-I

sso é... inacreditável. – foi o que Quíron disse a mim e a todos os outros líderes dos chalés quando terminou de nos contar o que aconteceu. E foi o seguinte: Argos voltou do chalé de Atena sem Daniel e sem Maureen.

- Eles sumiram. – foi o que ele falou.

De alguma maneira, aquilo me acalmou um pouco. Eu posso sentir quando alguém morre através de um zumbido em meus ouvidos e eu não havia escutado nada aquela noite. Então, Daniel não estava morto.

- E ninguém passou pela entrada. – ele complementou.

- Maureen fugiu. – disse Quíron. – E deve ter levado Daniel com ela. Ele sabia muita coisa.

Depois daquilo, Quíron pediu que Argos chamasse todos os líderes dos chalés e trouxesse um representante provisório de Atena, já que Maureen não estava mais lá.

- Quíron, o que isso significa? – eu perguntei.

- Vou explicar quando todos estiverem aqui.

Aos poucos, os líderes foram se juntando a nós na varanda da casa grande. Hector Madison foi o primeiro a chegar. Logo depois apareceram Hannah e Tobey. Dione do chalé de Deméter. Franco do chalé de Íris. Nigel do chalé de Hipnos. Sophia do chalé de Afrodite. Richard do chalé de Nêmesis. Carl do chalé de Hermes. Burt do chalé de Dioniso. Dino do chalé de Ares. Mia do chalé de Hécate. E por último, Jenny Felton, que estava representando o chalé de Atena. Ela tinha lágrimas nos olhos.

- O que aconteceu com Daniel? – ela perguntou a Sophia.

- Acalme-se, Jenny. – Quíron falou com ela. – Algo sério aconteceu no acampamento. Mas acreditamos que Daniel esteja bem. - Jenny respirou fundo e pareceu mais calma. Então Quíron nos contou o seguinte:

"No passado, os filhos dos deuses em suas missões podiam receber ajuda dos seus pais vinda em forma de presentes. O nome correto é dádivas. As Dádivas dos Deuses. Isso ocorre até hoje, na verdade, porém em uma freqüência muito menor. São armas. Ajudam os heróis a vencer as batalhas. Uma vez cumprida a missão para qual essas Dádivas foram designadas, os heróis as escondem, já que são muito perigosas se caírem em mãos erradas. E foi o que aconteceu aqui. Maureen Lewis, filha de Atena, tomou posse de uma Dádiva que não era dela e a usou para tentar matar Hannah Pope, filha de Hera."

Todos viraram para encarar Hannah. Ela não parecia muito surpresa. Quíron prosseguiu:

- A Dádiva utilizada foi esta. – ele mostrou a figura no livro. – São flechas muito perigosas. Uma vez atingida por uma delas, uma pessoa vira cinzas instantaneamente. O fato: essa Dádiva não foi produzida por Atena, logo Maureen a roubou. E roubou de Tobey, filho de Hefesto.

Daquela vez, até eu fiquei extremamente surpreso e me virei para encará-lo. Mas parecia que o próprio Tobey estava ouvindo uma novidade, porque ele ficou de queixo caído e gaguejou muito antes de dizer:

- Não podem ser as mesmas flechas! Estão escondidas, Quíron! E eu nunca contei a ninguém que as tinha.

- Talvez você não tenha sido muito cuidadoso. Tem certeza que nunca falou sobre sua missão com Maureen? – Quíron quis saber.

- Bom, eu comentei sobre a missão com os meus amigos, inclusive com ela. Mas nunca mencionei que tinha recebido uma Dádiva do meu pai, disso eu tenho certeza.

- Pense, Tobey. É importante que você se lembre de todos os detalhes que mencionou a ela.

Tobey ficou se concentrando ali, enquanto todos nós o encarávamos. Então eu disse:

- Será que não existe a possibilidade de Maureen ter encontrado por acaso? – Quíron abriu a boca para falar, mas eu continuei – Quero dizer, dependendo do lugar onde você tiver escondido... Não sei. Vai ver não escondeu bem.

- Isso não acontece, Nico. – Quíron explicou. – Receber uma Dádiva requer a responsabilidade de protegê-la para sempre. O herói deve ser cuidadoso ao escondê-la.

- Já que Maureen já tem a Dádiva, - falei com Tobey. – você poderia nos dizer aonde escondeu, não poderia?

Tobey olhou para Quíron. Este assentiu.

- Fiz uma espécie de cofre embaixo da minha cama no chalé. Tem um bocado de coisas encima. E eu carrego a chave comigo para toda parte. – ele tirou a chave que estava presa na calça dele e nos mostrou.

- Embaixo da sua cama. – eu não podia acreditar naquilo. – Sério? – por incrível que pareça, minha voz ainda estava normal.

- Num cofre embaixo de um monte de entulho e da minha cama. Estava bem escondido. – ele me garantiu.

- SEU BOÇAL! – eu berrei.

- Nico, por favor... – Quíron tentou me acalmar, mas eu nem dei atenção.

- SUA NAMORADA PODIA TER VIRADO CINZAS POR CAUSA DA SUA BURRICE, SABIA? – eu estava tão furioso que podia abrir uma fissura e mandá-lo para o mundo inferior naquele instante.

- Nico, já chega! – Quíron levantou sua voz. – Tobey agiu mal, muito mal, mas agora é tarde para brigar com ele e, felizmente, Hannah ainda está viva. Então, por favor, vamos nos acalmar e tentar encontrar uma solução para a questão.

Eu afundei na minha cadeira.

- Eu posso... – Hector falou, hesitante. - ... fazer uma suposição a respeito daquele dia no Capture a bandeira?

- Fale, Hector. – Quíron consentiu.

- Eu acredito que Maureen possua mais de uma Dádiva. Não sei dizer qual, mas muitas coisas estranhas aconteceram ontem durante o jogo, certo, Hannah?

- É verdade. – ela concordou.

- O que vocês sabem? – Quíron perguntou aos dois.

