Parte I

Gale

Quando Gale viu Johanna novamente, ela estava mais calma, provavelmente porque estava sendo tratada por medicamentos muito fortes.

Johanna estava deitada na sua cama de hospital, olhando inexpressivamente para o céu. Ela sabia que estavam observando-a pela minúscula câmera no canto do teto e pelo vidro que cobria grande parte da parede à sua frente, embora o fizessem passar por um espelho, como se ela passasse as horas se olhando. Idiotas. Ela sentou-se repentinamente e olhou através do suposto espelho. Exibiu um de seus olhares assassinos. Aquele era um dos seus novos passatempos favoritos: olhar a quem quer que estivesse do outro lado com ódio, sabendo que, na maioria das vezes, eram indefesos cidadãos do 13.

Gale cruzou os braços sobre o peito e franziu o cenho. Era possível que Johanna soubesse que era ele por trás do vidro ? Plutarch tinha lhe assegurado que os pacientes (por paciente, referia-se a Johanna, Annie e Peeta) não podiam ver de dentro para fora. Não havia como os olhos castanhos dela olharem para ele.

- Gostaria de entrar, soldado Hawthorne ?

Gale virou-se e se deparou com a médica encarregada de Johanna, a Dra. Nette, uma mulher que tinha mostrado paciência com a vencedora e nunca tinha se encolhido sob o olhar dela, que parecia enterrar adagas em todos os habitantes do 13.

- É permitido ? - perguntou Gale, incrédulo.

- Ninguém mais veio. Isso seria bom - com isso, a médica pegou a sua chave e abriu a porta, que estava ao lado do vidro. Gale entrou com cautela.

Johanna ergueu as sobrancelhas ao ver o seu primeiro visitante e sorriu sarcasticamente.

- O que você quer ?

Gale revirou os olhos e perguntou-se se estar ali valia a pena.

- Por acaso não se pode visitar alguém só por querer ? - perguntou ele. Johanna riu como em sua última entrevista com Caesar Flickerman.

- Ninguém vem até mim só por querer, muito menos me visitar. O que você quer ?

Gale pensou em uma desculpa para dizer-lhe porque estava ali, e nada veio-lhe à mente. Ele encolheu os ombros.

- Eu queria saber como você estava.

Johanna riu de novo.

- Claro, e por que você quer saber disso ? - ela inquiriu, e levantou as sobrancelhas. Alguns dos hematomas que ela tinha no rosto tinham melhorado, mas não muito. Ainda havia muitas manchas amareladas que espetavam-lhe o rosto.

- Da última vez que a vi, você queria me arrancar os olhos, não se lembra ?

O sorriso de Johanna desapareceu, e os olhos dela endureceram.

- Não era você, bonitão. Você não é tão importante - Gale engoliu em seco - E, respondendo-lhe, eu estou muito bem. Pode ir agora.

Gale sabia que ela estava mentindo, mas não disse nada e saiu pela porta.

Johanna

Johanna sentiu-se incrivelmente só assim que Gale saiu pela porta. Ela nunca sentia-se sozinha, nem mesmo no seu período na Capital. Mesmo que ela falasse em tom de zombaria, havia um certo consolo nos gritos dos outros vencedores. Pelo menos deixavam-na saber que ela não fora a única a sofrer nas celas.

Agora não tinha nada. Não que antes tivesse muito. Não desde os seus Jogos, mas jamais tinha sentido aquela sensação tão grande de vazio. Um buraco queimava-lhe o peito, estendendo-se até às pontas dos seus dedos. Doía de uma maneira que ela considerava insuportável.

Ela sacudiu a cabeça e passou a mão onde costumavam estar os seus cabelos castanhos; agora não tinha nada, nem mesmo a vaga penugem que lhe indicasse que a sua cabeleira estivesse crescendo de novo. Ela abraçou as pernas contra o peito e enterrou o rosto entre os joelhos ossudos para sentir-se um pouco mais completa. Não adiantou muito.

"Você não pode chorar, Johanna. Não faça isso. Não deixe que eles a vejam chorar".

Suas próprias ordens rondavam-lhe a cabeça, fazendo com que impedisse as lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos. Ela era Johanna. A única vez que a Capital a vira chorar tinha sido durante a sua própria Colheita, quando ela já planejava uma estratégia para sair com vida da arena. Mas ela não estava mais na Capital.

E permitiu-se chorar.

Gale

Não, ela não fazia a menor idéia de que ele a estava vendo.

