Capítulo 2 – Causa e efeito.

Vinte e nove agentes selecionados. O TAF, Teste de Aptidão Física, foi rigoroso, mas a agência crê que os melhores foram selecionados. Timóteo não acompanhou o processo, só compareceu na posse. Ela estava lá. A mulher cuja mente sugava a sua. Durante a cerimônia Timóteo se aproximou o suficiente para que o efeito novamente acontecesse. - Será possível que mais ninguém sinta?

O processo de sucção mental foi tamanho que sua perna titubeou e Timóteo precisou ser levado para longe por Bruno e Matias, um dos faxineiro.

- Tudo bem, cara? Vocẽ está branco. - Perguntou Bruno.

- Acho que foi só o meu açúcar.

- Nunca te vi "tropecar" daquele jeito. - Falou Matias.

"É essa nova agente". Timóteo podia confiar aquela reclamação ao seu superior, a simples colegas nem pensar.

- Acho que vou tomar um ar fresco. Deve me fazer bem.

No quinto andar do edifício do Boreal Timóteo colocou os cotovelos no parapeito e começou a repensar em sua vida. Na sua esposa falecida. Quando sua mente repousou naquele assunto uma aura negativa circundou seu corpo.

- Azalom! Descobrirei um jeito de matá-lo nem que seja a última coisa que eu faça!

Um toque sutil nas costas de sua mão o pegou desprevenido fazendo com que ele recuasse depressa e de forma muito ríspida. Quando ele descobriu a quem se tratava ele logo pediu desculpa.

Maria era uma menina que Timóteo achava encantadora. Se não fossem os seus princípios e a diferença de idade talvez, quem sabe, alguma coisa tivesse rolado entre eles.

- Você está carregado Timóteo. Estou preocupada com você.

- Imagina, é só impressão sua.

- Impressão uma ova, que com isso eu não erro.

Maria pegou Timóteo pelo braço e juntos foram até um terreiro que ficava quase do outro lado da cidade.

- Tudo isso só para ver uma mãe de santo?

- Não uma mãe de santo, A mãe de santo.

Assim que seus olhos bateram na negra de trinta e poucos anos que chefiava o lugar Timóteo entendeu e ficou embasbacado. - Ela é sua mãe, não é? Iemanjá em pessoa.

- Ela está aqui só porque pedi. Aproveite.

Iemanjá olhou para Timóteo de cima a baixo antes de continuar. - O que tem esse aí?

- Energia negativa demais, qualquer obsessor podia atazanar. Isso sem contar que ele foi para o Umbral em pessoa sem tomar cuidados.

- Quer morrer? Quer virar um prisioneiro do Umbral?

- Faria isso de bom grado se trouxesse minha amada de volta.

Iemanjá fez um gesto e um pequeno maremoto caiu por sobre o agente. As águas o levaram até um lago que ficava perto dali. Timóteo ficou encharcado e teve dificuldade em cuspir água. Precisou da ajuda de Maria para se pôr de pé.

- Você acha que essa quenga faria o mesmo por você? Cada um paga o preço pela vida que levou. Você também pagará pela sua. Ademais, não tenha pressa. Ninguém é castigado no Umbral para sempre.

Assim que o agente se levantou Iemanjá tratou de passar uma cacetada de ervas em seu corpo.

- O que é isso?

- Vai me agradecer mais tarde.

XXX

Os dentes da criatura tocaram o pescoço da vítima, uma garota de não mais do que quinze anos, fazendo o sangue jorrar. Monstros daquele tipo gostavam de sangue novo. Assim que a vitima tombou já sem vida o guardião atirou na face do monstro o transformando em cinzas. Aquele espécime tinha a característica de se transformar em cinzas assim que morria.

Timóteo se agachou para pegar a vitima no colo. Nada mais podia ser feito. Ele então fechou os olhos dela e fez uma prece. - Que seu período no Umbral seja curto.

- Timóteo, acorda. Temos uma guerra à frente. - A arma do oficial Pedrosa era uma varinha. Muitos tiravam sarro dele por causa disso, porém sua arma era uma das mais poderosas. Pedrosa era um feiticeiro e pagou um preço caro por isso. Pagou com carma.

Os vampiros eram de um tipo que se assemelhavam a zumbis, se chamavam carniçais. Pálidos, orelhudos e com olhos fundos. Isso sem contar, claro, os dentes da frente pontiagudos. Uma invasão aberta à uma cidade pequena é raro, mas eventualmente acontece.

- Anima Daemonia. - Pedrosa conjurou um demônio que pôs fim a dois vampiros. A conjuração tem tempo limite, o demônio só se tornou escravo do feiticeiro por quinze minutos, depois voltou para onde veio, o Umbral.

Timóteo era mais bruto, resolvia tudo ou com sua pistola ou com sua escopeta. Armas eficientes, principalmente nas mãos de quem sabia usá-las. E Timóteo, o guardião, sabia.

Os carniçais tinham pouca consciência, pois respondiam a uma estirpe de vampiro superiora. Raciocínio individual era quase nulo, mas links telepáticos com seus donos eram coisas relativamente comuns.

Timóteo com seu facão estripou um carniçal e quando estava preparado para matá-lo ouviu de sua boca.

- Cem aninhos.

- O que está falando, coisa imunda?

- Cem anos é o tempo que sua esposa vai ter que pagar no Umbral.

Timóteo torcia para que o tempo fosse de semanas ou meses, mas tantos anos assim? Só podia ser um engodo.

- Renata não é essa santa que tu pensa não, meu jovem. Ela já aprontou muito.

- AAAAHHH! - Em um excesso de fúria Timóteo decepou o carniçal tornando-o cinza.