- Bem, eu achei muito estranho Hannah ter abandonado seu posto durante o Capture a bandeira e ter ido sozinha para aquela parte da floresta onde não havia ninguém. Minha irmã, Ashley, estava perto de Hannah junto com os outros arqueiros quando Mathilda do chalé de Hefesto disse a ela para ir sozinha até o oeste da floresta , que eram ordens minhas. Mas eu nunca pedi nada disso. Tenho como provar. Não falei com Mathilda aquele dia. – Hector explicou.

- E foi aí que tudo aconteceu. – disse Hannah. – O mais estranho é que quando perguntei a Mathilda sobre isso ela disse não se lembrar de nada. E eu a conheço bem, ela é minha amiga, não faria algo ruim para mim. Não se estivesse consciente, pelo menos.

- Por isso eu acho que Maureen usou alguma Dádiva que pode confundir as pessoas ou algo assim. – disse Hector.

- Ei, isso faz sentido! – Dione se manifestou. – Você se lembra, Nico? Nenhum de nós sabia qual era a estratégia da nossa equipe, mas Eve me contou que não havia pensado em Maureen até você tocar no assunto. Tudo que ela sabia era que devia continuar lutando, mas sem nenhum plano.

- Mas eu me lembrei de Maureen logo. – eu disse.

- Talvez seja porque você não se reuniu com a equipe antes do jogo. Então, se ela usou alguma Dádiva para nos confundir, não afetou você. Eu lembro que você estava distante do grupo quando nos reunimos.

Comecei a pensar sobre aquilo. Realmente explicava algumas coisas.

- Nenhum de vocês se lembra de Maureen naquele dia? – eu perguntei aos líderes de Chalé que faziam parte da equipe azul. Todos assentiram. – Quíron, se estivermos certos, você tem alguma idéia de que Dádiva pode ser essa? Não há nada nesse livro aí?

Ele folheou rapidamente e me mostrou uma página.

- Poderia ser esta. – ele me disse.

Eu olhei e vi a figura de uma flauta negra com alguns detalhes dourados. Embaixo da figura, havia algumas informações:

"Fabricada por Jano, o deus da dúvida, esta flauta dá ao herói a habilidade de confundir o seu oponente, podendo até alterar a memória do mesmo. Ao soprá-la, o herói deve se concentrar em transmitir suas ordens ao oponente, caso não seja eficiente, os efeitos podem ser catastróficos, indo desde execução incorreta da ordem até o enlouquecimento permanente e irreversível do oponente."

Mais embaixo havia o seguinte:

"Herói presenteado: Julia Hawkins"

- O quê? – eu disse. – Aquela Julia Hawkins? A que morreu escalando uma montanha algumas semanas antes de voltar para o acampamento?

- Receio que sim, Nico. – disse Quíron, com grande pesar.

- Então Maureen está matando todos os semideuses que possuem Dádivas?! – eu quis saber. Aquilo era muito difícil de se acreditar.

- Talvez seja muito cedo para chegar a essa conclusão. Por enquanto, só temos certeza de que ela possui uma Dádiva. E ela não precisou matar Tobey para isso.

- Precisamos encontrá-la, então. – disse Hector. – Se ela já pegou duas, com certeza deve estar procurando outras. E sabe-se lá que tipo de poderes as outras Dádivas vão dar a ela. Temos que impedi-la enquanto é possível chegar perto dela.

- Você tem toda razão, Hector. E é por isso que chamei todos aqui. Quero comunicar que Rachel, nosso oráculo, disse uma profecia recentemente. – Quíron anunciou.

- Rachel disse uma profecia?! – eu perguntei, surpreso. – Mas você não disse que...

- Pouco antes de ir embora na última vez em que esteve aqui, Rachel teve uma visão. Na época, não fazíamos idéia do que estava acontecendo e logicamente a profecia não fez nenhum sentido para nós. Por isso não disse nada a você. Mas agora, com todos esses acontecimentos, ela ficou bastante clara. Vocês gostariam de ouvi-la? – ele nos perguntou. Todos confirmaram imediatamente, muito ansiosos. – Está com o papel, Sr. D?

- Aqui. – Sr. D entregou uma pequena folha de papel dobrada para Quíron.

Quíron limpou a garganta e leu para nós:

"Aquele que é capaz de realizar o impossível será desmascarado

Cinco meio-sangues devem impedi-lo de atingir o poder supremo

Um realizará o seu desejo mais profundo e irá renegá-lo depois

O príncipe dos mortos escreverá certo por linhas tortas

O grande líder os iluminará nos momentos de escuridão

Um se sacrificará em nome da amizade sincera

E o presente chegará no momento da vingança."

Ficamos todos mudos por uns três minutos. Profecias vinham sempre carregadas de muita tensão.

- Um pouco difícil de decifrar, não? – perguntou Quíron. Demos uma risada nervosa. – Até agora sabemos que "Aquele que é capaz de realizar o impossível" é Maureen, e " O príncipe dos mortos" só pode ser Nico.

Aquilo me encheu de uma ansiedade esquisita. Era uma sensação de contentamento, eu acho. Vai ver eu estava esperando que aquilo acontecesse.

- Alguém tem alguma idéia de quem vêm a ser os demais? – disse Quíron. Ninguém respondeu. – Bom. É devido a isso que o Sr. D e eu decidimos que... Nico deve escolher quatro companheiros para sair nessa missão com ele.

Um burburinho encheu a varanda imediatamente. A maioria começou a gritar para mim "Me escolhe, Nico!". O único que não estava animado era Tobey. Óbvio. Ele começou a questionar a decisão de Quíron com todos os argumentos vinham a sua mente. Quíron falou que era a decisão mais adequada pelo fato de a profecia dizer que eu escreveria certo por linhas tortas.

- Por linhas tortas! Vocês não entenderam? Por linhas tortas não é bom. – Tobey argumentou, mas ninguém deu atenção.

