Capítulo 2.
Um grito ecoou pelo ambiente. Lisa acordou do seu mais profundo sonho... Ou seria pesadelo? Seu corpo parecia transbordar desespero; ela estava com a pele suada e os olhos repletos de lágrimas.
- O que foi isso? – Sussurrou ainda despertando.
"Eu tive um sonho."
Levou mais que alguns segundos para sua recomposição; ela estava simultaneamente assustada e excitada. Quando pôde situar-se no local - seu quarto - procurou por Lucas, mas encontrou apenas uma cama com lençóis emaranhados. Uma aflição tomou conta de si: a idéia de não estar tão contente nessa nova etapa da vida, construir uma família.
"Mas qual o erro? O que não estaria certo se é meu sonho realizando-se?". Cuddy decidiu abster-se desses pensamentos e foi à procura de seu amado. Ao sair do quarto titubeou no corredor; ainda estava tonta com esse sonho tão real para o seu corpo. Ela podia ressentir os toques de House e toda a explosão e intensidade do que 'passou'. Despertou de seus pensamentos quando viu o berço de Rachel vazio e imaginou estar sob os cuidados de Lucas, fazendo-a perder-se novamente em suas dúvidas. "Não posso falhar com você, pequena."
"Vou te contar."
Finalmente os encontrou na cozinha e decidiu observar-los escorando-se na entrada; a cena era de felicidade. A mesa estava repleta de comidas e bebidas habituais... Tudo parecia perfeito! Ele sempre pensara em tudo para agradá-la. Rachel brincava com sua comida enquanto o homem arrumava a bagunça que fizera para preparar o café da manhã.
Nenhum detalhe passou despercebido pela mulher, muito pelo contrário, cada particularidade notada significava uma inquietação. Um vazio habitava-a de forma avassaladora e cegava a perfeição que qualquer pessoa poderia enxergar em sua família.
- WOW! – Lucas gritou quase caindo e arrancando gargalhadas simultâneas de ambas.
Seu transe foi quebrado ao vê-lo desequilibrar tentando fazer graça para sua filha. Seu jeito atrapalhado sempre divertia as duas. E com isso suas idéias foram afastadas.
- Bom dia, querida. – Lisa depositou um singelo beijo no topo da cabeça de sua filha e aproximou-se de Lucas. - Bom dia, amor. – No entanto, sua tentativa de repetir o beijo rápido falhou ao ser puxada pela cintura para receber um beijo cheio de desejos, deixando-a sem ar.
"Eu me atirava do
Oitavo andar"
"Como posso exigir mais? Ele é o homem certo, o homem com quem vou viver!" E mais uma vez seus pensamentos mortificavam-na. Cuddy formulava suas primeiras certezas, mas não estava nem perto de ser o certo para seu coração o qual batia em contradição, por House.
- Bom dia, meu anjo! – Ainda abraçada a ele e recebendo carinhos pelo rosto. – Não vi você chegar ontem, me desculpe, eu estava tão cansado que acabei dormindo no sofá.
- Hum... – Apertou-o contra si; precisava acreditar naquele momento já que o sonho realmente a perturbou. – Não tem problema, a culpa foi minha de ter perdido a hora com os documentos acumulados no hospital e, como se não bastasse, House arrumou uma confusão resultando em mais um processo. Ou seja, mais papelada, ligações e acordos.
- Você anda muito cansada, amor. Vamos tirar uns dias de folga? Eu tenho um caso de traição quase resolvido e a gente poderia aproveitar esse final de semana. – Sua empolgação foi seguida de um beijo no pescoço o qual a arrancou um sorriso e um arrepio da mulher. – Pelo menos seu corpo parece concordar.
- Acredito que esse final de semana não vai ser possível. Tenho de ficar por perto quando House está com um caso complicado como esse. – Ela se soltou de seu abraço como se algo estivesse incomodado-a. - Você sabe o que ele pode aprontar!
"E era preciso
Fechar os olhos"
- Não é justo, Lisa! Você parece não se importar mais. Eu estou tentando tornar esse final de semana perfeito, mas nem isso aparenta importar.
Lucas tinha realmente se chateado e aquilo a causou um frio que percorreu sua espinha de forma assustadora. O pesadelo não parecia tão surreal como tentou mentalizar ser a fim de acalmar seu coração.
- Mas por que tem quer ser ESSE final de semana? O que tem de especial?
- Ah não, amor. Como pôde esquecer? – Sua face mudou de indignado para incrédulo. – Completamos um ano juntos! É certo que passou rápido e ainda temos pouco tempo de convivência, mas se levarmos em consideração tudo passado até hoje, merece mais de um final de semana para comemorar. – terminou seu discurso elevando o tom de voz.
- Eu... Desculpe-me! É muita coisa para lembrar, fazer... Você está certo!
