Parte 2
Oh no,
here it is again
I need to know
when I will fall in decay
Me olho no reflexo do vidro da porta da varanda, quase nem me sinto mais como Ginevra. Pareço outra pessoa, outro ser que anda e respira. Ele realmente mandou que trouxessem um vestido pra mim, e dever ter achado que eu gostava de me vestir como damas da era medieval, porque o vestido é parecido com o outro, só que totalmente preto e sem rendas. Junto com o vestido, vieram roupas íntimas, todas negras. Acho que ele realmente quer que eu me sinta confortável, a ponto de baixar a guarda de vez e deixar que ele faça comigo o que bem entender. Como se ele não fosse fazer, eu permitindo ou não.
Me olho outra vez e estranho o fato de estar bem vestida depois de quatro meses com apenas trapos tapando meu corpo. Ele mandou que trouxessem sapatos também, mas não quero, gosto de estar descalça. Sentir o frio do piso, a aspereza do tapete e a suavidade dos lençóis.
O rapaz que me trouxe as vestimentas disse que Tom me esperava lá embaixo para jantar, e me pergunto o que ele espera. Que eu me sente na mesma mesa que ele e finja que somos um casal feliz? Que esqueça que ele é culpado pela morte de toda minha família e meu futuro marido? Esse monstro não tem idéia do que é ser feliz. Por que ele não me mata logo, se sei bem que esse é o objetivo final disso tudo?
Lá fora começou a chover forte faz alguns minutos, as gotas batem violentamente contra os vidros e a varanda está inteira coberta pela noite escura, como se não existisse, mas ainda posso ouvir o mar batendo contra as rochas. Não pretendo sair e me juntar àquele monstro. Mesmo que minha barriga esteja ardendo de fome. Merlin, parece que cavaram um buraco em mim, de tanto que arde. Mas prefiro passar fome a comer o que ele me oferece. Comer na presença dele com certeza me faria ter enjôos por toda a refeição. Monstro, por que não me manda de volta pra minha prisão anterior?
-Deveria teimar menos, Ginevra. – a voz dele ecoa pelo quarto, mas não me viro, continuo me fitando no reflexo fraco do vidro. Um relâmpago risca o céu e ilumina toda a paisagem lá fora. Vejo o contorno de montanhas ao longe. – Vamos jantar.
Something wrong
with every plan of my life
I didn't really notice that you've been here
Não respondo e não me viro, ele que morra. Sinto os dedos dele se fecharam em volta de meu punho e ele me vira,fazendo-me parecer uma boneca de pano nas mãos dele, nossos olhos se encontram e sinto um frio sobrenatural atravessar meu corpo. Ele é um monstro e ainda não sabe disso, aqueles olhos não são humanos. Ninguém tem olhos negros tão frios.
-Você é teimosa, Ginevra. – ele dá um passo em minha direção e me afasto, mas continua a me segurar e nos corpos ficam rentes um do outro. – E vai ceder.
Eu sabia que ele não estava me dando esse quarto, roupas novas e comida fresca porque sou bonitinha ou educada, não. Ele vai cobrar esse preço, da única maneira que ele consegue: possuindo-me. Solta meu punho e segura minha garganta com força, me fazendo engasgar, me empurrando na direção da porta da varanda, me fazendo bater a cabeça no vidro. Os olhos dele se tornam ainda mais negros e sua boca se abre um pouco, dentes perfeitos e bem brancos se mostram. Tento soltar a mão dele, mas minhas mãos parecem fracas demais perto da dele, que se prende como uma garra em minha garganta.
-Deveria estar morta. – ele diz calmo, como se estivesse a conversar comigo sobre o tempo ou qualquer banalidade que se converse nos dias de hoje. – Mas perturba-me. Fica a me desafiar e atiça-me.
Começo a tremer, perdendo toda e qualquer esperança de que ele vá me soltar, porém ele afrouxa a mão de meu pescoço, mas ainda me segura contra o vidro, seu corpo bem próximo do meu. A outra mão sobe lentamente, repousando em meu ombro e desce na direção de meu colo, contornando o relevo de meus seios, fecho os olhos com força; eu sabia que ele faria isso.
-Não tema, criança. Você fará isso por pura vontade. E vai ser logo. – ele diz, ainda com a voz baixa, seu hálito batendo de encontro ao meu rosto e me solta por completo, afastando-se de mim. Abro os olhos e o vejo perto da porta, me fitando e esperando que eu saia.
