Bem, depois de muitos pedidos (2), aqui está o segundo capítulo, ao contrário do primeiro, que foi baseado
no primeiro episodio, e por tanto desgastante quanto a repetição, segundo Lia Collins, esse aqui é completamente ficticio, mas nãom irreal. Se passa naquele final de semana que Grace irá ficar com Danny, e como eu imagino que ele tenha acontecido.
Mas eu vou avisar, o próximo é baseado no segundo, no entante irei me focar em pensamentos e cenas perdidas, para o alivio do grande publico que detesta repetição.
Obrigado pelo apoio e irei tentar melhorar todos os aspectos que lhe parecerem falhos.
Céu e Mar
A casa que eu estava era familiar, eu estive lá, peguei umas cervejas mais cedo.
Mas ela estava diferente. Uma luz fantástica entrava pelas janelas. A voz conhecida me chamou:
-Danno, vem pra cá!
Eu corri até meus pés encontrarem a areia, e parei. Ele sorria, a água salgada escorrendo por todo o seu corpo, pingando do seu cabelo, cintilando pela sua pele.
Em qualquer outro sonho eu não conseguiria ver direito o corpo, mas aquela tarde, enquanto eu voltava com as cervejas, ele estava trocando de blusa, e o que eu vi me fez pensar:
Meu Deus! Isso é real?
Seus músculos eram mais definidos do que eu esperava, sua barriga permanecia numa linha reta até alcançar o peitoral que se destacava de uma forma absurda. Pequenos tufos de pêlo se espalhavam castanhos e lisos. As duas tatuagens misteriosas adornavam seus braços também, absurdamente definidos.
E naquele sonho aquilo estava nítido como uma fotografia de alta resolução. Eu realmente queria tanto ver ele sem blusa? No sonho aquela parte que eu deixava presa e suprimida, se soltava de uma maneira perigosa, e ela gritou,
SIM!
Ele sorriu de novo e nadou como um tritão até o meio do mar. Lá ele parou e segurou o nariz com as pontas dos dedos e a outra mão acenava para os lados enquanto afundava lentamente.
Era para eu ir ao mesmo lugar. Eu não gostava de nadar, mas naquele sonho, não havia o que eu gostava e não gostava, havia só o que eu devia fazer.
E eu devia seguir Steve.
Lá embaixo tudo era azul, e Steve sorria como se nem precisa-se respirar. Ele flutuava na água. Aquilo me fez lembrar aquele ditado, marinheiro não é carne era peixe. Sem culpa então nas próximas sextas-feiras santas.
Ele deu a volta numa enorme rocha e sumiu. O desespero patético tomou conta de mim e eu o segui até o outro lado, havia uma abertura rebaixada na rocha, uma luz difusa saia do seu interior. Eu entrei com muita dificuldade e quando mais subia mais estranho ficava a sensação. Derrepente não estava mais no mar e sim num enorme descampado rodeado de montanhas verdejantes.
Sim, ele estava lá, agora vestido com uma blusa branca e calção caqui. Ele respirava fundo o ar, enquanto uma expressão de felicidade invadia seu rosto. De olhos fechados ele me estendeu a mão. Eu hesitei em segura-la, isso fez ele abrir seus olhos e dizer:
-Eu jamais vou te machucar Danno.
Minha mão já estava na sua quando eu percebi, ele ordenou:
-Feche os olhos.
Eu fechei. Podia sentir a brisa no meu rosto, brincando no meu cabelo. Podia sentir a grama macia, o cheiro de natureza envolta de mim. E principalmente podia sentir sua mão na minha, como um calor que não me queimava, que me aquecia, e não só a mão.
Então eu me arrepiei. Não havia mais brisa refrescante perto do meu rosto. Um calor emanava, muito perto de mim. Eu respirei fundo. Não era mais a natureza que invadia meus sentidos. Era ele, e então o calor se tornou mais intenso, perto demais dos meus lábios. E então eu ouvi o som mais horripilante que alguém possa imaginar:
Beep, beepeee beeepe, beeeepe beeeepe.
Tá eu já entendi despertador desgraçado, é para eu levantar, lavar minha cara e tentar esquecer, não só que eu tive esse sonho, como também ao acordar enfiei minha cara desesperadamente no travesseiro tentando voltar.
