2. OLHOS HIPNOTIZANTES EM YELLOW WOODS
O cansaço definitivamente me consumiu. Não consegui sonhar, e muito menos sentir o tempo passar. Dormi o sono dos "deuses do Rock", como ele diria. Uma pedra. Figura ainda pálida e cansada, olhos roxos e fundos de cansaço e, ainda assim, passei horas em estado de hibernação.
Diferente dos dias anteriores, eu acordei em paz, calma, e com o raio do sol da manhã entrando pela janela da cozinha – se é que posso chamar assim aquele espaço - que vinha exatamente na direção dos meus olhos naquela hora. Já não estava mais com tanto frio e meu corpo estava levemente suado pelo calor daquela manhã, tão manhosa. Meus cabelos, céus... provavelmente devem parecer uma juba. O lençol estava todo revirado, e não mais me cobrindo.
Abri os olhos aos poucos. Já lúcida, soube onde estava após alguns segundos de estranhamento típico de quando mudamos de um ambiente e dormimos em um lugar diferente. Quis me virar para o lado oposto, mas senti uma dor na minha ferida na cintura e travei o movimento.
Quando percebi, Edward estava de prontidão sentado na entrada da cabana – pois aquilo não tinha porta decente, claro - encostado em um lado do portal e com a perna cruzada no joelho, o pé apoiado no lado oposto, com um livro na mão e olhando, com aqueles mesmos olhos misteriosos que encontrei pela primeira vez há alguns dias, para mim. Espreguicei-me um pouco na cama, e o fitei naquela posição. Ao lado de fora, agora eu podia ver, havia um riacho, lago, ou algo assim, com água limpa e grama muito verde até a cabana. Parecia uma pequena praia particular, a qual eu não havia notado por estar na nebulosidade daqueles dias anteriores.
– O que você está fazendo? – perguntei, sem ter noção do horário.
– Estava lendo aqui, esperando você acordar. Como está se sentindo agora? – ele perguntava, racionalmente.
– Quase descansada, eu acho. – me mexi na cama e percebi que meu corpo todo doía, mal conseguia dobrar os braços, pernas e pescoço. - Só acho que acabo de perder os movimentos.
– Espera. – Ele esboçou um sorriso torto, fechou o livro, largou sobre a mesinha na entrada da cabana e veio rápido para perto da cama. Segurou minhas mãos e me ajudou a sentar, apoiando minhas costas. De repente, eu comecei a desconfiar que havia um toque de gentleman por trás daquele sarcasmo todo.
Por um momento, senti suas mãos nas minhas – fortes, grandes, seguras e cúmplices. Fiquei sem ter muito o que dizer, então simplesmente o olhei, com a cabeça de lado e meu olhar de peixe morto. Uma-bosta-de-cansada-mas-bem-melhor.
– Bom dia... – respondi, finalmente.
–Você parece um panda cansado. – ele riu, amistosamente.
–Obrigada, Edward. – passei as mãos nos olhos, tentando limpar a aparência e arrumar o cabelo, que com certeza estava feroz.
Ele não tirava os olhos de mim. Depois de me analisar em cada movimento, abriu suas mãos enormes e as colocou nas solas dos meus pés. Ele encostou devagar, mas acho que foi o suficiente para eu ficar arrepiada, e isso ficou mais do que claro.
–Por acaso está com frio, moça?
– Não, estou normal. – falei disfarçando e cruzando os braços na minha frente, como se bloqueassem minhas emoções para ele. Fiquei com vergonha e, tenho certeza, corei.
Edward começou a pegar nos meus pés, dobrando levemente as minhas pernas e estimulando minha articulação. Ah, se ele soubesse como eu fiquei desconsertada...
– Você é estranha – ele disse num tom que soou como desdém.
–Obrigada? – franzi a testa, e a curiosidade logo me tomou - Estranha como? – e fingi que não entendi que ele notava minhas reações espontâneas.
– Uma hora está com frio quando está calor, outra hora está com mais calor do que realmente está... de noite se descobre sentindo calor quando na verdade faz frio, isso tudo mesmo sem febre.
– Nada a ver. – emendei, confusa.
