menos aprendeu depressa. Atualmente era cínico o bastante para escolher as mulheres que tinham a melhor aparência — nunca ficava muito tempo com elas. Sempre havia um lote fresco do qual escolher, quando queria.
Seus lábios se contraíram. Seria assim para sempre? Apenas um desfile de lindas mulheres em sua vida? Um sorriso debochado passou pelos seus lábios — do que estava reclamando? A maioria dos homens o invejava.
Além do mais, sabia que um dia encontraria a mulher certa. Só não sabia quando. De muitas maneiras, era uma existência vazia. Pensou em seus pais já falecidos e o quanto tinham trabalhado. Funcionários públicos trabalhando duro e ganhando pouco, fazendo o melhor para dar a ele um bom começo de vida. Eram céticos quanto à decisão dele de não prosseguir com uma carreira acadêmica. Porém, um verão trabalhando para uma empresa de desenvolvimento empresarial abriu seus olhos para a imensa oportunidade que a nova Espanha se tornou para pessoas ambiciosas. Ele seria um tolo se rejeitasse aquilo.
A expressão em seu rosto tornou-se sóbria. Seus pais tinham vivido o bastante para ver o filho começar a montar seu império de resorts, mas seu pai se preocupava com o enorme risco financeiro e sua mãe lamentava por ele não se interessar pelo casamento. Tinham morrido num acidente de carro, uns cinco anos antes, deixando-o sozinho no mundo. Então, dedicou toda sua energia e tempo para montar o El Paraíso.
A única pausa no trabalho contínuo foi para encontrar um lugar nas montanhas longe do desenvolvimento da costa, para morar e compartilhar sua vida com a mulher certa quando a encontrasse — o mítico momento que ainda não havia acontecido, mas que ele antevia vagamente.
O olhar cínico voltou. Claro que além de trabalho tinha outra diversão — mulheres. Nunca deixou que atrapalhassem o trabalho, mas claro que gostava de relaxar com elas.
Mudou novamente a marcha. No momento estava em fase de troca. A última foi uma loira nórdica divorciada, incrivelmente inventiva entre os lençóis, embora a conversação com ela fosse bem ilimitada, exceto quando o assunto era sobre ela casar-se novamente deixando claro que ele seria um ótimo segundo marido. Como ele não concordou, ela não ficou muito feliz. Karin Uzumaki amava o seu dinheiro, não ele.
Claro que tentou esconder — não deixar óbvio demais — mas ficou claro para ele. Ela bem poderia ser uma daquelas mulheres penduradas no braço daquele gângster, com um preço estampado na testa.
Uma ruga apareceu entre seus olhos. Não devia estar pensando naquelas mulheres, principalmente naquela que atraiu seu olhar.
Uma pena. Ela tinha alguma coisa rara, algo que ele gostaria de explorar mais — talvez ela nem sempre tivesse sido como agora. Não, ele não devia estar pensando nela, uma mulher que provavelmente estava agora nua, rolando com aquele bando de gângsters, em turnos...
Ao se aproximar do cruzamento ele diminuiu a velocidade. Mesmo depois de meia-noite o tráfego ainda era intenso na estrada, nas duas direções. El Paraíso fica apenas a oito quilômetros da cidade, mas a distância é cortada pelas urbanizações e hotéis, então para chegar ao campo fez o que sempre costuma fazer — virar para o norte, na direção das montanhas atrás da costa.
Quando atravessou o cruzamento, algo no acostamento chamou a sua atenção. Ou melhor, alguém.
Automaticamente enfiou o pé no freio, surpreso.
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Hinata franziu o rosto em expressão de dor. Tinha tirado seus ridículos saltos altos quase dois quilômetros atrás e andado de meias — agora esburacadas — o que doía — e ainda tinha um bom caminho a percorrer. O vestido longo enfim teve alguma utilidade, sendo mais decente andar com ele cobrindo os buracos das meias.
Estava furiosa. Não com Kiba Inuzuka ou seus compatriotas, mas consigo mesma. Em primeiro lugar, raiva por ser tão idiota, por concordar em ir a qualquer lugar com ele. Qualquer favor que Sakura podia esperar dela não incluía ficar em grupo numa banheira de água quente!
Ela podia sentir a náusea aumentando e também — o medo — ao pensar no que teria acontecido se não tivesse se recusado a entrar na limusine. Kiba não ficou satisfeito, lógico, mas ela se manteve firme. Então, dizendo alguma imprecação para Jiraiya, Kiba empurrou-lhe uma das duas garotas que estavam com ele. Todos entraram na limusine e se afastaram deixando Hinata na pista, trêmula e arrepiada.
Sem dinheiro para um táxi e sendo tarde para os ônibus, iniciou a maratona a pé para casa.
Uma pedra cortou seu pé e ela gemeu de dor. Ainda teria que andar uns seis quilômetros, já que qualquer um que parasse para oferecer-lhe carona, dificilmente seria por motivos altruístas...
O carro freando diante dela fez com que parasse. Temerosa, olhou-o, indo automaticamente para o lado. Continuou andando. Não pare, continue a andar, disse a si mesma. Se ele falar com você, não pare.
Apertou os sapatos nas mãos. Se precisasse usaria os saltos como arma. Estava tensa. Um homem saiu do carro. Ela notou a altura e o smoking. De relance percebeu que o carro era esportivo.