Gale não conseguiu se afastar totalmente quando saiu pela porta do quarto de Johanna. Virou-se e olhou pelo vidro.

Novamente, viu a Johanna que perdeu a sanidade no aerodeslizador. A Gale, causava um certo desconforto vê-la assim. Não, não era desconforto. Era uma espécie de impotência. Ele sabia que podia salvá-la e ajudá-la, como Katniss planejava fazer com Peeta. Encolheu-se ao pensar neles. Mas não havia tempo para pensar neles. Precisava concentrar-se em Johanna.

Ele não sabia a razão do seu súbito interesse na vencedora, mas sabia que sempre que pudesse ajudar alguém que precisasse e que merecesse, Gale o faria sem pensar duas vezes; estava em sua natureza obstinada.

Ele já tinha perdido a motivação para voltar ao 13 desde que resgataram Peeta. Planejava aceitar qualquer missão que Coin designasse para ele, longe do subterrâneo. Havia perdido suas esperanças, seus propósitos, suas motivações. No entanto, tinha encontrado uma pela qual voltar.

Johanna.

Johanna

- Johanna, precisamos conversar sobre a sua terapia - disse a Dra. Nette, na manhã em que Katniss e Peeta partiram para o 2.

- Eu não preciso de terapia.

- Você precisa.

- Isso é uma porcaria.

A médica sacudiu a cabeça e teve uma idéia.

- Vamos começar por aí - disse ela, chamando a atenção da vencedora, que jazia inexpressiva na sua cama - É bom para você falar francamente; continue assim. Não se contenha quando falar com alguém.

- Quando foi que eu fiz isso ? - ela murmurou, com um sorriso. A médica sorriu ligeiramente.

- Você tem razão - ela fez uma pausa - Acho que vamos cortar-lhe o suprimento de morfina.

Johanna virou-se para ela, o fulgor brilhando em seus olhos.

- Você não pode fazer isso.

- Sim, eu posso, e é o que vou fazer. Não gosto de tê-la drogada. Nesse ritmo, você vai se tornar uma viciada, e eu não vou permitir isso. Amanhã continuaremos com a terapia, e lembre-se de que você está a salvo, Johanna - terminou a médica, e levantou-se para sair pela porta.

Johanna atirou-lhe o copo com água que não conseguira terminar à tarde, depois que a mulher saiu pela porta.

Ela não precisava de terapia. Estava bem. Seu cérebro estava bem. Não tinham-no machucado como fizeram com Peeta.

A vencedora enganou a si mesma novamente.

Ela estava bem.


Quando Johanna saiu do seu quarto pela primeira vez, não foi muito longe, mas sim ao quarto adjacente, onde estava o seu velho companheiro de torturas, Peeta Mellark.

Ela lembrava da última noite em que o tinha visto, a noite em que foram resgatados. Ele tinha enlouquecido e ela não o culpava, pois ela mesma perdera a sanidade depois de chegar ao aerodeslizador, onde Gale achou que estava sendo atacado. Idiota.

Peeta não demonstrou emoção alguma quando Johanna entrou no quarto dele. Ela olhou para a parede esquerda e viu o mesmo vidro do seu quarto e a mesma câmera a um canto. Ela apertou os punhos e enterrou as unhas nas palmas das mãos, furiosa. Passou um instante e se acalmou, embora algo ainda lhe queimasse como fogo no fundo do estômago. Decidiu concentrar-se no loiro na cama, que olhava-a com uma vaga curiosidade.

- Você parece melhor do que antes - disse ela, numa tentativa de ser amável.

Era verdade. Os hematomas do rosto haviam mudado para um tom amarelado e os seus cabelos loiros tinham recuperado um pouco do brilho que o caracterizava antes. No entanto, os olhos dele eram outra história. Ainda estavam atormentados, o olhar dele denunciava que ele não estava ali, e sim em um lugar mais distante, em uma das alucinações. O rosto dele era um reflexo do dela.

- Você não está tão mal - respondeu Peeta, indiferente.

Eles sentaram-se em silêncio, até que a porta abriu-se novamente e apareceu Prim, vestida com o seu uniforme de enfermeira com um carrinho que tinha as insípidas rações de comida que davam no hospital. A jovem sorriu amavelmente para Joanna enquanto punha a bandeja sobre Peeta.

- Prim - cumprimentou Johanna gentilmente. Odiava admitir, ela própria tinha uma fraqueza pela garota.

- Olá, Johanna, como está indo com a terapia ?

Johanna encolheu os ombros e tentou sorrir.