Os outros continuavam gritando para que eu os escolhesse. Quíron viu que eu estava encurralado e disse:

- Pessoal, vamos dar um tempo ao Nico. Essa é uma decisão importante e não pode ser tomada assim tão rápido. Por que não vamos todos dormir e amanhã ou depois ele nos dá sua resposta?

- Sem essa de "ou depois"! – disse Franco, filho de Íris. – A garota de Atena está matando semideuses enquanto falamos, não podemos perder mais tempo! – alguns concordaram com ele. – Um dia. – ele decretou para mim. – Você tem o dia de amanhã inteiro para nos observar e pensar. Amanhã, depois do jantar, você terá que decidir.

Olhei para Quíron, que disse:

- É razoável, Nico. Nós realmente não podemos esperar muito.

- Tudo bem. – eu respondi olhando para cada um dos presentes. – Amanhã à noite.

Depois do que eu disse, os campistas foram saindo para dormir. Eu ainda pedi a Quíron para ficar com o papel da profecia para pensar bem no assunto. Eu tinha que ter alguma inspiração até o outro dia.

-N

ico, você está bem? – Eve chegou daquele jeito de sempre dela. Tipo, nem um "bom-dia" ela dava. Ela simplesmente começava a falar e não parava.

Mas naquela manhã eu até estava querendo que ela estivesse por perto. Sei lá. Mesmo que ela, como todo mundo no acampamento, só estivesse puxando meu saco para eu escolhê-la para ir à missão comigo. Acho que eu precisava conversar com alguém.

- Hum...Mais ou menos. – eu respondi. Eu tentei ser legal, afinal ela havia dado o primeiro passo desde que paramos de nos falar na tarde anterior.

Eu não dormi nada à noite. Até tentei, mas meus olhos simplesmente não fechavam. Então eu fiquei acordado a noite inteira encarando o papel da profecia de Rachel, tentando descobrir quem eram os quatro meio-sangues que me acompanhariam.

- Sinto muito pelo Daniel. – ela disse. Parecia sincera. – Você deve estar arrasado. Mas ele está vivo, não está? Você não escutou aquele zumbido, certo?

- Felizmente, não.

-Ah, ainda bem. – Eve pareceu ficar menos tensa depois daquilo.

Eu não falei mais nada. Não parava de pensar na profecia. Acho que Eve entendeu meu comportamento de forma errada.

- Bem... Me desculpe por ontem. Eu fui muito idiota. – ela confessou. – Não devia ter agido daquele jeito. Foi criancice.

- Não faz mal. Você é criança. – eu brinquei.

- Cala a boca. – ela voltou a sua chatice normal dali em diante. – Você vai mesmo em uma missão? – os olhos dela brilharam.

- Parece que sim.

- Ah, meus deuses! Você vai liderar a missão! Mas o melhor de tudo é como esses malucos estão agindo com você. – ela apontou para o pessoal do refeitório que não parava de nos olhar. – De repente você é o cara!

- Ei, devagar nos devaneios, garota. Eu não vou liderar a missão. Quíron só me encarregou de escolher os demais porque a profecia dizia que "O príncipe dos mortos" ,que sou eu, quem mais poderia ser? "escreverá certo por linhas tortas". Duvido muito que alguém vá querer que eu dê ordens.

- Não importa. Mas me conta... – ela se aproximou de mim e diminuiu o tom de voz – Já escolheu alguém?

Não havia motivo para esconder aquilo de Eve. Primeiro: porque eu já tinha certeza; e segundo: todo mundo ia ficar sabendo no fim do dia.

- Na verdade...sim. – eu respondi, meio inseguro.

- Caramba. Quem?!

- A primeira pessoa foi... Hector. – Eve ficou muda e começou a me olhar com uma cara totalmente desanimadora. Juro. Parecia que ela ia vomitar encima de mim.

- Hector? Hector Madison? Você tá... usando drogas? – só eu poderia descrever o desgosto na voz dela naquela hora.

- Por quê?! – eu achei mesmo que tinha sido uma escolha legal. Tinha até lógica.

Observando incansavelmente a profecia, eu me detive na quinta linha: "O grande líder os iluminará nos momentos de escuridão". Quíron e o Sr. D podiam até não ter percebido, mas fazia muito sentido. Hector era o braço direito de Quíron, tinha até ganho uma trombeta de presente dele. Por ser um pouco mais velho que a maioria, ele praticamente mandava em todo mundo. Ele era mesmo o líder dos líderes dos chalés, o que fazia dele "O grande líder". Outra coisa: ele era filho de Apolo, o deus da luz. Isso explicaria a coisa de "iluminar nos momentos de escuridão". Eu achei mesmo que a minha lógica era bem racional, mas Eve continuou com cara de nojo.

- Ah, fala sério. Uma criança de sete anos poderia ter escolhido alguém melhor.

- O que há de errado com Hector? – eu quis saber. – Ele é esperto e um excelente lutador. Precisamos de gente assim na missão.

- Pode ser, mas... É o Hector. Ele se acha o próprio Apolo.

- O que ele fez para você desprezá-lo assim?

- Nada! Ele só é muito perfeitinho. Não é à toa que o chamam de "Príncipe encantado".

- Vocês garotas são muito estranhas. Eu pensava que tudo que vocês mais queriam era um príncipe encantado.

- Você não entende nada de garotas, Nico.

- Já percebi.

- E quem é a outra pessoa?

Bom, depois da reação de Eve com quem eu considerei ser uma escolha decente, eu tinha certeza que ela ia jogar suco na minha cara quando eu dissesse quem era a minha segunda escolha.

- Hannah. – eu disse. Mas não estava inseguro nem nada. Pois mesmo tendo sido uma decisão nem um pouco racional, mas sim totalmente emocional, eu me sentia orgulhoso e satisfeito com aquilo.