Lavei minha cara, eu sorri de felicidade e suspirava de satisfação enquanto olhava os dois bilhetes laranja na minha banqueta. E era a primeira vez que eu sentia essa felicidade. Não a de levar a Grace para algum lugar legal e saber que minha macaquinha ia se divertir horrores, dessa felicidade eu precisava para viver. A de saber que eu só iria levar Grace para esse lugar por causa daquele GI-Joe suicida. De que talvez não era só eu que estava tendo aqueles sonhos perturbadores e malucos. Isso me fez ponderar. O jeito que ele olhou para mim ontem, com o resto da equipe tão perto. Será que ele não tinha duvidas do que era, ou ele tinha uma concepção diferente sobre essas coisas? Bem uma certeza eu tinha. Eu JAMAIS iria perguntar isso para ele.
Pelo menos, jamais enquanto sóbrio.
Uma buzina impaciente tocou do lado de fora do meu apartamento. Onde eu deixei minha armadura á prova de ex-mulher? Abri a porta, e lá estava, Rachel descontente e minha macaquinha sorrindo feliz:
-É bom também te ver Rachel.
-Tchau Daniel.
Ela mal olhou para mim, ela se agachou e deu algumas instruções para Grace enquanto entregava um celular.
Fiquei com Grace na porta até Rachel entrar no carro, Grace acenou e tirou um sorriso de sua mãe, eu acenei e pensei que iria morrer em dois segundos.
Aquilo me incomodava um pouco, ela me odiava tanto?
Entramos e Grace se atirou sobre o colchão enquanto brincava com um golfinho de plástico, perfeito. Fiz o prato que eu tinha mais facilidade de fazer, ovos fritos.
Grace estava faminta, comia e falava ao mesmo tempo, enquanto balança o golfinho no ar. Eu aproveitei:
-Não acha esse golfinho sem graça?
Ela me olhou com seus grandes olhos castanhos com dúvida, parecia duas bolinhas de madeira de árvore tropical.
Eu chamava Grace de macaquinha, por que quando era pequena, ela adorava se dependurar nas coisas. Infelizmente Rachel aos poucos foi moldando seu comportamento, xingando e dizendo para não ficar trepando nas coisas, mas ainda sim, o seu ágil raciocínio deixava ela mais esperta que os demais. Ela também tinha herdado os olhos e cabelos de Rachel, de uma forma mais castanha. Mais seu tom de pele era meu. Rachel tinha a pele de uma boneca de porcelana. Eu também era branco,se eu evita-se o sol. Mais vivendo na ilha que gira entorno do sol, minha facilidade em se bronzear me deixou com um tom dourado, eu usava protetor 50 nas primeiras vezes, mas ai aceitei que inevitavelmente o Hawaii estava me mudando.
Grace também, bastou algumas semanas até que ela parece uma escultura de madeira macia, uma bonequinha macaquinha colorida de castanho.
O Hotel era enorme, incomensurável. A movimentação era caótica. Mostrei os tickets para a recepcionista, ela me desejou um bom fim de semana, então olhei para os tickets prestando real atenção a eles. Não era só um dia, era o final de semana inteiro, até segunda de manhã.
Resolvi ir a tal piscina de golfinhos com Grace. Ela estava muito ansiosa, sua mão crispava na minha enquanto ela dava pulinhos ao invés de andar. Fiquei sentado na beirada da piscina, molhando meus pés na água gelada. Grace exultava cada vez que um golfinho comia uma sardinha da sua mão. Ver aquele primo bonitinho do tubarão com aquela boca afunilada e cheia de dentes perto de Grace fazia todos os meus sentidos protetores dispararem, a treinadora, muito bonita por sinal, tinha que me tranqüilizar a cada cinco minutos.
Mas volta e meio minha mão esticava para proteger Grace de cair ou chegar perto demais dos golfinhos. Ela resolveu sentar do meu lado, a abracei e fiquei apreciando a vista. Era tão bom ter aquele pedacinho de mim tão perto. Ela era razão da minha vida, e quando ela estava feliz, eu estava feliz.
Mas eu sentia falta de algo. Sentia falta de alguém se atirando na água e provavelmente se segurando nas cristas dos golfinhos, fazendo eles correrem a mil por hora, passando perto e fazendo a água espirrar mim e sorrindo de uma maneira perigosa.
Eu não queria admitir, mas eu queria que Steve estivesse lá, queria ver ele se divertindo também. Parecia que esse pedaço faltava para me fazer completamente feliz.
Anoiteceu muito rápido. A cama de hotel devia ser muito confortável, Grace mal havia se deitado e já tinha apagado.
-Bons sonhos, macaquinha. – Eu sussurrei enquanto beijava sua testa, eu não conseguia dormir de qualquer forma.