– Bom, vamos tomar café? – ele certamente previu que eu ainda não tinha articulação suficiente para levantar. Ajudou-me a sentar e foi pegar na cozinha um pão fresco com geleia, leite e água. Desta vez, trouxe tudo numa bandeja. Achei engraçado o excesso de cuidado com uma mera estranha.
– O que acontece com esse tratamento V.I.P.?
– Serviço completo para meus convidados. Depois você levanta um pouco. – ele colocou a bandeja sobre minhas pernas.
Eu, faminta, comecei a devorar o pão, macio e fresco, lambendo os dedos e saboreando cada mordida como se aquele fosse o maior banquete do mundo. E depois do sufoco dos dias anteriores, realmente era. Quando abri os olhos, ele estava olhando para mim, sem piscar, quase sorrindo, com um certo tom bem esquisito para minhas expressões de satisfação. Fiquei totalmente sem graça e mais vermelha do que antes, eu acho.
–Você não vai comer?
– Eu já vou almoçar, pra falar a verdade. Você dormiu muito, quase quinze horas – ele disse, olhando surpreso para o relógio em cima da mesa.
– Meu Deus... por que você não me acordou?
– Pra que? Precisava descansar. Além disso, estava acompanhando seu sono pesado, mas tinha horas que eu acho que você realmente encontrou alguém como sei lá... o Elvis. – ele riu, sem controle.
– Que Elvis?
– Você não sabe? O Rei do Rock, sua tonta!
– Bem, desculpe por ter perdido a memória e a piada... – vergonha deveria ser palavra do século. Agora sabia que era estranha até dormindo.
– Sabe dos Stones, mas não lembrou da lenda? Isso não tem perdão. Vou te mostrar quem é Elvis.
– Por favor.
– Beba antes que esfrie. – ele percebeu que eu já havia me distraído na conversa e tinha largado o leite.
Edward levantou e foi até a mesa da entrada da cabana, onde tinha um toca-discos e alguns vinis. Após escolher um do Elvis, colocou "Twist and Shout" para tocar, olhou para mim e, antes de voltar, apontou para o disco.
– Este é o Rei, senhorita esquecida! – ele sussurrou.
–Legal.
Terminei meu leite, totalmente indiferente, e ele riu.
– Belo bigode.
Limpei meus lábios com as mãos, antes de perceber um lenço enorme na bandeja de palha improvisada. Sou cem por cento distraída. Mesmo. Ele percebeu e, antes que tudo caísse pelo chão, veio correndo pegar a bandeja e a deixou na cozinha. Elvis ainda cantava, mas agora era "Love me Tender".
Eu já o conhecia mas, sinceramente, não fiquei à vontade com Edward me fitando enquanto o "Rei" cantava algo tão meloso. Para não parecer ainda mais estranha e desapontá-lo, simplesmente me pus a prestar atenção na música. Estranho.
E graças a Deus ele se tocou...
–Vamos andar. – ele segurava meus braços fazendo apoio para eu levantar.
Devagar, eu fiz força para levantar, minhas pernas pareciam adormecidas. Quando finalmente fiquei quase ereta, perdi a força nelas e ia caindo pela cama rumo ao chão. Ele me segurou forte pelas costas e não me deixou cair. Fiquei arrepiada novamente, como se tivesse encostado numa corrente elétrica, o que me fez suspirar.
–Ai...
–Não vai cair agora. – ele riu, constrangido por ter ficado tão perto de mim. Afastou-se e foi para o meu lado, me segurar enquanto eu dava lentos passos para frente. – Bom, acho que agora já posso te apresentar minha casa de brinquedo? – ele disse, meio tímido pela simplicidade do lugar.
– Sim, por favor. – andei lentamente até o projeto de cozinha. Havia algumas peças de louça sujas espalhadas na pia, provavelmente só o que usamos pela manhã e que ele ainda não havia lavado, uma garrafa de leite e um saco de pães. Na janela, tinha uma cortina da mesma textura das que separavam os ambientes, no lugar de portas. Vi uma pequena geladeira, um forno e alguns utensílios, minimamente planejados para estarem ali. Era o básico do básico, somente o indispensável. Tudo, como ele mesmo contava, trazido aos poucos de sua casa, escondido da sua mãe, durante toda a vida.