Quando estava no meu chalé, me lembrei que devia desculpas à Hannah, uma vez que ela estava certa com relação à Maureen e eu praticamente disse que ela estava maluca por pensar numa coisa daquelas. Então eu escrevi um bilhete meio apressado (minha letra estava mais ilegível que o normal) pedindo desculpas por não ter dado crédito ao que ela havia me confidenciado e dizendo que esperava que ela não tivesse me desconsiderado como amigo dela para o resto da vida. E, por último, eu disse que se ela quisesse dar um jeito na Maureen, estava oficialmente dentro da missão. Saí do chalé no meio da noite, tomando cuidado para não ser pego pelas Harpias da limpeza, e enfiei o bilhete por baixo da porta do chalé de Hera. Hoje de manhã, antes de Eve aparecer, Hannah, Tobey e seus amigos chegaram à mesa deles. Enquanto Tobey estava distraído conversando, ela me lançou um enorme sorriso. E não foi o único. Sempre que ninguém estava dando atenção a ela, ela sorria para mim.

Eve lançou um olhar ininteligível para Hannah e fez isso no momento em que ela me lançava mais um daqueles sorrisos de parar o coração. Eve revirou os olhos.

- Não. Eu realmente não quero saber qual é a razão disso. – ela falou. – Se o oráculo disse que você escreverá certo por linhas tortas, eu acredito.

Então finalmente eu tive um pouco de silêncio naquela manhã.

Depois que terminei de comer, fui falar com Hector. Ele estava ajudando alguns campistas mais novos com as espadas na arena. Como Eve disse, eu havia me tornado muito popular da noite para o dia. Por onde eu passava, as pessoas olhavam feito loucas e começavam a treinar e exibir suas habilidades. O que era um problema, porque era aí que eu me dava conta de que havia sim muitas opções excelentes para escolher para a missão. Tentei não dar atenção àqueles olhares e me dirigi a Hector. Fui direto ao assunto. Simplesmente falei que, depois de pensar bastante e chegar àquela teoria que contei a Eve, eu resolvi que ele devia participar. Ele pareceu surpreso, mas não muito.

- Tem certeza disso? – Hector me perguntou.

- É claro. Você não acha que aquela linha da profecia fala de você? Não consigo pensar em mais ninguém que combine com a descrição.

- Pra falar a verdade, nem eu. – ele confessou.

- Além disso, você já participou de várias missões antes, tem muita experiência. E Quíron confia em você. Precisa de mais algum motivo?

- Não. Eu topo, Nico. Obrigado.

Aquilo me deixou aliviado. Tive medo de que ele recusasse, já que tinha muitas responsabilidades como assistente de Quíron no acampamento. Seria bom ter Hector por perto, mesmo que nós não fôssemos amigos exatamente. Quero dizer, não que eu tivesse algo contra ele. Nós só não havíamos tido a oportunidade de conversar direito antes. Mas ele parecia ser um cara legal.

Acabei esbarrando com Hannah enquanto andava pelo acampamento tentando escolher mais duas pessoas para a missão. Ela estava com Allan, seu melhor amigo, mas pediu que ele nos deixasse conversar a sós.

- Bom. – eu comecei. – Pela sua cara, dá pra ver que você leu o meu bilhete.

- Pois é. – ela disse, mais uma vez com aquele sorriso lindo. – Eu estou muito feliz por você ter me convidado. Nunca participei de nenhuma missão desde que cheguei aqui. Acontece, Nico, que eu acho que vou ter que recusar.

- O quê?! – eu fiquei pasmo.

- Isso mesmo... – ela parecia sentir muito por aquilo.

- Eu não entendo...

- É que eu não queria que você se sentisse obrigado a me convidar só porque não acreditou em mim quando falei da Maureen. Eu não devia ter ficado chateada com você. Era pedir demais esperar que você acreditasse numa coisa assim.

- Eu não te convidei por causa disso. Eu te convidei porque achei que você merecia saber o motivo de ela ter armado uma emboscada para você. Sem falar das suas habilidades. Eu iria te escolher de qualquer jeito.

Tive a impressão de que Hannah corou um pouco. Mas acho que foi só impressão.

- Acho que Tobey não vai me deixar ir.

- E por que não? Ele já não esteve numa missão sem você?

- Sim, mas acho que para ele não é a mesma coisa. Você sabe: ele morre de ciúmes.

- Ele vai ter que aceitar. É uma missão, não uma ida ao shopping. Não dá pra chamar só os seus melhores amigos para irem junto.

- Boa sorte quando for explicar isso a ele. Você já escolheu mais alguém?

- Já. O Hector, de Apolo.

- Legal! Hector é incrível. Você não podia ter feito escolha melhor.

- Espero que você esteja certa. Falando nisso, você não teria ninguém para me sugerir?

- Não sei... – ela ficou pensativa. – Que tal alguém de Ares ou de Atena? Fortes e sábios trabalhando juntos.

- Vou pensar nisso. E você? Vai aceitar minha proposta ou não?

- Sei lá, Nico.

- Você sabe que quer...

Ela deu risada.

- Tá bom. Eu digo que sim. Mas não garanto nada com relação ao Tobey.

- Eu me resolvo com ele.

- Se você está dizendo... Até mais tarde. – ela saiu sorridente, procurando por Allan.

Quíron me liberou das atividades naquele dia para que eu pudesse avaliar bem quem eu escolheria. Comecei seguindo a sugestão de Hannah e procurei o pessoal de Ares para observar. E o negócio é que eles exageraram a beça na exibição. Eu me senti obrigado a interferir quando eles arrastaram um garoto de Hermes de apenas nove anos para o meio da batalha e o cercaram. Aquilo foi terrível. Eles protestaram quando eu declarei que ninguém de Ares participaria da missão por causa daquilo e disseram que aquele era o tipo de coisa que era preciso fazer em uma missão. O pessoal de Atena também se mostrou uma decepção. Não é como se eles fossem ruins nem nada assim, o problema é que todos eles pareciam muito sensíveis depois da traição de Maureen e do desaparecimento de Daniel. Eu não os culpava. Deve ser uma barra ter um irmão traidor.

