Capítulo 1
O silencio no compartimento durou apenas alguns segundos, antes que ficasse constrangedor, o garoto chamado Terry desfez a expressão surpresa e seu rosto se abriu em outro sorriso branco e brilhante. Pigarreando ele falou sentando-se:
— Vamos, vamos nos sentar, desculpa minha surpresa e tal, quero dizer, minha mãe comentou que você começaria em Hogwarts no mesmo ano que eu, mas ainda é surpreendente, depois de crescer ouvindo seu nome, conhecer você de verdade.
Sentando-se Harry observou o outro menino, que parecia sincero e não se importar muito com ele ser famoso, o que lhe aliviava, isso é tudo o que ele queria, que as pessoas não fizessem um grande negócio dessa história de menino-que-viveu. Talvez ele estivesse sendo ingênuo, pensou Harry, mas a verdade é que ele não se lembrava ou entendia o que acontecera a 10 anos, com exceção do fato que seus pais foram assassinados. Agradecido e querendo muito fazer um amigo Harry sorriu timidamente, respondendo:
— Tudo bem, não tem problema, eu tive muito pior quando fui ao Beco Diagonal fazer minhas compras, quer dizer, acho que apesar de não me lembrar ou entender o que aconteceu naquela noite, vou ter que me acostumar com reações ao meu nome ou minha cicatriz.
Terry moveu a cabeça concordando, uma expressão inquisitiva e inteligente em seu rosto, expressão essa que Harry veria muitas vezes ao longo da viagem.
— Eu posso entender sua confusão, mesmo meus pais não entendem muito o que aconteceu naquela noite, e eles são bem espertos, minha mãe é a pessoa mais inteligente que eu conheço, sendo uma Ravenclaw, mas ela não sabe como poderia um bebê derrotar um bruxo adulto, e um poderoso além de tudo. Ela... bem minha mãe acha que as informações divulgadas na época eram imprecisas e que foram exageradas e de repente todo mundo tomou como verdade... — Terry hesitou olhando para ele. — Quero dizer, não estou dizendo que é mentira, mas bem só não faz muito sentido, sabe, e bem... minha mãe sempre diz que o que não faz sentido merece ser questionado.
Harry não pode deixar de se surpreender com as palavras do outro garoto, quando Hagrid lhe contara o que aconteceu, tanto lhe passara pela mente, principalmente o choque de saber como seu pais realmente morreram e que eles foram assassinados, que não lhe ocorre questionar a veracidade dos fatos em si. Quer dizer, como poderia um bebê matar um bruxo adulto, um bruxo, segundo o Guardião, poderoso e invencível, que só temia Alvo Dumbledore. Mas se os fatos estavam errados ou exagerados como dito pela mãe de Terry, o que de fato acontecera e se os fatos eram como todos sabiam a questão principal era como ele conseguira derrotar Voldemort, quando nas muitas vezes em que Duda e seus amigos lhe bateram sua magia não agira para defende-lo.
— Essas são boas questões Terry e na verdade não tinham me ocorrido ainda, a verdade é que tudo tem sido tão surpreendente desde que recebi minha carta, estou muito empolgado de ir pra Hogwarts e deixar a casa dos meus parentes. Sua família é toda bruxa? — Perguntou, imaginando que Terry vinha de uma família bruxa igual à do menino na loja de roupas do Beco. — Você já deve saber muita mágica.
Terry sorriu felizmente percebendo que não ofendera Harry por seu comentário.
— Bem, meus pais são bruxos e meus dois irmãos mais novos também, como eu disse minha mãe é uma Ravenclaw e meu pai um Gryffindor, mas minha mãe é nascida trouxa, assim tenho todo um conjunto de parentes que não tem magia. Meus avós e um tio e uma tia, irmãos de minha mãe, além de seu cônjuges e filhos, meus primos. Por parte do meu pai todos são bruxos sim, ainda que apenas meus avós sejam vivos, meu pai tinha uma irmã, mas ela morreu na guerra, foi assassinada por comensais da morte. — Explicou Terry. — Quanto a saber magia, sei muito da teoria, minha mãe é muito estudiosa, ela mandou eu e meus irmãos para a escola trouxa, e em casa ela nos ensina sobre magia, você sabe, teoria magica, história da magia e poções. Papai nos ensina um pouco de política e leis, já que ele é um advogado, mas não fazemos nada pratico, afinal só pegamos nossa varinha depois que recebemos a carta de Hogwarts. Eu tentei algumas coisas, depois de ler meus livros do primeiro ano, eu até consegui alguns feitiços, mas apenas coisas simples, sabe.