Sinto meu corpo todo tremer, mas não desejo nem por um momento ficar no mesmo local que ele sozinha. Apesar de que não importa estar aqui ou em outro cômodo, o que ele quiser fazer comigo, ele fará com pessoas ao redor ou não. Respiro fundo e saio, ele me segue de perto e toma a dianteira quando chegamos perto de uma grande escadaria de mármore branco. Não sei onde estamos, mas é um castelo extremamente grande e antigo; pedras escuras formam as paredes, com quadros de pessoas que sei que nem ele mesmo sabe quem são. Talvez tenha matado todos que aqui moravam para poder tomar posse do local, não duvido de nada que venha dele.
Tudo me lembra a Slyhterin, a casa desse monstro que desce os degraus devagar, como se estivéssemos indo dar um passeio no parque. O que ele pretende com isso? O que ele acha que vai conseguir de mim? Ele já não desgraçou minha vida e matou todos que eu amava? Mate-me logo. A escada termina em um grande Hall, e Malfoy se encontra junto do corrimão, olhando para o chão, uma grande capa preta nos ombros.
-Vá, e só volte quando estiver com ele nas mãos. – diz Voldemort, sua voz totalmente fria e humana.
Malfoy faz uma reverência exagerada e sai na direção da porta de entrada, que é guardada por outros dois Death Eaters encapuzados que não olham para outro lugar a não ser o chão. Tom segue na direção de uma porta de madeira com ferros presos e elas se abrem sozinhas, mas eu não me movo do último degrau da escada. Preciso sair dali. A hora é agora. Olho em todas as direções do Hall e vejo uma pequena porta quase abaixo da escada. Corro até ali, levantando o vestido até os joelhos e abro a porto com o ombro, dói um pouco, mas depois vejo se me machuquei.
Dolefully desired
Destiny of a lie
É a cozinha, onde muitos elfos domésticos estão trabalhando, fazendo milhões de pratos de comida, e quando me vêem se ajoelham e começam a me perguntar se quero algo, tenho certeza que alguém vem atrás de mim. Atravesso a cozinha correndo e empurrando todos os elfos que se põem em meu caminho; esse vestido é grande e tenho que ficar segurando-o, ou posso tropeçar e cair. Acho uma porta no fim da cozinha e a abro ainda correndo e ofegante, ele já deve ter colocado alguém atrás de mim e logo mais eu serei pega. Mas tenho que tentar, tenho que provar pra mim mesma que tal lugar é uma prisão e que não há como escapar. Tenho que tentar pelo menos uma vez fugir das garras dele e provar pra mim que tudo que eu já amei na vida está morto e destruído.
Uma estrada de pedra se estende à minha frente, e, ao longe, vejo um portão e, perto dele, vejo Draco Malfoy andando calmo, como se a chuva que cai não fosse nada. Desato a correr na direção do portão, meus pés pisando firme nas pedras e a chuva molhando todo o meu corpo, como se lavasse minha alma, como se me desse essa oportunidade de escapar, de tentar fugir e ser livre. Uma mão segura meus cabelos e me joga no chão, eu arranho minhas costas e cotovelos.
-Sua teimosia me enerva, garota. – Bellatrix está em pé perto de mim, olhando-me como se eu fosse o ser mais nojento da face da terra. A vagabunda senta em meu peito, prendendo meus braços com os joelhos, e aponta a varinha para meu pescoço. Não consigo vê-la direito porque a gostas da chuva caem direto em meu rosto e me cegam, mas sei que ela vai me castigar por tentar fugir. – O Mestre não gosta de fujões.
Ela pressiona ainda mais a varinha em meu pescoço e tento me soltar, mas não consigo, e sinto que as pedras estão arranhando e fazendo minha pele sangrar. Eu estava tão próxima de fugir, de ser livre, e ela me pegou. Ela me fez ficar aqui, presa a ela e àquele mostro, aquele homem que vai me castigar por tentar escapar de suas garras. Acho que está na hora de começar a aceitar que a vida, agora é ao lado dele.
-Bellatrix. – ouço a voz dele perto de nós e ela sai de cima de meu corpo, puxando-me para cima. Fico de pé, sentindoalgumas dores espalhadas pelo corpo, e consigo ver perfeitamente que Tom nos olha com certo divertimento, como se achasse graça que essa mulher estivesse com ciúmes. Sim, Bellatrix morre de ciúmes do Mestre com qualquer mulher, e eu não preciso de mais provas do que a que tive nesse exato momento. Se ele não tivesse aparecido, ela teria me matado e inventado uma desculpa para ele depois, tornando-se mais uma vez o centro das atenções.