"Pra não morrer e não me
Machucar"
- Não, Lisa. Tem algo além disso! Essa situação está assim há dias e eu posso estimar três semanas. E sabe por que a exatidão? Porque foi o tempo que vocês voltaram daquela conferência! – Ele a cortou.
- Eu não acredito! – Seu medo daquela situação estar realmente acontecendo transpareceu com uma risada esboçada. – Só falta envolver House nisso... – Sussurrou.
- Está vendo? Eu não precisei ao menos citar o nome e mais uma vez esse desgraçado aparece entre nós! Uma briga sequer passa sem a aparição dele.
- Isso é ridículo, Lucas. Eu e o House não temos nada e...
- Então tem algo? – Ele a cortou.
- E você está sendo infantil. Ou melhor, tudo que se relacione a House faz você perder o senso; deixa-te irracional. Quem está comigo? É o desgraçado? Por Deus, essa conversa não tem cabimento.
- E o que teria? Sua falta de tempo? A má vontade em ter um momento só nosso? Esquecer a hora no emprego por acaso?
"É o que devemos fazer"
- Má vontade? Não me faça rir. Você está realmente exagerando...
- Não, Lisa. Isso está passando dos limites, eu... – Lucas a cortou.
- Certo, vamos mesmo falar de você agora! Durante esse ano que passamos juntos, diga: quantos dias eu tive privacidade? – Foi sua vez de aumentar o tom de voz, aquilo estava começando a irritá-la.
- Do que está falando? – Ele a cortou novamente.
- Ah, agora vai bancar o santinho? Pensa que eu não sei de você me investigar vinte e quatro horas? São raras as noites as quais preciso contar o meu dia. Cadê o que chamam de privacidade e respeito? – Um sorriso nasceu em seu rosto em contradição aos seus reais sentimentos – E o mais engraçado é a sua falta de preocupação em fazer isso com sigilo; todos já vivem em alerta no que eu faço só para saberem passar tudo depois. Você paga quanto por cada informação? Tem variação no preço dependendo dos dados? – Lisa fez uma pausa como se estivesse cansando dessa situação. - Não seria preciso isso se ao menos acreditasse em mim quando digo amá-lo.
- Não faço idéia do que você está falando... Eu apenas sou um curioso, gosto de buscar a verdade. Mas jamais a vigiei... - Ele tentou explicar-se, piorando a situação com seu jeito atrapalhado de formular frases.
"Não temos que ter medo"
- Quer saber?! Chega! Chega de cobranças; estou farta! Se ainda acha que não damos certo, me esqueça. Em um ano me senti com uma família linda e perfeita, exatamente como sonhei, mas se o sacrifício for escolher entre você e meu emprego, não tenha dúvida de que minha decisão será o melhor para mim e minha filha.
Lisa saiu da cozinha aos prantos e trancou-se no banheiro. Muitas coisas passaram por sua cabeça naquele momento; tristezas e alegrias, mas uma em especial a qual se relacionava com tudo: House. A cada lembrança uma lágrima era derramada em silêncio até escutar batidas na porta, era Lucas.
- Lisa? Por favor, abre essa porta... Precisamos conversar!
- Não Lucas, deixe-me! Saia daqui! – Ela tentava esconder o choro; sua fragilidade, na verdade, estava em algo bem além dessa briga.
- Você está pedindo para sair de sua vida? É isso?
"É o que devemos fazer"
- Eu... Eu preciso de um tempo. – Por um segundo a mulher quase deixou escapar um soluço.
- Certo! Pense bem no que faz, Lisa. Não estarei mais um ano disponível as suas vontades.
- Saia, Lucas! – Cuddy falou soltando totalmente as lágrimas e despertando todos seus anseios e dúvidas que tivera desde o seu sonho.
Ela ficou imóvel por um tempo deixando seu corpo transbordar até acalmar-se, restando apenas soluços fracos. No entanto, ele apenas precisou de poucos segundos para entender que ela não o queria, pelo menos naquele momento. Arrumou algumas coisas, o suficiente para alguns dias no hotel, e saiu deixando Rachel brincando no seu cercado.
- Ma, ma! – A pequena a chamava; os seus brinquedos não mais a divertiam.
"E o dia está só começando". Com esse sentimento, a médica arrumou-se, deixou sua filha na creche e partiu para mais um dia de hospital.
-x-
Alguns dias passaram-se e o contato com o investigador era cada vez mais escasso. No entanto, ele ainda visitava Rachel, quem o amava, aproveitando para checar se a decisão de Lisa não havia mudado. Suas aparições eram inesperadas incomodando-a; a sensação de estar sendo controlada não saia de sua cabeça.