Harry ficou impressionado com todas as informações do longo discurso de Terry, mas antes que pudesse responder, ouviu o apito agudo do trem quando este começou a se mover lentamente para fora da estação. Ele olhou pela janela, e viu várias pessoas diferentes gritando e acenando suas ultimas despedidas, sua última visão foi uma garotinha ruiva correndo atrás do trem pela plataforma, meio chorando, meio rindo e acenando loucamente e então o trem seguiu e a estação desapareceu e ele sentiu a excitação percorre-lo. Ele estava indo, e apesar de não saber o que o esperava devia ser muito melhor do que ele estava vivendo nos Dursley.
— Sim! Estamos indo para Hogwarts! — Disse Terry espelhando seu entusiasmo. — Ouvi a vida inteira papai e mamãe falando sobre como legal é a escola, é incrível poder ir também.
Harry acenou, concordando plenamente e lembrando-se do que eles estavam conversando antes comentou:
— Eu devo estar muito atrasado então, não estudei nada dessas coisas que você mencionou, quer dizer, fui a uma escola trouxa como você, mas do mundo magico nunca aprendi nada. Na verdade, foi quando recebi minha carta de Hogwarts que eu descobri que era um bruxo, e que as coisas estranhas que aconteciam ao meu redor era magia. Aposto que vou ser o pior da classe. — Disse Harry expressando uma das suas maiores preocupações.
— Não é tão simples assim Harry, quer dizer, crianças que cresceram no mundo bruxo como eu sabem mais de magia e sobre a sociedade mágica do que uma criança nascida trouxa, como minha mãe ou a sua, mas quando se trata de aprender o currículo de Hogwarts e pegar os feitiços ensinados pelos professores depende da dedicação de cada um, eu passei semanas estudando e tentando alguns feitiços simples, alguns outros nascidos trouxas farão o mesmo, e aposto que vai ter muitas crianças chamadas puro-sangue que não leram um único livro o verão todo! Veja minha mãe, ela é uma nascida trouxa e era uma das melhores alunas do seu ano.
Isso fez Harry lembrar-se de Hagrid dizendo que sua mãe havia sido uma grande bruxa, melhor da sua turma além de monitora chefe e ele se sentiu mais aliviado. Terry estava certo, todas as coisas que ele não sabia poderia aprender, ele já lera todos os seus livros escolares, poderia rele-los para as aulas e ler mais alguns com informações complementares e mais importante ele se dedicaria aos seus estudos, daria atenção as aulas, na escola trouxa ele não se preocupara, os Dursley não se importavam e os professores eram indiferentes, sua situação de vida sempre lhe tirara a concentração, quem se importava com matemática e geografia, quando se estava com fome, ou pensando em como se esquivar de seu primo e sua gangue, ou todas as tarefas que ele tinha que fazer quando chegasse em casa.
Harry pensou em tudo que Terry disse e ficou em dúvida sobre algo, mas antes que pudesse perguntar, o outro garoto com sua expressão inteligente o venceu com suas próprias questões.
— Mas eu não entendo algo Harry, todo o mundo magico sabia que você vivia com parentes de sua mãe no mundo trouxa, mas como você não sabia sobre ser um bruxo, quer dizer, eles devem ter lhe contato sobre a guerra e como seus pais morreram, e se eles não sabiam o que não faz sentido, com certeza alguém no mundo magico deve ter te informado sobre tudo, sendo você quem é.
Harry olhou pela janela por um segundo percebendo que a cidade de Londres estava ficando para trás, e pensou sobre a pergunta do seu novo e inteligente companheiro de viagem, ele não queria ter que explicar os Dursley, assim ao em vez devolveu com uma pergunta, apenas para ganhar tempo, desconfiava que Terry voltaria a pergunta mais tarde.
— O que você quer dizer com quem eu sou? Você fala por causa dessa história de menino-que-viveu? — Harry não pode deixar de fazer uma careta com o apelido idiota, o que fez com que Terry risse.
— Não, claro que não, quero dizer, depois do que aconteceu, mesmo que não possamos explicar o que ou como aconteceu, você pessoalmente se tornou famoso, — explicou Terry com a mão esfregando o queixo — o que claro faz com que seja ainda mais sensato que você fosse informado sobre quem é e sobre o mundo bruxo enquanto crescia. Mas a verdade é que você já era importante mesmo antes disso, simplesmente, por ser um Potter!