-Ela achou que fugiria, Mestre. – ela se pronuncia como se estivéssemos em um baile e tudo fosse belo e calmo. Nenhum deles parece se importar com a chuva, com os trovões ou os relâmpagos. Para eles parece que sair em tempestades como essas é algo natural e costumeiro. Algo que fazem todos os dias.
-Pode ir. – ele fala, olhando-me nos olhos, e não posso evitar sentir ainda mais frio do que o frio que já sentia pela chuva fria.
-Mas, Mestre... – vejo que ele a olha com severidade, e a mulher abaixa os olhos e se curva, saindo logo em seguida, pisando duro. Ele continua a me fitar enquanto Bellatrix volta para o castelo. Tenho certeza de que ela ainda vai tentar me matar por fazer o Mestre se virar contra ela. Eu não o quero, se é isso que ela pensa, pode pegá-lo só para si e me jogar na minha cela suja e sombria, ficando com essa falsa realidade de vida que ele me entrega de bandeja toda para ela.
-Sua teimosia só me alegra, Ginevra. – ele diz, mais alto que os trovões e a chuva.
Set me free
your heaven's a lie
set me free with your love
set me free
-Me mate. – falo outra vez, e talvez agora ele perceba que já desisti de fugire me mate. Talvez fosse realmente isso que ele queria, que eu sonhasse com a fuga, me torturasse achando que poderia escapar, caindo na realidade depois e pedindo para ser morta. Pois bem, essa é a hora, pode me matar, porque sei que viva, dessa nova prisão eu não saio.
-Ginevra, não quero sua morte. – declara, dando um passo na minha direção e segurando com força meu braço. Seu toque é mais frio que as gotas que caem e atingem minha pele.
Ele me arrasta na direção de uma árvore, parecendo ter cansado da chuva. Percebo que a pele dele está ainda mais clara, o cabelo está grudado na testa e suas roupas grudadas no corpo. Não consigo entender o porquê dele ter voltado à forma humana, por que quer parecer com humanos? Ele não se gabava tanto da forma antiga que tinha? Que não se importava com a aparência, contanto que tivesse poder e a imortalidade?
-Quero seu corpo. - ele me empurra contra o tronco da arvore e puxa meu cabelo para trás, deixando meu pescoço exposto e o beija com fúria, a chuva ainda cai forte sobre nós, mesmo escondidos embaixo de alguns grossos galhos com muitas folhas. Seus lábios frios se abrem para que seus dentes marquem minha pele, cravando-os em meu pescoço, deixando uma marca. Morde com força, como se a mordida falasse bem baixo em meu ouvido o que posso esperar dele, o que devo imaginar que ele fará com o resto de meu corpo. Ele crava ainda mais os dentes em minha carne, acho que sangro. A mordida suaviza, mas ele ainda me morde, me mostrando quem manda.
Ele não se importa que eu tenha tentado fugir, na verdade, deve estar gostando de me ver lutar contra ele. Sua mão livre está em minha cintura, mas logo desce e começa a puxar a saia do vestido pra cima. Eu sabia, sabia que ele faria isso. Ele vai me fazer sentir na realidade, o que já me fez sentir em pesadelos regados de dor e sangue.
Posso sentir o quanto ele quer me ter, mas sinto nojo. Não quero que ele me tenha, não quero que ele possua meu corpo, mas sei que quanto mais lutar, mais ele vai gostar. Paro de tentar me soltar quando sinto a mão dele espalmada em minha coxa, procurando minha roupa de baixo, a qual ele rasga sem sombra de hesitação. Sinto toda e qualquer gota de chuva me acertar, sua pele é fria. Ele ergue minha perna e a enlaça em sua cintura. Merlin, não quero isso. A mão que segurava meu cabelo me solta, sinto que ele abre a própria calça, se libertando, me prendendo.
Ele pára e fica a me fitar, aqueles olhos negros como abismos me encarando, sua respiração liberando breves nuvens de fumaça, nunca vi Tom tão humano. E. mesmo humano. ele é um monstro. Um monstro que não liga se quero, se vou sentir prazer ou não. Ele é um monstro e monstros só ligam para seus próprios prazeres e desejos, suas vontades sádicas e vazias. Tom se guia para dentro de mim, deslizando devagar, ainda olhando firme em meus olhos, esperando um gemido de minha boca.