Dei mais algumas voltas pelo acampamento. Fiquei impressionado com o chalé de Hermes e também o de Hécate. Barbara Keating, de Hécate, me pareceu uma excelente opção. Não disse nada a ela, mas se não encontrasse mais ninguém ela seria a escolhida. Mais tarde, ainda considerei um garoto de Nêmesis. Um pouco antes do jantar, eu já tinha em mente umas quinze pessoas. Isso e o fato de que Eve me perguntava a cada meia hora se eu já havia escolhido mais alguém fizeram com que minha cabeça estivesse a ponto de explodir àquela altura. Eu devia mesmo estar com uma cara de quem não fazia a menor idéia de quem escolheria, porque as pessoas ficaram me olhando com desgosto durante todo o jantar. Acho que tinham perguntado uns aos outros se sabiam de alguém que havia sido escolhido e como todos responderam que não, eles concluíram que eu ainda não sabia.

Aquilo não podia ser tão difícil. Eu havia escolhido alguém além de Hannah, certo? Eu escolhi Hector não porque ele era meu amigo nem nada, mas por causa de suas habilidades. Logo, eu devia ser capaz de escolher mais duas pessoas da mesma maneira. Eu sentia que estava indo de acordo com a profecia quando escolhi Hannah e Hector. Mas eu não sentia aquela confiança com mais ninguém. Tive vontade de contar aquilo a Quíron, mas não queria que ele pensasse que eu não sabia o que fazer, mesmo sendo verdade. Sem falar que demonstrar insegurança daria mais munição ao Tobey e ele com certeza não deixaria Hannah vir comigo.

Estremeci quando Quíron tocou no meu ombro e disse:

- Está na hora, Nico.

Eu assenti.

- Vamos nos reunir da Arena.

- Certo. – eu disse.

Vi os campistas se levantando aos poucos. Eve, que estava ao meu lado, cochichou:

- Nico, diga que você pensou em mais alguém. Se você chegar lá e disser que não sabe, eles vão te matar. Sabe disso, não sabe?

- Muito obrigado, Eve. É sempre muito bom contar com as suas palavras de incentivo. – eu fui sarcástico.

- Tive uma idéia.

- Qual? – eu me empolguei.

- Me escolhe.

- Ficou louca? Eu não vou escolher você.

- Por que não?!

- Porque você só tem treze anos e essa não é uma missão simples. Tenho que levar gente com mais experiência, vai ser muito perigoso.

- Sou uma das melhores lutadoras do acampamento e você sabe disso! – ela reclamou.

- Mesmo que eu quisesse te levar, Quíron provavelmente não concordaria.

- Até parece! Aquele garoto, o Percy Jackson, só tinha doze anos quando enfrentou Cronos.

- Isso não é verdade. A primeira missão dele foi aos doze anos, mas naquela época ninguém sabia que Cronos estava envolvido. Ele só enfrentou Cronos de verdade quando tinha quase a minha idade.

- E você? Você estava lutando em Nova York e só tinha doze anos!

- É diferente.

- Por que é diferente?

- Porque eu tenho habilidades que você não tem.

- Ah, claro. Eu não controlo os mortos nem faço buracos no chão, mas o Percy Jackson também não.

- Ele fazia outras coisas. Percy respirava embaixo d'água.

- Hector não tem habilidades especiais e você o chamou mesmo assim!

- Ele tem 18 anos!

- Idade é só um número! – ela gritou.

Olhei em volta para ver na frente de quem eu estava passando vergonha e percebi que todos já haviam ido embora.

- Droga, Eve! Já estão todos lá. – eu me levantei e a puxei pelo braço. Ela continuava querendo brigar comigo, mas eu não dava a menor atenção.

Chegamos à arena, com todos me esperando impacientes. Passei pelo Sr. D, que disse numa voz enjoada:

- Muito especial para chegar na hora, não é mesmo, Di Angelo?

Eu ignorei e fui me desculpar com Quíron. Antes que eu dissesse alguma coisa, ele foi logo falando:

- Você está pronto, Nico?

- Acho que sim.

- Ótimo. Estão todos ansiosos. Tenho certeza de que você fez boas escolhas.

Eu tentei sorrir, mas acho que não consegui. Me dirigi ao centro da Arena e disse:

- Então...Eu mal dormi na noite passada só tentando tirar alguma dica da profecia. Demorou um pouco, mas eu acabei descobrindo o primeiro meio-sangue: Hector Madison! – houve uma salva de palmas quando eu anunciei. Fiquei feliz por a minha escolha ter agradado a maioria. Ainda bem que nem todos pensam como Eve. Hector veio e ficou ao meu lado. – A minha segunda escolha não foi devido a nada que eu tenha encontrado na profecia, mas sim porque essa pessoa quase foi vítima de Maureen e eu acho que ela tem o direito de descobrir a razão disso. É Hannah Pope! – mais aplausos. Respirei aliviado. Parecia que ninguém desconfiava que aquela era uma decisão emocional. Tobey Grant, por outro lado, ficou em estado de choque quando Hannah veio se juntar a mim. Eu não fazia idéia se eles haviam conversado sobre aquilo ou não.

Olhei para trás e vi Quíron sorrindo satisfeito. Fiquei contente que ele também aprovasse minhas escolhas. Lamentei que ele não fosse mais ficar satisfeito quando eu dissesse que não fazia idéia de quem seriam os outros meio-sangues.

- Quanto aos outros dois escolhidos... – eu continuei. – Eu...sinto muito, mas...eu não sei quem são. – A arena caiu em um silêncio mortal. Todos me encaravam incrédulos.

- O que ficou fazendo o dia todo, então?! – gritaram lá da plateia.

- Eu observei! Passei o dia inteiro fazendo isso! Acontece que...Vejam: quando escolhi Hector e Hannah algo me dizia que era a coisa certa. Eu estava esperando sentir a mesma coisa quando encontrasse a pessoa certa, mas eu não senti. E eu realmente não me sinto seguro para escolher alguém sem ter essa certeza.