— O que? Como assim? O que ser um Potter me torna importante?
Terry franziu o cenho aqui, ao perceber que claramente Harry não fazia ideia de nada. Seus pais ficariam chocados, pensou, se ele lhes contasse que se sentara num compartimento com Harry Potter, mas não qualquer Harry Potter, e sim um pequeno, magro demais, com roupas folgadas e velhas, óculos quebrados, que até um mês atrás não sabia que era um bruxo e que não fazia ideia sobre ser um Potter! Com sua curiosidade e mente inquisitiva, que tentava sempre se fazer aprender e entender Terry decidiu chegar ao fundo dessa discrepância, mas ao mesmo tempo ao olhar para o garoto menor lembrou de sua mãe lhe dizendo que devia ter paciência com aqueles que estavam descobrindo esse novo mundo magico, devia ajuda-los a descobrir esse mundo e não jogar tudo que eles não sabiam, sobrecarrega-los com informação ou chamá-los de ignorante.
Percebeu que esse era o caso aqui, para todos os efeitos, Harry Potter era um nascido trouxa.
Pigarreando, levemente e tentado encontrar uma maneira de explicar, Terry mais uma vez coçou o queixo, olhou pela janela buscando inspiração, pensando em todas as aulas que tivera com seu pai sobre as famílias magicas e como ele ficara encantado ao ouvir sobre a história da família Potter, seu pai percebera seu interesse e lhe comprara um livro escrito a quase meio século detalhando as histórias dos Potters desde o primeiro, Linfred, "O Potterer", até o senhor Fleamont Potter que se tornara um grande duelista devido ao nome peculiar.
— Bem Harry, sua família pode não ser considerada umas das famílias do Sagrado Vinte e Oito, que é um livro escrito por um desses esnobes puro sangue que acha que ter sangue puro é o mais importante em uma família, mas ainda é uma importante família mágica. Os Potters, assim como os Boots não são considerados puros o suficiente, por muitas razões, uma delas é o fato de que nossos ancestrais acharam mais interessante se misturar com trouxas ou nascidos trouxas, por amizade ou casamento do que lutar contra eles em nosso mundo. Faz sentido até agora? — Terry perguntou.
— Hum... o que você quer dizer é que os puros sangues não gostam ou se misturam com trouxas ou nascidos trouxas, mas que nossas famílias não se importam com isso. — Harry estava ouvindo atentamente, feliz por ter se sentado com alguém que não só sabia muito sobre o mundo magico, mas estava disposto a ensina-lo e sem fazer ele se sentir mal por não saber.
— Exato, nem todas as famílias magicas pregam ou se importam com a política que defende que a mágica deve ser ensinada apenas as crianças com antepassados mágicos, nossas famílias são contra esse pensamento, por isso nossos pais se casaram com nossas mães, e é por isso que nossas famílias lutaram contra você-sabe-quem na última guerra. Ele e seus seguidores queriam matar não apenas bruxos que nasceram de pais trouxas, mas os trouxas também.
— Certo, entendi. — Disse Harry um pouco desconcertado ao perceber que em sua conversa com Hagrid sobre a guerra, este não lhe contara qual foi a motivação por traz de Voldemort, e aqueles que o apoiavam. Será que fora por isso, se perguntou Harry, será que fora porque sua mãe havia sido uma bruxa nascida trouxa que ele os matara. — Mas o que isso tem a ver com minha família sendo importante.
— Desculpa, acabei fugindo do principal, bem como eu disse os Potters são muito importantes no mundo magico, a família Potter existe a mais de mil anos, e seus antepassados tiveram vidas boas, eles não se envolveram em grandes questões políticas, ficaram mais a margem, mas ainda realizaram grandes coisas. Não vou entrar em detalhes, meu pai me deu um livro que conta a história e os feitos de sua família, desde o primeiro, Linfred, até seu avô Fleamont Potter. Eu não o trouxe, mas em minha primeira carta para casa pedirei a minha mãe que me envie, assim você pode ler por si mesmo. Mas o que posso te dizer é que ser um Potter é importante por si só no mundo magico, além do fato de que vocês são talvez uma das famílias mais ricas em nosso mundo.