Não posso. E, mesmo que para mim ele seja igual a Malfoy, ele não é bruto, apenas está excitado, igual um homem normal. Quer meu corpo, quer me fazer chegar ao clímax. Não consigo evitar um gemido baixo quando o quadril dele se encontra com o meu, permitindo que eu me acostume com ele. Mas não quero me acostumar, não quero sentir prazer, não quero ele dentro de mim. Porém, não importa o que quero, e, sim, o que ele quer. Ele só se importa com as vontades dele, e afasta-se um pouco, voltando para dentro de mim com mais força.
Um gemido mais alto escapa da minha boca, sinto minhas lágrimas quentes riscarem meu rosto e se juntarem com as gotas frias de chuva que ainda caem. Ele se enterra em mim com força, batendo meu corpo contra o tronco da árvore, pouco importando-se que esteja machucando-me. Ele puxa minha outra perna para cima, levantando todo meu corpo, e sinto que está ainda mais dentro de mim. Outro gemido escapa de minha boca, enquanto me seguro em seus ombros.
Uma batalha começa dentro de mim. Uma parte percebe o quão nojento ele é, aquela cobra assassina que dizimou minha família, matou meu único e verdadeiro amor. E a outra parte que percebe o quanto ele me deseja, me quer pra ele, me vê como mulher e como amante, não somente objeto para satisfazer as vontades carnais. Sua mão agarra meus seios e não posso evitar notar que o toque dele é diferente do de Malfoy. A pele é igualmente fria, mas o toque é carregado de vontade, como se passasse uma resposta para as perguntas que sempre tive.
Jogo minha cabeça para trás, gemendo e movendo meu corpo de encontro ao dele, pouco me importando com minhas costas, que estão sangrando. Ele sobe os lábios por meu pescoço, beija meu queixo e me encara, olhando dentro de meus olhos, esperando qualquer reação minha; cola os lábios aos meus, enquanto enterra-se em mim ainda mais fundo. Cruzo meus pés em suas costas, prendendo-o entre minhas pernas, permitindo que ele entre ainda mais fundo onde somente Malfoy e aqueles outros babacas já estiveram.
Oh no,
here it is again
i need to know
why did I choose to betray you
Ele tem lábios finos, mas que têm gosto de morango. Deve ter comido uma cesta antes de me buscar para que eu fosse jantar com ele. Permito que ele me beije, nossas línguas se encontrando primeiro devagar, conhecendo-se cada vez mais. Seu hálito de morango se prendeu em meu nariz e mistura-se ao cheiro de chuva, o beijo mais sem emoções que já senti. A língua dele explora todos os cantos de minha boca, acho que tentando memorizar cada pedaço de mim, como se eu fosse embora ou algo assim, como se ele não fosse me prender naquele castelo. Ele diminui o ritmo do beijo até parar e separa-se de mim, roçando os lábios nos meus, parecendo um humano de verdade.
Começa outro beijo, poucos segundos depois. Um beijo possessivo, bruto, e, ao final, ele morde meu lábio inferior, enquanto se impulsiona para dentro de mim mais algumas vezes e segura com força meu seio. Minhas mãos estão em seu cabelo, agarrando-os com força, gemendo de dor e de prazer. Suas estocadas se tornam mais violentas e me deixo levar pela onda de prazer, tremendo violentamente emseus braços, e sinto ele me segurar mais forte, talvez temendo que eu caia; então, ele derrama-se dentro de mim, um urro escapando do fundo de sua garganta e um sussurro em meu ouvido.
-Minha.
Merlin, no que me transformei?
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Fico a olhar o sol nascer no horizonte, e a brisa do mar me atinge, e é praticamente impossível não sorrir. Olho para baixo e vejo as rochas sendo açoitadas pelas ondas do mar, que se estende até onde não posso mais ver. Conformismo. É o estado que me encontro. Conformei-me que não escaparei daqui com vida, que ele vai me ter sempre que quiser, que vou ceder a todo e qualquer desejo que ele tenha. Qual foi o motivo da transformação já nem sei, mas perdi o medo de morrer, perdi a vontade de viver, o que me acontecer é porque deveria acontecer.