- Estou bem - foi tudo o que ela disse. Prim não acreditou nela, nem Peeta, mas não disseram nada. Prim saiu assim que deixou a comida no colo de Peeta - Ela lhe visita com freqüência ?

Não tanto quanto eu gostaria. Quanto mais estiver afastada da irmã, melhor. Não está segura com ela.

Johanna ficou inexpressiva. Não encontrava as palavras mais adequadas para ajudar ao seu companheiro. No momento, ele estava seguro; com Katniss e Gale no 2, não havia risco de um ataque, segundo os médicos. Algo se retorceu dentro da mulher ao pensar em Gale.

Naquela noite, Johanna ficou ao lado de Peeta, sem conversar. A diminuta TV do canto foi ligada repentinamente e começou a transmitir uma gravação ao vivo de Katniss, que estava ao lado de um jovem de joelhos, e apontava-lhe uma pistola. Peeta ficou tenso, apertou os dentes e os punhos.

- Por favor, unam-se a nós ! - implorou o Tordo, na tela.

Não demorou muito antes que o jovem atirasse e Katniss caísse no chão. Johanna levantou-se rapidamente, por instinto, esperando um ataque emocional por parte de Peeta. Mas ele permaneceu quieto, com o olhar perdido, submerso em alguma lembrança.

Johanna não podia fazer nada além de olhar para ele.


Ela ficou ali, deitada na sua cama do hospital com a bata e os curativos, olhando-a com os seus olhos cinzentos. Katniss abriu a boca:

- Estou viva.

Johanna lutou contra o impulso de revirar os olhos, ao invés disso, ela disse:

- Não me diga, descerebrada.

A mulher aproximou-se e deixou-se cair na cama de Katniss, fazendo com que ela esboçasse uma careta de dor. Johanna sorriu, sarcástica:

- Ainda machucada ?

Com a mão, ela tirou a agulha da morfina do braço do Tordo e enfiou-a no seu.

- Me cortaram o suprimento há alguns dias - ela explicou - Eles têm medo de que eu me torne uma viciada. Tive que pegar o seu emprestado, em segredo. Imaginei que você não iria se importar - ela não pôde evitar um suspiro de alívio quando sentiu a morfina nas suas veias.

Ambas estavam ali, Johanna desabafando sobre a sua médica, sobre a morfina e sobre a atenção de Katniss por parte de todos.

- Minha médica disse-me para que eu não me reprimisse ao falar - ela explicou a Katniss. Elas ficaram em silêncio por um instante. E então Gale apareceu na porta.

Johanna e ele trocaram um olhar; provavelmente não durou mais do que alguns segundos, mas ela sentiu como se tivesse sido uma eternidade. Mergulhou no cinza dos olhos dele, que fazia-a se lembrar das tempestades que rondavam constantemente o seu distrito. Havia algo reconfortante neles, mas ao mesmo tempo era algo que percorria-lhe a coluna com um calafrio.

Johanna sorriu irônica e tirou a morfina do braço.

- Seu primo tem medo de mim - ela disse a Katniss, com um sorriso travesso, em um tom confidencial, e foi até a porta. Golpeou a perna de Gale com o seu quadril ossudo - Não é mesmo, bonitão ?

- Aterrorizado - foi a única coisa que ela ouviu dele.

E não pôde deixar de rir.


- Agora, o que diabos você quer ?

Gale entrara no seu quarto, interrompendo a sua hora habitual de pensamentos negativos. Queria socá-lo, mas queria que ele ficasse. Era exasperante o que ele provocava em Johanna, era uma onda de sentimentos contraditórios: ela não queria que ele sentisse pena, mas também queria estar nos braços dele.

Gale deu de ombros, foi até ela e aproximou uma cadeira velha para sentar-se ao lado da cama dela.

- Se você quer que eu vá embora, é só falar - respondeu ele, o que fez com que Johanna ficasse vermelha. Ela gostava da presença dele, porém jamais iria admitir isso.

- Eu estou bem, Hawthorne. Consegui tomar banho há algumas horas. Me tiraram a morfina, mas roubei-a de Katniss, por isso estou bem.

- Johanna, você repetiu duas vezes que está bem -observou ele, com um sorriso triste.

A vencedora apertou os punhos com raiva, vergonha e para conter as suas lágrimas.

- O que você quer, Gale ? Por que você não está com a sua preciosa Katniss ? Por que continua aqui ? Não preciso da sua piedade nem de nada de você.