Achei um drink sem álcool no frigobar e me sentei na varanda. A vista era espetacular, mesmo se Nova York tivesse praias, não iria se tão fantástico assim.
Nova York.
Nova Jersey.
Se há um dia atrás tivessem me dito que estava tudo certo, para levar Grace para morar comigo em Nova Jersey, eu iria, sem hesitar.
Mas agora.
Eu podia dizer que era um ótimo emprego. Que eu já não odiava tanto o Hawaii como costumava dizer.
Que não era tão ruim ter uma praia paradisíaca como fundo de janela.
Mas só uma coisa havia mudado em um dia. Eu conheci Steve. Ou devo dizer, nos reencontramos?
Ali na varanda aquela hora da noite, depois de ter passado o dia com minha filha num lugar incrível, me sentindo cansado mas incapaz de dormir, tudo que eu queria era falar com ele. Simples assim. Eu ignoraria todas as minhas duvidas e pensamentos sujos e aproveitaria a sensação que ele me causava. Me sentir bem. Não precisava falar. Bastava sua presença. Para que eu pudesse trocar as vistas, do lindo azul, para o lindo com olhos azuis.
Me lembrei do curso de filosofia que um dia cheguei a tentar completar.
-Amor platônico. Alguém da classe sabe me dizer o que é amor platônico?
Naturalmente a classe ficou alguns instantes em silencio, antes que eu estendesse a mão.
-Fale Daniel.
Eu comecei a pensar, não queria parecer piegas:
-Bem, amor platônico, é aquele que não é correspondido. Só um ama, e o outro não sabe.
O professor Ryan se riu enquanto balançava a cabeça em negativa:
-Não, essa é a concepção moderna. Eu quero a antiga. Alguém?
Eu fiquei quieto, definitivamente não sabia nada de filosofia.
Uma garota de óculos, que clichê, estendeu a mão, o professor assentiu com a cabeça:
-O amor platônico, é o amor segundo a visão de Platão. Para Platão, o amor é incondicional. Você não ama alguém por que terá algo em troca, ou porque a pessoa tem certas características. Você ama por amar. Sem condições, e sem exigência, basicamente, só a presença da pessoa amada já lhe deixaria feliz.
O professor Ryan bateu palmas e um silêncio constrangedor engoliu a sala.
Na hora eu não entendi que graça esse amor platônico poderia ter. Até isso. Parado ali querendo apenas a presença de Steve, eu sentia cada palavra se encaixar assustadoramente no meu desejo.
Pronto estava completamente ferrado. Não tinha como voltar, meu raciocínio bem tentou taxar como amizade, mas tudo se inclinava, ou melhor era atraído irresistivelmente para o campo do romance. Não sabia quanto tempo conseguiria lutar contra aquilo. Talvez até o dia que eu me tornasse homem para admitir meus sentimentos.
Amanhã iria fazer vinte quatro horas que eu conheci o cara, e eu já pensando em me declarar. Preciso adiantar urgentemente meu teste psicológico. Algo estava terrivelmente errado comigo.
Eu devo ter dormido na cadeira, porque eu acordei nela. Grace me chacoalhava o ombro, enquanto o sol queimava meus olhos.
-Nossa, calma, o que quê houve? Tá vindo um tsunami?
Eu fingir olhar de longe, mas meus olhos estavam tão espremidos que mal podia ver um palmo a minha frente.
E me virei para Grace, á falta de replica me assustou. Sua expressão era uma das mais lindas coisas que existia:
-Há uma sirene avisando quando vem tsunamis, e as pessoas são levadas para lugares longe da praia.
Sua voz infantil se debatia violentamente com o conteúdo responsável de sua frase.
-Então, já que não é tsunami, nem obviamente um incêndio- eu acenei em volta – e também – Pousei minha cabeça no seu pequeno peito ouvindo seu coração – não esta sofrendo de ataque do coração, qual é a emergência?
-Eu estou com fome.
-Que pai horrível eu sou. – Eu devo ter feito uma ótima cara de desolação, pois para se desculpar, Grace passou o resto do dia dependurada nas minhas costa, a minha macaquinha havia voltado com tudo. Ela só se desgrudou quando viu os golfinhos. Ai não tinha mais pai para ela, nem ser humano algum. Eu também apreciava que alguns animais eram capazes de devotar uma amizade incondicional ao homem. Mas eu gostava mais de cachorros. Pensando em cachorros eu lembrei do Steve.
Não, não algo aleatório. Mas porque Steve e suas expressões freqüentemente me lembravam um cachorro. Quanto mais dócil ele tentava se,r mais canino parecia seu jeito. Eu me rir ao imaginar que raça de cachorro Steve seria. Um alto, com facilidade de adquirir músculos e que ficava pulando de um lado para o outro com uma cara abobalhada.