Eu poderia inclinar o corpo daqui e cair, e nem precisaria fazer força: se não me segurar direito nesse parapeito onde estou sentada, o vento me leva e me faz bater contra os rochedos lá embaixo. Será que sentiria dor ou morreria antes? Bom, só vou descobrir se o fizer, mas fiquei a pensar pela madrugada que me matar é covardia. Nunca fui covarde e não começarei a ser agora. Não, isso seria dar uma felicidade para eles, mas não estou disposta a fazer isso. Não quero fazer nenhum deles feliz, principalmente Tom.
Ontem, quando ele me soltou e saiu de meu corpo, senti nojo de mim mesma, mas não pude negar que senti prazer, seria mentir pra mim mesma e tenho feito isso por muito tempo. Já chega de ser criança, é hora de ser mulher. Ele ficou me fitando, sem deixar expressão alguma passar por seu rosto, não me agrediu, não me deu carinho, apenas me segurou pelo braço e me levou para dentro do castelo outra vez. Entramos molhando tudo, ele pouco se importando com isso, me arrastou para a sala de jantar e me colocou sentada em uma das cadeiras de uma extensa mesa, com todos os tipos de comidas que se pode imaginar.
Ele se senta na outra ponta e fica a olhar pra mim, esperando que eu reaja ao que acabou de acontecer, mas eu nada fiz, apenas peguei o talher e comecei a comer, minha barriga queimando ainda mais de antecipação ao saber que seria alimentada. Conformismo. Ali começava meu conformismo a vida de submissão ao monstro denominado Tom Riddle. Eu já havia comido por umas quatro pessoas, e a comida não parava de aparecer, e foi então que eu o olhei pela primeira vez desde que pousei minhas mãos nos talheres.
Eu senti aquele frio subindo por minha espinha quando percebi que aqueles olhos negros estava atentos a todos meus movimento e que pareciam sorrir pra mim, como se estivesse feliz que eu estivesse finalmente me alimentando. As portas se abriram e um Death Eater entrou segurando uma caixa, fez uma longa reverência para Tom e se dirigiu para o meio da sala. Eu ainda continuei a comer, pouco me importando se seria rude ou não, ele havia me levado até ali e eu não sairia tão cedo.
Something wrong
with all the plans of my life
I didn't realize that you've been here
Eu já havia visto uma feição humana naquela máscara que ele usa, mas nada se comparava à feição que se postou lá quando o Death Eater passou a tocar um violino de madeira clara. As notas tomaram conta do ar e Tom se levantou vindo em minha direção, pegando minha mão e me puxando para que eu me levantasse. Já percebi que nunca escutarei pedidos da parte dele, sempre farei o que ele mandar, algumas vezes sem nem escutar sua voz pedindo.
Puxou meu corpo contra o dele e se pôs a se mexer lentamente, não digo que dançando, mas embalando-nos com a música do violino. As notas baixas e tristes só me deixavam ainda mais angustiada, podia sentir frio por minhas roupas ainda estarem molhadas e o frio que ele emanava. Não entendia o homem que me segurava, ora humano, ora monstro. Ou será que é monstro o tempo todo e eu passei a me acostumar a viver entre eles? O violino deixa minha mente aflita, sua música é triste e só me faz sentir os olhos queimando e minhas lágrimas escorrerem por meu rosto.
Onde será que minha família está? Será que todos morreram mesmo?
Apóio a testa em seu peito, pouco me importando com que ele vá pensar: já destruiu minha vida, não me resta muito mais mesmo. Ele segura uma de minhas mãos e a outra está repousando em minha cintura, de um jeito quase impessoal. Esse homem me enoja e me enerva, por que ele não morre? Mais lágrimas riscam meu rosto conforme a música se torna mais alta, maldito violino que me lembra a felicidade que um dia tive e não soube valorizar.
Ele se afastou e saiu da sala, me deixando sozinha, escutando meu destino sendo tocado por aquelas cordas finas, esticadas naquela madeira clara. Respirei fundo e fui para meu quarto, vendo jogada em minha cama uma nova muda de roupa. Hoje tudo será diferente, eu sinto.
Me lembro dos machucados que Malfoy me causava e olho meu pulso, o ferimento que sempre abri com minhas unhas ainda está ali, formando uma casquinha, tentando se recuperar. Não deixo. Solto minhas mãos do parapeito, podendo cair a qualquer momento, balançando minhas pernas no ar, desafiando o vento a me empurrar lá pra baixo, nos rochedos. Passo as unhas nos cortes, abrindo-os outra vez, fazendo um pouco de sangue sair. Não me incomodo com a dor, já senti tanta nos últimos tempos, que já me acostumei. Passo a unha mais fundo, cortando pele e carne. Dor é caricia ao que causo em mim mesma. O sangue escorre por meu braço e minha unha se macha de vermelho.