–Aqui é meu segundo lugar favorito da casa. – ele achava mesmo que morava ali.
Em seguida, me levou para o banheiro, um espaço grande e vazio, no cimento, apenas com um sanitário e um cano que servia como chuveiro, onde eu tomei banho no dia anterior. Não existia pia, devia lavar as mãos no chuveiro mesmo. Ou na cozinha.
– Aqui é onde eu leio o jornal e penso na desgraça da minha vida. – ele riu em tom de mísero deboche, e eu franzi a testa, sem entender. Ele ainda não havia me contado nada da sua história para eu saber o que fazia dela uma desgraça. Era algo que eu estava prestes a perguntar, assim que tivesse a oportunidade.
Depois, virou e me levou novamente para a ala principal, onde ficava uma mesa com o toca-discos ao lado da entrada; uma cadeira de madeira; a cama, na parede de frente para o portal; e a estante enorme de livros e objetos dele, perto de um cesto de roupas limpas e outro de roupas sujas, provavelmente.
– E aquele é meu lugar favorito! – ele apontou, para a única cama, a cama onde eu estava dormindo.
–Ah, ótimo. E agora uma estranha dorme bem ali.
– Pelo menos a estranha é engraçada. – ficamos mudos e de pé por alguns instantes.
–Sua namorada deve sentir vontade de vir aqui. – joguei verde, sem querer.
–Eu não tenho namorada, de onde tirou isso? – ele olhou com uma grande expressão interrogativa, como se eu tivesse falado uma bobagem sem cabimento.
–Não? E como surgiram todos os detalhes daqui? Como conseguiu arrumar o espaço minimalista sozinho? – estava impressionada.
– Ora, garota... acredite, eu não sou relaxado. Posso até ter essa aparência, mas não sou. Quer dizer, não nesse sentido – Ao dizer isso, ele passou a mão direita, a que não me apoiava, na barba. - Penso em todos os detalhes e tive tempo suficiente para deixar o espaço como eu precisava, observando minhas necessidades.
– Parabéns, então. Se comporta como um velho em um corpo de jovem que mora sozinho em uma cabana no meio do nada.
– Aprendi a crescer vendo o mundo de uma forma cruel, me viro desde sempre, mesmo morando lá embaixo, do outro lado... – e ele ficou mudo.
Eu não disse mais nada, não iria interroga-lo. Não agora. Não queria que ele fizesse o mesmo comigo. Ele me olhou torto, deu de ombros e virou comigo de costas, apresentando a paisagem ao lado de fora da cabana. Agora, com o sol, podia ver que não tinha absolutamente nada a ver com o outro lugar onde vi a placa "Yellow Woods". Por onde passei, tudo era frio, fechado e cinzento. Agora, aqui, tinha sol, uma grama verde brilhante e uma lagoa espetacular, de águas limpas e cristalinas. Parecia uma pintura, um lugar paralelo a tudo o que eu vi até então. Um pedaço de paraíso. De relance vi que ele observava minha expressão de admiração pela beleza à minha frente.
– Essa é minha piscina particular. – ele sorriu e respirou o ar que vinha em nossa direção.
–E é incrível. – completei.
–Quem sabe você vai aproveitá-la quando melhorar um pouco...
–Talvez, parece uma boa ideia. – concordei, achando que deveria ser ótimo ficar naquelas águas calmas.
Edward me deixou encostada no portal e pegou a cadeira para eu sentar ali, perto da entrada da cabana, e tomar um pouco de sol do fim da manhã. Admirei cada centímetro daquele lugar, mal podia esperar para entrar naquelas águas. Praticamente dormi acordada, pensando em tudo o que aconteceu e em como os fatos se sucederam desde quando ele me encontrou num momento mais do que oportuno. Precisava agradecê-lo, mas ainda não era o fim. Buscava, na minha mente, palavras para expressar minha gratidão por tudo, sem soar idiota nem mal agradecida. Já estava ensaiando para dizer "adeus".