"Eu tive um sonho"
A médica passou a manhã entretida em suas pilhas de papeis no hospital, pelo menos nesses momentos sua mente distraia-a dos mais atormentadores sentimentos. A hora do almoço aproximava-se e o ruído vindo de seu estômago alertou-a. A médica esqueceu-se de tomar o café da manhã depois de brigar mais uma vez com Lucas ao telefone logo cedo, mas algumas batidas tiraram sua atenção para a porta.
- Pensei que "Diretoras" também almoçassem. – Wilson destacou a profissão da amiga enquanto parava perto da entrada da sala.
- E eu já pensei tantas coisas e nenhuma delas são como deveriam ser. - Lisa sorriu, pela primeira vez desde que chegara ao Hospital.
- Nossa! Fiz algo errado? – Ele atravessou a sala, parando perto da mesa.
- Sim, está demorando de me convidar para almoçar com você. – Seu humor parecia retornar. Se havia uma pessoa que a deixava confortável por sua inestimável amizade, seria Wilson.
"Muitos soldados
Me procuravam dentro do
Meu prédio"
- Apesar da grande concorrência, a Diretora tem preferência hoje. – Ele sentiu que algo havia de errado. Lisa não era de perder a hora do almoço ou qualquer momento em família ou com Lucas. - Quer almoçar comigo?
- E House?
- Ocupado demais com seu caso. – Respondeu curtamente.
- Saio em um instante! – Finalmente ela se levantou depois de horas perdidas em tantos documentos.
- Ok! Vou só verificar um paciente, pegar minhas coisas no escritório e nos encontramos no estacionamento.
Ela assentiu com a cabeça e o oncologista seguiu até sua sala, fazendo uma pausa rápida no quarto de um paciente em estágio terminal. No entanto, o oncologista foi barrado horizontalmente por uma bengala quando estava saindo do corredor em direção ao seu escritório.
"E era preciso
Voar pelas escadas"
- Não pensou que ia escapar de me pagar o almoço hoje, ou pensou? – House sabia que aquilo não mais o incomodava... A menos que tivesse algo a dizer.
- Não... Já escapei! E como você não pode ir, fica para uma próxima.
- Quem mais aceitaria agüentar você além de mim? Se a Lisa não fosse religiosamente para casa, pensaria nela. – O infectologista surpreendeu o amigo fazendo uma expressão inocente que, se não fosse bem conhecida pelo oncologista, pensaria em coincidência.
- Droga, House! Se você sabe do almoço com a Lisa, para que tantos jogos?
- Não seria tão divertido. E menos ainda seria se eu não viesse informar a minha disponibilidade para ir com vocês. Meu paciente está com Esclerose lateral amiotrófica. Caso resolvido!
Em contragosto, Wilson sabia que é melhor aceitar logo a ida dele, mesmo ciente das possíveis conseqüências.
-x-
"Pra não deixar que eles
Chegassem perto"
- Doutora! Doutora! – A secretária de Cuddy chamou-a antes que ela se dirigisse ao estacionamento. – Willian Perry, investidor, quer uma reunião hoje.
- Oh, você pode dizer que hoje não será possível. E aproveite para remarcar todos meus compromissos dessa tarde. Só volto amanhã. – A expressão feita por Lisa dispensou qualquer pergunta da moça; estava nítido o estado de exaustão da médica.
-x-
A endocrinologista avistou Wilson entrar no carro e o perdeu de vista pelo vidro fumê. Ela decidiu ir com ele, portanto aproximou-se do automóvel abrindo a porta do banco de passageiro.
- House? – Indagou incrédula. - Pensei estar ocupado com o paciente. – Sua surpresa ao vê-lo sentado no assento foi seguida de uma decepção.
- E eu achei que tivesse seu próprio carro!
- House! – Ela o alertou como de costume.
"É o que devemos fazer
Não temos que ter medo
É o que devemos fazer"
- O caso já está resolvido. – Ele a cortou. – E saiba que esse banco é meu lugar cativo, mas eu deixo você sentar no assento de trás. - O comentário fez Lisa revirar os olhos enquanto se dirigia para a outra porta; esse almoço com certeza seria longo.
- Podemos ir? – Wilson estava com a mão na chave já presa na ignição.
O almoço sucedeu-se de forma inusitada para o oncologista, quem nunca pensou em House ser agradável mesmo com seus comentários sarcásticos e, menos ainda, Lisa divertir-se com eles. Porém não tirava da cabeça que a presença da médica ali tinha algo errado e ele precisava saber. Após o almoço, todos retornaram para o PPTH e, enquanto Wilson fechava o carro, Lisa destravava o seu.
- Obrigada pelo almoço, vejo vocês amanhã! – Dessa forma entrou na Mitsubishi sem dar tempo de qualquer resposta e partiu para casa.