Algumas pessoas pareceram achar aquela idéia válida. Já outras, estavam revoltadas comigo. Quíron veio até onde eu estava e tentou acalmar os ânimos ali:

- Pessoal! Pessoal, por favor! Vamos ouvir o que Nico tem a dizer! – mas o barulho ficava cada vez mais incontrolável.

Quíron perguntou só para mim:

- Tem certeza que mais ninguém atraiu sua atenção, Nico? Você observou bem todos os chalés? Talvez não seja assim que funcione. Acho que você não precisa ter certeza absoluta de que é a pessoa certa. Apenas escolha alguém que você ache que vai contribuir para a missão. Vamos lá, qualquer um. – ele praticamente implorou.

Antes que eu tentasse retomar a palavra, alguém gritou:

- Silêncio!

Procurei pela arena e vi que Tobey Grant havia saído de seu lugar e estava vindo na minha direção. Meus deuses!

- Quíron. Já que o Di Angelo não teve a capacidade de escolher os outros meio-sangues, acho que você deve decidir de agora em diante. – ele disse, todo importante.

- Não cabe a mim decidir essas coisas, Tobey.

- E você, Sr. D? – Tobey esqueceu Quíron. – Não pode indicar alguém?

- Isso é trabalho para o Di Angelo. Está escrito na profecia. Ele é que tem que se virar para escolher algum de vocês.

Tobey ficou irritado e finalmente falou comigo:

- Quais foram exatamente os critérios que você utilizou para escolher eles dois? – apontou para Hector e Hannah.

- Eu já disse. A quinta linha da profecia "O grande líder os iluminará nos momentos de escuridão" tem tudo a ver com o Hector por ele ser filho do deus da luz e ser líder dos líderes dos chalés. Quanto a Hannah, eu acho que é importante que ela entenda as razões que levaram Maureen a atacá-la.

- E você já parou para pensar que é muito mais seguro para Hannah ficar no acampamento?

- Claro que sim. Mas essa é uma decisão dela. Ela pode recusar o meu convite se quiser.

- E então? – Tobey perguntou a ela.

- É claro que eu vou. – Hannah respondeu, confiante.

- Então eu vou junto. – ele disse.

- O quê?! – eu mal podia acreditar no que tinha ouvido. – Você não pode se convidar para uma missão desse jeito!

- Você não sabe quem convidar mesmo. Tem duas vagas sobrando, certo?

- Sim, mas você não vai!

- Vou se eu quiser!

- Ei, parem! – Hector interveio. Tobey olhou com raiva para ele. – Nico, vem aqui. – ele se afastou do grupo e eu o segui.

- O que foi? – eu perguntei.

- Olha só, acho que já que você não tem mais ninguém em mente, devia aceitar o Grant.

- Como é?! – eu esperava ouvir qualquer coisa, menos aquilo. – Ele é o maior idiota! E você sabe disso!

- Eu sei. Mas ele pode ajudar bastante. Mesmo que não dê pra suportar a estupidez desse cara, não dá pra negar que ele é muito poderoso.

Pensei por um momento. Eu odiava admitir, mas Hector tinha razão. Tobey era excelente em todas as atividades do acampamento. E ele já havia recebido uma Dádiva, o que significava que ele sabia mais desse assunto que o restante de nós. Só de pensar em aturá-lo por sei lá quanto tempo, me dava um desespero. Mas tê-lo ao nosso lado nos ajudaria a pegar Maureen.

- Acho que eu não tenho escolha. – eu disse a Hector.

- Acredito que vai fazer diferença no final. Deve ser a coisa certa.

Eu e Hector voltamos até onde os outros estavam e eu disse:

- Você está dentro, Grant. Se ainda quiser. – não consegui demonstrar uma gota de alegria, mas não importava.

- Beleza! – Tobey ficou satisfeito e ficou ali ao nosso lado. – Eu escolho o René para vir também.

- Ei, espere aí! O que você pensa que está fazendo? – eu perguntei.

- Escolhendo mais alguém, é claro.

- Você não pode!

- Cara, ou você escolhe alguém agora ou eu escolho. Não podemos esperar mais um dia.

- Escolhe! – Hector cochichou para mim.

Escolhi a primeira pessoa que me veio à cabeça:

- Tudo bem. Escolho Eve, de Deméter!

Eve ficou paralisada quando ouviu seu nome. Antes ela estava toda insatisfeita ali na platéia e depois ela mal podia acreditar que eu a havia chamado. Foi preciso que seus amigos a empurrassem para a frente. Ela veio até mim com um sorriso de orelha a orelha. Pulou no meu pescoço e me deu um abraço que quase me sufocou. Depois virou para Quíron e ficou falando:

- Minha primeira missão, Quíron! Dá pra acreditar nisso? Eu vou numa missão!

Eu me sentia péssimo. Ela era muito nova para aquilo. Não devia ter dito o nome dela. Devia ter chamado Barbara ou Arnold. Qualquer pessoa! Mas agora que estava tudo dito e feito... Só me restava aceitar Eve e Tobey no grupo.

- Esses são os cinco meio-sangues! – Quíron, que parecia aliviado, anunciou para a platéia. – Partirão assim que possível. Vamos desejar boa sorte a eles!

A maioria nos aplaudiu. Outros ficaram chateados por não terem sido escolhidos. Todos se retiraram para dormir logo. Caminhei até o meu chalé morrendo de cansaço. Estava feliz por aquilo ter terminado. O mais curioso é que eu estava começando a me sentir seguro com relação a Tobey e Eve no grupo, apesar de eles não terem sido exatamente escolhidos da maneira correta. Mas quem sabe aquelas não eram as "linhas tortas" da profecia? Achei melhor não pensar mais naquilo, pelo menos até amanhecer. Naquele momento, o que eu mais queria era dormir.