Com o silêncio infinito entre nós, não consegui mais adiar minha curiosidade. Precisava conhecer aquele cara que me salvou.
–Edward...
–Fala.
–Por que escolhe vir aqui?
Ele suspirou, ficou sério como se buscasse uma resposta coerente e clara para mim.
–Aqui eu fico em paz. Não há nada nem ninguém, só uma vila por perto da reserva, no meio da serra, mais nada mesmo. Ninguém sabe daqui. É uma pequena área particular que pertencia a um dos meus amigos. Eu não moro aqui, mas estudo tudo o que preciso, como você já viu.
–Ok, quer ver outra coisa "incrível?" – ele disse, cortando minhas dúvidas e indo para fora da cabana, olhando para mim.
–Uhum.
–Olha! – ele exclamou, apontando para algo que eu realmente não havia notado até agora: atrás da lagoa, para além da viva grama, encontravam-se vários tipos de árvores carregadas de frutos. Aquilo era tão incrível quanto a "piscina particular". Parecia uma faixa colorida delimitando a área da viela onde a cabana de Yellow Woods ficava. Fiquei de boca aberta, literalmente, não só pela beleza como pelo fato de eu ter sido tão desatenta antes. Era como se a cada momento Edward me apresentasse uma nova faceta do mundo, ainda totalmente novo para mim.
–Como conseguiu cultivar tantas árvores diferentes neste lugar?
–Fique aí. Vou pegar nosso almoço de hoje! – ele riu pela minha surpresa e saiu correndo atrás das árvores. Levantou as pernas da calça, atravessou o lado mais estreito da lagoa e pegou uma bola de basquete perto da macieira. Ele começou a jogar a bola, fingindo uma partida invisível, provavelmente para chamar minha atenção, do outro lado. De repente, começou a tacar a bola nas árvores em busca de frutos. Encheu a camisa com maçãs e laranjas.
– Você não vai para a casa almoçar? – perguntei quando se aproximou.
– Não, por quê?
– Sua família...vai ficar uma fera.
– Todos estão viajando, foram passar uma temporada fora, em Vancouver. Nem vão ligar. Disse que estava na casa do Nestor, lembra? – ele riu-se descontroladamente, e lembrei da velha "desgraça" de sua vida.
–Edward. – tentei recomeçar de onde parei.
Ele me olhou.
–Tenho algumas perguntas.
–Todos nós temos. –falou despreocupado, olhando a lagoa.
– Quando você fala deles, soa como se tivesse algo errado. – quis analisar sua risada enquanto ele abria a camisa para eu escolher o que comer.
– Talvez tenha mesmo. – Edward o disse olhando para o horizonte, quase sério, e sentando na entrada da cabana.
–Você não é feliz com sua família? – fiquei mais curiosa ainda.
–Não.
Ele logo tentou mudar de assunto, e me encarou. Ficou claro que sua família não era um tema agradável para ele.
– Como está se sentindo agora?
–Quebrada, mas bem.
– Que paradoxo...
– Não é todo dia que alguém é salvo do jeito que fui.
– Pode me dizer uma coisa? – ele virou para mim e perguntou, enquanto comíamos maçãs.
– Aham.
– No que você pensou durante os dias em que esteve sozinha? Quero dizer... não entrou em pânico por estar sem ninguém por perto?
Relutei em falar por alguns instantes, olhando para baixo. Mas cedi, afinal, talvez, se eu compartilhasse minhas experiências, ele poderia falar sobre as dele.
E eu estava mais do que curiosa para saber quem ele era.
– Bem, eu estava mais preocupada com a perda da memória. Aliás, até agora, é isso que me assusta. Apenas imagine você acordar no meio de uma estrada, sozinho, sujo, sem nenhuma lembrança ou referência de quem é, o que lhe pertence...
–Sua primeira memória foi acordar no meio da estrada?
– Sim. Não sei quanto tempo passei sozinha, mas até onde eu contei, foram sete dias.
– O que ficou fazendo nesses dias todos?
– Andando.
– Por isso não consegue andar direito agora. – ele deduziu sobre o meu cansaço físico.