- Petrificus Maximus. - Pedrosa paralisou um vampiro e enfiou sua varinha em seu peito a usando como estaca. Depois disso foi falar com Timóteo. - O que foi?

- Meu amor precisa de mim.

Um Timóteo abalado e em choque foi levado para a central do Boreal por Pedrosa assim que o feiticeiro matou o último vampiro na cidade.

Em uma sala estavam reunidos Timóteo, Maria, Pedrosa, Bruno e Matias, esse último só porque limpava um canto empoeirado.

- Minha esposa está condenada a cem anos no Umbral a ser um objeto sexual. A coisa que ela mais detestava.

Os outros presentes ficaram com expressões diversas. Maria só faltou chorar de pena que sentia, Pedrosa fazia cara de quem ouviu um problema bem grande e Bruno permaneceu sério; parecia analisar uma forma de contornar o problema. Já Matias continuava com seus afazeres, mas atento a tudo.

- Podemos ir lá no Umbral e resgatá-la. - Disse Maria.

- Não seja estupida. - Respondeu Bruno. - O Umbral é o local onde o mito do inferno foi criado. Não é lugar para menininhas pré-adolescentes.

- Ela é uma semideusa. - Disse Timóteo. - Não é uma adolescente qualquer fale com mais respeito quando for tratar com ela. Não queira ver a mãe da moça furiosa. - Maria riu ao ver Timóteo intervindo por ela.

- O Boreal nunca vai aceitar uma missão no Umbral que julguem desnecessária. E algo como salvar um ente familiar, sinto muito, eles vão considerar desnecessário. Se formos para o Umbral iremos por nós mesmos.

Um silêncio mortuário se abateu quando os "sim" começaram. O primeiro foi de Maria. - Para salvar um amor iria para qualquer inferno. - O segundo foi Bruno. - Missão dada, é missão cumprida. - O terceiro foi Pedrosa. - Estou curioso em saber como minha varinha vai funcionar no local que é sua fonte de poder.

Todos estavam relativamente felizes por irem ao Umbral quando foram surpreendidos por Matias, o faxineiro. - Eu também vou. Tem tempo que não vou a uma aventura.

- Não quero ser ofensivo até porque gosto muito de você, Matias. - Disse Bruno. - Mas você é um faxineiro.

Matias deixou a vassoura cair do lado e se concentrou. De repente, em questão de segundos, sua pele se converteu em metal vivo. - Eu não sou um faxineiro, sou um agente disfarçado.

- O quê?! - Exclamou Timóteo.

- Vocês não tem ideia de quantas tentativas de traição temos por ano. Um faxineiro despercebido entra em todas as salas e ouve todas as conversas.

Formada o grupo, a missão podia começar.

XXX

A prova nunca acabava, Assim que o relógio marcava cinco horas de tempo decorrido ele zerava e voltava tudo de novo. A dor de cabeça e no pescoço. A pressão e a agonia de realizar um concurso publico que nunca terminava eram os tormentos deles. Até que o mago apareceu. Azalom veio com uma boa nova.

- Parabéns, candidatos. Todos foram efetivados no cargo.

Os cinquenta e dois candidatos se entreolharam sem entender. Até que Azalom com um aceno de mão fez com que a sala mudasse e que todos ali presentes estiverem agora uniformizados. Policiais robôs. Ninguém pode ficar muito contente no Umbral. Sem pele, sem contato físico, sem prazer.

Os policiais foram criados com um intuito. Defender aquela área de invasores.

Não muito longe dali: Matias, Timóteo, Pedrosa, Bruno e Maria se materializavam. O portal deles aportou em uma praça.

A praça tinha quarenta metros quadrados, com direito a banquinhos e arvoredo como qualquer praça normal. No centro dela, porém, uma estátua de nu de uma mulher por volta dos vinte e cinco anos. Se você aproximar o olhar e ver com atenção você verá que ela era feita de carne e osso.

A "estátua" ficava num pedestal de tal maneira que ninguém pudesse tocá-la. Ao seu redor um monte de homens mexiam em suas calças de maneira estranha. Timóteo começou a bater neles. - Tarados! - Só sendo segurado por Bruno.

- Eles só estão cumprindo o tormento deles que nem sua mulher. Não aumente seus sofrimentos!

Timóteo deixou os onanistas para lá e voltou sua atenção a sua amada. Rebeca chorava, mas não podia fazer mais muita coisa.

Um disparo laser vindo de trás quase acerta a cabeça de Timóteo. Policiais robôs apareceram as pencas. O exercito não se preocupava em dar voz de prisão. Só queriam matar.

Maria fez com que a água contida na fonte de praça atingisse alguns policiais com bastante força a ponto de danificá-los

Com seu corpo metálico Matias agia feito um trator derrubando tudo o que aparecia em sua frente.

Timóateo, com sua escopeta, andava pelas diagonais e atirava. Cada disparo era uma cabeça robótica explodida.

Finalmente Pedrosa pôde testar a magia de sua varinha no Umbral. - Bombarda Maxima. - A explosão levou metade do parque embora e boa parte dos robôs. Pedrosa riu ao perceber que a magia de sua varinha melhorara muito.

A mediunidade de Bruno não era de muita serventia em situações como aquela. Pensando nisso, ele assaltou alguns equipamentos da armaria antes de ir em missão. O médium pegou um cilindro do um pouco maior e mais grosso que uma caneta e jogou em um grupo de robôs. Uma porta dimensional de uma dimensão bolsão foi aberta e os levou embora.

Assim que os policiais foram derrotados os heróis se reagruparam.

- Vamos achar Azalom e fazê-lo pagar!