Eve não acreditou em mim quando eu disse que seja lá quem fizesse parte da missão não ia me deixar liderar coisa nenhuma. Eu estava certo no final das contas. Não foi por preguiça, eu estava morto de cansaço mesmo, por isso me acordei muito tarde no dia depois da escolha da equipe. Meu café-da-manhã foi quase o almoço. Por causa da hora, não havia ninguém além de mim no refeitório. O que eu não imaginava era que todos os membros da equipe eram tão responsáveis e empenhados. Isso mesmo. Quíron estava passando por ali por acaso e veio me perguntar todo surpreso por que eu ainda não havia me juntado aos outros.

- Que outros? – eu perguntei.

- Os outros meio-sangues da missão!

- Ah... E onde eles estão?

- Na casa grande! – ele falava como se eu estivesse perguntando coisas óbvias demais. – Se organizando para a missão. Por que ainda está parado aí? Vá logo!

Fui obrigado a abandonar minha comida pela metade e correr para a casa grande. Eu avistei Hector, Hannah, Tobey e Eve sentados no chão da varanda debruçados sob um monte de papéis. Mal terminei de subir as escadas e Eve já foi gritando:

- Onde você estava?!

- Bom...Tomando café. O que vocês fazem aqui tão cedo?

- Cedo? São onze da manhã! – Tobey respondeu. – Era de se esperar um pouco mais de responsabilidade da sua parte, sabia?

- Ninguém me avisou que haveria uma reunião agora de manhã.

- Não é nossa culpa se você dorme demais. Você saberia da reunião se tivesse tomado café junto com todo mundo hoje de manhã.

- Sinto muito se eu passei os últimos dois dias preocupado demais com o que aconteceu sexta a noite. E ainda tive que quebrar a cabeça para escolher vocês. Alguns de vocês, pelo menos. – lancei um olhar de desprezo para Tobey. Ele devolveu o olhar.

- Tá, Nico. Já entendemos. – disse Hector. Ele parecia meio estressado. – Agora que você finalmente está aqui, será que dá para tentar ficar a par da situação?

Eu me sentei no chão com eles.

- Nico está exausto, Hector, você não vê? Ele é muito delicado para essas tarefas. – Tobey me provocou. Ninguém achou graça.

- Ótimo. Como vocês dois esperam passar sabe-se lá quanto tempo trabalhando juntos numa missão se não conseguem ficar um minuto sem se provocarem? – Hector olhou aborrecido para mim e para Tobey.

- Hã...Antes de você chegar, Nico... – Hannah meio que quebrou aquele clima tenso na varanda naquele instante. - ...nós estávamos justamente tentando descobrir para onde Maureen foi. Procuramos algum tipo de padrão no livro que Daniel deixou, mas não tem nenhuma conexão entre Tobey e Julia Hawkins. Nós esperávamos descobrir qual a próxima Dádiva que ela tentaria roubar. Uma boa pista seria saber exatamente o que ela pretende com isso, mas não fazemos a menor idéia.

- Mas nós temos que começar de algum lugar, não podemos só ficar parados aqui no acampamento. – disse Hector. – Então nós temos duas opções: a primeira seria ir até a família da Maureen, mesmo que a possibilidade de eles não saberem de nada seja muito grande; e a segunda seria ir atrás de alguma possível próxima vítima da Maureen.

Todos ficaram olhando para mim esperando por uma resposta e eu disse, depois de pensar um pouco:

- São duas opções um tanto... Não sei. É como dar um tiro no escuro.

- Exatamente. – disse Hector.

- Vocês fizeram uma votação ou algo assim?

- Deu empate. Seu voto é que vai decidir.

- Muito bem... Quem é a favor de ir até a casa da Maureen? – Hector e Tobey levantaram as mãos. – E quem prefere procurar uma vítima provável? – Hannah e Eve levantaram as mãos. – Então eu acho que fico com a... – pensei. – segunda opção.

- Mas... – Tobey começou a protestar.

- Votação. – lembrou Hector.

- Como vamos escolher alguém nesse livro? Tem milhares de pessoas aí! – disse Hannah.

- Tem que ser alguém que esteve no acampamento recentemente. Alguém que Maureen conheça. Ela conhecia Tobey e Julia, certo? – Hector sugeriu.

- Faz sentido. Vamos fazer uma lista. – ela pegou papel e caneta. – Você está aqui há mais tempo, Hector. Veja se reconhece alguém das últimas páginas.

Ficamos horas só tentando lembrar de alguém conhecido. Mesmo só olhando as últimas páginas (as Dádivas mais recentes), havia meio-sangues de outros países também. Conseguimos cinco pessoas quando já passavam das três da tarde.

· John Nelson: filho de Atena, Jacksonville, Flórida

· Raphael Young: filho de Ares, Miami, Flórida

· Karen Leroy: filha de Hécate, Boise, Idaho

· Owen King: filho de Morfeu, Des Moines, Iowa

· Annabeth Chase: filha de Atena, Cidade de Nova York, Nova York

Decidimos que iríamos primeiro para Nova York, depois Des Moines, Boise, e então Flórida. Seria bom rever Annabeth e também Percy. Eles com certeza nos ajudariam. Com sorte, Annabeth já teria dado uma surra em Maureen antes mesmo de chegarmos lá.

- Olha só... Isso não está parecendo um plano meia –boca? – Hector interrompeu meus devaneios a respeito de uma vitória antecipada. – Quero dizer, nós vamos atrás desses meio-sangues e vamos esperar Maureen aparecer para pegar as Dádivas deles? Isso pode demorar um tempão! Ou ela pode nem aparecer! Vocês pensaram nisso?

Nosso silêncio nos entregou.

- Viram? Acho que devíamos começar pela família da Maureen. Alguma coisa nós vamos descobrir, eu tenho certeza. – disse Hector.

- Mas e se Maureen pegar mais uma Dádiva poderosa? Ela já fez muito estrago só com a flauta de Julia Hawkins. Não podemos permitir que ela fique mais forte. – Hannah falou.