– Comi algumas frutas pelo caminho e bebi muito pouca água. Tinha medo de me desviar da rua para algum rio ou floresta e justo neste instante, alguém passar e eu não conseguir nenhum contato.
– Entendo. – ele olhava atento enquanto ouvia a minha jornada, e parecia surpreso por eu estar calma e bem. - Falar sobre isso poderá te ajudar a lembrar.
Logo se pairou um grande silêncio entre Edward e eu, ele começou a olhar o fluxo da lagoa novamente. E eu, após comer uma laranja e duas maçãs, pensava se aquele era o momento certo de fazer mais perguntas. Afinal, ainda que ele estivesse me tratando bem, até agora eu não sabia nada sobre Yellow Woods, muito menos sobre sua pessoa.
– E eu posso te perguntar uma coisa? – arrisquei.
– Sim.
– Já entendi que você sabe cuidar de um ferido, mas por que me trouxe para cá, um lugar isolado, e não para um hospital ou a casa de alguém?
– Você não entende... – ele pensou alto, comendo outra fruta.
– Diga. Por favor.
– Esta parte de Washington... é muito perigosa.
–Perigosa como?
– Estamos vivendo momentos difíceis.
– Não entendo.
– Washington está sofrendo um... – ele hesitou e pensou em algum eufemismo para suas palavras, mas parece que não encontrou – um conflito não declarado. As pessoas são perseguidas. Quero dizer, algumas... e eliminadas.
–"Eliminadas"? Tipo, mortas? – indaguei, chocada.
–Sim. Há um tipo de controle, ninguém sabe exatamente vindo de quem. Aqueles que chegam de fora são eliminados. Aqueles que não pertencem ao lugar são eliminados. Aqueles que lutam por direitos, são exterminados. Aqueles que resistem, são mutilados.
– Que droga... como é que eu vim parar aqui?
– Boa pergunta. Isso, você terá que lembrar... – ele olhava fundo em meus olhos - mas, por enquanto, é mais seguro ficar por aqui. Entende agora? Por isso não te levei a um hospital ou polícia. Seria o caminho certo em qualquer situação, mas não posso fazer isso. Faço questão de preservar sua vida.
Isso foi tudo o que ele disse, sem maiores detalhes do que poderia saber sobre minha aparição, muito menos sobre sua vida.
– Por que fez questão de me manter segura? – mordi os lábios e perguntei, depois do choque de saber tudo o que estava ouvindo sobre o mundo ao meu redor.
Ele franziu os olhos para minha expressão e demorou longos segundos buscando alguma resposta em sua mente, mas acho que realmente não a tinha.
– Foi um extinto. Ou um susto. Olha, na verdade... eu não sei. – ele pareceu sincero – não mesmo. - Demorou alguns instantes até julgar que eu merecia um relato, já que revelei o meu a ele. – Eu estava aqui, procurando algumas raízes perto da estrada, e não encontrei, pois você provavelmente as comeu. – brincou – Resolvi respirar um pouco na pista, mas te encontrei antes mesmo de começar... E eu pensei que estava... – ele não quis dizer a palavra.
–Morta? – o completei.
– Sim. – ele abaixou a cabeça, olhando para a grama. Logo pensei no desconforto daquele assunto e pulei para o lado positivo.
–Bem, graças a você, aqui estou. Esperando poder cair bem ali! – apontei para a lagoa, sorrindo de lado.
– Me sinto bem fazendo o bem para alguém. Ajuda a limpar minha alma e minha mente...
– Você não parece ser uma pessoa ruim. – contrariei o tom daquela declaração, sem entender nada.
– Tento o meu melhor.
– Bem, preciso agradecer por tudo isso e... – ele me interrompeu.
– Não agradeça ainda, você não vai embora agora. – seu tom soou mais como uma ordem, e seus olhos penetraram nos meus. Tão estranho.
– Não mesmo, mas assim que eu melhorar...
– Posso saber para onde vai?
– Bem, eu preciso me achar. Não é certo ficar aqui quando pode ter alguém me procurando.
Edward não estava concordando com a história. Sabia disso, porque ele esfregou a mão no cabelo, agora bagunçado.