Gale não disse nada e permaneceu inexpressivo. O que Johanna daria para saber o que se passava pela cabeça dele naquele momento. Quando ele falou, o fez em tom de calma, que ela precisava ouvir:

- Eu não tenho pena de você, Johanna, nunca tive. Eu também odeio. É que eu quero fazer alguma coisa por você, porque sei que você não está totalmente perdida, porque você é forte - Gale esboçou a sombra de um sorriso - , e porque eu gosto de pessoas como você, e acho que devemos conservar pessoas assim.

Johanna não disse nada por alguns instantes. Queria beijá-lo, mas queria socá-lo. Fazia sentido ? Não, claro que não. Ela queria ruborizar-se pelas suas palavras, mas ao mesmo tempo não queria sentir nada.

No fim, o seu lado gentil venceu, ela inclinou-se até Gale e o beijou.

Foi apenas um roçar dos lábios dela contra o canto dos lábios de Gale. Ela pôde sentir-lhe a barba incipiente, a pele áspera, que, ao mesmo tempo, parecia ser a mais macia do mundo.

Gale

Gale não se moveu. Estava tão surpreso quanto ela. E, no último instante, virou a cabeça e capturou os lábios de Johanna com os seus. Tinham gosto de metal, de pinos e de fogo. O beijo não durou mais do que um suspiro e logo ambos se separaram, cada um com uma faísca maliciosa brilhando nos olhos.

- Cuide-se na Capital, Hawthorne - murmurou Johanna, sorrindo ligeiramente.

- Vou me cuidar. E você, cuide-se aqui embaixo, Mason.

- Vejo você em breve ? - perguntou ela, tentando esconder a sombra de esperança em sua voz.

- Em breve.

E, com essa promessa, ele saiu do quarto.

Johanna

- Você está radiante. Com quem andou dormindo ? - perguntou Finnick à amiga, enquanto via a sua nova esposa conversando animadamente com Effie.

Johanna bufou.

- Você não devia estar comemorando o seu casamento ?

- É o que eu vou fazer esta noite - disse ele, piscando-lhe um olho - Por acaso é o primo de Katniss ?

- Não importa quem seja, Fin, eu tenho que encontrar uma forma de me divertir nesse buraco - ela fez uma pausa e cruzou os braços - Quando você vai à Capital ?

- Dentro de três dias. Plutarch convenceu Coin a dar alguns dias para a nossa lua-de-mel - Finnick olhou-a de relance e sorriu-lhe - Alguém de quem você queira ter notícias ?

Johanna socou-o de modo brincalhão, mas forte o bastante para que ele parasse com os gracejos.

- Mal posso acreditar que você está casado, Fin. Parece que foi ontem que eu te conheci, no meu Tour da Vitória - ela virou-se para o amigo e olhou-o afetuosamente. Ela o queria muito. Ele era mais ou menos como o irmão que ela nunca teve. Finnick sempre tentou protegê-la, embora ela não conseguisse afastá-lo totalmente, mas bem que tentava - Espero que você sempre seja feliz, Finnick, e que quando toda essa porcaria acabar, você me torne a tia Johanna.

Finnick riu e corou levemente. Virou-se para Johanna e envolveu-a em um gentil abraço, tentando não machucá-la. Ficaram assim pelo que pareceram horas, mas nunca o bastante. O tom dele era de tristeza quando falou:

- Prometa-me que vai cuidar de Annie se algo acontecer comigo.

Nesse momento, Johanna sabia que tudo tinha se arruinado, que sempre tinha estado arruinado. Havia pessoas que se importavam, sempre houvera. Finnick, Peeta, Prim... e agora Gale. Ela nunca esteve totalmente só, sempre havia alguém ao seu lado. Enfurecia-a saber que ainda havia maneiras de machucarem-na, mas isso apenas lhe dava mais vontade de continuar em pé.

Ela abraçou Finnick mais forte contra si e assentiu várias vezes.

- Sempre.


N/A: E o mês quase acabou, e graças a todos os céus eu tenho quase toda a fic completa.

Foi muito difícil para mim trabalhar com Johanna. Nunca se sabe o que ela pode fazer ! Mas este é um desafio, eu já o aceitei, então não me resta outra opção senão continuar com isso e esperar muitos bebês Johale *piscadela*. Estamos perto *junta muito os dedos* de ter um final pós-rebelião para este desafio, então oba !

Obrigada àqueles que deixaram reviews, se interessaram deixaram-na nos Follows e nos Favoritos !

Mando-lhes um abraço,

LynnHM.