- O que deu nela? – Wilson pensou alto sem perceber que House também observava a cena.
- TPM! – Foi a última coisa dita pelo infectologista antes dele sumir pela saída do estacionamento como Cuddy, deixando o amigo sozinho e confuso.
-x-
- Ei! Quer dois dólares para me fazer um favor? – Uma voz direcionou-se a uma criança.
-x-
"Não deixe de cruzar
O seu olhar com o meu"
"Ding! Dong!" O tocar da campainha era frenético levando a mulher a abrir a porta quase de imediato.
- Pois não?
- Para a senhora! – Foi estendida uma folha de papel dobrada ao meio por uma pequena e delicada mão.
- Quem... – E a garotinha de aproximadamente cinco anos correu antes que terminasse a frase. – Estranho! – Sussurrou fechando a porta e abrindo o papel.
"Passo as oito para jantarmos. Não se atrase!"
E uma inquietação tomou conta dela depois de ler aqueles garranchos os quais pareciam conhecidos.
O bilhete a fez estremecer por inteiro. "Seria Lucas tentando uma reconciliação?" Um sorriso formou-se em seus lábios, mas decidiu que nada seria fácil para o investigador. "Quem ele pensa que é para resolver tudo com um simples convite?" Com isso, amassou o papel aceitando o misterioso jantar e ligou para sua irmã perguntando se poderia ficar com Rachel.
"Eu vou jogar meu corpo
Em cima do seu"
Já em nove horas da noite e ninguém chegara. Lisa estava pronta há dez minutos antes, pois conhecia muito bem a mania dele em chegar sempre cedo. O tempo passava deixando-a mais intrigada sobre a real identidade do autor daquele recado... Ele nunca se atrasava.
"Toc! Toc!" Ruídos característicos de uma pessoa bem conhecida por ela: House.
- O que faz aqui nem me interessa! – Cuddy foi falando ao abrir a porta – Eu só tenho a dizer uma coisa: volte outra hora se for realmente urgente. Agora não estou com paciên... – Ele tentou abrir a boca para cumprimentá-la, mas achou melhor entregar logo o belo buquê escondido atrás de si. – House...
- É a mim quem você esperava... Vamos? – Falou naturalmente seguindo para seu automóvel.
- Espera! Espera! – Cuddy colocou as rosas em cima da mesinha e saiu batendo a porta em seguida. – Quem disse que aceitei sair com você?
- Você! Olhe como está vestida e na hora exata.
- Estou esperando Lucas...
"Não deixe de cruzar
O seu olhar com o meu"
- Eu já sei de tudo, Lisa. Lucas me ligou ontem pedindo o número de um amigo meu em Paris quem aluga Loft's. Ele parece não voltar tão cedo. – House cortou-a já com a mão estendida em direção a porta aberta.
- É melhor eu entrar. – Ela se virou, voltando para sua casa.
- Lisa! – Ele deu uma pausa e aproximou-se da mulher olhando-a nos olhos. – Aceite... – Sua mão alcançou a face da médica, acariciando-a. Aquele ato provocou arrepios em ambos os corpos.
- Greg... – A voz enfraqueceu da mesma maneira que sua respiração acelerou. – Eu preciso levantar cedo, minha irmã trará Rachel e...
O seu primeiro nome sendo pronunciado o encorajou; pareciam os antigos "Greg" e "Lisa". No entanto, ele queria mais; iria provar que não era mais o misantropo desgraçado, e sim o homem de sua vida.
- Shii... – O carinho no rosto foi finalizado para a mão passear pela nuca aproximando-a de seus lábios para um singelo beijo. - Só um jantar...
A endocrinologista ficou imóvel. Um frio atravessou sua espinha; era a mistura do seu cheiro com aqueles toques, carinhos. Em anos, ela não sentia algo parecido, pois apenas ele a proporcionava aquelas sensações mais que únicas.
- Não sei se é certo...
"Eu vou jogar meu corpo
Em cima, em cima
Do seu..."
- Ele faz isso com você?
O infectologista segurou-a pela cintura ficando com os corpos bem colados, mas não a beijou. Ela deixou a boca entreaberta praticamente chamando-o para selarem aquelas sensações resguardadas. No entanto, não era esse seu propósito.
- Vamos?
A médica sentiu que era a vez de ouvir seu coração; jamais se perdoaria caso não desse a chance de ser feliz com ele. Lucas sempre deixou um vazio e não importavam quantos outros passasse por sua vida, pois ela só estaria completa com só um homem.
- Tudo bem! Eu só preciso pegar minha bolsa. – House havia soltado-a, mas algo ainda a prendia no mesmo local. E foi sua vez de puxá-lo para um beijo, mas dessa vez demorado e cheio de desejos. – Já volto!
"É o que devemos fazer
É o que devemos fazer"