– Olha, eu acho melhor você se recuperar. Por enquanto, deixa comigo, ok? Quando eu voltar pra Tacoma, vou tentar achar alguma pista para você.
– Tacoma? Como você poderia saber?
– Sim, é onde estudo e trabalho. Deixa comigo. Irei para a vila e vou me informar se estão dando por falta de alguém. Por enquanto... acredite em mim. O melhor que você poderá fazer é ficar por aqui.
– Ok. – respondi cabisbaixa, imaginando que minha permanência ali iria se estender mais do que eu pensava. Não que estivesse ruim, mas eu apenas queria saber quem eu era. Em todo o caso, no momento, eu não poderia ter uma companhia melhor. Só mesmo no paraíso eu poderia encontrar alguém aparentemente caridoso, preocupado e apto a me ajudar numa hora dessas. Mesmo afogada em perguntas.
–Por que este lugar recebeu o nome "Yellow Woods"?
–Hum, não é algo que eu possa explicar em palavras... mas uma hora você vai entender. Por enquanto, tudo o que precisa saber é que estamos numa viela particular, que fica num vilarejo bem simples: Yellow Woods. Estamos praticamente em Snoqualmie Ridge e bem perto de Tacoma, onde eu trabalho na reserva, e estudo na University of Washington.
–Ok. – realmente não entendi. Pensei em falar mais coisas, ou pergunta-lo onde morava exatamente, mas ele foi mais rápido com suas considerações.
– Você deveria tomar um banho antes que escureça, vou precisar da luz para ler.
– Sim, claro. – o olhei com um pouco de bronca, pois tinha vontade de fazer outras perguntas e percebi que ele me cortou. Queria dizer que ainda necessitava saber algumas coisas, mas ele me convenceu a acreditar que realmente a situação fora da viela privada de seu amigo de infância era muito preocupante.
Levantei e as coisas não foram muito diferentes de ontem. Ele novamente me ajudou a caminhar até o banheiro, levou a cadeira e me emprestou novas roupas.
– Sem bandas desta vez?
– Sim. Vamos dar uma pequena pausa para os deuses do Rock – ele piscou para mim, com um sorriso incontrolável. Não podia deixar de notar de novo. Um lindo.
– Ótimo. Agora sou do time Edward.
– Rock na veia. – ele apontou para os seus utensílios médicos na mesinha do canto, o que me fez rir espontaneamente quando eu vi a seringa. Seria completamente preocupante se ele não fosse quase um doutor.
– Não quebre nada, tá? – ele provocou.
Não respondi. O dia anterior foi até produtivo. Qualquer novo detalhe sobre o misterioso Edward já seria um progresso. Ouvi-lo me distraía do tédio da minha situação.
Esperei ele sair para eu me despir, com muita calma para não cair. Desta vez, as pernas pesavam mais do que antes. Resultado dos dias que passaram, lembrei. Pelo menos as roupas eram mais confortáveis e leves, não precisava me mexer tanto. Enquanto eu ligava a água, espiei Edward sentando no chão da entrada da cabana para ler. Tão logo abriu seu livro de Neurologia ouviu a água e deitou para trás, cabeça no chão da cabana e pernas dobradas para fora. O perfume parecia desviar sua atenção da leitura, e ele fechou o livro na barriga para olhar a lagoa enquanto eu me lavava.
Desta vez, demorei um pouco mais. O calor me permitiu. Edward virou a cabeça para o lado, em direção ao banheiro improvisado. Não podia ver nada estando naquela posição, eu acho. Tomara.Ficou ali, apenas observando a fumaça e a essência que saíam pelo banheiro afora. Um leve sorriso ameaçou sair pelos seus lábios, mas ele apenas se satisfez com sua imaginação.
Não precisava ver nem dizer nada.
Já sentia tudo.
Quando desliguei a água, ele instintivamente sentou-se e esperou até eu me vestir com sua camisa grafite sem desenhos e um par de shorts azul marinho. Eu parecia um moleque. Quando o chamei, ele certamente pensou o mesmo, pois me olhou dos pés à cabeça e soltou uma risada, vendo como suas roupas ficavam em uma garota bem menor do que ele.