Seguro no parapeito outra vez e deixo o sangue escorrer do ferimento para a pedra, e impulsiono meu corpo para trás, descendo dali e entrando no quarto. As gotas de sangue de minha mão fazendo um caminho ao meu lado, entregando onde estive. Respiro fundo e abro a porta, encarando o corredor cheio de quadros de desconhecidos, é hora de enfrentar essa nova vida. É hora de aceitar que vou morrer aqui dentro.
Saio andando pelo corredor, meus pés no tapete, meu pulso ainda deixando gotas escorrerem por meus dedos e pingarem no chão, mas não dou a mínima para a sujeira. Vou olhando as portas e abrindo uma a uma, todos os cômodos vazios, todos iguais ao meu; encaro bem a última porta do corredor. Acho que esse é o quarto dele, talvez seja o maior quarto do castelo, afinal ele tem que ter o maior quarto. Será que Tom realmente acha que poder é tudo na vida? Será que ele não sente nem uma pontada de saudades ou vontade de sentir algo queimando no peito? Qualquer sentimento que seja?
Besteira, Ginevra. Ele não é humano, não tem sentimentos, não conhece nenhuma emoção. Apenas conhece a morte, poder e, agora, seu corpo. Merlin, eu ainda consigo senti-lo dentro de mim, e, mesmo depois de um banho, do qual só sai ao ver que meus dedos estavam enrugados nas pontas, ainda sinto seu cheiro em mim. Um perfume que não consigo identificar, mas que tem a marca dele, como se fosse natural daquela pele, um cheiro que só consigo lembrar de sentir nele. Lembro desse perfume dos meus pesadelos quando mais nova, o perfume que ficava preso em meu nariz por dias. Um perfume forte, adocicado, com uma ponta de aroma de morango, mas que não chega a ser enjoativo como tal. Aquele perfume que impregnou minha pele, meu cabelo, minha alma, que me avisa que sou dele. Que pertenço a ele, querendo ou não.
Ponho a mão na maçaneta e vejo que ainda sangro, mas o que me chama a atenção é como estou tremendo, talvez por medo de entrar e me jogar de cabeça no meu destino. Mas é isso que tenho que fazer, aceitar que sou escrava e que minha prisão é ele. Não tenho prisão com grades e goteiras, minha prisão é ele, um monstro que me prende pela alma. Giro a maçaneta e empurro a porta levemente, olhando para dentro do cômodo. Acertei ao dizer que aquele é o maior quarto do castelo.
Entro olhando todos os detalhes, um tapete verde escuro, uma varanda como a minha, mas com uma cadeira de madeira do lado de fora, cortinas brancas. Do lado esquerdo, uma porta fechada, por onde sai vapor. Ele deve estar tomando banho. Do outro lado tem uma grande cama, maior que a minha, com lençóis negros e travesseiros da mesma cor, um dossel, como de Hogwarts. Um véu claro se desprende, fechando a cama como se fosse um santuário, mas sei que é onde acontecem as atrocidades que aquele monstro pode fazer.
Dolefully desired
Destiny of a lie
Vou até perto da varanda, olhando para a vista que ele tem e percebo que na cadeira está um violino. Ele toca? Será que tal homem pode tocar algo tão delicado e belo sem transformá-lo em pecado e destruição? Não acredito nisso. Olho outra vez para o mar que se estende na vista, ali os rochedos são menores, mas a força com que as ondas batem é a mesma. Será que ele aprecia essa vista? Será que ele ao menos já olhou aqui para fora? São tantas perguntas para nenhuma resposta.
A porta do banheiro se abre e o vejo sair, somente uma toalha enrolada na cintura, os olhos frios me encarando como se eu não fosse bem vinda ali. O perfume dele se espalha pelo quarto, aquele perfume sufocante em vários níveis, e, por alguma razão, eu não consigo evitar respirar mais rápido para inalar dele o máximo que eu puder. Os olhos negros dele continuam presos aos meus, esperando que eu diga ou faça alguma coisa, mas eu nada tenho a fazer, vim aqui aceitar meu destino.