Carros rápidos não são raros nesta parte rica da costa e aquele modelo era dos mais rápidos. Baixo, compacto.
Continue andando.
— Señorita?
A voz do homem era baixa.
E familiar.
Hinata olhou de lado incapaz de se conter e parou.
Era o homem do cassino. O que foi falar com Kiba Inuzuka e tirou sua respiração com sua aparência estonteante. E que a desprezou como se ela fosse uma mulher da vida...
E que agora falava com ela numa estrada vazia, a seis quilômetros da cidade, à uma hora da manhã.
Sentiu o perigo.
— Precisa de uma carona?
O tom irônico da voz deixou-a irritada. Afinal, qualquer mulher andando pela estrada principal, num vestido de noite, sem sapatos, não estava fazendo aquilo para manter a forma.
— Não, obrigada — respondeu com voz entrecortada e voltou a andar.
Dando um passo para o lado dela, ele pôs a mão em seu braço interrompendo-a.
— Não seja ridícula — o tom irônico de sua voz a irritou.
— Tire a mão de mim ou enfiarei meus saltos em sua cabeça! — Hinata falou entre dentes.
Ele a soltou afastando as mãos.
— Não precisa ter medo — ele falou num tom de reprovação e divertida ironia. — Muito provavelmente você será assaltada se continuar andando — agora sua voz mostrava apenas reprovação. — Se estiver indo para a cidade eu a levo.
Ela virou a cabeça desafiadoramente
— Por quê?
Ao virar ela pôde finalmente vê-lo inteiramente e sentiu seu estômago revirar. Deus do céu, ele era devastador! Mesmo na penumbra, tirava o fôlego. Por que era tão atraente? Os homens espanhóis sempre foram belos — mas este a atraía como nunca aconteceu antes. Algo neste homem a fazia pensar em coisas bem pouco acadêmicas.
Os lábios dele — lindamente torneados — se ergueram num rápido sorriso divertido. Mesmo com o que pensava da garota não podia deixá-la ali sozinha.
— Bem, digamos que não vai ser bom para o cassino o seu corpo aparecer violentado e assassinado amanhã cedo; farão perguntas embaraçosas sobre a sua noite. Não seria o tipo de publicidade que eu gosto.
Hinata fungou.
— Como sabe que eu estava no cassino? — Ela perguntou-lhe estranhando, afinal, apesar de terem ficado lado a lado, ele apenas prestou atenção em Kiba Inuzuka e quando passou o olhar sobre ela foi com desdém, desprezo e muito rápido para guardar sua fisionomia.
Ele encolheu ligeiramente os ombros.
— De onde mais você podia vir? Não há outro lugar longe assim que atrairia uma mulher como você. Além do mais... — a voz dele ficou um pouco rouca, fazendo coisas estranhas com os nervos dela. — Eu a reconheço. Diga-me... — subitamente a voz endureceu. — Por que não partiu com o seu grupo? A limusine era grande o bastante! Ou será que decidiram liquidá-la?
O rosto dela gelou ao entendê-lo e conteve um tremor violento. Se tivesse sido estúpida o bastante para entrar na limusine, poderia muito bem ter encontrado o destino horrível que ele sugeriu. Uma sombra de medo bruto fez com que visse a loucura que tinha feito esta noite.
— Eu os liquidei! — Ela devolveu.
Dedos acariciaram suas costas nuas.
— Eles não eram do seu agrado, señorita! — A voz do espanhol era baixa causando-lhe sensações incríveis, assim como o roçar das pontas de seus dedos em sua pele.
Então, subitamente, a cautela voltou.
— Tire as mãos de mim!
Ela se afastou olhando para ele, segurando os sapatos diante dela, como se para protegê-la.
— Veja Sr. Detetive Particular do Cassino, ou seja lá quem for, apenas deixe-me sozinha! Estou cansada, aborrecida e muito longe de casa. Assim, suma e deixe-me em paz.
Virou-se e recomeçou a andar. Mas quando deu o primeiro passo doloroso, seu pé bateu numa pedra especialmente afiada fazendo-a gritar e parar. Instantaneamente, o homem chegou ao seu lado.
— Seus pés estão em frangalhos — ele censurou seriamente. — Se tiver o mínimo de bom senso aceitará a minha oferta de carona de volta à cidade. Acredite-me, ficará mais segura comigo do que aqui sozinha. Nem todo mundo que oferece carona para uma linda mulher, señorita, tem as mesmas boas intenções. E além do mais... — sua voz tinha novamente um toque de humor — dificilmente você terá uma oferta de carona num carro mais rápido...
Hinata olhou para o carro parado no acostamento como um tigre armando o bote.
— Ok, então, você pegou emprestado o carro do chefe e deseja exibi-lo. Ótimo. — Uma súbita certeza passou por ela. Estaria protegida com o detetive do cassino El Paraíso. Era um dos resorts mais exclusivos da costa e os seus seguranças dificilmente arriscariam seus empregos assaltando turistas, não é? E ela estava tão cansada, tão chateada... Sem falar que seus pés estavam em agonia...
Foi na direção do carro, abriu a porta e se jogou no acento de couro. Jogou os sapatos no chão e se recostou erguendo o queixo imperiosamente.
— Café Carmen, na Rua das Américas — ordenou — fica ao longo do velho porto. E pise fundo, está bem?