–O que me diz? – queria saber se ele aprovava o estilo. Eu devia estar ridícula, então dane-se.Preferia me zombar a ser zombada.
–Bom, mas prefiro como uma deusa do Rock... – ele revelou, piscando novamente com o olho esquerdo.
– Eu também. Pareço seu primo da roça. – provoquei uma gargalhada em conjunto, até meu caminho de volta para sentar na cama. Meu senso de humor estava sendo constantemente estimulado por Edward e sua sagacidade. Ou, devo dizer, ironias e mistério.
– Espera, temos que trocar isso. – ele apontou para meu curativo, antes de ir até a mesa e abrir uma maleta de itens médicos e primeiros socorros.
Eu levantei a camisa até onde achei necessário, e virei para ele. Edward lavou as mãos na cozinha e voltou com gazes, fitas e soro. Tirou com cuidado a fita e o curativo da minha pele, e eu pude ver que o estrago realmente tinha sido sério, apesar de não ter a mínima ideia de como aquilo aconteceu. Fiz uma careta e virei o rosto, já esperando que aquela limpeza fosse doer.
–Está com medo de novo? – ele sorriu, apenas checando minha expressão.
–Eu não tenho medo. – banquei a durona.
–Sei... – ele respondeu ironicamente, enquanto eu cerrava os lábios sentindo uma enorme queimação enquanto limpava a ferida.
–Essa droga está queimando. – tentava frear uma lágrima de dor.
–Calma, já está pronto. - Ele secou com todo o cuidado do universo, diria até que com carinho, e fechou com uma gaze limpa. Depois, abriu a mão e pressionou sobre meu corpo, como se quisesse selar o curativo. Não sei se comecei a delirar um pouco, mas o que eu senti foi que o gesto não significava apenas isso.
– Amanhã vou precisar sair metade do dia. – ele resolveu o nosso silêncio, enquanto mantinha a mão me pressionando e olhava atenciosamente para mim. – Tenho aula e depois preciso resolver algumas coisas na faculdade e na vila.
– Tudo bem.
–Vou deixar tudo para você comer, mas só te peço uma coisa.
– O que é?
– Não queime a minha cabana! – ele riu.
–Eu perdi a memória, e não a sanidade, Edward. – reclamei, ranzinza.
–Devo voltar no fim da tarde, ou depois. Vou trazer algumas roupas.
–Vai ficar aqui?
–Vou.
–Ok. – meus olhos estavam sorrindo, enquanto ele quase levantava. – Edward...
–Sim?
–Quantos anos você tem?
Não pude resistir. Acho que pelo menos essa informação ele também me devia.
–Vinte e um. – ele franziu os olhos, completamente desconsertado com a pergunta. –Por quê?
–Não parece. – estava incrédula.
–Tenho cara de velho? – ele perguntou curioso.
–Não... mas parece mais velho do que isso. É jovem e parece tão... independente, experiente.
–Garota, você tem problemas com minha barba? – ele passava as mãos no rosto, como quem procurava algum sinal de velhice.
–Não. – eu ri. – se bem que sua barba também dá a impressão de maturidade.
–"Maturidade"... – ele imitava a minha voz, rindo.
Saldo positivo. Eu agora já sabia seu nome, profissão e idade. E sabia onde estava. Achei que era melhor deixar as outras perguntas para depois.
–Edward?
– Sim...
– Não estou indo embora, mas preciso dizer... obrigada por tudo. Espero que não tenha problemas por minha causa.
– Não estou aqui contigo... e sim com Nestor, lembra? – ele piscou e sorriu, em retribuição. – Vou procurar por novidades amanhã. Boa noite.
– Boa noite. – balancei a cabeça concordando.
Mais uma vez, o silêncio ficava entre nós. E eu estava hipnotizada pelos olhos misteriosos em Yellow Woods. Como um instinto de companheirismo, Edward deu um beijo em minha testa. Foi rápido, mas seus lábios pareciam macios, mesmo perdidos naquela barba toda.
Criamos algum tipo de laço, ainda que não visível.
Tive a certeza que estava protegida, independentemente de quem ele era, de quem eu era ou o que aconteceu comigo.