Grace me pediu desesperada que fossemos a praia, pois ela queria mergulhar no mar. Eu fui, sem ter como protestar. Sentei o mais longe possível da beirada e o mais perto de Grace, que se lambuzava na água salgada do mar.
Suas gargalhadas me fizeram relaxar. Estiquei meus braços para trás e vi o céu e mar no fundo.
Céu e mar.
Dois azuis. Diferentes entre si, complementares um ao outro. Não um contraste, uma aceitação. Azul geralmente é associado ao masculino. E ali estava eu encarando dois azuis, próximos eternamente um do outro, e não conseguindo pensar de outra forma.
Um azul era infinito, suave e claro. O outro findável em certo ponto, papável, profundo e revolto.
Me perguntava em qual dos azuis eu me encaixa.
Fechei meus deixando o calor me vencer. Não mais me importando com o suor que escorria como cachoeira, mas tentando me concentrar no jeito que ele aquecia minha pele. Fez me sentir vivo, suscetível e estranhamente feliz.
Inesperadamente o mar caia sobre mim.
Eu abri os olhos, Grace se chacoalhava na minha frente, se secando precariamente antes de se atirar em mim. Ela estava gelada pela água. Eu a envolvi com meus braços para aquecê-la. Senti seus dedinhos apertarem com força em volta do meu braço:
-Que foi?
-Você esta quente papai.
-Eu não estou quente, eu estou torrando por causa do sol.
Ela se riu de leve e continuou se aconchegando, aos poucos ela estava voltando a temperatura normal.
-Em que estava pensando?
Eu olhei surpreso para a pequena, sabia que crianças notavam as coisas, mas não sabia que era tanto:
-Porque?
-Você estava suspirando e sorrindo. Eu queria saber o que esta te deixando feliz.
Definitivamente as crianças notam muitas coisas, ou talvez ela herdou o instinto do pai.
-Ah, não é bem felicidade, eu estava aliviado por estar vivo, e poder estar aqui com você.
Eu puxei seu nariz, fazendo um sorriso forçado, esperando não ter dito nada demais.
-Como assim? Você quase morreu ontem?
Eu tive que dar uma gargalhada.
-Eu quase morri o dia inteiro ontem, e sabe de quem é a culpa?
-Quem? – Ela perguntou realmente curiosa.
-Meu novo parceiro. Papai foi obrigado a trabalhar com ele, e ele é louco.
Grace me fez interrogatório depois disso, queria saber cada detalhe, e principalmente o que eu pensava sobre Steve, ela perguntava de forma inocente, talvez sem notar que volta e meio o ponto era sempre Steve. Ou talvez eu estivesse fazendo o ponto ser sempre Steve.
Então a pergunta valendo um milhão de dólares foi feita:
-E você gosta dele?
Sim filha. Eu gosto dele, mais do que isso, acho que estou apaixonado feito um adolescente bobo, mas isso provavelmente não ira significar muito para você.
-Ele é louco, como se pode gostar de uma pessoa assim?
Grace franziu o cenho:
-Dá para gostar das pessoas de qualquer jeito. E você não respondeu minha pergunta.
Eu suspirei desesperado e coloquei minha cabeça em minhas mãos. Estávamos de volta ao hotel, jogando Pôquer. Eu estava perto de conseguir um flush de paus, e Grace jogava fora cartas como dama de copas, dois reis, um valete e assim por diante, imaginei que ela não tinha entendido as regras do jogo e iria perder violentamente para mim.
Resolvi me focar na nossa conversa, o que foi uma péssima ideia.
-Bem, se não fosse Steve, eu não estaria aqui nesse lugar maravilhoso com você macaquinha.
Puxei de novo seu nariz e continuei.
-Então, apesar de ser louco, mandão, suicida e intrometido, acho que gosto dele.
Grace sorriu, parecia que ela podia ver a veracidade das minhas palavras. Ela olhou para suas cartas e perguntou timidamente:
-Posso mostrar minhas cartas?
Aquilo estava fora das regras oficiais, mas nós estávamos brincando então deixei.
Ela abriu as cartas num leque perfeito e baixou mostrando um straight flush de ouros que começa com o rei.
Ela agora dava gargalhadas da minha cara, porque eu deveria estar parecendo um babaca, estava tão compenetrado na conversa, que perdi de lavada para minha filha de sete anos no pôquer. E a culpa era de quem?
Do Steve!