- Apoiada. – eu disse.

Se olhar matasse, juro que eu teria caído morto naquele instante depois do jeito que Eve olhou para mim.

- Achei que já tivéssemos resolvido esse ponto. – Tobey reclamou.

- Já resolvemos. Mas, e agora? Qual o próximo passo? – eu quis saber.

- Nada. Vamos manter Quíron informado e arrumar nossa bagagem. – disse Hector. – Partimos amanhã, então?

Todos nós concordamos. Tobey, Eve e Hannah saíram e ficamos só eu e Hector limpando a bagunça na varanda. Eu não queria fazer aquela pergunta a ele, porque ele com certeza pensaria que eu estava inseguro. E Hector estava sendo muito legal por não ficar dando uma de líder da missão. Era bacana da parte dele se importar com a minha opinião. Mas eu precisava saber o que ele pensava de verdade, porque ele me pareceu contrariado demais durante toda a reunião.

- Hector? – eu chamei.

- O quê? – ele não olhou para mim.

- Só queria saber se você acha que estamos indo pelo caminho certo. Sei lá. Parece que você só está concordando para que a gente não fique brigando.

Ele me encarou, surpreso.

- Não é nada disso. Estamos indo bem. Não fique preocupado com isso agora. É só o começo, sabe? Equipe estranha, situação estranha... A gente sempre fica inseguro. – dava para perceber que ele não estava sendo muito sincero. Mesmo assim, eu deixei pra lá e continuei tirando aquele monte de papel do chão.

Mais tarde, eu fui arrumar minha mochila no meu chalé. Eu mencionei que, do mesmo jeito que Eve não fazia cerimônia para se sentar a mesa de Hades no refeitório, ela também entrava no meu chalé sem bater na porta na hora que bem entendia? Pois é. E naquele dia, ela tinha muita coisa mesmo para falar.

- Mas você, hein? Você tinha que sair em defesa da sua amada! Pelos deuses, Nico! Vai acabar morrendo nessa missão se continuar com a sua mente cheia só de Hannah.

- Ei, isso não é verdade! Eu acho mesmo que não vai adiantar nada falar com a família da Maureen.

- Claro! – Eve estava com o seu nível de sarcasmo no máximo. – Eu não sei como é que vamos agüentar uns aos outros nessa missão!

- É, nem eu. – fui obrigado a concordar com ela.

- Aquele Hector? Que cara mais chato! Quem ele pensa que é? Meu pai? Juro que, se ele ficar me tratando como se eu tivesse cinco anos, eu vou quebrar a carinha bonita dele!

- Carinha bonita, é? Não sabia que você tinha uma queda por ele. – eu ri.

- Eu não...! – Eve ficou furiosa. – Eu não tenho uma queda por ele! Todas as meninas do acampamento o acham bonito. E eu também acho, claro, mas ele é muito irritante!

- Sei. – fingi ter engolido aquela.

- Estou falando sério! Mas, voltando ao assunto, você e o Tobey não podem conviver em paz, de verdade. Como é que vai ser durante a missão? Vai que durante uma batalha vocês resolvem matar um ao outro ao invés de combater os inimigos?

- Ele devia ter pensado nisso quando se convidou para a equipe. Não vou ficar fingindo que tolero ele.

- Você não devia ter deixado ele entrar.

- Ele não ia deixar Hannah vir se ele não fosse junto.

- Ok. Vamos deixar de lado a parte em que eu digo que Hannah e contribuição zero para a equipe são a mesma coisa. Mas ela bem que poderia simplesmente dizer a ele para deixá-la viver a vida dela. Hannah é a pessoa mais passiva que eu já conheci. Todo mundo vai lá e faz o que quer com ela. E ela não faz absolutamente nada!

- Você conhece um pouco de Tobey. Ele não deve ser fácil.

- Mesmo assim. Não acha que o excesso de relações não – harmoniosas entre nós vai atrapalhar?

- Eu não sei. Quando você saiu da varanda mais cedo, eu perguntei ao Hector se ele achava que estávamos indo bem. Ele disse que sim, mas dava para ver que ele estava mentindo. Acho que ele não confia em nós, mas ao mesmo tempo não quer deixar de lado uma tarefa tão importante. Você devia dar mais crédito a ele, sabe, Eve? Ele deve estar fazendo um esforço considerável para não interferir. Parece que ele prefere que eu lidere. Acho que ele vai só nos supervisionar por enquanto.

- Acho bom. – ela não parecia muito sensibilizada com o que eu havia dito. – Ei! O que é isso? – ela me viu guardando uma coisa na mochila e tomou da minha mão antes que eu dissesse algo. – Essa é a sua...irmã?

Eve havia pego um porta retrato com uma foto minha e da minha irmã , Bianca.

- É. – eu disse.

- Você sempre carrega essa foto com você?

- Sempre.

- Ela parecia ser muito legal. Um pouco séria demais às vezes, mas legal. Como você.

- Você acha?

- Claro. Vocês são irmãos.

A morte de Bianca era algo que eu não tinha superado completamente e provavelmente nunca superaria, mas não era desagradável falar sobre ela com Eve. Aquilo era meio confuso. Eu evitava Quíron quando ele tentava conversar sobre o assunto comigo. Talvez não fosse ruim com Eve porque ela sempre me lembrou um pouco Bianca.

- Você acha que andar com isso por aí é meio mórbido? – eu perguntei a ela.

- Não. Acho que nós nunca devemos deixar de lado as pessoas que amamos. Não importa o que tenha acontecido.

Eve foi embora do meu chalé depois de ter fuçado mais um pouco nas minhas coisas e quase ter arrancado minha mão com a minha própria espada. Achei que não conseguiria dormir naquela noite. Mas eu adormeci relativamente rápido. Preferi não ficar mais pensando tanto no caminho que eu e os outros tomaríamos dali para a frente.