Harry não soube o que dizer, era desconcertante pensar que havia um livro sobre sua família e que Terry sabia mais sobre ela do que ele, Harry sabia, mas também era tocante o oferecimento do garoto em lhe ajudar a obter por si mesmo informações sobre seus antepassados. Harry percebeu que era o que ele queria, descobrir sobre os Potters por si mesmo, sem que ninguém lhe contasse, era importante, pensou, por seus feitos e por suas memorias descobrir o que pudesse e aprender a ser um Potter por esforço próprio.
— Obrigada Terry, vou gostar muito de ler e aprender sobre minha família. — Disse Harry, sorrindo com gratidão sincera.
Terry corou um pouco, seu rosto cor de caramelo mostrando apenas um leve avermelhado nas bochechas.
— Oh, tudo bem, não é nada demais, quer dizer eu também me interesso muito pela história da minha família, os Boots não existem a tanto tempo como os Potters e nem são tão ricos, estamos no mundo magico a uns 500 anos, mas também realizamos muitas coisas. Minha família está envolvida com as leis desde que o Ministério da Magia foi criado, havia um Boot ajudando a criar as leis ministeriais e implementar o Estatuto de Sigilo que nos protege de sermos descobertos pelos trouxas e desde então sempre houve um Boot trabalhando no Departamento de Leis Magica. Bem até meu pai, ele se tornou advogado, mas abriu seu próprio escritório particular. Depois de tudo o que aconteceu na guerra ele nunca confiou no Ministério e não quis trabalhar para eles, sabe.
Harry estava confuso com tanta informação, não que ele não entendesse, apenas lhe ocorria agora quantas coisas não sabia sobre esse novo e incrível mundo. Sua expressão deve ter revelado seu sentimento de inadequação, pois Terry imediatamente, interpretando incorretamente, disse:
— Oh, me desculpe Harry, não quis te encher de informação, já que você está descobrindo tudo. Eu gosto muito de aprender e entender como as coisas são ou foram, você precisa me mandar calar a boca se eu falar demais, e se tiver algo que você não entende não hesite em perguntar. — Terry parecia sincero, e não fez Harry se sentir ignorante, o que o deixou aliviado por ter alguém legal para fazer perguntas, e que não se zangaria com isso.
— Tudo bem, Terry, entendi o que você contou sobre sua família, e já sabia que o mundo magico tinha um Ministério, mas não sabia nada sobre os departamentos, ou sobre as leis, e não sei nada sobre a história de como ou quando eles foram criados.
— Não se preocupe com isso, teremos aulas de História da Magia, com certeza estudaremos todas essas coisas. Minha mãe nos ensinou o básico sobre a história bruxa, os pontos mais marcantes, o que sei a mais vieram das minhas leituras, adoro ler. — Disse Terry, parecendo constrangido corando levemente.
— Bem eu também gosto de ler. — Confessou Harry com um sorriso tímido. — Apenas nunca tive muita oportunidade por causa dos meus parentes.
Vendo a expressão inquisitiva voltar ao rosto de Terry e não querendo que ele voltasse a perguntar sobre seus parentes, Harry rapidamente falou querendo esclarecer algumas de suas dúvidas.
— Bem, já que você não se importa que eu pergunte... — Hesitou Harry, e ao ver o garoto moreno balançar a cabeça que não continuou. — Tem uma coisa que você disse, sobre fazer alguns feitiços depois de pegar sua varinha, achei que não pudéssemos usar magia fora da escola sem ficarmos em apuros. E sobre o seu pai não trabalhar no Ministério depois do fim da guerra, por que isso? Não é seguro trabalhar para o Ministério?
Z Hum, essas são boas perguntas Harry e elas estão meio que conectadas, na verdade. Bem acho que a melhor maneira de explicar é falando sobre o que aconteceu com minha mãe quando ela recebeu sua carta e o convite para vir estudar na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Harry não pode deixar de sentir-se animado, sem perceber que naquela última hora de conversa com seu novo amigo, sua natureza curiosa e inquisitiva, por tanto tempo sufocada nos Dursley, estava despertando. Ele queria entender, saber, desvendar o grande mistério que era esse incrível novo mundo cheio de magia. Mas antes que Terry começasse a lhe contar, a porta se abriu bruscamente, duas crianças estavam lá. Pareciam primeiros anos como eles, um de rosto redondo e expressão triste, cabelos e olhos castanhos era um menino, a outra uma menina negra de cabelos castanhos grossos e cheios de cachos, olhos castanhos e dentes salientes como coelhos.