-Vai parar de lutar, Ginevra? – ele pergunta, andando até perto da cama, a voz ligeiramente zombeteira, ainda que eu não saiba se ele é capaz de tal tom. Como uma pessoa pode ser tão fria? Ele se vira para me olhar outra vez e só então vejo seu corpo. Corpo de homem, não muito forte, apenas alguns músculos espalhados, braços fortes e pele clara. Vejo uma cicatriz bem no centro de seu tórax, exatamente no lugar do coração. Será que foi por ali que tiraram o coração dele? O transformaram em monstro?
-Vim aqui pra aceitar o que você já destinou pra mim. – respondo, sem me importar se ele vai gostar ou não da minha resposta. É ai que me espanto de verdade. Ele sorri. Não um sorriso de deboche, ou sádico. Um sorriso genuíno, qual me deixa ver os dentes perfeitos e brancos, os cantos da boca levantados sem esforço. Nunca achei que ele soubesse sorrir, sempre achei que para se sorrir era necessário estar vivo, ser humano. Mas, aparentemente, o privilégio de sorrir é para todos, até os monstros.
-Ginevra, você sabe porque estou com essa forma humana outra vez? – ele pergunta ainda sorrindo daquele jeito. Aquele sorriso genuíno me perturba mais do que o jeito desumano dele.
-Para tentar parecer algo que nunca foi? – digo, esperando que ele se enerve, mas ele apenas continua sorrindo e segura a ponta da toalha, ainda enrolada na cintura. Vejo várias gotas de água escorrendo por sua pele clara, o sol começa a se pôr no céu e seus raios começam a entrar no quarto, deixando-o mais iluminado. O perfume dele parece se intensificar a cada vez que ele se mexe.
-Para que você não me repudiasse. – a voz dele é séria, e o sorriso já morreu em seus lábios finos. O que ele pretende com tais palavras? Que eu caia de amor e diga que ele é o homem da minha vida? Que eu sempre esperei que ele dissesse isso e que agora podemos viver felizes para sempre?
Eu não respondo e não vou dizer mais nada, ele já tem um plano traçado para mim, só me basta aceitar, porque não tenho outra escolha. O vejo se mexer e o perfume que o corpo dele exala fica ainda mais forte, viciei-me em tal cheiro. Ele deixa a toalha cair no chão, e eu olho em outra direção, eu só tenho que aceitar que esse é meu futuro, que terei o corpo dele contra o meu, dentro do meu até a morte. Até que um de nós morra, e eu desejo ardentemente que seja eu a ir primeiro.
Ele pára diante de mim, virando meu rosto para encará-lo, encarar aqueles olhos negros frios. O corpo dele está quente e ele sorri novamente, aquele sorriso que me assusta mais por ser verdadeiro. Eu não tenho escolhas, é melhor aceitar o destino. Ele pousa as mãos nos meus ombros e desce o vestido, me deixando somente com a renda negra que ele me mandou, observando meu corpo. Os raios do sol me atingem e sinto-me esquentar, uma leve brisa mexe meus cabelos, e vejo os fios de cobre balançando ao meu redor. De Voldemort sempre temi a morte, mas de Tom temo a vida.
Não é o homem que me traz medo, é a vida que levarei ao lado dele. Serei a rainha desse mundo destruído, desse caos instalado de que ele tanto gosta de se gabar e dizer que é seu. Do mundo a ruir perante meus olhos, e o qual eu não posso salvar, e para o qual eu não posso fugir. Destino traçado.
Tom pode ser um monstro que me causará dor e sofrimento até meu último suspiro, mas hoje eu passo a ser um monstro com ele.
Set me free
your heaven's a lie
set me free with your love
set me free
FIM.
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Música: Lacuna Coil – Heaven's A Lie
Tradução:Oh, não
Ele está aqui novamente
Eu preciso saber
Quando eu caírem em decadência
Algo errado
Com todos os planos da minha vida
Eu realmente não percebi que você estava aqui
Tristemente desejada
Destino de uma mentira
Liberte-me
Seu paraíso é uma mentira
Liberte-me com seu amor
Liberte-me
Oh, não
Ele está aqui novamente
Eu preciso saber
Quando eu decidi te trair
Algo errado
Com todos os planos da minha vida
Eu realmente não percebi que você estava aqui
Tristemente desejada
Destino de uma mentira
Liberte-me
Seu paraíso é uma mentira
Liberte-me com seu amor
Liberte-me.
Gostou??
Comenta??
Kiss
